Eu, Bento, escravo de quarto do Visconde de Araguaia, via os dias se arrastarem como carro de boi atolado na lama depois da chuva. A Casa Grande de São Lourenço, outrora cheia de risos e de criados correndo com bandejas de prata, agora parecia um fantasma de glórias passadas. Os móveis de jacarandá gelados e sem vida, os espelhos embaçados, e nas noites o vento assobiava pelas frestas como quem lamenta os mortos. As cartas chegavam do Rio de Janeiro: envelopes lacrados com cera vermelha, trazendo intimações de cobradores, ameaças de penhora, nomes de banqueiros que já não queriam ouvir falar no nome Araguaia. Dizia-se, em voz baixa nos armazéns do porto, que o Marquês de Jacarepaguá, aquele homem seco como cana torrada, futuro sogro do Conde de Barbacena, andava pressionando os credores para que não emprestassem mais um vintém ao meu sinhô. Queriam ficar com parte das terras, dos engenhos, das matas virgens que ainda valiam ouro. Na corte joanina, onde tudo se decidia entre um copo de vinho do Porto e uma reverência baixa, corria que Sua Alteza Real ouvira rumores de que Dom Luís era “pouco confiável nos negócios”. Um secretário arrivista do intendente-geral da polícia, lambendo as botas do marquês, espalhara que o visconde “gastava demais com luxos inúteis”. Intriga miúda, mas mortal como veneno de cobra.
Ninguém, porém, ousava dizer em voz alta o que realmente se cochichava nos corredores escuros do paço: que o jovem Dom Luís preferia a companhia de Damas da noite e certos cavalheiros a casamentos vantajosos. Esses sussurros, ainda sem forma definida, já chegavam aos ouvidos do Barão de Cotegipe, que franzia o cenho e apertava o charuto entre os dentes, pensando na filha Carlota e no dote que poderia salvar, ou condenar, a casa Araguaia.
Numa tarde abafada de novembro, quando o céu parecia de chumbo e o cheiro de cana queimada entrava pelas janelas quando o Conde de Barbacena chegou sem aviso. Veio sozinho, sem séquito, acompanhado apenas por um escravo de segurança, num cavalo negro suado de corrida. Eu o vi da varanda: a casaca azul desabotoada, o rosto suado mais sério que de costume. Meu sinhô estava no gabinete, curvado sobre livros de contas que já não fechavam, quando anunciei a visita. Dom Luís ergueu a cabeça de repente, os olhos se iluminaram por um instante antes de se moldarem de preocupação.
— Pedro, aqui? Manda entrar, Bento. E fecha as portas. Ninguém nos perturbe.
Eu obedeci, mas fiquei na porta, como sempre. Um escravo aprende a ser sombra e segurança.
Os dois se encontraram no gabinete, portas cerradas, cortinas meio corridas para que a luz não fosse tão crua. Primeiro falaram baixo, vozes abafadas. Ouvi o conde dizer algo sobre “rumores que crescem como erva daninha” e “a corte inteira fala”, “Meu nome não foi citado, você encontra mais alguém?”. Meu sinhô respondeu negando com voz alta, quase suplicante. Depois, silêncio. E então o som que eu conhecia: o roçar de tecidos, o estalo do um beijo que esperava desde o sarau na casa do Barão.
O Conde de Barbacena ou apenas Pedro tomou o rosto do Visconde entre as mãos, beijando-o com urgência feroz, como quem tem fome guardada há meses. Dom Luís correspondeu com desespero, agarrando-se à casaca do amante, puxando-o contra si até que os corpos se colassem. Tropeçaram até a grande mesa de mogno, derrubando tinteiros e papéis, sem se importar. O conde empurrou meu sinhô contra a borda da mesa, abrindo-lhe a camisa com mãos impacientes, expondo o peito pálido, as costelas marcadas pela magreza das noites sem sono, inspirou buscando o cheiro do Visconde como quem busca ar para sobreviver. Beijou-o ali, primeiro lambendo e depois mordiscando os mamilos até que Dom Luís arqueasse as costas e gemesse alto, sem cuidado. Ele era sensível naquela região e o Conde sabia disso.
— Pedro... — sussurrou meu amo, voz partida.
O conde não respondeu com palavras. O conde de Barbacena, o solteiro mais cobiçado da corte, a quem todos acostumavam a curvar-se, agora estava ajoelhado, abrindo as calças do Visconde com dedos rápidos, tomando-o na boca o membro duro e pulsante. Chupou com força, língua rodando a cabeça sensível, mão apertando a base enquanto a outra descia para acariciar as bolas pesadas. Meu sinhô agarrou-se à mesa, quadris se movendo por instinto, empurrando mais fundo na boca quente. O conde agarrava as ancas do meu amo, buscando mais mesmo sentindo-se engasgar com a glande alojada em sua garganta. Os gemidos eram altos agora, sem vergonha: “Mais... assim... Pedro, por Deus...”
Quando o conde se ergueu, os olhos escuros lacrimejados e faiscando, foi a vez de Dom Luís. Virou o amante contra a mesa, abaixando-lhe as calças até os tornozelos, expondo as nádegas peludas e firmes, o pau já duro e babado em todas extensão percorreu o rego do Conde. Meu senhor cuspiu na mão, preparou-se rápido, e entrou de uma vez, fundo, sem esperar. Eles esperaram tempo demais, os encontros nunca eram suficientes.
O conde grunhiu alto, apoiando-se nos antebraços, cabeça baixa enquanto era fodido com força bruta. Meu sinhô movia-se possesso, uma mão agarrando o quadril do conde, a outra descendo para acariciar-lhe o pau no mesmo ritmo das estocadas. Os corpos batiam com som seco, suor escorrendo pelas costas, o cheiro de sexo enchendo o gabinete.
— Você é meu — rosnava Dom Luís entre dentes colados no ouvido do conde, cada estocada mais fundo, mais possessiva. — Meu, Pedro, só meu.
O conde respondia com gemidos abafados, empurrando os quadris para trás apesar do incômodo prazer, querendo mais. “Então me tome como se fosse a última vez”, pediu, voz rouca. E meu sinhô obedeceu: acelerou, brutal, até que o conde gozasse primeiro, jorrando sobre a mesa de mogno, corpo convulsionando. Dom Luís seguiu logo depois, enterrado até o fundo, derramando-se dentro dele com um grito abafado contra o ombro do amante.
Ficaram assim um tempo, ofegantes, abraçados sobre a mesa desarrumada. O conde virou-se devagar, beijando o Visconde com ternura que a pobre Isabel nunca conheceria, limpando-lhe o suor da testa com a manga da camisa.
— Luís — disse por fim, voz baixa —, você precisa se casar com Carlota. Os rumores na corte estão crescendo. Falam que você é... pouco confiável. Que gasta demais. Se não arrumar um casamento sólido, vão acabar com tudo. O Barão de Cotegipe está disposto. O dote salvaria suas terras.
Meu sinhô baixou a cabeça, ainda com o corpo colado ao dele.
— E você? Casa-se com Dona Isabel e me aconselha a fazer o mesmo?
— Eu não temos escolha — respondeu o conde, amargo. — Não posso mais me associar a você como propus no Sarau do Barão. As bocas miúda da côrte não deixariam algo assim escapar e nos dois cairíamos em desgraça.
— Então entre eles e nós, você escolhe eles?
— Não seja tolo homem. O marquês já fechou os bancos para você. Mas ninguém sabe disso ainda. Case-se, Luís. As duas casas estarão salvas e logo após meu casamento assumirei os negócios do Marquês.
Eles não sabiam, ninguém sabia ainda que os rumores mais venenosos vinham exatamente do Marquês de Jacarepaguá, que farejava fraqueza e queria as terras de São Lourenço como quem quer uma presa fácil.
Quando o conde partiu, ao cair da tarde, meu sinhô ficou longo tempo sentado à mesa de mogno manchada, olhando a poça de gozo do Conde de Barbacena secar. Eu entrei para arrumar, em silêncio. Vi as marcas nos quadris dele quando o ajudei a trocar a camisa, vi o brilho úmido nos olhos. Ele não disse nada. Nem eu.
Porque eu via tudo. E calava tudo.
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Agradeço a todos pelos votos e comentários.
A história só teve continuação por causa de vcs. A princípio seria apenas um conto inspirado na trend de Carnaval que rola nas redes sociais e da série, mas como gostaram resolvi continuar.
