Conspiração 12.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 7544 palavras
Data: 17/02/2026 13:39:28

No presente:

Eu não dormi naquela noite. Fechei os olhos algumas vezes, mas minha cabeça não desligava. Cada vez que eu quase apagava, surgia a mesma pergunta: eu estava defendendo a verdade … ou apenas sustentando uma versão conveniente?

Às nove da manhã, eu já estava sentado na sala do meu advogado. Precisava entender até onde a lei me ajudava. Ele me analisava por cima dos óculos, como sempre fazia quando sabia que eu estava prestes a falar uma besteira.

— Você está com cara de quem quer mexer em algo que já está estabilizado — ele disse, antes mesmo de eu abrir a boca.

Cruzei os braços.

— Eu quero saber se ainda dá tempo de mudar minha versão.

Ele não respondeu de imediato. Apenas recostou na cadeira.

— Mudar … como?

— Retirar a tese de legítima defesa. A que me ajuda, mas deixa meu nome sujo. Declarar que eu sou, assim como a pessoa que morreu, uma vítima de uma conspiração.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Ricardo … — ele falou devagar. — Você entende o tamanho do que está me dizendo?

— Entendo.

— Não — ele balançou a cabeça. — Você acha que entende.

Ele abriu uma pasta, folheando os documentos do meu processo.

— Hoje você responde em liberdade porque conseguimos sustentar que houve legítima defesa com excesso culposo. Você reagiu a uma ameaça real, perdeu o controle, ultrapassou o limite. É uma linha defensável. Frágil, mas defensável.

Ele fechou a pasta.

— Se você alterar sua narrativa agora, destrói a coerência da defesa. O Ministério Público vai alegar que você manipulou a investigação desde o início. Que construiu uma versão estratégica. Isso pode converter excesso em dolo. Você pode sair daqui hoje … e ser preso amanhã.

Aquilo eu já sabia.

— E se eu disser que tenho indícios de que havia gente maior por trás? Que pode ser vingança? Que alguém do meu passado está tentando me incriminar?

Os olhos dele mudaram.

— Agora estamos falando de outra coisa. Você tem provas? — Ele foi direto.

— Ainda não. Tenho uma investigação própria em andamento.

Ele respirou fundo.

— Então me escute com atenção. Se existe organização criminosa envolvida, mudar sua versão agora é suicídio jurídico. Você vira alvo de duas frentes: do Ministério Público … e de quem está nas sombras.

Ele suspirou, parecendo contrariado.

— E outra, você é o réu aqui, não o investigador. Isso pode até ser considerado obstrução de justiça.

Eu sustentei o olhar.

— Eu já sou o alvo.

Ele negou com a cabeça.

— Não. Hoje você é um homem que reagiu a uma ameaça. Se começa a insinuar uma engrenagem maior, deixa de ser um réu comum. — Ele fez uma pausa. — E gente organizada elimina o que não controla.

O ar ficou mais pesado.

— Você é ex-policial — ele continuou. — Sabe que, se houver uma organização por trás, a represália não vem só para você. Pode vir para sua esposa. Para seus pais.

Meu maxilar travou.

— Está me dizendo para ficar quieto?

— Estou dizendo para ser inteligente.

Ele pegou uma caneta e a girou entre os dedos.

— Se houver algo maior, precisamos transformar você de suspeito instável em colaborador estratégico. Mas isso exige timing. Prova. Canal correto.

Ele me encarou com firmeza.

— Você quer justiça ou quer absolvição?

A pergunta ficou no ar. Porque as duas coisas nem sempre caminham juntas. Eu quebrei o silêncio:

— Tem mais uma coisa.

O advogado não falou nada, apenas esperou.

— Acho que tem gente próxima a mim envolvida.

Os olhos dele ficaram atentos.

— Seja específico.

Respirei fundo.

— Bruno esteve no meu apartamento naquela tarde. Horas antes de tudo acontecer. Mariana estava em casa. Tinha saído cedo do trabalho. Estava nervosa. Ele ofereceu água para ela. Até aí, nada fora do comum. — Minha voz ficou mais baixa. — Depois que ele saiu, ela apagou.

— Apagou como?

— Não é modo de dizer. Ela apagou. Saiu do ar.

Fiquei alguns segundos olhando para as minhas próprias mãos antes de continuar.

— Mariana tem sono leve. Sempre teve. Se eu me levanto da cama à noite, ela percebe. Se a porta do apartamento abre, ela acorda. Se o elevador para no nosso andar, ela escuta.

O advogado não piscava.

— No dia do crime, pessoas entraram e saíram daquele apartamento. Houve luta. Houve movimentação. Houve barulho …

Engoli seco.

— ... e ela não acordou.

O silêncio ficou mais pesado.

— Você está sugerindo que ela foi dopada.

— Estou dizendo que o padrão não fecha.

Ele cruzou as mãos sobre a mesa.

— Ela fez exame toxicológico?

— Não.

— Você tem registro de Bruno entrando e saindo?

— O depoimento da Mariana o coloca lá. Você deve ter lido.

Ele folheou a pasta.

— Li. Ela diz que ele foi lá como sempre vai, que tem acesso liberado.

— Ela está grávida — eu disse, encarando-o. — Se ele a dopou, atentou não só contra ela.

Ele levantou os olhos para mim.

— Parabéns! Você deve ter descoberto mais coisas. Fala tudo.

Respirei fundo.

— Descobri que Bruno desviou dinheiro da agência. Muito. Depois pegou empréstimos com agiotas para cobrir o rombo. Está sendo pressionado.

Ele ficou alguns segundos em silêncio, organizando mentalmente as peças.

— Se isso for verdade, Ricardo, estamos falando de possível premeditação. — Meu maxilar travou. — Mas sem prova técnica de substância no organismo dela, isso ainda é hipótese — ele concluiu.

— Eu sei.

— E hipótese mal apresentada pode parecer desespero de réu.

Respirei devagar.

— Eu não estou desesperado.

Ele me encarou firme.

— Ainda não.

— Eu também descobri que existe manipulação nas imagens que me colocam na cena do crime, nos horários perfeitos.

A revelação ficou suspensa no meio da sala. Ele continuou:

— Isso é muito sério. Vamos devagar, uma coisa de cada vez. Falando sobre sua esposa: se ela foi dopada, precisamos agir rápido. Quanto mais tempo passar, menor a chance de detecção. Segundo: não confronte o Bruno. Terceiro: não deixe transparecer que você suspeita. Se ele estiver envolvido e perceber que você está ligando os pontos, a próxima jogada não vai ser jurídica.

Ele pensou um pouco e depois continuou:

— A estratégia de legítima defesa te garante liberdade. É pouco provável uma pena em regime fechado. Mas com tudo o que você está me dizendo, talvez devêssemos rever essa estratégia.

Eu apenas ouvia, sem interromper.

— Peça à sua esposa para fazer os exames. Vou ver se consigo, dadas as novas evidências, que ainda são só hipóteses e precisam ser obtidas de forma legal, colocar o seu processo em segredo de justiça. Assim teremos como proteger você e sua família.

O aviso estava dado. Eu precisava pensar com lógica, não com emoção. O orgulho poderia acabar me prejudicando. Talvez fosse melhor ser inteligente do que estar certo.

Saí do escritório do advogado com a sensação de que o mundo estava alguns graus fora do eixo. Dirigi até em casa no automático. Pensando demais. Ligando pontos. Tentando desmontar teorias antes que elas criassem forma na minha cabeça.

Quando entrei, o silêncio da casa me recebeu. Mariana ainda estava no trabalho. Meu pai e minha mãe deviam ter ido a algum lugar. A ausência dela era mais pesada do que o normal. Talvez porque agora eu não estivesse pensando só nela. Estava pensando nela e no bebê.

Deixei as chaves sobre a mesa e fiquei alguns segundos parado no meio da sala. “Se o Bruno tiver colocado alguma coisa naquela água …”. Eu interrompi o pensamento. Sem prova, sem conclusão. Peguei o celular e fiz a ligação.

— Simone, vou trabalhar de casa. Preciso me ocupar. Ainda não associaram a agência diretamente ao caso, mas a exposição agora é um risco.

Simone, uma das secretárias da agência, apenas assentiu do outro lado da linha.

— Mande-me tudo o que dê para fazer de casa, online … qualquer coisa.

Ela respondeu:

— Envio pelo motoboy ainda hoje, chefe.

Era aquilo de que eu precisava. Rotina. Algo que exigisse foco técnico, não emocional.

Duas horas depois, o material chegou: relatórios de diligências em andamento, transcrições de monitoramento, fotografias impressas de acompanhamento de rotina, planilhas de levantamento patrimonial, pedidos de consulta em bases públicas … casos comuns. Marido desconfiado. Empresa querendo confirmar fraude interna. Busca de paradeiro. Verificação de antecedentes. Nada ligado ao Bruno. Nada ligado ao meu processo. Mateus já estava cuidando da parte sensível. Eu precisava parecer — e ser — funcional.

Espalhei os papéis sobre a mesa e comecei pelo mais simples. Conferir datas. Cruzar horários. Validar imagens com registros de localização. Organizar cronologias. Trabalho técnico. Frio. Objetivo. Exatamente o que eu precisava.

Por alguns minutos, funcionou. Mas sempre que eu marcava um horário numa linha do tempo, minha mente fazia outra. A daquela noite. Entrada. Saída. Movimentação. E Mariana não acordou.

Quando o relógio marcou quase seis da tarde, ouvi a chave girando na porta. Meu coração acelerou antes mesmo de eu perceber. Ela entrou cansada, a mão repousando de forma quase automática sobre a barriga ainda discreta.

— Você está trabalhando … que bom — ela disse, surpresa.

— Estou.

Ela deixou a bolsa sobre a mesa.

— Como foi com o advogado?

Eu respirei fundo. Era hora de ser direto.

— A gente precisa conversar.

Ela percebeu pelo meu tom que não era algo simples. Sentou-se devagar no sofá, tirando os sapatos.

— Você está me deixando nervosa.

Eu me sentei à frente dela, apoiando os antebraços nos joelhos.

— Eu preciso que você faça alguns exames. Com urgência.

Ela franziu a testa.

— Eu já estou fazendo pré-natal, Ricardo. Fiz exame de sangue semana passada.

— Eu sei. Não é isso. Quero que você faça um painel laboratorial completo. Hemograma, função hepática, renal … e um exame toxicológico de triagem.

Ela ficou imóvel.

— Toxicológico?

Eu mantive a voz estável.

— De amplo espectro. Sangue e urina. Quanto antes, melhor.

Ela me encarou por alguns segundos.

— Você está achando que me drogaram.

Não era uma pergunta. Era uma constatação.

— Mariana, você tem sono leve. Sempre teve. Se eu me levanto da cama, você percebe. Se alguém mexe na porta, você desperta. Naquela noite houve movimentação. Barulho. Confronto. — Minha voz baixou. — E você não acordou.

Ela engoliu seco. Instintivamente, levou a mão até a barriga.

— Isso pode ter afetado o bebê?

Essa era a pergunta que eu estava evitando desde que saí do escritório do advogado.

— Eu não sei — fui honesto. — E é exatamente por isso que precisamos investigar.

Ela respirou mais fundo, tentando organizar o pensamento.

— Esses exames detectam qualquer coisa?

— Detectam muita coisa. O painel toxicológico padrão identifica as substâncias mais comuns: sedativos, benzodiazepínicos, opioides, estimulantes. Se houver algo fora do básico, o laboratório pode ampliar a análise. Mas isso depende de solicitação médica.

Ela absorveu aquilo em silêncio.

— E demora?

— Costuma sair em dois ou três dias. Se precisar de confirmação por método mais específico, pode levar mais. Às vezes, uma semana.

Ela ficou me olhando.

— Você já falou com algum médico?

— Ainda não. Meu advogado me deu essa orientação. Quero que você marque com seu obstetra. Ele pode solicitar o painel completo justificando como precaução na gestação. Quanto mais cedo colher, melhor.

Ela cruzou os braços.

— Você suspeita de alguém.

Eu medi cada palavra.

— Existe uma possibilidade que eu preciso descartar.

— Quem?

— Eu não posso falar isso agora.

Ela se levantou da poltrona.

— Ricardo, você está me pedindo um exame toxicológico estando grávida … e não quer me dizer por quê?

Eu me levantei também.

— Porque se eu estiver errado, eu destruo relações. E se eu estiver certo, eu preciso ter a prova antes de qualquer acusação.

O silêncio ficou pesado entre nós. Ela me analisava.

— Isso tem a ver com o Bruno, né?

Meu maxilar tensionou, mas minha resposta veio controlada.

— Tem a ver com “aquela noite”.

Ela percebeu que eu estava escolhendo cada palavra.

— Você quer sigilo, não quer?

— Absoluto.

— De quem?

— De todo mundo. Dos meus pais, amigos, pessoal do trabalho …

Ela hesitou.

— E dele também.

Eu sustentei o olhar que ela me deu.

— Principalmente dele — o nome não precisou ser repetido.

Ela respirou fundo.

— Se alguém fez alguma coisa comigo, essa pessoa pode perceber que estamos investigando.

— Exatamente.

Ela ficou em silêncio por longos segundos. O medo estava ali, mas não era pânico. Era processamento.

— E se não der nada?

— Ótimo. Eu vou dormir melhor.

— E se der?

Eu demorei meio segundo.

— Então a gente muda a forma de lidar com tudo isso.

Eu precisava que ela concordasse logo, então, apelei:

— Você confia em mim?

— Confio. Claro que confio.

— Estou tentando proteger você. E o nosso bebê.

Ela fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia decisão.

— Eu marco amanhã cedo. Falo com o obstetra e peço os exames.

Eu assenti.

— Quanto menos gente souber, melhor.

Ela concordou. E naquele momento eu percebi que o que estava em jogo não era só um processo criminal. Era a segurança da minha esposa e do meu filho.

Não tivemos tempo de dizer mais nada. A chave girou na porta. Meus pais tinham chegado. Minha mãe entrou primeiro, falando alto sobre o trânsito, sobre a fila do mercado, sobre uma receita nova que queria testar. Meu pai vinha logo atrás, carregando sacolas. Ela nos viu na sala e abriu um sorriso.

— Meu netinho … — ela disse, já pousando a mão na barriga de Mariana, como se o mundo estivesse perfeitamente no lugar.

Minha mãe é dessas pessoas positivas, que acreditam que tudo se resolve quando a gente não desiste. Eu ainda respondia judicialmente por um crime, mas o fato de estar em casa já era o suficiente para ela mudar a prioridade das coisas e passar a tratar a gravidez da Mariana como o tema mais importante do momento. Ela já se chamava de "vovó" em todas as frases. Vovó isso … Vovó aquilo ... Vovó vai comprar isso para o bebê. Vovó já escolheu até apelido.

Mariana sorriu. Um sorriso contido, mas sincero. Eu tentei acompanhar o clima. Minha mãe foi para a cozinha cantarolando enquanto começava o jantar. Um hábito antigo. Sempre que estava feliz, ela cantava.

A casa parecia normal. Normal demais. Jantamos todos juntos naquela noite. Conversa leve. Meu pai comentando notícias, minha mãe falando sobre o enxoval que queria montar antes mesmo do segundo trimestre … Mariana quase não tocou na comida, mas ninguém percebeu. Ou fingiu não perceber.

Depois do jantar, ela disse que estava cansada e foi para o quarto. Eu a acompanhei. Ela se deitou de lado, a mão repousando sobre a barriga.

— Vai dar tudo certo … — ela murmurou, já com a voz embargada pelo sono.

E, como se o corpo tivesse desligado um interruptor invisível, adormeceu em poucos minutos. Eu fiquei ali, sentado na beira da cama, observando a respiração dela. E sempre que eu ficava sozinho com meus pensamentos, as lembranças voltavam com força. Não como imagens soltas, mas como cenas completas. Detalhadas. Cruéis. E naquela noite, elas vieram outra vez.

{…}

7 anos atrás

Depois daquela noite — do sexo que nós dois queríamos e da conversa mais honesta que já tivemos — nada voltou exatamente ao lugar. Não voltamos a dividir o mesmo quarto na casa dos meus pais, mas encontramos alguma coisa perdida um no outro.

Não era reconciliação. Não era recomeço. Era algo diferente. Não era só desejo. Era necessidade. Era cansaço acumulado encontrando abrigo. Quando estávamos com vontade, transávamos. Um procurava o outro. Não era marcado, coordenado em agenda. Quando a vontade aparecia, nós nos permitíamos viver o momento.

A possibilidade de irmos juntos a uma festa liberal — o pedido dela para que eu conhecesse aquele mundo antes de julgá-lo com tanta certeza — realmente me fez parar e pensar com mais clareza. Não como marido traidor/traído. Mas como indivíduo.

Eu não disse não. Mas também não disse sim.

Minha mãe estava reaprendendo a andar. Reaprendendo a segurar um copo sem tremer. Reaprendendo a concluir frases sem se perder no meio. Aquilo era prioridade. E Mariana percebeu. Ela sempre percebia.

— A gente não precisa decidir nada agora — ela disse naquela madrugada, deitada no meu peito.

Eu me agarrei àquela frase como quem ganha tempo. Porque era exatamente o que eu queria, o que eu precisava. Tempo.

Os dias seguintes foram de rotina intensa. Fisioterapia pela manhã, exercícios de coordenação à tarde, consultas, medicamentos e ajustes na alimentação. Mariana virou o eixo da casa enquanto eu e meu pai precisávamos trabalhar para pagar as contas. Ela administrava horários, controlava remédios e organizava consultas melhor do que qualquer enfermeira poderia fazer.

Eu via o esforço dela. E talvez por isso eu evitasse tocar no assunto da festa. Evitar era mais fácil do que admitir que uma parte de mim estava curiosa, e outra parte estava com medo.

Duas semanas viraram um mês. Um mês virou dois. O tema simplesmente desapareceu das nossas conversas. Não por resolução, mas por omissão. Não sei se Mariana começou a ter esperanças de que tudo voltaria ao normal, que iríamos reatar o casamento de vez. Mas a verdade é que as visitas do Bruno diminuíram muito. E nas poucas vezes em que ele aparecia, Mariana se mantinha mais distante. Até se vestia de forma mais discreta quando ele estava por perto.

Ou talvez o afastamento dele não tivesse nada a ver com ela. Eu continuei fingindo que ele não existia, não dando espaço para qualquer aproximação. Talvez ele mesmo tivesse entendido o recado.

Minha mãe começou a evoluir melhor do que os médicos previram. A fala ficou mais clara, os passos, mais firmes. Já conseguia andar pequenos trechos sem apoio. Meu pai voltou a dormir melhor. A casa começou a respirar de novo.

E foi naquele momento que a realidade bateu. A licença não remunerada de três meses da Mariana estava terminando. Não havia mais justificativa formal para prorrogar. Minha mãe estava estável, assistida e em recuperação consistente.

— Eu preciso voltar — ela disse numa manhã, enquanto organizava os comprimidos do dia.

Eu sabia que aquele momento chegaria. Mas ouvir aquilo em voz alta fez algo se deslocar dentro de mim. Voltar significava sair dali. Significava menos proximidade. Menos noites dividindo o que quer que a gente estivesse cultivando naquele momento.

— Três meses, né? Acho que você precisa voltar para a sua vida — eu disse, mais resmungando do que afirmando.

Ela me olhou como se aquela constatação fosse injusta.

— Eu preciso mesmo. Minha poupança está zerada.

Não era sobre querer. Era sobre identidade. Mariana não era só cuidadora. Não era só esposa. Ela tinha carreira, projetos, vida própria. Eu concordei.

— Minha mãe já está melhor.

— Está — ela sorriu. — Melhor do que esperavam.

Havia orgulho na voz dela. Mas também havia algo mais: talvez a percepção de que aquele período intenso — e confuso — estava terminando. E quando algo intenso termina, as decisões adiadas voltam à superfície. Eu sabia. Ela sabia. Mas nenhum dos dois queria dar o braço a torcer, pedir para o outro ficar ou para voltar para casa juntos.

— Volto para o nosso apartamento amanhã. Acho que ele precisa de uma bela faxina — ela disse, sorrindo.

E foi naquele sorriso que eu percebi um sentimento de perda que nunca tinha sentido antes. Em breve, a vida que a gente tinha evitado decidir ia cobrar resposta.

No dia seguinte, quando ela voltou para o nosso apartamento, eu não voltei com ela. Não ainda.

Nos primeiros dias, a rotina dela se reorganizou rápido. Saía cedo, voltava do trabalho no fim da tarde. Passava na casa dos meus pais quase todos os dias. Ajudava minha mãe com os remédios da noite, conversava com meu pai, organizava alguma coisa na cozinha. Depois seguia para o nosso apartamento.

Eu sabia o caminho. Conhecia os horários. E eu tinha tempo: poucos casos novos, alguns relatórios atrasados. Nada que ocupasse minha mente o suficiente. Na segunda semana, eu fiz o que qualquer detetive faria: comecei a investigar. Primeiro de longe, sem abordagem ou confronto. Só padrão.

Mariana saía do trabalho às 17h40. Pegava o carro. Parava na casa dos meus pais às 18h10. Ficava cerca de quarenta minutos. Saía sozinha. Sempre sozinha. Depois seguia para o apartamento. Nenhum desvio. Nenhuma parada estranha, a não ser mercado, farmácia ou uma lanchonete vez ou outra. Sempre coisa rápida.

Naquela semana, eu a segui duas vezes. Na segunda, três. Na terceira, parei de contar. Como morávamos num andar não tão alto, e meu equipamento era de alta qualidade, não era difícil conseguir imagens através das janelas.

O resultado era sempre o mesmo: ela chegava em casa, cozinhava, tomava banho, mexia no celular, assistia televisão. Às vezes dormia no sofá. Nenhuma mensagem suspeita. Nenhum encontro. Nenhum Bruno, nenhuma Lívia, nenhuma festa. Nada. Absolutamente nada.

E, estranhamente, aquilo não me tranquilizava. Me desarmava. Continuei observando. Não como marido, mas como profissional — eu dizia aquilo para mim mesmo.

Na quarta semana, resolvi ser mais minucioso. Estacionei do outro lado da rua, duas casas antes do prédio. Carro alugado, vidros escuros, motor desligado. Distância segura. Ela entrou no apartamento às 19h07. Luzes acesas na sala. Movimento na cozinha. Silhueta passando pela janela. Às 19h38, a luz da sala apagou. Às 19h45, a do quarto também.

Silêncio. Eu esperei. Cinco minutos, dez, quinze. Nenhuma movimentação. Peguei o celular e ampliei a câmera. Nada. Talvez eu estivesse exagerando.

Talvez ... TOC, TOC.

Quase dei um pulo no banco, derramando o café sobre as calças. Alguém bateu no vidro do meu carro. Virei o rosto devagar. Mariana estava ali. Braços cruzados, sobrancelha arqueada.

Eu destravei a porta antes que alguém da vizinhança começasse a reparar na cena. Ela entrou no banco do passageiro sem pedir permissão.

— Boa noite, investigador — disse ela, fechando a porta com calma.

Eu respirei fundo.

— O que você está fazendo aqui fora?

Ela inclinou a cabeça.

— Eu poderia te perguntar a mesma coisa.

Silêncio. Ela olhou para o painel do carro, depois para mim.

— Terceira vez esta semana.

Eu não disse nada.

— Você acha mesmo que eu não ia perceber um carro parado sempre no mesmo lugar? Com o mesmo motorista fingindo que olha o celular? Sou casada com um investigador particular, sabia? Ele me ensinou uma coisa ou outra …

Eu passei a mão pelo rosto.

— Mariana …

Ela suspirou.

— Eu desliguei as luzes porque sabia que você estava esperando alguma coisa acontecer. — Ela quase sorriu. — E aí eu desci pela escada, e saí pelo estacionamento.

Eu a encarei.

— Você me enganou.

— Não — ela deu de ombros. — Só confirmei que você estava me investigando.

A vergonha fez meu rosto corar.

— Eu só estava …

— Trabalhando? — Ela segurava o riso. — Relaxa. Se fosse outro homem, eu estaria preocupada. Mas você é previsível demais quando está inseguro.

Eu fiquei em silêncio. Ela apoiou a mão na minha perna.

— Eu estou indo do trabalho para a casa dos seus pais, e depois para o nosso apartamento. Não tem mistério — ela me encarou, divertida. — Se você quer voltar para casa, Ricardo, volta. — Sem drama, sem acusação. Só a verdade. — Mas para de me seguir como se eu fosse um caso aberto.

Ela abriu a porta. Mas antes de sair, olhou para mim de novo, segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou delicadamente. Apenas um selinho.

— Vou fazer lasanha amanhã. A sua preferida, quatro queijos.

Ela apenas saiu, me deixando sozinho no carro. Senti-me mais ridículo do que desconfiado. Ela ainda estava do lado de fora do carro quando eu saí e dei a volta. Ficamos encostados na lateral, a rua quase vazia, a luz amarelada do poste criando sombras longas no asfalto.

— Você me seguiu por quase um mês — ela disse, sem acusação na voz. Só constatação.

— Eu precisava ter certeza.

— Certeza de quê?

Eu não respondi. Ela respirou fundo.

— Na minha cabeça existe um acordo tácito entre a gente, sabia? — ela continuou.

Eu franzi a testa.

— Que acordo?

— Você não disse "não" para a festa. Para o meu convite.

— Mas também não disse, sim — retruquei.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Acho que você tem medo de descobrir que o mundo liberal não é o bicho de sete cabeças que você imagina.

Eu abri a boca para retrucar, mas ela foi mais rápida.

— Eu sei que você ainda se preocupa. Sei que você não desistiu completamente de mim, do nosso casamento. — O silêncio ficou mais denso. — O que a gente viveu nesses três meses na casa dos seus pais não foi casual. Não foi só carência. Você ainda me deseja, Ricardo. — Ela não falou aquilo como provocação; falou como verdade. — E você ainda é meu marido.

Minha mandíbula travou.

— Eu não vou jogar fora a nossa chance de reconciliação porque eu não consigo manter as pernas fechadas — ela disse, firme. — Você é mais importante para mim do que imagina.

Aquilo me atingiu num lugar desconfortável.

— E é exatamente por isso que eu quero que você conheça o mundo que eu escolhi. Não para me agradar, mas para entender. Eu acredito que você vai se surpreender.

Eu finalmente consegui falar:

— Você está me vendendo um paraíso perfeito. Um lugar de …

— Não existe lugar perfeito no mundo, Ricardo — ela interrompeu. — Existe lugar onde a gente se encaixa. Onde a gente se sente em casa. — Ela tocou o próprio peito. — É assim que eu me sinto.

Eu respirei fundo.

— E você acha que eu vou me sentir assim também?

Ela hesitou pela primeira vez.

— Eu acho que você vai entender que não tem a ver só com sexo.

— Mas tem a ver com sexo. É disso que se trata.

Ela sorriu, quase uma gargalhada.

— Tem, mas não totalmente — seu olhar ficou mais sério. — Tem a ver com escolha. Com autonomia. Com não viver escondendo partes de quem você é.

Eu fiquei em silêncio. Ela continuou:

— Você não disse que me traiu porque se sentiu desejado? Que aquela mulher te fez se sentir especial? Visto?

Eu desviei o olhar.

— Nesse mundo, você vai encontrar tudo isso. Mas sem mentira. Sem enganação. Sem esconderijo.

— E sem consequências? — perguntei.

— Sempre tem consequências — ela respondeu, tranquila. — A diferença é que lá elas são assumidas.

O vento passou entre nós.

— Eu não estou tentando te arrastar para nada. Eu só quero que você veja antes de condenar — ela deu alguns passos, abriu a porta do prédio e depois parou. — E para de me investigar como se eu fosse uma suspeita — deu-me um meio sorriso. — Eu não quero mais nada escondido entre nós. Dá trabalho demais.

Ela entrou. E eu fiquei ali, parado, com a sensação desconfortável de que talvez ela estivesse certa sobre mais coisas do que eu gostaria de admitir.

Na noite seguinte, eu apareci. Ela abriu a porta com o cabelo preso de qualquer jeito e o cheiro de queijo gratinado espalhado pelo apartamento. Ela sorriu, nem um pouco surpresa, como se já soubesse que eu viria.

— Achei que você fosse fingir que não ouviu o convite …

— Eu não fujo de comida — respondi, tentando parecer casual.

Ela sorriu e pegou no meu braço, levando-me para a mesa. Jantamos primeiro. Falamos do trabalho dela, da evolução da minha mãe, de banalidades necessárias. Mas o assunto estava ali, sentado à mesa com a gente. Quando terminei de comer, larguei o garfo.

— Me explica exatamente o que você quer de mim.

Ela não fingiu não entender.

— Eu quero meu marido de volta em casa — a resposta veio simples, sem rodeios.

Aquilo me desmontou mais do que qualquer provocação teria feito.

— Mas … — ela continuou — eu também quero que você esteja disposto a entender a pessoa que eu descobri que sou.

Silêncio.

— Que pessoa é essa? — perguntei.

Ela pensou antes de responder.

— Uma mulher que não quer viver com medo do próprio desejo. Que não quer fingir que curiosidade é pecado. Que não quer dividir a vida em compartimentos secretos.

Eu apoiei os cotovelos na mesa.

— E isso exige uma festa liberal?

— Não — ela foi firme. — Mas foi lá que eu entendi coisas sobre mim.

— Tipo?

— Que eu não sou menos esposa por sentir desejo por outras pessoas. Que eu consigo separar sexo de vínculo. Que eu não quero te enganar para viver isso.

Eu senti a tensão subir.

— Você acha mesmo que é simples assim? Que é fácil separar?

— Para mim, é.

— E se você se envolver?

Ela sustentou meu olhar.

— Envolver como?

— Gostar de alguém.

Ela respirou fundo.

— Eu gosto de pessoas o tempo todo. Colegas de trabalho, amigos. Você também gosta. Isso não significa que eu vá abandonar meu casamento.

— Não é a mesma coisa.

— Não, não é. Mas também não é o apocalipse que você imagina.

Eu me levantei e fui até a janela.

— Você está me pedindo para aceitar que minha esposa vá para um lugar onde outros homens vão desejá-la.

Ela não hesitou.

— Eles já desejam.

Aquilo me fez virar na hora.

— A diferença é que lá ninguém finge que não está acontecendo — ela completou. Levantando-se também. — Eu não quero um passe livre. Não quero viver isso sozinha. Eu quero que você vá comigo. Que veja. Que entenda antes de decidir que é errado.

— E se eu não gostar?

— Então a gente conversa e vê o que faz depois.

— E se eu gostar?

Ela sorriu de leve.

— Então você vai entender que não é um paraíso perfeito. É só um ambiente onde as regras são claras. E que valem para os dois.

Eu passei a mão pelo cabelo.

— Você está me dizendo que não tem a ver só com sexo e que eu também posso transar com quem quiser?

— Não tem — ela se aproximou. — Tem a ver com escolha. Com autonomia. Com não viver escondendo partes de quem eu sou — ela tocou meu peito. — E sim, você pode viver o mesmo, por quem se sentir atraído e a pessoa quiser o mesmo.

Ela acariciou meu rosto.

— Eu não quero perder você. Mas também não quero perder a mim mesma.

Aquilo ficou entre nós como uma linha traçada no chão. Eu a olhei por alguns segundos.

— Você quer o marido de volta, mas não o mesmo marido …

— Eu quero você inteiro. Não um homem ressentido vivendo de controle.

A palavra “controle” pesou.

— Eu não estou tentando te empurrar para nada — ela suavizou o tom. — Eu só quero que você veja antes de decidir que é impossível.

Eu fiquei em silêncio. Ela também. O apartamento estava quieto demais.

— Você ainda me ama mesmo? — perguntei.

Ela não piscou.

— Amo.

— Mesmo querendo isso?

— Justamente por amar, eu estou sendo honesta.

Aquilo não era sedução. Era convicção. E era o que mais me desarmava. Eu puxei a cadeira e me sentei novamente.

— Ainda existe muita coisa obscura para mim nas suas atitudes. Eu não sei se …

— Então pergunta — ela me interrompeu, firme. — O que você quer saber? Qualquer coisa. Qualquer dúvida. Agora é a hora de a gente colocar tudo em pratos limpos.

Ela abriu as mãos sobre a mesa. Eu me ajeitei na cadeira e respirei fundo.

— Nossa primeira viagem juntos para a praia. Lembra?

Ela assentiu, cautelosa.

— O que aconteceu naquela noite em que eu apaguei e você entrou no quarto de madrugada?

O rosto dela mudou.

— Ricardo …

— Quanto tempo você ficou com o Bruno e a Lívia na sala? — continuei. — Aconteceu alguma coisa entre vocês?

Ela piscou, incrédula.

— Quando a Lívia me deu aquele remédio … eu não sei … — minha voz ficou mais tensa do que eu gostaria. — Às vezes eu penso que ela me dopou. Que era para me tirar da jogada, para não atrapalhar o que quer que estivesse acontecendo entre vocês.

Mariana se levantou tão rápido que a cadeira raspou no chão.

— Ricardo … você só pode estar …

— Não, Mariana! — cortei. — Eu estou falando sério.

O silêncio ficou pesado.

— Antes era só uma suspeita. Uma coisa incômoda que eu empurrava para o fundo da cabeça. Mas depois que você confessou que tinha um passado com o Bruno … que você era um plano “B” dele … — passei a mão pelo rosto. — Isso não sai mais da minha cabeça.

Ela me olhava como se eu tivesse acabado de acusá-la de um crime.

— Você está me dizendo que acha que eu participei de alguma armação para te dopar? — A voz dela saiu baixa, controlada demais.

— Eu estou dizendo que não entendo tudo o que aconteceu naquela vez.

— Acho que você bebeu demais naquela noite … teve insolação … algo assim. Foi há tanto tempo …

— Eu nunca apaguei daquele jeito. E acordei sem você na cama, entrando de fininho no quarto …

Ela respirou fundo.

— Eu saí porque você estava roncando e eu não conseguia dormir.

— E ficou quanto tempo lá fora?

— Uns vinte minutos.

— Só isso?

— Só isso.

Eu sustentei o olhar.

— Nada aconteceu?

Ela deu um passo para trás, ofendida.

— Você realmente acha que eu transaria com outro homem enquanto você estivesse apagado no quarto ao lado?

Eu não respondi. E aquilo foi resposta suficiente. Ela riu, um riso sem humor.

— Meu Deus, Ricardo … Você transformou aquela noite numa teoria de conspiração.

— Você não me contou que tinha sido plano “B” do Bruno …

— Porque, naquela época, eu tinha vergonha! — disparou. — Porque eu não queria que você me visse como a mulher que aceitava migalha emocional.

A tensão cresceu.

— Eu nunca encostei no Bruno naquela viagem. Nunca encostei na Lívia. Nunca fiz nada às escondidas — ela apontou para mim. — Se eu quisesse trair você, eu teria feito antes. Muito antes.

Aquilo ficou no ar.

— Eu não te doparia e nem permitiria que ninguém te dopasse. Eu não preciso te tirar da jogada para viver nada — ela respirava mais rápido agora. — O que eu quero é que você esteja consciente. Presente. Escolhendo. Naquela época, eu ainda não conhecia nada do que vivo hoje.

Silêncio. Eu estava tenso por fora. Mas por dentro a dúvida não era sobre o que ela fez, era sobre o que eu temia que ela fosse capaz de fazer.

— Você acha que eu sou capaz disso? — perguntou.

Eu demorei para responder.

— Eu não sei mais do que você é capaz.

Aquilo a atingiu. Ela ficou imóvel por alguns segundos.

— Talvez o problema não seja o mundo liberal, Ricardo — a voz dela saiu mais baixa. — Talvez o problema seja que você não confia em mim.

Eu respirei fundo.

— Esse é o problema, Mariana. Eu acho que não confio mesmo — a frase saiu mais pesada do que eu imaginava.

Ela ficou me encarando, incrédula. Depois começou a andar de um lado para o outro na cozinha, passando a mão pelo próprio braço, como se estivesse tentando se conter.

— Você está ouvindo o que está dizendo? — ela perguntou, sem me encarar.

— Estou.

— Depois de tudo?

— Justamente por causa de tudo.

Ela parou. Eu continuei:

— E na chácara? Quando a gente brigou de vez, lembra? Eu peguei o Bruno e a Lívia no pomar. — Ela fechou os olhos por um instante. — As coisas que eles disseram … — minha voz endureceu — as coisas que você mesma confirmou depois.

Ela abriu os olhos devagar.

— Eu só fui honesta, Ricardo.

— Honesta? — minha voz subiu um tom, a corda finalmente arrebentando. — Você foi honesta sobre ter ido para a cama com eles, Mariana. Mas você nunca foi honesta sobre o nível de sujeira que vocês falavam de mim pelas costas.

Ela franziu a testa, a indignação surgindo no olhar.

— Sujeira? Ricardo, do que você está falando? Eu errei, eu me envolvi com eles, mas eu nunca te desrespeitei em palavras!

— Ah, não? — levantei-me, a raiva transbordando. — Eu ouvi, Mariana! No pomar da chácara. Eu estava lá, escondido, ouvindo o Bruno e a Lívia. Eu ouvi o Bruno te chamando de "minha putinha". Ele disse para a Lívia que você adorava uma safadeza, que foderia com dois, três ou quatro se deixassem. E o pior ... a Lívia disse que você tinha prometido que logo eu ia me juntar ao grupo. Que eu era um "tapado" e um "soca fofo" que não dava conta de você, e por isso ele estava fazendo o trabalho que eu não sabia fazer.

Fui além:

— E quando eu te levei para o quarto, quando tirei sua roupa para te dar banho, eu vi, Mariana … as marcas na sua coxa, uma mão marcada, ainda vermelha na sua bunda …

O rosto da Mariana perdeu a cor, mas não de culpa. Foi uma palidez de choque que rapidamente se transformou em uma fúria que eu nunca tinha visto. Ela se levantou tão rápido que a mesa chegou a balançar.

— Ele disse … Você viu … o quê? — a voz dela saiu tremida, furiosa.

— Ele riu de mim, Mariana. Disse que precisava pegar na minha mão para me ensinar a te foder. Que você era "puta no sentido literal". Eu ouvi isso da boca dele.

Mariana soltou um grito de frustração e bateu com as duas mãos na mesa, um estalo seco que ecoou pelo apartamento.

— Aquele canalha! Aquele filho da puta sádico! — Ela começou a andar com força, passando a mão no cabelo. — Ricardo, olha para mim! Eu me deitei com eles? Sim. Eu vivi coisas com a Lívia e com ele? Vivi! Mas eu nunca, em momento nenhum da minha vida, abri a minha boca para falar mal de você ou da nossa intimidade!

Ela parou na minha frente, os olhos brilhando de ódio.

— Eu nunca disse que você era … como é? "Soca fofo". Eu nunca prometi que você ia entrar em nada! — Ela estava realmente surpresa e com raiva. — Desgraçado! Ele estava me doutrinando, Ricardo! Estava cavando um buraco entre nós, enquanto me usava! — Ela deu um passo para cima de mim, apontando o dedo no meu peito. — Você não percebe? Ele sabia que você estava lá! O Bruno é um manipulador nato. Ele não estava tendo uma conversa íntima com a Lívia; ele estava encenando uma peça de teatro para o único espectador que importava: você.

— Mariana, as palavras foram muito específicas ...

— Porque ele queria nos destruir, Ricardo! — ela gritou, e as lágrimas de indignação finalmente caíram. — Ele transformou o que eu fiz por raiva e vingança, que já era algo sujo, em uma situação para te humilhar. — Ela respirava rápido, possessa. — Ele te convenceu de que eu não te respeitava para que você parasse de me ver como sua mulher e passasse a me ver como um objeto dele! Ele me usou, Ricardo. Ele nos jogou um contra o outro e você acreditou na versão dele!

Ela se encostou na parede, o peito subindo e descendo com dificuldade.

— Eu posso ter sido traidora, eu posso ter sido vingativa, mas eu nunca fui essa pessoa que você ouviu no pomar. Esse "acordo" para te convencer? Nunca existiu da minha parte. O Bruno estava jogando o jogo dele, e eu, na minha imensa burrice de querer te ferir, acabei entregando a munição que ele precisava para te aniquilar.

O rosto da Mariana estava transfigurado. Ela estendeu a mão na minha direção, a palma aberta, num gesto mudo para eu me calar.

— Fica quieto. Não diz um “piu”. Eu tenho uma ideia — ela sussurrou, a voz fria como gelo.

Ela pegou o celular sobre a mesa, buscou o contato e colocou no viva-voz. Chamou duas vezes.

— Oi, Mari! — A voz da Lívia veio clara e animada.

— Oi, Lívia! Amiga, desculpa ligar assim ... Eu estava aqui sem sono e comecei a rever umas fotos daquela nossa viagem para a praia, onde a gente se conheceu. Lembra?

— Ai, é verdade! — Lívia riu. — Foi uma semana bem legal. Naquela época a gente era bem diferente, né? Você ainda toda medrosa, nem fazia ideia de que ia se transformar nessa mulher mais ... livre.

Mariana me deu um sorriso irônico, um sorriso que não chegava aos olhos.

— Pois é, eu era muito bobona. Lembrei daquela noite na sala ... a sua calcinha girando no ventilador e eu lá, no canto, com cara de susto. Se fosse hoje, Lívia, eu não teria ficado só olhando. Teria me juntado a você e ao Bruno sem pensar duas vezes.

— Mas agora você sabe aproveitar a vida, né, amiga? — Lívia respondeu, relaxando na conversa. — Sabe que certas coisas não precisam de rótulos. E o Ricardo? Já fez as pazes com ele?

Mariana soltou um suspiro de tédio, perfeitamente encenado.

— O Ricardo está um porre, Lívia. Insuportável. Ele cismou com aquela tarde na chácara, sabe? A tarde que a gente saiu sem dar satisfação. Ele colocou na cabeça que a gente fez uma "festinha" particular quando saímos naquela tarde. Que minha bunda e minhas coxas estavam com marcas …

Lívia soltou um suspiro de deboche do outro lado.

— Ai, Mari, o Ricardo é tão previsível. Ele precisa dessas fantasias dramáticas para justificar o fracasso dele como marido. Que "festinha"? A gente só queria te tirar de perto daquela energia pesada dele. Sei que acabamos ficando tempo demais, é isso não foi certo com você, pois prometemos que seria rápido…

— Tem isso também, amiga. Outra coisa que ele fica jogando na minha cara. — Mariana já está a com a fisionomia menos tensa.

— Naquele dia, a gente nem encostou em você, mulher! só fomos dar uma volta e rir do quanto ele é paranoico. — Lívia se divertia. — Bom, a marca na bunda é verdadeira. Lembra daquele tapão que eu te dei? Culpa sua, que puxou meu cabelo, bêbada.

Mariana manteve a voz baixa, instigando o veneno da Lívia.

— Pois é, mas na cabeça dele … diz que o Bruno falou isso, falou aquilo ... Ele está criando uma novela inteira na própria cabeça.

— O Bruno adora isso! — Lívia deu uma gargalhada genuína, cheia de escárnio. — Você conhece o Bruno, Mari. Ele sabe exatamente como cutucar o Ricardo. Se o seu marido "ouviu" alguma coisa, foi porque o Bruno quis que ele ouvisse. Mas ele também falou poucas e boas para a gente depois que te colocou para dormir naquele dia. O Bruno adora ver o Ricardo espumando de raiva, é o esporte preferido dele. O Bruno não tem plano nenhum, ele só gosta de provar que consegue desestabilizar o seu marido com meia dúzia de palavras. Se o Ricardo quer acreditar que houve uma grande putaria naquele dia, azar o dele. O problema é do ego ferido dele. A gente só saiu para conversar e ele caiu feito um patinho na provocação do Bruno.

Mariana olhou fixamente para mim. O choque no meu rosto deve ter sido evidente.

— É ... você tem razão. O Bruno sabe ser cruel quando quer. Vou desligar agora, amiga. Me levanto cedo amanhã. Boa noite! Beijo.

— Beijo, Mari! Bom descanso.

Mariana desligou o celular e o jogou sobre a mesa. O silêncio que se seguiu no apartamento era tão pesado que parecia físico.

— Ouviu? — Ela perguntou, a voz agora cortante como uma lâmina. — Ouviu a sua "prova"? Naquela tarde, o Bruno estava encenando para você, Ricardo. Ele me usou, me enganou. Ah! Como eu sou idiota … — Mariana não conseguia segurar as lágrimas novamente. — Ele já tinha a gente na palma da mão. Ele sabia exatamente quais botões apertar para você sentir nojo de mim e se sentir um lixo como homem. E você, o grande investigador imbatível ... foi o melhor público que ele já teve.

Eu tentei falar, mas a voz travou. O que se diz a uma mulher que você passou meses odiando por uma frase que ela nunca disse?

— Mariana ... — comecei, mas ela me cortou com um gesto.

— Não diz nada, Ricardo. Ainda não. — Ela se sentou devagar, as mãos trêmulas apoiadas nos joelhos. — Eu passei esse tempo todo achando que tinha tomado as rédeas da minha vida. Achei que, ao me envolver com eles, eu estava dando o troco na sua traição. Que eu estava sendo "livre".

Ela levantou os olhos para mim, e havia uma lucidez dolorosa neles.

— Eu fiquei destruída com o que você fez com aquela mulher, Ricardo. Aquilo quebrou algo em mim que eu não sabia como consertar. E o Bruno ... ele apareceu com o conserto pronto. Ele me validou, me instigou, me fez acreditar que essa "liberdade" era a única resposta para a minha dor.

Ela soltou uma risada amarga, olhando para o celular sobre a mesa.

— E só agora, ouvindo a Lívia falar com esse desprezo, é que eu percebi. Eu não fui livre em momento nenhum. Eu só troquei de dono. Eu virei uma marionete nas mãos do Bruno de novo, exatamente como eu era no passado, antes de você aparecer. Ele usou a minha mágoa contra você, e usou o seu orgulho contra mim.

Eu me aproximei e, pela primeira vez desde que tudo explodiu, não havia a barreira do nojo entre nós.

— Ele destruiu o que restava da nossa confiança para poder reinar sobre os destroços — eu disse, a voz baixa. — Ele sabia que, enquanto a gente estivesse ocupado se odiando, você estaria cada vez mais perto dele e longe de mim.

Mariana se levantou e parou na minha frente. O rosto ainda estava marcado pelas lágrimas, mas o olhar era de aço.

— Ele acha que nos conhece perfeitamente. Ele acha que você ainda é o marido cego pela paranoia e que eu sou a esposa ferida e manipulável que ele pode usar como quiser.

Ela segurou minha mão. O toque era frio, mas firme.

— Ele quer nos destruir? Então vamos deixar que ele pense que conseguiu.

— O quê? — perguntei.

— Volta pra casa. Mas não vamos contar para ninguém que essa conversa aconteceu. Deixe o Bruno e a Lívia pensarem que a gente voltou por conveniência, por cansaço, ou porque você apenas "aceitou" o inevitável.

Eu entendi na hora. A melhor forma de desarmar um manipulador é deixá-lo acreditar que ele ainda tem o controle.

— Uma frente unida — eu murmurei.

— Uma frente unida — ela confirmou. — Pela nossa história, Ricardo. E para devolver com juros o que eles nos fizeram.

Olhei para Mariana e vi, novamente, a mulher que eu amava emergindo debaixo de camadas de ressentimento. O jogo do Bruno era de dividir para conquistar. O nosso, a partir daquele momento, seria o de fingir a derrota para entender onde ele pretendia chegar.

Continua …

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Comentários

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Eu tenho a impressão que essa estratégia do Lukinha de narrar o tempo atual (Ricardo preso e iniciando a investigação) é várias passagens passadas (em diversas linhas de tempo) estão causando uma certa confusão mental !!!

E, acredito que isso seja proposital.

Acredito também que vários leitores já fizeram o seu julgamento dos persongens. Mesmo a história ainda acontecendo e sendo divulgada. Cada nova informação, parece que a “teoria da conspiração” continua valendo. Não importando as informações descritas na história.

Mas, tudo isso faz parte de uma história que intriga e confunde.

Parabéns Lukinha.

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Muito bom. O Ricardo como investigador deveria atentar para um prova técnica sempre utilizada nos processos penais, a localização de seu próprio celular no momento do crime.

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Pelo visto esse investigador é bem dos xinfrim...

A mulher percebe ele, o "amigo" percebe ele. O desafeto do passado arma pra ele.

Todo mundo ferra com ele.

Lembra uma cena de um besteirol antigo, acho que chama História do Mundo. Tem uma cena de um jogo de xadrex: cavalo come a rainha, peão come a rainha, bispo come a rainha, todo mundo come a rainha!

Aqui todo mundo fode o Ricardo.

E ele fica.

Acho que gosta.

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Uma coisa que me intrigou na coerência dos personagens... ela diz pra voltarem para que possam "devolver com juros o que eles nos fizeram". Mas no seu capítulo anterior quando confrontada ela não disse que nunca foi manipulado e todo passo e decisão dela foi porque ela estava consciente e quis? Ta confuso.

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Eu achei que este capítulo, tentando limpar a barra de Mariana, entra em conflito com os capítulos anteriores, pois quado os dois revelam as traições, e Ricardo expõe o que viu e ouviu de Bruno e Lívia, a Mariana não nega mas reafirma, agora neste capítulo ela diz que não foi verdade o que disseram.

🤔🤔🤔🤔

Está confuso e conflitante!

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As no capítulo que ele a confronta ele foi panaca e não falou de como eles debocharam dele.

Só falou que a Mariana foi putinha dos dois. Isso ela não negou nem antes nem agora

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Hugo, nenhum dos dois refutou a traição. Cada um com os seus motivos, justos ou injustos.

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Aí eu acho que entendi.

Ela achava que não tinha sido manipulada.

Mas como todo manipulado, não percebeu a manipulação.

A menos....

Que seja tudo encenação.

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Será que é mais uma armação para cima do Ricardo?

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Rapaz... não existe personagem mais virtuosa que vc já tenha escrevendo do que a Mariana. Primeiro, uma vítima social que se apaixona por um carrasco e que se submete a ele. Segundo uma mulher feriada traída pelo marido, coitada, traída pela pessoa que confiou. Terceiro, uma mulher vítima da circunstâncias, traiu porque foi traída primeiro, mentiu porque foi iludida. Ela tem todas as respostas prontas, explicações que contrariam a percepção dele. Que conversa mais casadinha com a amiga. Ela é o baluarte da sensatez, pois conseguiu o convencer que a culpa dele ter sido enganado é dele mesmo e aquilo que ele ouviu era parte de uma tramóia muito maior.... onde ele é o culpado por desde o inicio não ter sido a pessoa diferente que ela desejava, ele é o culpado por não suprir todas as expectativas dela, ele é o culpado por ser esse otário inseguro. Pelo jeito ele é cuckold capacho dela, e se arrepende de não ter sido antes.

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Também achei suspeito a amiga bêbada lembrar tão rapidamente que deu um tapão na bunda dela 7 anos atrás.

Muito. Mas muito conveniente...

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Acho que a cronologia não era nem tão distante no tempo. Mas a conveniência das respostas. É como colocar em cheque a percepção apurada dele como investigador. Ou ele é o grande otário que duvidou da fidelidade de uma esposa incorruptível que tem justificativa pra tudo, ou é a marionete de todos.

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Como comentei acima, acredito que não importa o que a história trouxer de informação nova, você já fez o seu julgamento sobre os personagens.

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Excelente mais uma vez Lukinha! Sensacional! Não aguentava de ansiedade para ler este capítulo.

Como a Id@ falou, menos pontas soltas.

Agora mais do que nunca minha ergunta faz sentido. Depois de tudo o que o Bruno fez, depois das inúmeras provas da falta de caráter, das manipulaçôes que fez com a Mariana e com o Ricardo, pq ele voltou a ser "amigo" deles? Pq o Ricardo voltou pra agência? Pq a Mari voltou a transar com ele? Pq ele voltou a ter livre trânsito no ap e na vida deles? Por enquanto não faz o menor sentido, mas com certeza nos próximos capitulos, nós saberemos...rsrsrs

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É o que me intriga também.

Ainda não sabemos se ele foi no tal swing. Pode ter ido e gostado.

Mas no dia do assassinato o Bruno diz pra Mariana que resolveu o presente que o Ricardo ia dar, indicando que, de alguma forma, ainda tinha os dois sob controle.

Parece que a tal "frente unida" ou não teve muita frente, ou não era tão unida...

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Então, mas qdo foram então estes encontros de Mariana, Bruno e Lívia?

Como se sucedeu o envolvimento deles?

Surgem novas questões!

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Mais informações e menos “pontas soltas” !!! Eba !!!

Vamos ver qual será a reação !!!

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