Novo Romance (Capítulo 1)

Da série Novo Romance
Um conto erótico de Hot♡
Categoria: Homossexual
Contém 1419 palavras
Data: 18/02/2026 00:20:00
Última revisão: 18/02/2026 09:17:52
Assuntos: Gay, Homossexual

“Descoberta”

Tiago acordou com o som abafado da televisão na sala de estar. Eram pouco mais de sete da manhã, mas o sol já invadia as cortinas semiabertas do quarto principal, desenhando listras douradas no piso de madeira polida. Ele esticou o braço direito instintivamente, procurando o calor do corpo de Rafael ao seu lado. Nada. Apenas lençóis frios e amassados.

Suspirou fundo, sentindo o peso familiar no peito. Cinco anos de casamento. Cinco anos desde que trocaram alianças numa cerimônia discreta em Campos do Jordão, com poucos amigos e muita champanhe cara. Na época, Rafael era o empresário em ascensão, carismático, cheio de planos; Tiago, o escritor que acabara de publicar seu segundo romance — aquele que o catapultou para as listas de mais vendidos e para as capas de revistas de cultura. Pareciam o casal perfeito nas fotos que saíam no Instagram e nas colunas sociais.

Agora, o silêncio entre eles era mais alto que qualquer discussão.

Tiago rolou para fora da cama, os pés descalços tocando o chão aquecido. Vestiu apenas uma cueca boxer cinza e uma regata velha, daquelas que usava só em casa. Desceu as escadas em espiral da mansão no condomínio de alto padrão em Alphaville. A casa era grande demais para dois homens que mal se falavam: cinco suítes, sala de cinema, academia, piscina climatizada, jardim projetado por paisagista premiado. Tudo impecável, tudo vazio.

Na cozinha aberta, Rafael já estava de pé, confortável em um pijama cinza de algodão macio — camiseta de manga longa e calça de cintura elástica com cordão, o cabelo ainda bagunçado do sono e os pés descalços no piso frio. Tomava café preto em pé, olhando o celular com uma expressão fechada.

— Bom dia — disse Tiago, voz rouca de sono.

Rafael ergueu os olhos por meio segundo.

— Dia — respondeu seco, voltando ao celular.

Tiago abriu a geladeira, pegou a jarra de suco de laranja natural que a diarista preparava toda manhã. Serviu-se em silêncio. Sentia o olhar de Rafael queimando suas costas largas, sua barriga que já não era tão definida quanto há cinco anos, os braços que ele não levantava mais pesos fazia tempo.

— Você vai ficar assim o dia todo? — perguntou Rafael de repente, tom cortante.

Tiago virou-se devagar.

— Assim como?

— De cueca e regata. Parece que desistiu de tudo. Olha essa barriga, cara. Tá parecendo um tiozão de quarenta.

Tiago sentiu o estômago apertar. Não era a primeira vez que ouvia aquilo. Nos últimos meses, os comentários vinham cada vez mais afiados, quase como facadas disfarçadas de brincadeira. Ele tentou rir, mas saiu um som seco.

— Eu trabalho em casa, Rafael. Não preciso me arrumar pra sentar na frente do computador.

— Trabalhar… — Rafael deu uma risada curta e amarga. — Você passa o dia inteiro trancado naquele escritório escrevendo historinha gay que metade das pessoas nem lê. E quando lê, é pra falar mal na internet. “Prosa melosa”, “personagens rasos”, “clichê de mercado”. Você lê isso e continua sorrindo nas lives?

Tiago apertou o copo com mais força. Sabia que Rafael lia as críticas. Sabia que ele guardava prints de tuítes debochados e os mostrava “de brincadeira” em jantares com amigos do ramo.

— Se você odeia tanto o que eu faço, por que ainda tá aqui? — perguntou, tentando manter a voz firme.

Rafael largou a xícara na pia com força suficiente para fazer o vidro tilintar.

— Porque eu pago as contas dessa porra de mansão, Tiago. Porque eu sou o único que levanta cedo e volta tarde pra sustentar esse teu sonho de escritor sensível. Porque alguém tem que manter o padrão enquanto você fica se masturbando com as próprias palavras.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Tiago sentiu os olhos arderem, mas engoliu as lágrimas. Não ia dar esse gostinho. Não hoje.

— Vou tomar banho — anunciou Rafael, já se virando para as escadas.

Quando ouviu a porta do banheiro principal se fechar e o chuveiro ser ligado, Tiago agiu quase por instinto. Caminhou até a ilha da cozinha onde Rafael havia deixado o celular. A tela ainda estava acesa. Sem senha — nunca teve. Confiança cega, ou arrogância.

Abriu o WhatsApp.

As conversas recentes estavam arquivadas, mas não o suficiente. A primeira que chamou atenção foi “Lucas 💙”. Foto de perfil: um rapaz de uns 24 anos, pele morena, sorriso perfeito, academia em evidência, sem barba, corpo esculpido.

As mensagens mais recentes, de ontem à noite:

Rafael: Tô com saudade daquele cuzinho apertado

Lucas: Então vem logo, amor. Tô louco pra sentar no seu pau de novo

Rafael: Semana que vem eu viajo a trabalho. Duas semanas fora. Quando voltar a gente marca hotel

Lucas: Pode trazer aquele vinho que eu gosto? 😏

Rafael: Trago tudo que você quiser, meu putinho

Tiago sentiu o chão sumir. Leu mais para trás. Fotos. Vídeos curtos. Gemidos abafados. Rafael gozando na barriga lisa do garoto. Mensagens de “te amo” trocadas entre os dois como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Ele travou. Não conseguia nem chorar. Apenas fechou o aplicativo, colocou o celular exatamente onde estava e subiu as escadas devagar, como se estivesse em câmera lenta.

No quarto, sentou-se na beira da cama. Ouviu Rafael cantarolando no banho — uma música pop qualquer. A mesma que cantava no carro quando estavam felizes, anos atrás, voltando de viagens de fim de semana.

Tiago respirou fundo. Tomou uma decisão fria, calculada. Não ia confrontar. Não agora. Rafael ia viajar para a capital na segunda-feira seguinte, uma série de reuniões com investidores estrangeiros. Duas semanas inteiras fora. Hotel cinco estrelas, jantares caros, networking.

Duas semanas.

Ele se levantou, foi até o closet e começou a escolher uma roupa qualquer para o dia. Camiseta larga preta, short de moletom cinza. Nada que mostrasse a barriga que Rafael tanto criticava. Passou desodorante, penteou o cabelo liso preto com os dedos, olhou-se no espelho. Olhos castanhos cansados, pele clara sem barba, corpo gordinho mas limpo, depilado inteiro — hábito que manteve mesmo quando o sexo entre eles acabou.

Quando Rafael saiu do banheiro enrolado na toalha felpuda branca, cheirando a perfume amadeirado caro, Tiago já estava sentado na poltrona de leitura do canto, notebook no colo, fingindo revisar o manuscrito.

— Vou pro escritório agora — anunciou Rafael enquanto vestia a camisa social. — Chego tarde hoje. Não me espera pra jantar.

— Tudo bem — respondeu Tiago, sem levantar os olhos da tela.

Rafael se aproximou, deu um beijo seco na testa dele — gesto automático, sem calor, como quem carimba um documento.

— Se cuida, tá?

— Você também.

Assim que ouviu o ronco grave do motor do BMW saindo pela garagem automática, Tiago fechou o notebook com força. As mãos tremiam levemente.

Foi até a varanda do quarto, olhou o jardim impecável, a piscina refletindo o céu azul sem nuvens. Sentiu uma mistura estranha: raiva que queimava o estômago, alívio que subia pela garganta, e um vazio imenso no meio do peito.

Duas semanas.

Ele não sabia ainda o que faria com elas. Talvez escrevesse. Talvez bebesse. Talvez chorasse até não restar mais nada. Mas uma coisa era certa: não ia mais fingir que estava tudo bem.

Sentou-se à escrivaninha de madeira maciça no escritório envidraçado, abriu o arquivo do novo romance. Título provisório: “A pele que sobra”. Era para ser um livro sobre perda, sobre corpos que mudam com o tempo, sobre desejos que não desaparecem mesmo quando o amor acaba.

Começou a digitar.

“As mãos dele ainda lembravam o formato do outro corpo. Mesmo depois de anos, mesmo depois de silêncios longos demais. Mas agora, quando tocava a própria pele, sentia apenas excesso. E, estranhamente, também sentia falta. Falta de ser desejado. Falta de ser visto.”

As palavras vinham fáceis pela primeira vez em meses. Sem censura, sem medo de julgamento. Apenas verdade crua escorrendo pelos dedos.

Tiago escreveu até o sol se pôr, até a luz dourada virar roxa e depois preta.

Quando parou, já eram quase nove da noite. O celular vibrou sobre a mesa. Mensagem de Rafael.

“Lotado de trabalho de verdade. Não me espera pra dormir.”

Tiago olhou a mensagem por longos segundos.

Não respondeu.

Desceu até a adega climatizada, abriu uma garrafa de Malbec argentino que Rafael guardava para ocasiões especiais. Serviu-se de uma taça grande, quase enchendo até a borda. Bebeu devagar, encostado na janela panorâmica da sala, olhando o reflexo distorcido do próprio rosto no vidro escuro.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu um fiozinho de esperança.

Ou talvez fosse apenas o começo de uma vingança silenciosa.

De qualquer forma, algo havia mudado.

E as próximas duas semanas seriam decisivas.

Continua…

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