O mundo de seda, flashes e perfumes caros desapareceu como um sonho febril. A última coisa que Lívia lembrava era do burburinho nos bastidores do desfile em Miami; a última coisa que Luna sentira fora o cheiro adocicado de um lenço pressionado contra seu rosto; e Lara... Lara só conseguia se lembrar do pânico ao ver suas irmãs desabarem antes de ser atingida por uma escuridão súbita.
Agora, o despertar era um pesadelo de metal e calor.
— Lívia? Luna? Vocês estão acordadas? — a voz de Lara era um fio de esperança sufocado pelo choro.
— Sim... — Lívia respondeu, sentindo o corpo moído. — Minhas pernas... eu não consigo movê-las.
O contêiner de metal onde estavam presas era um forno. Elas estavam nuas, exceto pelas lingeries de alta-costura que usavam para o encerramento do desfile — peças de renda francesa e seda que agora pareciam trapos inúteis. Seus pulsos e tornozelos estavam presos por algemas de aço grosso, unidas por uma corrente curta que as obrigava a ficar em uma posição fetal humilhante.
— Onde estamos? Esse cheiro... é terra e óleo — Luna soluçava, sentindo o suor escorrer por entre seus seios e arder na pele delicada.
De repente, o mundo rugiu. O caminhão parou e as portas do contêiner foram escancaradas. A luz do sol da Bolívia entrou como uma lâmina, queimando as retinas das trigêmeas.
O Tribunal da Poeira
Mãos rudes e calejadas as agarraram pelos cabelos e as arrastaram para fora. O contraste era brutal: a pele de porcelana das "Joias de Santa Cruz", famosas em todas as capas de revista, agora estava sendo arrastada pela terra vermelha e seca.
— ¡Miren estas muñecas! — gritou um dos homens armados, rindo enquanto as chutava levemente para que ficassem de joelhos.
Lívia levantou o rosto, tentando manter a dignidade, mas o que viu a fez gelar. Diante delas, dois homens velhos, com peles curtidas pelo sol e dentes amarelados, as observavam com um pragmatismo assustador. Não havia desejo de fã naqueles olhos; havia o olhar de quem avalia gado no mercado.
Don Mateo aproximou-se de Luna. Ele segurou o rosto dela com uma mão que cheirava a fumo e estrume, forçando-a a abrir a boca.
— Estão limpas, Silas. Bem cuidadas. Nunca pegaram no cabo de uma enxada na vida — Mateo disse, a voz rouca e fria.
— Isso vai mudar, Mateo — respondeu o outro, Don Silas, aproximando-se de Lara e passando a ponta de um canivete pela alça da sua lingerie. — A terra de "La Purísima" não gosta de frescura. Elas têm pernas fortes e quadris bons. Vão parir muitos trabalhadores se não servirem para o campo.
A Queda das Deusas
O pavor que percorreu as irmãs foi físico. Elas eram as "Deusas", as mulheres mais desejadas do hemisfério, e agora estavam sendo discutidas como ferramentas de reprodução e trabalho braçal por dois velhos que cheiravam a morte e suor antigo.
— Por favor... nós temos dinheiro! — Lívia tentou negociar, a voz falhando sob o sol de 40 graus. — Nossa família pagará qualquer resgate!
Don Mateo soltou uma gargalhada seca e deu um tapa forte no rosto de Lívia, fazendo-a cair na poeira.
— Aqui não existe família, boneca. Aqui só existe a minha vontade e a terra. Vocês foram compradas. São mercadoria.
Ele se virou para os capangas e deu a ordem final.
— Joguem-nas na caçamba. Quero que cheguem à fazenda ainda hoje. E tirem essas rendas... não quero que nada lembre quem elas eram. De agora em diante, elas são apenas 'as joias' da minha fazenda.
As três irmãs foram jogadas umas sobre as outras no metal quente da caminhonete. Enquanto o veículo sacolejava pela estrada de terra, Lívia olhou para as irmãs e viu o brilho da esperança se apagar. Elas não eram mais modelos. Não eram mais deusas. Eram escravas na imensidão selvagem da Bolívia, sob o domínio de dois homens que pretendiam quebrá-las até que nada restasse além de obediência.