A viagem para Foz do Iguaçu, cruzando a extensão da BR-277, foi muito mais do que um deslocamento geográfico de nove horas; foi uma travessia psicológica profunda. O asfalto ondulado paranaense e o som constante do vento nas frestas do carro serviam de trilha sonora para uma revolução interna. Enquanto eu revezava o volante com o Caio, meus pensamentos se perdiam na linha do horizonte. Eu não pensava na minha orientação sexual — isso o Caio e a Martina já haviam preenchido com segurança —, mas sim na minha identidade de gênero. Anos atrás, quando eu comecei a pintar o cabelo de rosa e usar maquiagem, a ideia da transexualidade me assustava; parecia um caminho de dor e exclusão. Mas hoje, a Nickole que gritava dentro de mim não pedia permissão; ela pedia vida.
Pelo retrovisor, eu observava Martina dormindo com a cabeça encostada no vidro. Ela usava um vestido azul solto, sem mangas, com um decote discreto que exalava uma feminilidade leve. Martina se tornara meu espelho; observando a doçura dela, eu entendi que ser feminino não era sobre ser frágil, mas sobre ser leve e autêntica. Eu queria aquela fluidez para mim. Ao olhar para o Caio, concentrado na estrada, sentia um conforto absurdo. Saber que ele me amava pelo que eu era, independentemente do rótulo, me dava a segurança necessária para finalmente soltar as amarras do Nicolas. O Nicolas foi um bom escudo, um "Garoto Rosa" corajoso, mas ele era apenas o prefácio do livro que eu estava prestes a escrever.
Nas paradas, o contraste era nítido. Eu usava um conjunto azul-bebê de moletom, com uma regata cavada. Por baixo, a calcinha preta de treino sem costura já era minha regra — cuecas eram relíquias de uma vida descartada. Eu estava maquiada apenas com um gloss, que o Caio teimava em "tirar" com beijos demorados em cada posto, dizendo que eu estava bonita demais para o mundo. Martina, quando acordada, cuidava dos lanchinhos e da nossa trilha sonora, rindo das nossas cantorias desafinadas. Éramos um universo impenetrável dentro daquele carro.
Ao chegarmos na "Pérola do Oeste", o calor úmido de Foz nos abraçou. Minha mãe, uma senhora de cinquenta e poucos anos que parecia uma versão de mim no futuro — cabelos castanhos com mechas brancas naturais e um olhar doce —, nos recebeu com um banquete. Minha irmã não estava; tinha ido viajar com a família da namorada, o que deixou a casa apenas para nós quatro. Mamãe, com sua honestidade cristalina, observava o trisal com curiosidade, mas logo se entrosou com o Caio, discutindo sobre a estrada, e com a Martina, elogiando sua doçura. Dormimos no meu antigo quarto, os três amontoados, nocauteados pelo cansaço.
No dia seguinte, o sol mal tinha subido quando fui para a varanda dos fundos. Vesti um top branco e uma calça de seda sintética negra, bebendo café e olhando o pomar. Mamãe chegou silenciosa e sentou-se ao meu lado. — Nick, eu vejo uma energia diferente em você — ela disse suavemente. As palavras saíram como uma cachoeira. Falei sobre como a Nickole sempre esteve ali, mas que só agora, com o amor da Martina e do Caio, eu me sentia digna de existir como mulher. Falei da transição, do medo e da certeza. Terminei chorando no colo dela, sentindo suas mãos calejadas acariciarem meu cabelo rosa. — Eu sou mulher, mãe. Sempre fui. — Eu sei, minha filha — ela respondeu, e aquele "filha" foi o som mais bonito que já ouvi.
Quando Martina e Caio acordaram e nos viram abraçadas, o susto deu lugar à revelação. Martina me apoiou na hora, dizendo que eu era sua luz. Caio, após um silêncio pensativo, soltou a pérola: — Então agora eu namoro duas gurias? Porra, vou fazer uma inveja desgraçada! — E a risada dele quebrou qualquer tensão.
A semana entre Natal e Ano Novo foi de compras intensas. Mamãe nos levou ao shopping e se esbaldou: vestidos, saias, sutiãs e rendas. Martina ria das discussões entre eu e mamãe sobre estilos, enquanto Caio carregava as sacolas reclamando do espaço no porta-malas. Eu rebatia dizendo que, como ele era o único homem agora, aquele era o "trabalho pesado" dele, o que sempre rendia beijos e risadas.
Voltamos para Curitiba com a alma lavada. Na semana seguinte, com Martina ao meu lado, comecei o tratamento hormonal. As mudanças mentais foram as primeiras: uma instabilidade emocional que me fazia chorar por comerciais de margarina, uma sensibilidade à flor da pele. O médico me avisara sobre a impotência sexual inicial, e quando aconteceu, meu mundo caiu. Senti-me incompleta, com medo de não satisfazê-los. Mas o Caio e a Martina foram gigantes. Eles me ensinaram que o sexo era muito mais que penetração; era toque, era boca, era presença. Eles me ninaram nas noites de choro e celebraram cada pequena mudança na minha pele, que ficava cada dia mais macia. Nickole estava finalmente florescendo, não apenas no corpo, mas na alma resiliente que eles ajudaram a moldar.
A transição seguia a todo vapor, e meu corpo mudava a olhos vistos, ganhando curvas que eu amava explorar. Mas o retorno às aulas trazia um novo desafio burocrático. Após eu ter enviado o e-mail solicitando a alteração dos meus dados, recebi o chamado para comparecer presencialmente à reitoria para retificar meu nome social nos registros da faculdade. Enquanto eu caminhava pelos corredores, senti que muitos me olhavam de forma diferente; alguns com um estranhamento silencioso, outros como se já soubessem da transformação que eu estava vivendo. Eu estava pronta para assinar o papel que me daria meu nome de direito, mas o peso daqueles olhares me lembrou que a vida pública como Nickole exigiria uma coragem que eu ainda estava aprendendo a dominar.
