Os “Filhos” Do Meu Marido Me Fizeram Chorar De Tanto Gozar - Parte 2

Um conto erótico de Gihh
Categoria: Heterossexual
Contém 4965 palavras
Data: 17/02/2026 23:23:07

# PARTE 2 — O Churrasco, A Piscina, A Chave

Você quer saber o que aconteceu nas três semanas entre aquele galpão e o churrasco.

Três semanas em que eu fui ao mercado, revisei projetos, jantei sozinha, assisti série, dormi do lado de César que roncava, acordei, repeti. A vida normal. A vida que tinha antes. Só que não era mais a mesma vida, porque a vida antes não tinha o Davi dentro dela. Não tinha o Wesley. Não tinha o Jonathan e aquele olhar calculado que parecia passar por cima de mim como um raio X barato, revelando tudo que eu preferia esconder.

César falava deles toda noite. Não era novidade — já falava antes do galpão. Mas agora eu ouvia diferente. Antes eu ouvia e via palavras. Agora eu ouvia e via rostos. Rostos e corpos e mãos e a sensação de músculos duros sob a pele quente.

"O Davi conseguiu uma vaga num cursinho, Marina. Pro ENEM. Você não imagina o quanto ele se esforça." Eu imaginava outras coisas. "O Wesley tá lendo mais. Deixei um livro de matemática básica com ele, ele foi lá e terminou em quatro dias." Wesley, os olhos grandes, os dedos longos, o tremor quando me abraçou. "O Jonathan ainda é fechado, mas essa semana ele ajudou a reformar metade do banheiro do galpão, trabalhou o dia inteiro sem reclamar." Jonathan e a câmera discreta. Jonathan e o aviso.

Eu ouvia, tomava meu vinho, e à noite, no banheiro, minha mão descia sozinha.

Toda noite.

Às vezes era o Davi. Às vezes o Wesley. Uma vez, só uma vez, foi o Jonathan — eu fantasiei aqueles olhos calculistas em mim, a mão grande segurando meu queixo enquanto avaliava o que via, pesando, decidindo. Gozei tão forte que tive que morder o braço pra não fazer barulho.

Depois voltava pra cama. César dormia. A vida seguia.

Então César teve a ideia do churrasco.

Foi uma terça-feira, ele chegou em casa às onze da noite cheirando ao galpão, tomou banho rápido, deitou, mas ao invés de dormir, ficou agitado, virando pra um lado e pro outro. Eu fingi dormir. Depois de um tempo ele falou, pro teto, como se pensasse em voz alta.

"E se eu convidasse os meninos pra cá?"

Abri os olhos devagar. O teto estava escuro, só a luz do poste entrando pela fresta da cortina.

"Pra cá como assim?"

"Pra um churrasco. No fim de semana. Aqui no ap, na piscina." Ele virou pro meu lado, e no escuro eu sentia o entusiasmo dele antes de ver. "Eles nunca tiveram acesso a essa realidade, Marina. Um apartamento bonito, piscina, uma churrasqueira boa. Seria uma experiência de expansão de horizonte. De ver que é possível."

*Expansão de horizonte.* César tinha um talento específico pra transformar qualquer coisa numa teoria sociológica. A gente podia estar comprando tomate no mercado e ele encontrava um jeito de falar em desigualdade estrutural.

Fiquei quieta.

"Pode ser", eu disse. A voz neutra, controlada. Achei que ele fosse notar alguma coisa. Ele não notou nada.

"Ótimo." Virou de costas, relaxou. Em dois minutos estava roncando.

Eu fiquei acordada até as três da manhã, olhando pro teto, sentindo o coração bater mais rápido que devia.

***

No sábado, acordei cedo.

Isso não era comum. Nos fins de semana eu normalmente ficava na cama até as dez, onze, o tipo de preguiça que é na verdade depressão branda mas que a gente chama de cansaço porque é mais fácil. Mas naquele sábado eu levantei às sete e meia, antes de César, fui até o banheiro e fiquei me olhando no espelho por tempo demais.

Trinta e nove anos.

Tenho o tipo de corpo que envelhece bem se você se cuidar, e eu me cuido — academia duas vezes por semana, pilates, o básico. Não sou a Marina dos vinte e cinco, mas sou a Marina dos trinta e nove que ainda para trânsito quando quer. Os peitos continuam firmes. A bunda continua redonda. A barriga não é lisa, mas tem uma curva que eu aprendi a gostar. As coxas são fortes, marcadas de pilates. O rosto tem linhas que não tinha antes, mas tem também uma segurança que os vinte e cinco não tinham — a segurança de quem parou de pedir desculpa por existir.

Abri a gaveta da roupa de praia.

O biquíni preto estava lá, no fundo, enrolado. Comprei no Verão passado, usei uma vez numa viagem pra Ilhabela que César cancelou no último minuto por causa de um evento no galpão. Fui sozinha, usei o biquíni, voltei sem bronzeado porque fiquei dois dias dentro do quarto com Netflix e delivery.

Tirei o biquíni da gaveta. Segurei na mão.

Pus de volta.

Tirei de novo.

Vesti.

Me olhei no espelho do banheiro por um tempo que não vou confessar nem pra mim mesma.

Depois fui fazer café.

***

Eles chegaram às duas da tarde.

César foi buscar na portaria, todo sorridente, abraçando cada um na frente do porteiro que fingiu não notar nada. Eu ouvi a porta abrir do quarto onde estava terminando de arrumar o cabelo — escovei mais do que precisava, deixei solto, o tipo de cabelo de quem não se esforçou mas se esforçou.

Estava com um vestido canga leve por cima do biquíni. Entrei na sala.

Os três estavam no meio da sala, olhando em volta com expressões diferentes.

Wesley estava de boca aberta. Não de forma grossa — era pura e honesta estupefação. Ele ficava parando no sofá de couro, na TV grande, nas estantes com livros e objetos decorativos, nas janelas do chão ao teto que davam pra cidade. Os olhos dele varrendo o ambiente como quem tenta memorizar tudo, guardar cada detalhe como fotografia. Eu vi no rosto dele uma coisa que me apertou o peito — não era inveja, era uma tristeza muito velha, a tristeza de alguém que sempre soube que o mundo era dividido, mas que nunca tinha entrado na metade que não era a dele.

Davi estava mais contido, mas os olhos também percorriam o apartamento. Com ele era diferente — ele processava, calculava, avaliava. Não com cobiça vulgar. Com a precisão clínica de quem aprende como funciona um sistema para eventualmente operá-lo. Vi ele notar a churrasqueira na varanda, a piscina lá embaixo pelo vidro, a garrafa de vinho aberta na bancada da cozinha, as obras de arte na parede — uma impressão de Beatriz Milhazes que César comprou numa galeria em Higienópolis. Os olhos de Davi pousaram em cada coisa por exatamente o tempo necessário para registrá-la. Depois os olhos subiram e encontraram os meus.

Aquele peso de novo. Aquela coisa física.

Jonathan ficou perto da porta por uns segundos, as mãos nos bolsos, avaliando os pontos de saída antes de avaliar qualquer outra coisa — eu já reconhecia esse hábito nele, a postura de quem cresceu em lugares onde você precisa saber como sair antes de saber onde está. Depois ele entrou de verdade, devagar, os pés cuidadosos no piso frio de mármore como se ele custasse algo. Usava uma camisa branca simples, aberta no botão do pescoço, e a tatuagem da teia de aranha aparecia acima do colarinho. Ele me viu. Assentiu. Nada mais.

"Marina!" César me abraçou por trás. "Tava te esperando lá na sala, gente!"

"Tava me arrumando." Dei um sorriso pros três. "Oi, meninos. Bem-vindos."

Wesley corou. Davi sorriu devagar, aquele sorriso que reservava pras situações em que precisava de você. Jonathan só olhou.

César foi logo empurrando todo mundo pra varanda, animado, falando do churrasco que ia preparar. Ele tinha comprado picanha, linguiça, frango marinado desde cedo, estava genuinamente feliz — esse era o César que eu tinha me apaixonado quinze anos atrás, o cara que se alegrava com as coisas simples, que transformava uma tarde de sábado num evento. Eu via esse César às vezes e sentia uma saudade estranha, uma nostalgia de alguém que ainda estava ali mas de algum jeito já tinha ido embora.

Fui buscar as cervejas na geladeira. Quando voltei com as latinhas, vi os três na varanda, César mostrando a churrasqueira com orgulho de proprietário, e percebi que eles faziam isso muito bem. Os três. Respondiam com entusiasmo calibrado — não entusiasmo de mais, que soaria falso, nem de menos, que soaria desinteressado. Jonathan fez uma pergunta técnica sobre o carvão. Wesley olhou pro César com aquela admiração de menino que sente falta de pai. Davi deu uma risada num momento certo, uma risada que soava genuína mas que eu já reconhecia: era a risada de quem aprendeu que as pessoas gostam de ser achadas engraçadas.

Eles eram bons nisso.

*Isso*, percebi segurando as latinhas geladas no corredor, *não é maldade. É sobrevivência.*

Tinha uma diferença e eu precisava entendê-la antes de julgá-los.

***

César acendeu o carvão, colocou as carnes, abriu sua cerveja, e começou a discursar. Sobre o projeto, sobre Paulo Freire, sobre como a educação era o único caminho real de mobilidade social, sobre as reformas que precisavam ser feitas no galpão, sobre uma parceria com uma escola municipal que estava negociando. Os três ouviam. Jonathan com os olhos semicerrados, absorvendo. Wesley com atenção genuína, que eu distinguia da performática — Wesley de fato acreditava no César, de fato via nele algo que não tinha tido. Davi ouvia e concordava nos momentos certos, discordava nos momentos estratégicos — não de forma desafiadora, mas de forma que mostrava que pensava, que tinha opinião, que era o tipo de aluno que o professor adorava ter.

Eu me sentei numa cadeira de varanda, as pernas cruzadas, a canga aberta no colo.

Foi Davi quem notou primeiro. Claro.

O olhar dele caiu na fresta da canga, onde o biquíni preto aparecia. Subiu devagar pelo meu corpo, pelo decote onde os peitos pressionavam o tecido, pela curva do ombro, até meu rosto. Quando nossos olhos se encontraram, ele não desviou. Levantou levemente a sobrancelha — uma pergunta, não uma afirmação — e depois voltou a prestar atenção no César como se nada tivesse acontecido.

Meu coração estava na garganta.

Wesley percebeu um pouco depois. Quando eu me levantei pra pegar mais uma cerveja e a canga abriu um pouco mais, mostrando o biquíni por inteiro — as tiras finas dos lados, o fio que mal cobria o que precisava cobrir, a curva do quadril. Ele estava de costas pra mim mas virou no momento errado e me viu de frente. Ficou imóvel por um segundo. Depois desviou o olhar tão rápido que César teria que ser cego pra não notar — mas César estava argumentando sobre a diferença entre Paulo Freire e Bourdieu e não notou.

Jonathan eu não peguei olhando. Jonathan nunca deixava que você o pegasse olhando. Mas quando voltei com a cerveja e me sentei, senti o olhar dele na nuca. Um peso diferente do Davi, mais frio, mais calculista. Não era desejo puro. Era análise. Era ele me colocando num mapa que só ele via, e marcando onde eu estava.

***

Depois do churrasco, quando o sol já estava baixo e o calor ainda apertava, César teve a ideia da piscina.

"Gente, que que tá esperando? A piscina tá ali!"

Os três olharam uns pros outros. Wesley parecia empolgado mas inseguro — percebi que ele não sabia nadar, ou nadava mal. Davi ficou de pé devagar, destravando o corpo, o tipo de movimento contido que precede algo que ele já tinha decidido. Jonathan encolheu os ombros, o que no vocabulário dele significava concordância relutante.

César já estava indo pro quarto pegar a sunga.

Fui também.

No quarto, com a porta fechada, me olhei no espelho em cima da cômoda. Tirei a canga. Fiquei de biquíni. Respiri fundo. Saí.

Eles estavam tirando a camisa na varanda quando desci as escadas que levavam à área da piscina.

Parei no terceiro degrau.

Não sei quanto tempo fiquei parada ali. Provavelmente menos do que pareceu, porque o tempo faz isso quando você está sendo sacudida — estica, dilata, te deixa presa num segundo que não termina.

O Davi primeiro.

A camisa saiu por cima da cabeça e eu vi as costas primeiro — a coluna vertebral marcada, os músculos em relevo descendo dos ombros até a cintura, a pele retinta sem uma mancha, sem uma irregularidade, brilhando levemente com o suor da tarde. Quando ele virou, vi o peito — largo, definido, dois peitoral em relevo, o abdômen marcado em seis partes sem ser exagerado, sem parecer academia, parecendo trabalho real, esforço real, o corpo de quem carregou coisa pesada desde menino. A tatuagem que eu não tinha visto antes: uma mão aberta nas costelas do lado esquerdo, dedos espalhados, como se alguém estivesse tentando segurar alguma coisa que escapava. Perto do umbigo, uns caracteres que pareciam árabe ou hebraico, pequenos, densos. Os braços — as veias saltadas, a musculatura definida, a cicatriz perto do cotovelo esquerdo que complementava a do olho. Ele tirou a bermuda por cima da sunga e ficou de pé na beira da piscina, os pés descalços no cimento quente, olhando a água.

O Wesley foi o segundo.

Ele era mais magro, e a magreza dele não era fraqueza — era a magreza de quem cresceu sem sobrar, o corpo que não desperdiça nada porque nunca teve nada pra desperdiçar. Os ombros eram estreitos mas os braços compridos, os músculos longos como corda. O peito liso, o abdômen plano sem ser definido como o Davi, o umbigo fundo. Tinha duas cicatrizes no costado direito, pequenas, paralelas — eu não quis imaginar como tinham chegado ali. O black power crespo na cabeça fazia contraste com o pescoço fino, elegante de um jeito que ele não sabia. Quando ele tirou a bermuda, revelou a sunga boxer branca que ficava úmida até antes de entrar na água, e eu desviei o olhar antes de ver mais do que devia, mas já tinha visto o suficiente.

Jonathan por último.

Jonathan era o mais velho dos três e o corpo mostrava isso — não na idade, mas na peso. Era mais largo, mais denso, a musculatura menos estética e mais funcional. Os braços eram troncos. O pescoço era grosso. O peito tinha pelos escuros dispersos, o único dos três. As tatuagens se revelavam em volume impressionante: a cobra e a faca que eu vira no galpão se estendiam pelo braço direito num inteiro manga, letras góticas e rosas e uma caveira pequena no cotovelo. No ombro esquerdo, uma Nossa Senhora das Graças enorme, delicada, completamente fora de contexto naquele corpo — mas que por isso mesmo fazia mais sentido do que qualquer outra coisa que ele carregava. No peito, do lado esquerdo, sobre o coração: um nome. Eu estava longe demais pra ler, mas era um nome. Na barriga, uma frase em cursivo que também não dava pra ler daqui. A pele dele era mais clara que a do Davi, um marrom médio quente, e as tatuagens escuras contrastavam com força. Ele entrou na piscina sem pular, desceu pela escada devagar, metodicamente, como fazia tudo.

César saiu atrás de mim, a sunga já vestida, a bermuda na mão. "Marina! A água deve estar uma delícia!"

Desci os últimos degraus.

***

Entrei pela escada também.

A água estava gelada. O sol da tarde ainda batia forte mas a piscina era na sombra do prédio e a refrigeração tinha feito seu trabalho. Fui descendo, o biquíni preto ficando mais escuro com a água, o frio subindo pelas coxas, pelo estômago, até os ombros.

Davi estava nadando — e ele nadava bem, com a facilidade de quem aprendeu em açude de quintal, braçadas largas e eficientes. Wesley estava na parte rasa, a água no peito, meio encolhido, segurando a beira. Jonathan ficou num canto, a água na cintura, os braços apoiados na borda da piscina, observando.

César entrou com um mergulho barulhento que respingou em todo mundo e os meninos riram — risos reais dessa vez, o tipo de riso espontâneo que não se controla. César tinha esse dom: fazer as pessoas rirem sem querer. Era uma das coisas que eu amava nele e que me enchiam de uma raiva idiota ao mesmo tempo.

Ficamos na piscina talvez uns quarenta minutos. César nadava e conversava, alternando entre fazer largadas e parar pra discutir algo com Jonathan sobre a reforma do banheiro do galpão. Wesley ficou na parte rasa o tempo todo, mas foi se soltando aos poucos, afundando o rosto na água, tentando flutuar de costas com a língua pra fora de concentração. Eu fiquei no meio da piscina, boiando, fingindo relaxar.

Davi nadou até mim em algum momento.

Não foi chamativo. Não foi a coisa que faria qualquer pessoa olhar. Ele simplesmente nadou por ali, parou perto de mim, ficou de pé — a água no peito dos dois, nossa distância de uns dois metros — e ficou olhando pra César na outra ponta da piscina.

"Ele é feliz aqui, sabia?" A voz do Davi era baixa, quase sumindo no barulho da água. "Aqui em casa com a senhora. Quando fala da senhora no galpão, parece outro."

Não respondi na hora. Esperei.

"Como ele fala?"

"Com orgulho." Uma pausa. "Fala que a senhora é forte. Que segurou o projeto junto com ele lá atrás, quando não tinha verba. Que sem a senhora ele não teria conseguido." Ele me olhou de lado. "A senhora sabia disso?"

"Às vezes ele me conta."

"Às vezes." Ele repetiu a palavra como se estivesse saboreando o que ela revelava. "Às vezes é pouco."

Ficamos em silêncio. César e Jonathan conversavam. Wesley tentava nadar e engolia água e tossia e ria de si mesmo.

Não vi a mão do Davi se mover.

Senti.

Debaixo d'água, devagar, os dedos dele encontraram os meus. Não agarraram — encostaram. As pontas dos dedos, quentes mesmo na água fria, pousaram por cima da minha mão como quem pergunta antes de afirmar. Ficaram ali.

Eu não puxei.

Não me movi. Fiquei de pé, olhando pra frente, pra César que agora estava explicando algo pra Jonathan com gesticulação de professor, e senti a mão do Davi cobrindo a minha. Os dedos entrelaçando os meus com calma, com uma paciência que me deixou com falta de ar. A água estava fria, mas a mão dele estava quente, e esse contraste era físico demais, real demais, impossível de ignorar.

Senti um calor entre as pernas que não tinha nada a ver com a temperatura da piscina.

"Tá gelada", ele murmurou, sem olhar pra mim, ainda de frente pro César. Estava falando da minha mão.

"Tô", respondi. A voz saiu quase normal.

Ele apertou levemente os dedos. Uma pressão. Um ponto final numa frase que nenhum de nós tinha falado em voz alta.

Wesley escolheu exatamente esse momento pra se aproximar, nadando mal com muito esforço e muita água na boca. "Tia Marina, me ensina a nadar direito não? O César fala que a senhora nada bem."

Davi soltou minha mão antes de Wesley chegar. Casual. Natural. Como se nunca tivesse acontecido.

Mas aconteceu.

Eu sabia que aconteceu porque minha mão ainda estava quente.

***

Depois da piscina, enquanto a gente se secava e César preparava caipirinha na varanda, Jonathan chegou até mim em silêncio e ficou do meu lado olhando pro pôr do sol que estava começando a tingir o horizonte de laranja. A cidade lá embaixo, São Paulo enorme e impossível, os prédios se acendendo um a um.

"Apartamento bonito", ele falou. Não era elogio. Era observação.

"Obrigada."

"Você projetou?"

"Reformei. Não projetei o prédio, mas a reforma foi minha."

Ele assentiu, processando. "Deve ser bom. Saber fazer uma coisa que todo mundo precisa."

"É um trabalho."

"É um trabalho que vale dinheiro." Ele olhou pra mim, aqueles olhos pesados pousando no meu rosto sem pedir licença. "No galpão, o que a gente sabe fazer não vale nada pro mercado. O Davi sabe articular, sabe argumentar, mas o cursinho vai demorar anos. O Wesley é bom com número, mas nunca teve oportunidade de fazer nada com isso. E eu..." Ele parou. Olhou de volta pro horizonte. "Eu sei fazer outras coisas."

"Que coisas?"

Ele sorriu. Não foi o sorriso frio de sempre — foi algo mais próximo de ironia. "As coisas que você aprende quando não tem escolha."

Fiquei quieta. Depois: "Você acha que o César entende isso?"

"O César entende o que quer entender." Ele falou sem malícia, como declaração de fato. "Ele é um homem bom, tia. Genuinamente. Mas homem bom que cresceu com colchão não entende cansaço de dormir no chão. Ele faz o que pode. O problema é quando o que ele pode não é o suficiente pra ser o que a gente precisa."

"E o que vocês precisam?"

Ele me olhou. Aquele olho que lia tudo.

"O que todo mundo precisa. Só que a gente tem que correr mais pra chegar no mesmo lugar que você começa de pé."

Antes que eu pudesse responder, César chamou lá da varanda. "Gente, caipirinha tá pronta! Vem cá!"

Jonathan se afastou. Eu fiquei parada por um segundo, olhando pro horizonte laranja.

*Eu sei fazer outras coisas.* As coisas que você aprende quando não tem escolha.

Quantas vezes eu tinha feito a mesma coisa? Só que com outra moeda, com outro mercado. Aprendido a ser a esposa certa, a parceira certa, a profissional certa, porque era o que sobrevivia. Porque era o que garantia o apartamento com a vista, o carro na garagem, a vida que parecia bonita de fora e por dentro era um silêncio muito comprido.

Talvez a diferença entre mim e os três não fosse tão grande quanto eu fingia.

***

A ideia veio durante a caipirinha.

César estava no segundo copo, animado, os olhos brilhando, o tipo de luz que ele tinha quando estava muito dentro de um projeto — e o projeto, naquele momento, éramos nós todos ali naquela varanda, era essa tarde, esse encontro que ele tinha construído como se fosse uma instalação artística de integração social. Eu via ele olhando pros três com um afeto que não era performático. Era real. César amava esses meninos do jeito que amava as causas — de longe o suficiente pra romantizar, de perto o suficiente pra se sentir útil.

E os três amavam ele de volta. Também de um jeito real.

Isso era o que me confundia. Não era falso, exatamente. Wesley olhava pro César com uma gratidão que me cortava o coração — a gratidão de alguém que passou a infância inteira precisando que um adulto dissesse *você importa*, e finalmente encontrou um que dissesse. Davi respeitava o César com a seriedade de quem respeita poucas coisas, porque coisas raras têm mais valor quando você aprendeu que a maioria não dura. Jonathan não demonstrava afeto abertamente — nunca demonstrava nada abertamente — mas eu via nos momentos em que César falava algo especialmente estúpido sobre a realidade da periferia, Jonathan não o corrigia. Protegia. Deixava o sonho do homem intacto porque o homem merecia aquilo.

Eles se aproveitavam dele e o protegiam simultaneamente. As duas coisas eram verdadeiras e nenhuma cancelava a outra.

Era complexo demais pra caber numa palavra. E eu fui sempre boa com complexidade — era o que arquitetura exigia, entender como coisas que pareciam contraditórias podiam existir no mesmo espaço sem colapsar.

"Gente", César disse, de pé, o copo erguido. "Eu queria fazer um brinde." Olhou pros três, os olhos meio úmidos de caipirinha e emoção. "Eu sei que a vida de vocês não foi fácil. Sei que o mundo não tratou vocês do jeito que merecia. Mas eu acredito em vocês. Genuinamente. Cada um de vocês tem dentro dele uma versão que o mundo tentou sufocar e não conseguiu. E eu me sinto honrado de fazer parte dessa jornada."

Wesley tinha os olhos brilhando. Davi levantou o copo com dignidade. Jonathan bebeu sem brinde, mas bebeu — e isso, vindo dele, era o equivalente a um discurso.

César bebeu e ficou ali, radiante.

Então olhou pra mim com um sorriso diferente, meio envergonhado. "Ah, e falando nisso — eu queria aproveitar pra avisar vocês de uma coisa." Virou pro lado e me olhou. "Eu tô indo pro Recife na semana que vem. Três dias, um seminário de economia solidária que não dá pra perder. E eu... eu tava pensando." Hesitou. "Marina vai ficar sozinha aqui. E o apartamento é grande. Às vezes tem um negócio ou outro pra resolver — a torneira da área de serviço tá gotejando, a luminária da sala precisa de troca." Virou pros três. "Eu sei que é pedir demais, mas... vocês poderiam dar uma passada? Ajudar com o que precisar? Faz bem pra Marina ter companhia, e vocês podem usar a piscina, comer algo decente."

Silêncio.

Eu segurei meu copo com os dois dedos, olhando pro chão da varanda.

"Claro", Davi disse. A voz tranquila, levemente aquecida, exatamente o tom certo. "Com prazer, César. A gente ajuda no que precisar."

"Que isso, cara, a gente tá aqui pra isso", Wesley complementou, e o entusiasmo dele era genuíno o suficiente pra convencer qualquer um. "Tia Marina pode contar."

Jonathan bebeu um gole de caipirinha e não disse nada por uns dois segundos. Depois: "Pode deixar."

César respirou aliviado, como se tivesse pedido um favor enorme. Não tinha ideia do que estava fazendo. Nenhuma. Era um homem tão cheio de fé na humanidade que a humanidade poderia fazer qualquer coisa na frente dele e ele ia interpretar como crescimento pessoal.

Eu levantei os olhos e encontrei os do Davi.

Ele estava me olhando. Calmo, seguro, aquele sorriso discreto que guardava nos cantos da boca. Os olhos escuros brilhando levemente com a luz da tarde entrando pela varanda. Ele levantou levemente o copo na minha direção, um brinde particular, só nosso.

Abaixei o olhar de novo pro chão.

Meu coração estava a cento e vinte.

***

Eles foram embora às oito da noite.

César foi até o elevador com os três, abraçou cada um, deu palmadas nas costas. Eu fiquei na porta, de braços cruzados, observando. Wesley me abraçou também — rápido, educado, mas com uma força desnecessária que durou um segundo a mais. "Até mais, tia Marina." Jonathan acenou, sério, mas me olhou por tempo suficiente pra dizer o que não precisava falar. Davi foi o último.

Ele parou na minha frente, de pé, olhando de cima como no galpão. Tinha uma diferença, agora — não estava mais no território dele, estava no meu. E mesmo assim ele se movia como se fosse o dono do espaço. Estendeu a mão pra apertar a minha e eu dei a mão sem pensar.

Ele apertou devagar, os dedos envolvendo os meus, a mão grande e quente. Ficou olhando pra mim.

"Semana que vem", ele disse. Só isso. Não era pergunta.

"Semana que vem", eu repeti. Sem saber bem o que estava confirmando.

Ele soltou minha mão, virou, entrou no elevador. As portas fecharam.

César me abraçou por trás, animado. "Que tarde boa, né? Você não acha que eles são incríveis?"

"São", eu disse.

"Tô tão feliz que você veio no galpão aquele dia. Eu queria tanto que você os conhecesse."

"Eu sei."

Ele me beijou no pescoço e foi pra sala ligar a TV. Eu fiquei parada na porta do elevador fechado por mais alguns segundos.

Semana que vem.

***

César viajou numa quarta-feira de manhã, a mala no hall de entrada, o táxi esperando embaixo. Ele me abraçou longo, me beijou na testa, me disse que me ligava ao chegar. Eu sorri do jeito certo, o jeito de esposa que vai sentir falta, o jeito que aprendi a fazer nos últimos anos sem esforço porque virou reflexo.

A porta bateu.

Fiquei no hall por um momento ouvindo o silêncio do apartamento.

O celular vibrou na minha mão.

Era uma mensagem. Número que eu não tinha salvo, mas reconheci — o mesmo que tinha me mandado o áudio dois dias antes, uma mensagem de voz de trinta segundos de César fazendo bobagem no galpão que o Davi tinha achado engraçado e mandado pra mim sem explicação, só porque sim, só pra me lembrar que ele existia no meu celular sem que eu tivesse pedido.

*A chave está aqui comigo. César deixou ontem à noite quando passamos pelo galpão. Pode vir buscar quando quiser. Ou a gente pode levar.*

Li duas vezes.

*A chave está aqui comigo.*

Fui até a cozinha, abri a gaveta onde ficava o gancho das chaves reservas, confirmei o que já sabia — estava vazia. César tinha dado a chave pra eles sem me contar. De boa fé. De fé absoluta e desorientada no ser humano.

Meu coração bateu uma vez muito forte.

Fechei a gaveta.

Fui até o banheiro, abri o chuveiro, fiquei embaixo da água quente por tempo demais, a cabeça vazia ou cheia demais pra distinguir.

Quando saí, sequei, me vesti, e peguei o celular de novo.

Fiquei com o dedo em cima do teclado por um bom tempo.

Depois digitei: *Pode trazer.*

Enviei antes de poder pensar mais.

Foram três segundos de silêncio.

Depois: *Estamos indo.*

Larguei o celular na cama e fui até a janela. São Paulo lá embaixo, enorme, indiferente, ocupada com suas próprias histórias. Em algum ponto dessa cidade, três homens estavam pegando condução pra cá. Um deles carregava a chave do meu apartamento no bolso.

Eu fui até a gaveta do banheiro.

Tirei o biquíni preto.

Abri o guarda-roupa, olhei pros vestidos por um instante, fechei de volta.

Fiquei com o biquíni na mão.

E fui me preparar.

***

*Na Parte 3: O interfone. Wesley sozinho, Davi e Jonathan ainda no caminho. Os trinta minutos em que é só ele e Marina no apartamento vazio, antes dos outros chegarem. A conversa na cozinha que vai longe demais. A confissão que ele faz com os olhos no chão e ela ouve com o coração na boca. E o momento em que os trinta minutos acabam — o interfone toca de novo, e dessa vez são os dois restantes — e Wesley ainda está muito perto de Marina, os lábios dele a centímetros do ombro dela, a respiração quente no seu pescoço, e ela precisa decidir se recua ou se deixa.*

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Foto de perfil de contradio contradio Contos: 148Seguidores: 228Seguindo: 18Mensagem Sou só um cara comum que escreve contos eróticos por hobby, nos intervalos entre o trabalho de verdade e a vida real. Não sou nenhum daqueles ‘grandes autores’ que se acham donos da sabedoria universal, corrigindo o mundo com lições de vida disfarçadas de sacanagem repetida até enjoar. Escrevo porque gosto do tesão de imaginar cenas quentes, de brincar com palavras que fazem o sangue ferver, sem pretensão de mudar o mundo ou salvar o gênero. Meus textos são o que são: diversão crua, sem aula moral no final, sem aquela pose de quem descobriu a fórmula mágica do prazer e agora desce do pedestal pra ensinar os mortais equivocados. Leio, gozo, escrevo, rio — e pronto. Se alguém curte, ótimo. Se não, vida que segue. Só um amador feliz da vida, sem ego inflado.

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