Aquele Cara (reencontro depois de muito tempo) - Parte 1 de 3

Um conto erótico de Tales Santos
Categoria: Homossexual
Contém 3775 palavras
Data: 17/02/2026 11:09:34
Última revisão: 17/02/2026 11:12:55

Bom dia e bom carnval a todos. Voltando depois de uns anos. Para quem segue e pediu a continuação, aí está. Próximas partes serão postadas em breve.

As coisas geralmente acontecem quando têm de acontecer, você pode tentar prever o futuro, imaginar coisas, achar que está com a sorte quando abre o maldito do aplicativo amarelo, mas as coisas só acontecem na hora que devem acontecer. E nesse dia… alguém voltou a aparecer.

Estava cansado e muito estressado no dia. Havia saído do serviço e ido ao shopping, mais precisamente a livraria. Havia uma saga de livros que estava interessado e amava ir la dar umas folheadas até ter dinheiro para compar. Fiquei um tempo andando pelas estandes vendos os últimos lançamentos até que vi alguém que não via há bastante tempo.

Ele estava com aquele mesmo jeito esquisito de vestir. Haviam-se passado uns três ou quatro anos desde a ultima vez que o viu, então ele teria uns trinta e poucos anos, talvez nem tivesse chegado aos trinta. Usava um camisa polo amarela com bolso, calça jeans azul e sandália de couro. Os braços musculosos apertando as mangas da camisa, o peito musculoso estufado, com os dois botoes a camisa polo abertos revelando alguns pelos. Estava sério olhando um livro. Os cabelos castanhos claros estavam maiores, num corte partido ao meio. A barba estava por fazer. O nariz era fino, as mandíbulas eram retas e o queixo quadrado. O olhar sério, margeado com sobrancelhas grossas encarava o livro como se fosse atacar ele.

Era ele mesmo, o cara sem nome, aquele cara, o sigiloso surtado do aplicativo de putaria. O mesmo das partes anteriores do conto que você deve ter lido, caso esteja lendo essa parte. Se não vá ler.

Observei ele por um tempo. Lembrei do sexo intenso que tivemos. Um dos melhores dominadores que já fiquei. Se tivesse ocorrido tudo bem da última vez eu mexeria com ele, por isso preferi não fazer isso. Olhei por um tempo somente.

Ele era muito gostoso. O estilo de vestir como um senhor não mudava nada disso. Cada parte dele era bonita. Ele segurava o livro aberto e nesse ângulo era possível ver um dos bíceps contraídos, resultado de muito tempo na academia. Cara, que homem gostoso…

Nesse ponto ele ergueu o olhar, talvez tivesse percebido meu jeito nada discreto de encerar, aqueles olhos azuis penetrantes voltaram-se para os meus. Ele franziu a testa quando me viu. Sem graça sorri desajeitado.

Primeiro ele só encarou e ficou quieto, depois ele se moveu por um tempo, depois parou no meio do caminho, depois continuou e veio até mim. Eu segurava um livro que já havia esquecido qual era quando ele chegou.

- Ora ora, o que temos aqui? - disse ele de forma descontraída, mas o olhar sério de sempre parecia dizer outra coisa. O tombre da voz dele era grosso e firme.

- Olá, rapaz sem nome! – disse para ele. - Que mundo pequeno.

- Verdade – disse ele olhando o livro na minha mão. - O que é?

Olhei para o livro que segurava.

- Um livro sobre fantasia e putaria – disse mostrando ele.

Ele avaliou o livro julgando intensamente com o olhar.

- Você lê esse tipo de coisa? - perguntou devolvendo.

- Claro – disse dando os ombros. - Tem dragões, homens gostosos e sexo. Três coisas que eu adoro.

Ele concordou.

- Não achei que voltaria a te ver – disse ele com mais curiosidade que antes com o livro.

- Ja eu achei que a gente se esbarraria novamente – disse para ele, e era verdade isso. Aquela cidade, apesar de ser uma das maiores capitais, parecia um ovo. Sempre a gente esbarrava com conhecidos. - Mas não aqui, definitivamente não em uma livraria – concluí.

- Não pareço o tipo de homem que lê? – perguntou ele.

- Não – respondi sorrindo. - Parece alguém que toma bomba e fica o dia inteiro na academia.

- Não para a primeiro e parcialmente sim para a segunda – disse ele sério, os olhos azuis me olhando intensamente. Desviei o olhar.

Logo peguei o livro de volta. Lembrei da ultima vez que nos vimos. Aquela rola grossa e gostosa dele. Ficamos um tempo calado em um silêncio constrangedor, ao menos para mim. Ele me olhava intensamente e indiscretamente. Era como se não tivessem pessoas ao redor falando alto. Ele me intimidou com o olhar, o mesmo olhar dominante que colocou em mim na primeira vez que vi ele. Parecia que só tinha a gente naquela livraria.

- Renan – disse ele, seus olhos azuis penetrante olhando os meus. - Meu nome é Renan...

[…]

Estávamos em um bar no centro. Era horário de pico então muita gente ia e vinha. Estava com o uniforme de onde trabalhava, ele parecia estar de folga. Havíamos pedido uma cerveja. Pouco depois de me dizer seu sigiloso e misterioso nome ele me chamou para beber e eu… bem… aqui estou.

Ele parecia tranquilo enquanto bebia. Ele sempre passava essa pose de controle e tranquilidade, mas havia algo diferente no olhar dele, parecia que ele tinha chorado, ou algo do tipo. A parte branca dos olhos estavam pouco vermelhas. Percebi isso na livraria quando ele me olhou, mas o susto em vê-lo fez isso emergir na minha mente somente agora. Ele segurava o copo cheio de cerveja olhando para mim com aquele olho azul-claro lindo.

- Como andam as coisas? Realmente não esperava te encontrar num livraria – disse ele dando um gole. - Apesar de você dizer que gosta de escrever.

- Eu vou lá quando estou estressado Renan, foi um dia bem cansativo – disse dando um gole na cerveja.

- Eu também – disse ele. - Estou um pouco sem paciência hoje. Gosto de ficar olhando os livros, me acalma.

- As pessoas não costumam se acalmar desse jeito Renan, eu e você somos estranhos – disse dando os ombros. Então o olhar vermelho de fato poderia ser algumas lágrimas. Aquilo me deixou muito curioso. - Mas devo confessar que coisas estranhas e a gente faz mais sentido do que deveria.

Ele riu.

- Confesso que seu gosto e bem esquisito – disse ele sorrindo. - Dei uma olhada no livro que estava lendo aqui num site de resenha agora, de fato tem muita putaria ali.

- Essa é a alma da coisa – disse ele empolgado. - Uma hora você dragões voando pelos céus cuspindo fogo, noutras, homens gostosos fudendo. O equilíbrio perfeito entre o caos e lascívia.

- Baita vocabulário – disse rindo, lascívia não é bem uma palavra que usa em uma conversa informal. - Então me indica esse que estava vendo?

- Claro, mas é o terceiro, teria que começar pelo segundo pra ver mais cenas de sexo. O primeiro é até mais leve Renan, mas a história e muito boa – disse para ele.

Ele olhou para mim com os olhos quase fechando.

- Não vai parar de falar meu nome, não é? - perguntou ele.

- Não mesmo, Renan! – disse para ele rindo.

Ele suspirou.

- Fica formal de mais ficar falando meu nome.

- Renan, Renan, Renan! - disse rindo.

Ele virou os olhos e suspirou, sem paciência.

- Renan é um nome lindo!

- Vontade de te dar uns tapas – disse ele. - Mas não posso, infelizmente. Mas se pudesse te levava agora para um motel e dava um trato.

Lembrei do sexo maravilhoso que tivemos, e de todas as punhetas que bati depois disso pensando nele. Fiquei com tesão.

- Ai iria te chamar de Sr. Renan – disse amando repetir o nome dele.

Ele cerrou o olhos.

- Aí seria o mínimo – disse ele levemente irritado.

Dei os ombros.

- Me diga, o meu estresse e por conta do serviço, muita gente enchendo o saco. Vontade de meter o pé em tudo e pedir conta – disse para ele dando os ombros. - Qual o seu dilema, não parece estar voltando do serviço.

- Só por que estou sem farda? - perguntou ele.

- Porque está de sandália de couro, jeans e camisa polo. Não consigo imaginar um uniforme assim – disse para ele. - E não me lembrava de que era militar.

- Então sabia que eu era – disse ele sorrindo.

- Vi o distintivo em cima da cômoda, Renan – disse para.

Ele riu.

- Ficou lindo quando se vestiu assim – disse ele. - Usou minha camisa suada, minha sandalia fedida. Ainda saiu comigo para um bar não muito longe daqui.

- Fiquei parecendo um senhor no corpo de um homem com vinte e poucos anos.

Ele riu novamente.

- Se tivesse comigo usaria agora mesmo, meu namorado mesmo usa – disse ele segurando o copo.

Saber que ele namorava fez meu estômago gelar. Talvez se eu pudesse olhar no espelho veria que meu brilho se foi.

- E ele aceita se vestir assim? – perguntei com mais desdém que gostaria. Onde tava com a cabeça achando que na hora de ir embora voltaria a trepar com ele?

- No começo não – disse ele dando um gole. Ele respirou fundo. - Mas, mesmo não sendo submisso como você, no final das contas acabou fazendo o que eu mando. Ele me zuou falando da sandalia e fiz ele usar uma. Comprei uma parecida com ela e faço ele usar. Adoro fazer isso. Me da prazer ver vocês fazendo algo que não querem porque estou mandando.

- Fazer ele se vestir com o que não gosta te da tesão?

- Sim – disse ele sem rodeios. - Ver ele desconfortável, vendo os amigos dele zoando ele e entendo que o macho dele mandava nele. Sabendo que ele tava doido pra levar pica quando chegasse em casa.

Aquilo me deixou com mais tesão.

- Mas ele não dá conta do sexo, pede pra parar o tempo todo. Não aguenta igual você – disse ele. - Bati muitas lembrando daquele dia. Aguentou eu te pegando com força, bruto. Tentei fazer isso com ele uma vez e ele pediu pra parar praticamente no mesmo instante.

Lembrei dele me colocando de bruços e metendo muito forte. O cheiro do suor dele, seus braços fortes me segurando, a rola grossa dele entrando sem dó. As estocadas fortes dele, o peito musculoso dele nas minhas costas...

- Respondendo a sua pergunta, eu não me vestiria assim. Essas sandálias são para alguém da idade do meu pai, combinadas com camisa polo então – disse para ele evitando falar do namorado dele. - Jamais sairia de casa ou iria para algum lugar conhecido assim.

- Não respondeu pergunta alguma, pois eu afirmei que seria desse jeito – disse ele com o olhar rente aos meus. Havia divertimento no jeito dele falar, marejados com o jeito autoritário e dominante dele. - E ainda, não sei se lembra, disse que ia colocar um cinto de castidade nessa rolinha sua para não poder bater uma sem eu perto – disse ele com um sorriso sedutor. - Quando você coloca o cinto, a parte atrás do saco arde quando pau tenta ficar duro e não consegue. Arde muito. Depois de te fuder é bem provável que iria gozar de pau mole, mas se não gozasse, bateria de leve na região atrás do seu saco, massagear até virar o olho e gozar. Ja gozou de pau mole? Os subs adoram.

A imagem daquela cena me deixou com muito tesão. Na fantasia, é claro, porque não me sujeitaria usar um cinto de castidade, mesmo para um homem maravilhoso como ele.

- Adoro bater uma e gozar em cima do pau trancado, pro sub poder ver quem tem o pau maior e quem fica de pau duro – disse ele. - Imaginei muito a cena de você trancado, ganhando meu leite grosso. Deixando ele la em você pra você se lembrar como é gozar de rola dura.

Que delicia, pensei. Meu pau ainda duro lembrando daquele corpo gostoso dele.

- Está pensando de mais Renan – disse para ele com o pau latejando. Lembrava da rola reta dele, grossa e grande.

- Deve tá todo babado ai – disse ele me olhando.

- Eu…

- Sei que está, essa rolinha deve tá dura e babada, e você tá doido querendo cair de boca no meu pau – disse me comendo com os olhos. - Não depilo tem um tempo, tá uma moita aqui. Sei que você ama tudo isso. Uma rola enorme e grossa. Gosta de um macho como eu.

- Amo mesmo – disse para ele sem rodeios. - Sabe que amo ser submisso.

- Precisando tomar uns tapas pra aprender a se comportar, o jeito que saiu la de casa aquele dia...

- Você namora Renan, a última coisa que iria querer hoje é ir trepar com você – disse para ele mais ríspido que gostaria. No momento vi que ele respirou fundo, talvez voltando a si como eu. Ou talvez só ficou surpreso por ter sido direto com ele.

- De fato – disse ele seco.

O jeito que falei não parece ter irritado ou intimidado ele, mas ele parou de falar e me arrependi na mesma hora. Ouve um momento incômodo de silêncio, aqueles que ocorrem quando as pessoas ficam sem assunto, somados ao desconforto quando uma pessoa para de falar de repente porque teve sua falar cortada e criticada. Que idiota que sou, tava um tesão ouvir ele. Mas o namorado, porra, que saco! Tinha que aparecer essa praga na equação? Sei que não deveria, e podem julgar o quanto quiserem, fodas! Eu fiquei com ciúmes.

- Mas não me disse o que está acontecendo com você – disse para ele tentando romper o silêncio constrangedor.

Ele olhou por um tempo para mim. Que olhos lindos.

- Problemas familiares – disse ele ainda seco.

- Quer falar sobre?

- Não com você – disse ele em tom que encerra a conversa.

Fiquei um pouco sem graça, mas logo dei um gole na cerveja. Eu tinha cortado ele, ele deu o troco.

- Imaginei que não, não queria falar o nome, que dirá uma coisa íntima – disse para ele. - De todo modo…

- Me desculpe, tanto sobre o fato de falar sobre transar quanto por não ter dito o meu nome. Gosto de algo no sigilo, mas não deveria ter agido assim – disse ele parecendo sincero. - Só é que… sobre o que to passando, não é algo que deva falar com estranhos. É bem íntimo. Eu te vi uma vez além dessa. E também… nem sei se vou te ver de novo.

- Nos vimos uma vez e nessa única vez que ficamos teve mais química e conexão que com seu namorado – disse para ele, a língua sendo mais rápida que a mente. Me arrependi no instante que as palavras saíram.

Ele se surpreendeu com a minha resposta, pude ver ele recuando ligeiramente, as sobrancelhas expressivas arqueando. Pronto, agora ele voltaria a brigar comigo e eu jogava para longe a chance de trepar com ele de novo. Eu sou muito burro!

- Não faz ideia do tipo de relação que tenho com o João – disse ele sério, o olhar irritado voltado para mim. Me encolhi brevemente.

- Não faço, mas seja qual for, não é uma relação em que pode ser quem você é – disse para ele sustentando o erro de invadir a privacidade dele.

O olhar dele se antes estava irritado, agora ficou sério e frio, o rosto livre de qualquer sentimento. O olhar penetrante dele avisava para mim que havia passado dos limites. Ele não precisou dizer nada, apenas o olhar dele e os pouco segundos que se passaram serviu para me deixar desconcertado. Recuei na cadeira.

- Me desculpe – disse prontamente depois dos segundos em que o silêncio imperou. Meu rosto ardendo de vergonha. - eu me excedi, não deveria ter dito o que disse… eu… que vergonha.

Ele continuou sério, agora as sobrancelhas quase unidas em um olhar irritado.

- Eu tenho o hábito de falar de mais – disse, e senti minhas bochechas corarem ainda mais. - De qualquer forma me desculpe. Sério mesmo, não tem justificativa – disse desviando o olhar.

Ele relaxou.

- Sem problemas – disse ele. - E você fala muito mesmo, lembro do dia que nos conhecemos.

- Também lembro – disse para ele. - Mas nesse dia você me estressou e não o contrário.

Ele riu.

- Escreveu sobre mim na internet, no site de contos eróticos? Disse que faria isso.

- Sim – disse sorrindo.

Aquilo deixou ele surpreso, e o deixou assim porque de fato ele acreditou que eu escrevi. E era verdade, no fim das contas. Você é prova disso, não menti em nenhuma palavra.

- Como eu me chamo nesse conto? - perguntou ele curioso.

- Pode ser qualquer nome, até mesmo Renan – disse para ele me divertindo com a situação. Aquilo arrancou um sorriso lindo dele.

- Falou tudo que aconteceu? Cada detalhe – perguntou ele curioso.

- Sim, desde ao jeito de vestir, o fato de você cantar depois do sexo e o anime do pirata que estica – disse para ele. - Que inclusive comecei a assistir. Falei camisa polo vermelha de listras com aquele tecido grosso, bolso no peito, sandalia de couro com chulé. Tapão na cara, o sexo com seu amigo “hetero”. Dentro do carro me dando um esporro. Até a briga por não querer me dizer o nome porque “pega no sigilo”.

Ele riu alto.

- Quero muito ler isso – disse ele rindo.

- Um dia… ou pode tentar a sorte procurando – disse para ele me divertindo a cada palavra.

Ele deu um gole.

- Mais um motivo para se abrir – disse para ele. - Mas entendo se só quiser ficar bebendo. As vezes os problemas ficam melhores quando a gente deixa eles longe da mente. Eu mesmo vou na livraria para isso, creio que você também.

Novamente ficou calado. Enchi o meu copo e logo depois o dele.

- Digamos que minha mãe descobriu que eu era gay de uma forma bem constrangedora, se é que quer mesmo saber – disse ele dando um gole. - Ela contratou alguém para me seguir, tirou fotos e um dia, quando cheguei em casa, jogou tudo sobre a mesa e me acusou de ser “gay”. Nesse dia meu pai quase me bateu.

Aquilo me pegou de surpresa. Primeiro pelo fato de ser seguido, segundo por ter a intimidade exposta e terceiro por ainda ser confrontado e atacado por isso.

- Fotos minha beijando um ficante no carro, entrando e saindo de motéis, no cinema, shows, saindo de putero de homens e de mulheres. Tinha uma foto minha com duas travestis em uma festa. Noutra com meu primeiro namorado, num restaurante – disse ele. - Um dos detetives criou uma conta no aplicativo, me encontrou, me chamou para sair. Mandei nudes para ele, falei sobre fetiches – ele suspirou. - Tinha uma foto minha segurando o cinto dobrado apontando para a câmera, sem meu rosto aparecendo, é claro. Até essas fotos e prints estavam no “dossiê” que minha mãe e meu pai esfregaram na minha cara.

- Meu Deus! - foi a única coisa que pude dizer.

- Isso, como pode imaginar, acabou com a minha relação com eles. Fiquei extremamente chateado e acabei saindo de casa. Passei num concurso e vim para cá. Mais de mil quilômetros de distância... Aqui moro só. Sem ninguém por perto.

Disse ele terminando com um gole de cerveja. O olhar dele naquele momento ficou pesaroso, ressentido. E isso foi um contraste com a sua altivez. Mesmo com o olhar enérgico, seguro de si, era possível ver nos olhos dele o peso de tudo que me disse.

- Isso tem muito tempo?

- Alguns anos – respondeu ele.

- E desde então mora aqui? – perguntei.

- Sim, vim para cá pouco tempo depois. Assim que passei no concurso pra ser mais preciso. Na verdade fui chamado rápido – disse ele. - E vim com minha mala de roupas e mais nada. Mas o salário era bom, bem acima da média. Então aluguei um quarto e aos poucos comecei a montar minha vida aqui. Passei alguns perrengues, mas financeiramente falando, fiquei estável o tempo todo.

- A vida de militar não é facil, imagino eu – disse para ele.

- Nem um pouco – respondeu dando outro gole. - Mas molda a gente, fazer a gente ficar forte, bruto. Sinceramente foi o que me salvou da solidão intensa que senti aqui, longe de todos.

- Mas se tem tanto tempo que aconteceu, por qual motivo está deprimido hoje, seus olhos estavam vermelhos quando te vi no shopping – perguntei, tendo certeza agora que aqueles olhos vermelhos era o olhar de alguém estava chorando.

Talvez pela primeira vez desde que o conheci ele ficou surpreso. O olho azul claro tomou conta da pupila, que ficou pequena com o olhar.

- Saudades de casa – disse ele sem rodeios. - Sai de lá fugido praticamente, minha família inteira me detesta. Não tenho ninguém aqui além do João. Estou tendo problemas no trabalho e meu relacionamento anda mal. Sabe o que é sentir saudade do lugar onde nasceu, onde cresceu, sentir saudade das pessoas que você gosta, dos seus irmãos, tios, pais… meu coração dói quando penso que todos são homofóbicos, que me querem o mais longe deles. As vezes bate uma tristeza e eu meio que ignoro isso. Hoje… meio que foi mais intenso que nos outros dias – disse com os olhos cheios d’água. Mas ele não chorou. Seu rosto esmorecido se recompôs e ele voltou ao olhar firme que sempre teve.

- Que povo filho da puta – disse tampando a boca logo em seguida. Eram familiares dele. - Me desculpe – me apressei a dizer. - Não queria ter…

- É exatamente o que são, bando de preconceituosos – disse ele dando um gole.

- Sim, muito – disse para ele. Respirei fundo dando uma pausa aliviado por ele não se sentir ofendido. - Queria dizer algo que pudesse te confortar, mas sendo muito honesto não sei o que dizer. Ao menos tudo que penso acho que já deve ter dito para si mesmo. Imagino o quanto deve ser difícil. A solidão tem muitas faces.

- Não precisa dizer nada – disse ele sorrindo, e aquele sorriso foi genuíno, com covinhas na bochecha, os olhos azuis brilhando. Por um momento ele pareceu feliz.

- Não sou bom em conselhos, mas sou bom ouvinte – disse enchendo nossos copos. - Acho que resolver problemas dos outros é fácil. Aquele papo furado: procura terapia, tenta resolver, tenta isso… como se fosse fácil. Por isso me resguardo em falar sobre o que não compreendo. Mas… sempre que quiser conversar, tomar uma cerveja e se abrir, estarei aqui. Só me chamar. Pode ligar qualquer hora que eu atendo e dou um jeito de aparecer.

Ele sorriu novamente, de boca fechada, os olhinhos brilhando.

- Sempre bom ter companhia para beber – disse ele.

Brindamos novamente. Achei que essa conversa cheia de sentimentalismo brega e cheio de vergonha alheia deixaria tudo num clima constrangedor, mas ele parecia bem, genuinamente feliz com o que ouviu.

- Seu número é o mesmo? - me perguntou ele.

Aquilo me pegou de surpresa…

- Ainda tem meu número?

- Nunca apaguei, ainda está com o mesmo nome que coloquei – disse ele.

- Qual? - perguntei curioso.

- Estressadinho! - disse ele dando um largo sorriso.

Aquilo me deixou irritado numa velocidade incrível, pois ele havia me irritado no dia que nos conhecemos.

- Vou me resguardar de qualquer comentário – disse para ele virando os olhos.

- Cara quero muito te beijar, não faz ideia – disse ele, o olhar pesando sobre mim, me deixando acuado, fazendo ter vontade pular nele.

- Você namora…

- Eu namorava – disse ele. - Mas logo esterei namorando de novo...

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Vontade de falar pro Renan me levar num motel e descontar suas frustrações no meu corpinho...

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