# O PREÇO DA ALMA: UMA LIÇÃO DE ECONOMIA POLÍTICA
## PARTE I.I - O REINO DA INOCÊNCIA
Rafael Mendonça Oliveira acordava todos os dias às cinco e trinta da manhã com a mesma precisão de um relógio suíço, embora jamais tivesse tocado em um relógio suíço sequer, exceto talvez na vitrine de uma loja do Shopping Iguatemi onde ele nunca entrara, sabendo instintivamente que o ar-condicionado daqueles templos do consumo custava mais por minuto do que ele ganhava em horas de trabalho árduo. Era um homem de trinta e um anos, professor de História em uma escola estadual na periferia de São Paulo, e havia aprendido desde cedo — desde a infância na casa da avó em Diadema, onde o cheiro de café com pão na chapa se misturava ao barulho do trem que passava a duzentos metros, fazendo as janelas de alumínio vibrarem como se a casa estivesse viva e respirasse — que a felicidade não era função da riqueza, mas sim do equilíbrio entre expectativas e realidade. Era um discurso confortável, uma narrativa que ele construíra cuidadosamente ao longo de uma década, uma muralha psicológica contra a evidência brutal de que viver com dignidade na cidade mais desigual do mundo custava cada vez mais, e que seu salário de quatro mil e duzentos reais mensais — líquidos, após descontos — não era apenas insuficiente: era uma ofensa matemática contra a geometria da sobrevivência.
Mas Rafael tinha Larissa. E Larissa era seu antídoto contra a aritmética cruel do capitalismo tardio. Eles se conheceram havia oito anos, em uma festa de aniversário de um amigo comum que já não era mais amigo de nenhum dos dois, porque amizades na vida adulta de classe média baixa são recursos escassos que se esgotam como água em reservatórios mal administrados. Rafael lembrava com precisão fotográfica — ele valorizava a memória fotográfica, pois a História que ensinava era feita de detalhes concretos, de rostos, de nomes, de datas que importavam — o momento exato em que seus olhos encontraram os dela através da fumaça barata de cigarros de terceira linha e o cheiro de cerveja morna da marca mais barata disponível. Ela estava encostada em uma parede com tinta descascando, vestindo um vestido azul que ele mais tarde descobriria ter sido comprado em uma liquidação de final de temporada na Marisa, um vestido que ela usaria até hoje, que ainda cabia, que ela ainda considerava "seu melhor vestido", embora as cores tivessem desbotado e a renda das mangas estivesse se desfazendo nas bordas. Ela tinha cabelos castanhos longos que caíam em ondas desordenadas, como se a gravidade tivesse desistido de organizá-los, e um sorriso que parecia desafiadoramente otimista para o ambiente — um apartamento de dois cômodos dividido por quatro rapazes, banheiro com vazamento, janela que não fechava, e a promessa vaga de que "a noite ia ser boa", que era o mantra de uma geração que sabia que o amanhã não traria nada melhor, apenas mais do mesmo.
Larissa era, naquele momento, uma estudante de Pedagogia na Universidade Federal, embora jamais tivesse se formado, porque a necessidade de trabalhar para pagar o aluguel da mãe doente a obrigara a trancar a matrícula no terceiro ano, e depois nunca houvera como retornar, porque a vida, como Rafael bem sabia, era uma sucessão de emergências que consumiam o futuro para pagar o presente. Mas ela mantinha uma inteligência vívida, uma curiosidade sobre o mundo que não se deixava apagar pelas circunstâncias, e uma capacidade de encontrar beleza em pequenas coisas que Rafael considerava nada menos que milagrosa. Era ela quem, durante os passeios de domingo de manhã — sempre de manhã, porque à tarde ele precisava preparar aulas e corrigir provas, e à noite não havia dinheiro para passeios que exigissem iluminação artificial — apontava para flores crescendo em rachaduras de calçadas, para grafites elaborados em muros de escolas abandonadas, para o jeito como a luz do sol filtrava entre fios de alta tensão, criando padrões geométricos sombrios no asfalto. "Olha, meu amor", ela dizia, e Rafael olhava, e durante alguns segundos, talvez minutos, ele acreditava que o mundo era suficiente, que eles eram suficientes, que a pobreza era apenas um detalhe incidental e não a estrutura fundamental de suas existências.
Eles começaram a namorar três semanas depois daquela festa, em uma transição tão natural e orgânica que nenhum dos dois conseguia dizer exatamente quando haviam deixado de ser "conhecidos" e se tornado "um casal". Era uma história de amor construída sobre fundações de pequenos gestos: café dividido quando havia pão apenas para um, cobertores compartilhados durante os invernos paulistanos que não eram frios o suficiente para justificar aquecedores elétricos que consumiam energia demais, filmes piratas assistidos em laptops antigos com telas que piscavam, passeios em parques públicos onde Rafael explicava sobre a história dos monumentos com uma paixão contagiante, como se cada evento do passado fosse pessoal, uma ferida que ele estivesse curando através da narrativa.
Quando Rafael foi contratado como professor efetivo, três anos atrás, foi a maior conquista de suas vidas. A estabilidade — precária, sim, porque ser professor no Brasil é viver sob constante ameaça de reformas que nunca beneficiam quem ensina —, mas ainda assim a certeza de um salário fixo, de férias pagas, de um plano de saúde precário mas existente. Eles comemoraram com jantar em um restaurante que não era de bairro, um lugar com toalhas de papel nas mesas e cardápios plastificados, e gastaram cento e vinte reais, uma fortuna, uma loucura, um ato de rebeldia econômica que os deixou felizes por semanas. Foi naquela noite, depois de duas taças de vinho da casa que custava vinte e cinco reais a garrafa, que Rafael a pediu em casamento. Não havia anel — não havia dinheiro para anel —, mas havia uma promessa, feita com as mãos dadas sobre a mesa de plástico imitando madeira: "Eu não tenho muito para oferecer", disse ele, a voz embargada pela emoção e pelo álcool barato, "mas tenho uma vida inteira de lealdade, de cuidado, de amor. Tenho a certeza de que enquanto eu respirar, você será minha prioridade. Tenho a convicção de que juntos somos mais fortes do que qualquer dificuldade. E tenho a esperança — essa sim, inabalável — de que o futuro será melhor, porque nós vamos construí-lo juntos, tijolo por tijolo, dia por dia." Larissa chorou, e aceitou, e naquela noite, em seu apartamento alugado de quarenta e cinco metros quadrados em Osasco, eles fizeram amor com uma intensidade que parecia transcendente, como se os dois corpos unidos pudessem gerar não apenas prazer, mas uma força capaz de mover montanhas de miséria e injustiça.
O amor de Rafael e Larissa era, em sua essência, um ato de resistência política. Eles não usavam essas palavras — não eram ativistas, não frequentavam movimentos sociais, não liam teoria crítica —, mas viviam, diariamente, uma recusa silenciosa à lógica do capital que dizia que sem dinheiro não havia felicidade. Tinham pouco, e eram felizes. Felizes nas manhãs de domingo quando Rafael preparava café com pão francês comprado na padaria antes das oito, ainda quente. Felizes nas noites de terça quando assistiam a séries antigas em streaming de logins emprestados, enrolados em um sofá comprado usado em um bazar de igreja por duzentos reais. Felizes nos passeios de ônibus pelo centro, onde comiam cachorro-quente de carrinho e eram jovens e amavam e o resto do mundo parecia não existir.
E então veio a gravidez. Não planejada, mas também não evitada, porque havia um acordo tácito entre eles de que se acontecesse seria bem-vinda, seria o próximo passo lógico em uma narrativa de amor construída para durar. Quando Larissa mostrou o teste positivo, duas linhas rosadas que pareciam as mais belas obras de arte que já haviam existido, eles choraram juntos, de alegria e de terror, porque um filho custava caro e eles não tinham carro, nem casa própria, nem reserva de emergência. Mas tinham amor, tinham um ao outro, e isso, acreditavam firmemente, seria suficiente.
Rafael trabalhou mais. Deu aulas particulares à noite, acumulou três turmas de reforço aos sábados, escreveu artigos para revistas acadêmicas que pagavam quinhentos reais e consumiam semanas de pesquisa. Larissa, que trabalhava como auxiliar administrativa em uma pequena empresa de contabilidade com salário mínimo, conseguiu uma promoção para recepcionista, ganhando trezentos reais a mais por mês. Eles economizavam cada centavo, cortaram carne vermelha das refeições, substituíram o café por solúvel de marca desconhecida, deixaram de sair completamente, e juntaram, em quatro meses, a quantia de cinco mil reais — sua fortuna, seu tesouro, sua segurança sonhada.
Foi nesse contexto de escassez heroica, de amor operário, de resistência romântica contra as estatísticas que diziam que pobres não deveriam ter filhos, que apareceu a oportunidade. A oportunidade que mudaria tudo.
***
## PARTE I.II — A ARANHA E A TEIA
Helena Cavalcanti não chegou ao apartamento de Larissa. Chegou ao escritório onde ela trabalhava, e isso foi calculado. Tudo em Helena Cavalcanti era calculado com uma precisão que a maioria das pessoas jamais perceberia, porque o talento mais refinado da mulher era fazer parecer que nada era calculado, que tudo era impulso, generosidade, acaso. Ela usava a espontaneidade como estratégia, o charme como arma, a aparente bondade como gancho de pesca com linha de seda invisível.
A verdade sobre o interesse de Helena em Larissa era mais complexa, mais tortuosa e mais reveladora do caráter da família Cavalcanti do que qualquer narrativa simples de "rica malvada procurando vítima" poderia capturar. Helena havia chegado àquele escritório de contabilidade por motivo completamente mundano: a empresa processava uma parte menor dos livros contábeis de algumas das holdings menores dos Cavalcanti, holdings que Helena controlava pessoalmente, separadas do império principal do marido, um arranjo financeiro que permitia a ela manter certo grau de independência monetária que ela cultivava com a diligência de uma agricultora em solo árido. Ela havia ligado diversas vezes para tratar de um relatório atrasado, e toda vez, sem exceção, a voz que atendia do outro lado da linha — educada, clara, sem o sotaque nasal de certas regiões que Helena não suportava, sem a pressa artificialmente apressada de secretárias jovens tentando parecer eficientes — havia destravado algo inesperado nela.
Porque Helena era, antes de tudo, uma colecionadora. Não de obras de arte, embora tivesse muitas — as telas de Di Cavalcanti e Portinari que decoravam o triplex eram investimentos, não paixões. Ela colecionava pessoas. Tipos específicos de pessoas: aquelas que possuíam algo que ela não podia comprar diretamente, algo que dinheiro não fabricava, uma autenticidade que a riqueza, paradoxalmente, destruía. Ela havia cercado a si mesma de mulheres artificiais, de amigas que eram versões menores dela mesma, todas com cabelos tingidos, seios operados, sorrisos de plástico, cujas conversas giravam eternamente em torno de shoppings e de traições conjugais e de vacinas estéticas. Ela vivia em uma bolha de opulência que era, em seu âmago, profundamente entediante, e esse tédio a corroía por baixo da superfície lacada como ferrugem sob verniz.
A voz de Larissa ao telefone havia chegado a ela como algo diferente. Havia nela uma gravidade natural, uma inteligência discreta, uma paciência que não era servil mas genuinamente gentil. Helena, que possuía um instinto avaliativo de predadora treinada pela sobrevivência nos salões da alta sociedade paulistana — um ambiente infinitamente mais cruel e competitivo do que qualquer campo de batalha corporativo —, percebeu imediatamente que aquela voz pertencia a uma mulher com substância. Com caráter real. Com algo que Helena, nos seus momentos de honestidade brutal consigo mesma — que ocorriam às três da manhã, quando o álcool e os somníferos franceses brigavam no sangue e a verdade encontrava brechas —, sabia que havia perdido ou talvez nunca possuído.
Mas havia outro componente, mais sombrio, mais central à dinâmica familiar dos Cavalcanti, que havia determinado o interesse de Helena em Larissa. Gabriel Junior voltava de Londres em duas semanas. E Gabriel Junior precisava de um presente. Não um presente qualquer — não um carro, não dinheiro, não viagens, porque essas coisas ele já possuía em abundância e haviam deixado de produzir qualquer impacto em sua psicologia de estimulação crescente. Gabriel precisava de algo vivo, algo genuíno, algo que não pudesse ser comprado nas lojas de grife ou nos catálogos de acompanhantes de luxo que ele frequentava. Precisava de algo que possuísse precisamente o que ele não tinha e não poderia ter: inocência real, amor real, uma vida construída sobre fundamentos que ele jamais conheceria.
Helena havia desenvolvido, ao longo de anos de cumplicidade com os caprichos do filho, um sexto sentido para identificar a presa certa. E Larissa, ela soube com a certeza imediata de quem reconhece uma oportunidade rara, era a presa perfeita. Jovem, bonita de forma natural e orgânica, grávida — o que adicionava uma camada de vulnerabilidade financeira que Helena compreendia ser o mais poderoso catalisador de decisões moralmente comprometidas —, e acima de tudo, amada. Profundamente amada por um homem que claramente era seu oposto em termos de poder econômico. Isso era crucial. Porque a humilhação máxima não era apenas física; era relacional. Era a destruição do amor, a demonstração de que nem o bem mais intangível e supostamente incorruptível — o amor verdadeiro, o amor pobre, o amor construído sobre boas intenções — escapava da lógica implacável do capital.
Havia algo mais, algo que Helena jamais verbalizaria em voz alta mas que movia suas ações com a força de um imperativo inconsciente: ela queria oferecer ao filho algo que ela mesma desejava secretamente. Porque Helena Cavalcanti, por baixo de todas as camadas de silicone e poder e crueldade calculada, era uma mulher que havia deixado de ser amada com genuinidade décadas atrás, e que havia transformado essa perda não em tristeza, mas em ressentimento ativo, em uma necessidade de destruir nos outros aquilo que ela mesma não podia ter. Ver uma mulher amada, protegida, desejada por um homem simples com coração honesto — e então ver essa mulher destruída, corrompida, roubada desse amor — era para Helena uma forma de catarse, uma vingança contra o universo que a havia tornado rica e vazia em lugar de pobre e plena.
E então Helena entrou naquele escritório de contabilidade e encontrou Larissa pessoalmente, e o que viu confirmou cada cálculo. Aquela moça de cabelos castanhos, vestindo roupa barata com uma dignidade que nenhum estilista poderia replicar, olhando para ela com olhos verdes que carregavam uma inocência não fabricada — era perfeita. Era exatamente o que Gabriel precisava para a próxima fase de sua formação. E era exatamente o tipo de coisa que Helena sabia, com a certeza de quem havia estudado o comportamento humano sob pressão durante décadas, que podia ser adquirida pelo preço certo.
— Grávida? — Helena notou, porque era impossível não notar, apesar de Larissa ainda estar nos estágios iniciais. Havia algo no rosto, no brilho particular da pele, na maneira como a mão dela pousava instintivamente sobre o abdômen com um gesto protetor que era ao mesmo tempo tão humano quanto desesperadoramente vulnerável aos olhos de quem sabia o que a vulnerabilidade custava.
— Dois meses, senhora — Larissa respondeu, sentindo-se subitamente exposta, como se Helena pudesse ver através de suas roupas baratas, de seus segredos, de sua vida inteira reduzida a uma equação de insuficiência econômica. — É um momento complicado, mas feliz. Estamos muito felizes.
— Complicado — Helena repetiu, a palavra saindo como uma carícia venenosa, uma confirmação de algo que ela já sabia e que dependia de Larissa confirmar. — Sim, imagine que sim. Crianças são caras, não são? Especialmente quando se vive com orçamentos limitados. Mas permita-me apresentar-me adequadamente. Sou Helena Cavalcanti. E sim, daqueles Cavalcanti.
Ela pausou para deixar o nome pousar, observando o efeito nos olhos verdes de Larissa — a dilatação das pupilas, a respiração levemente presa, o reconhecimento inevitável de uma magnitude de poder que reestruturava o espaço ao redor. Helena havia aprendido a usar o peso do nome como outros usavam perfume: aplicado com precisão estratégica antes do contato íntimo, para preparar o ambiente.
— Meu marido dirige o maior conglomerado imobiliário do estado — continuou, deslizando o cartão de visita entre os dedos como um mágico apresentando a carta principal. — Estamos inaugurando nossa residência definitiva na Faria Lima, após três anos de reforma. É um espaço que demanda certa... alma. Entende o que quero dizer? Arquitetos e decoradores transformam espaços em catálogos. Mas o que transforma uma residência em um lar é a comida. A comida com afeto, com memória, com mão que conhece o tempero certo. Não chefs estrelados que servem espumas de trufa em colheres de osso. Comida verdadeira. Comida que quando você sente o cheiro, ainda na entrada, já faz o corpo relaxar. Você entende?
Larissa entendia. Ela própria crescera em uma casa onde a avó acordava às quatro da manhã para fazer feijão que ficava no fogo por seis horas, onde a farinha de mandioca era torrada em casa, onde o bolo de fubá saía do forno quando os filhos chegavam da escola porque a avó calculava o tempo com uma precisão que nenhum relógio comercializava. Ela entendia o que era comida com alma porque havia crescido dela, havia sido formada por ela, havia levado essa memória no corpo como uma segunda natureza.
— Entendo — Larissa disse, e havia sinceridade na voz, uma sintonização genuína que Helena reconheceu e registrou como informação valiosa.
— Imaginei que entenderia — Helena sorriu, e desta vez havia no sorriso algo que parecia quase real, uma aprovação que era mais do que calculada, porque Helena, apesar de tudo, possuía um paladar refinado o suficiente para reconhecer autenticidade mesmo quando estava prestes a destruí-la. — Estou procurando uma cozinheira. Alguém que possa eventualmente expandir suas funções. Alguém de confiança absoluta. E a senhora de recursos humanos desta empresa, com quem conversei brevemente antes de subir, me disse que você é a funcionária mais responsável, a mais pontual, a mais educada. Isso importa para mim. Quero alguém que eu possa introduzir na casa com a certeza de que se comportará com discrição.
Ela fez uma pausa calculada.
— A oferta é esta: dois mil e quatrocentos reais mensais, vinte dias de trabalho, folga aos domingos e uma segunda-feira, benefícios em dia, e um bônus de gestação. Cinco mil reais mensais adicionais até o parto, para garantir assistência médica de qualidade. Seu filho merece nascer em hospital particular, não é? Merece ter as melhores condições desde o primeiro segundo de vida.
Larissa sentiu o mundo girar. Fez a matemática instintivamente, aquela matemática permanente de quem vive com escassez: dois mil e quatrocentos mais cinco mil era sete mil e quatrocentos reais por mês. Quase o dobro da renda combinada dela e de Rafael. Em seis meses até o parto, seriam quarenta e quatro mil e quatrocentos reais. A casa própria. O parto no Albert Einstein. O enxoval completo. A faculdade do bebê começando a ser poupada antes mesmo de ele nascer.
— Eu... preciso conversar com meu noivo — ela sussurrou.
— Claro — Helena assentiu, e se virou para ir embora com a fluidez de quem sempre soube que a resposta seria sim, que era apenas uma questão de protocolo deixar que o outro acreditasse que estava decidindo. Parou na porta, olhando por cima do ombro, um gesto que havia praticado tantas vezes que parecia completamente espontâneo. — Ah, e Larissa. Eu sei muito sobre necessidade. E sei que às vezes, para conseguirmos o que precisamos, devemos ser criativas. Abertas a possibilidades que talvez não tivéssemos considerado antes. Pense nisso.
Quando Helena saiu, o perfume caro deixou um rastro que permaneceu por minutos, contrastando violentamente com o cheiro de café velho e papel timbrado barato do escritório. Larissa olhou para o cartão. "O luxo é uma questão de escolha." E ela pensou, enquanto seus dedos traçavam as letras douradas, que havia algo profundamente errado naquelas palavras para alguém que nunca tivera escolhas reais. Mas o bebê se movia, ou parecia se mover, e aquele movimento invisível pesava mais que qualquer princípio abstrato.
Naquela noite, quando Rafael chegou em casa exausto depois de onze horas de trabalho, Larissa contou tudo. Rafael ouviu em silêncio, com a atenção analítica do historiador que aprende a separar o narrado do não-narrado, a escutar não apenas o que é dito, mas o que é cuidadosamente omitido. Quando ela terminou, ele ficou quieto por um longo momento, olhando para o teto do apartamento onde havia uma mancha de umidade que eles não podiam consertar porque o dono não reformava e eles não podiam sair porque não tinham depósito para o próximo aluguel.
— O que ela não disse? — ele perguntou finalmente.
— O quê?
— O que essa mulher não disse? Toda história tem o que é narrado e o que é silenciado. O que ela omitiu?
Larissa pensou. — Por que eu especificamente. Por que não contratar alguém com experiência comprovada, com referências de outros empregos domésticos. Por que uma recepcionista de empresa de contabilidade para cozinheira de apartamento de bilionários.
Rafael assentiu, os olhos escuros apertados. — Exatamente. Não faz sentido econômico. Uma dona de casa do nível dela tem acesso a redes de indicação de profissionais de alto padrão. Há agências especializadas. Por que telefonar para um escritório de contabilidade e se interessar pela recepcionista?
— Rafael — Larissa disse, a voz baixa, as mãos sobre a barriga. — É sete mil e quatrocentos reais por mês. São quarenta e quatro mil antes do parto.
E o número, pronunciado em voz alta no apartamento pequeno e abafado, soou como uma oração e como uma maldição ao mesmo tempo.
Eles discutiram até tarde. Rafael argumentou sobre sinais de alarme, sobre a lógica predatória do capital, sobre como a generosidade excessiva sempre esconde uma extração proporcional. Larissa concordava com tudo, mas a matemática da necessidade era mais eloquente do que qualquer argumento. E quando a madrugada chegou, os dois abraçados no sofá pequeno com o ventilador ligado no máximo, Rafael sussurrou:
— Aceita. Mas com uma condição: você sai assim que sentir que algo está errado. Qualquer coisa além de cozinhar. Promete?
— Prometo — Larissa sussurrou, beijando-o com uma ternura que carregava, embutida em suas dobras, a semente de uma despedida que nenhum dos dois conseguia ainda ver.
Ela começaria na segunda-feira seguinte. E o mundo, como ela o conhecia, teria exatos seis dias de duração.
***
## PARTE I.III — O LABORATÓRIO DE MÁRMORE
O triplex da Faria Lima era uma obra de arte do poder declarativo. Quando Larissa atravessou pela primeira vez a porta de entrada — uma peça maciça de madeira de lei com detalhes em aço escovado que custava mais que um apartamento no bairro onde ela morava —, sentiu o mesmo impacto desorientador que se sente ao entrar em uma catedral: a escala deliberada de tudo, projetada para fazer o visitante compreender, antes de qualquer palavra ser dita, qual era seu tamanho relativo no universo.
Mil e duzentos metros quadrados distribuídos em três andares de mármore travertino italiano, o mesmo marble que revestia colunas de senado no centro de Roma, polido até que a superfície refletisse como espelho, frio sob os sapatos de couro falso de Larissa como o assoalho de um museu onde ela não deveria estar. As paredes brancas, de um branco que não era simplesmente ausência de cor, mas sim uma curadoria precisa de luminosidade, recebiam obras que ela reconheceu vagamente — havia um Di Cavalcanti que ela havia visto reproduzido em um livro de arte que consultara na biblioteca pública, uma tela de mulheres morenas com cores tropicais exuberantes que parecia quase irônica naquele contexto de frieza monumental. Os lustres de cristal Baccarat pendiam do teto triplo como constelações aprisionadas, e o silêncio — um silêncio espesso, cultivado, o silêncio de paredes grossas e janelas blindadas que excluíam o barulho do mundo real lá fora — era em si mesmo uma declaração de poder. O mundo, aquele mundo caótico de ônibus lotados e buzinas e vozes de vendedor ambulante que era o universo de Larissa, simplesmente não existia aqui.
Helena a recebeu na cozinha, que era o tamanho da sala de estar do apartamento de Larissa, equipada com eletrodomésticos europeus que Larissa não saberia operar sem manual, com uma ilha central de mármore negro que parecia um altar e com uma vista para uma área de serviço que era mais organizada e esteticamente cuidada do que qualquer cômodo que Larissa já habitara. Helena usava um roupão de seda cor de champanhe e segurava um café expresso em porcelana que era um objeto de design tanto quanto de uso, e havia, em seu posicionamento naquele espaço, algo que Larissa levou dias para nomear: ela não estava em sua casa. Estava em seu laboratório.
— Bem-vinda — Helena disse, com um calor que parecia genuíno porque havia sido tão bem ensaiado que havia transcendido o ensaio e se tornado reflexo. — Aqui você pode criar o que quiser. O orçamento para a cozinha é ilimitado. Se precisar de algum ingrediente, um tempero específico, uma erva que não se encontra facilmente, você fala com Rosana — ela gesticulou para uma mulher de cinquenta anos de expressão neutra que surgiu de um cômodo lateral como uma aparição — e ela providencia. A única regra é que a comida seja boa. Verdadeiramente boa. Do tipo que faz alguém fechar os olhos ao comer.
Larissa começou a trabalhar, e o trabalho era bom. Era a parte de sua vida que ela podia controlar, que respondia à sua competência, que produzia resultados concretos e imediatos. Ela fazia o que sabia fazer bem: comida de memória, de afeto, de erva fresca e caldo demorado. Arroz com suã que ficava três horas no fogo. Tutu de feijão com torresmo crocante. Frango com quiabo de avó, um prato que ela refazia mentalmente todas as vezes como se fosse a primeira, prestando atenção em cada detalhe, no ponto exato onde o quiabo deixa de ter o fio mas antes de perder a textura. Era quando se sentia mais ela mesma, mais inteira, mais longe do desconforto difuso que o apartamento produzia nela.
Helena aparecia na cozinha com frequência. Não para supervisionar — para observar. Havia uma diferença fundamental que Larissa percebeu gradualmente: supervisão é sobre o produto, observação é sobre o produtor. Helena não estava avaliando o feijão; estava avaliando Larissa. A forma como ela se movia no espaço, como tratava os ingredientes, como reagia a diferentes estímulos. Eram olhos de pesquisadora, não de patroa.
E então, na quarta-feira da primeira semana, Helena a convidou para almoçar juntas.
Elas se sentaram na mesa de jantar, que era grande o suficiente para doze pessoas mas estava posta apenas para duas, o que criava um efeito de intimidade forçada, de território compartilhado que não era exatamente confortável. Helena serviu-se e observou Larissa servir-se, e havia um prazer quase materno em como ela assistia à cozinheira experimentar a própria comida, um prazer que continha algo de possessividade.
— Você ama esse homem — Helena disse, não como pergunta, mas como diagnóstico. — O seu professor. Você ama de verdade.
— Amo — Larissa respondeu, sem hesitação.
— Como assim? — Helena inclinou-se ligeiramente, uma inclinação mínima que era no entanto carregada de uma urgência que não combinava com a superfície casual da conversa. — Explica esse amor para mim. Eu esqueço como é.
A frase foi dita com uma leveza que escondia um abismo, e Larissa, que era sensível a abismos ainda que não os nomeasse analiticamente, sentiu algo se contrair em seu peito. Ela olhou para Helena — para a mulher por baixo do robe de seda e do cabelo de salão e dos olhos provavelmente coloridos artificialmente — e viu, por um segundo, algo que não esperava ver: solidão. Uma solidão específica, de quem possui tudo o que pode ser comprado e descobre que a lista de coisas que não podem ser compradas é exatamente a lista que importa.
— É... é confiar — Larissa disse, escolhendo as palavras com cuidado. — É saber que a outra pessoa vai estar lá, não porque é obrigada, não porque ganha algo, mas porque quer. É ser vista. Não o que você aparenta, não o que você produz, mas o que você é quando está com fome e cansada e com medo. É ter alguém que vê isso e fica.
Helena não respondeu imediatamente. Ficou olhando para o copo de suco de laranja de Larissa — ela havia pedido suco para a grávida, um gesto de atenção que parecia genuíno — e havia uma expressão em seu rosto que fugia da curadoria usual: algo cru, algo humano, algo que durou apenas dois ou três segundos antes de ser arquivado de volta sob camadas de compostura.
— Que bonito — ela disse, finalmente, a voz levemente mais rouca do que antes. E então, como se o momento de humanidade a houvesse irritado, como se a própria vulnerabilidade de tê-lo experimentado exigisse uma correção imediata, ela sorriu com os dentes e mudou de tom: — E ingênuo. Que absolutamente ingênuo.
Larissa não respondeu. Comeu o feijão em silêncio, sentindo que havia compartilhado mais do que devia, sentindo que o território havia se deslocado sob seus pés de forma imperceptível, como placas tectônicas que se movem milímetros por dia e produzem terremotos.
Ela não sabia que, naquele exato momento, três andares acima, em um quarto com cama king-size e persianas automáticas, Gabriel Cavalcanti Junior havia chegado de Londres. E que Helena havia subido para recebê-lo com o sorriso de uma diretora apresentando a atração principal ao ator mais aguardado do elenco.
— Ela está na cozinha — Helena sussurrou ao filho, sentada na beira da cama enquanto ele desembalava malas de couro italiano. — Mais bonita do que esperava. Grávida, dois meses. Noiva de professor de escola pública. Completamente apaixonada, completamente vulnerável, completamente perfeita.
Gabriel Junior parou de desempacotar. Virou-se devagar para a mãe, e o sorriso que se formou em seu rosto era a combinação mais perturbadora possível: a satisfação de uma criança que recebe exatamente o presente que pediu, misturada com a frieza de um predador que já visualizou a caça e está calculando o ângulo de ataque.
— Perfeita como? — ele perguntou.
— Perfeita como aquela que vai ensinar você que o mundo real existe — Helena respondeu, levantando-se, ajeitando o robe. — E que você pode comê-lo inteiro, da forma que quiser, sem que reste nenhuma consequência. O pai vai explicar ao noivo o funcionamento da economia. Sua parte é mais... direta.
Ela caminhou até a porta do quarto, parou no batente.
— Mas espera — ela disse, sem virar. — Deixa ela confiar primeiro. Deixa ela se sentir segura. O sabor muda completamente quando você retira a inocência de alguém que ainda a possui. Você aprenderá isso, meu filho. É a lição mais importante que existe.
E desceu as escadas de volta para a cozinha, onde Larissa lavava os pratos com cuidado, cantarolando baixinho uma música que Rafael cantava para a barriga nas noites de domingo, e o apartamento cheirava a feijão bom e a final de tarde, e por um momento, apenas por um momento, o triplex da Faria Lima cheirou a algo que não tinha preço.
E foi exatamente isso que os Cavalcanti vieram destruir.
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Obs: acabou ficando maior do que eu imaginava! Comentem se estão gostando! Em breve a próxima parte!