Respirando fundo, a palavra atravessou a minha garganta antes que eu pudesse medir o peso dela.
— É o Arthuro
Arthur inclinou levemente a cabeça, os olhos atentos, como se quisesse captar qualquer tremor escondido na minha respiração.
— É quem? Quem é, Ber? Pode falar.
Eu sustentei o olhar dele por um segundo a mais do que deveria.
— Quer dizer é o Yan. Um amigo do Arthuro… que eu conheci faz pouco tempo.
Vi, com clareza quase cruel, o exato instante em que o corpo dele relaxou. Os ombros desceram, o maxilar deixou de estar tenso, e um sopro de ar escapou dos lábios dele.
— Eu já imaginava.
Franzi o cenho.
— Como assim?
Ele passou a língua discretamente pelo lábio inferior, como quem organiza as próprias palavras.
— É que o Arthuro comentou… no dia que vocês saíram juntos e tudo mais… que você acabou ficando com um amigo dele. Eu não conheço esse amigo, mas ele disse que depois vocês foram pra praia juntos. Ele deu de ombros, com um meio sorriso enviesado.
— Já era de imaginar que você tivesse algum tipo de envolvimento com ele.
Eu desviei o olhar por um instante, como se precisasse encontrar coragem em algum ponto fixo da sala. Depois voltei para ele.
— É… ele é uma pessoa muito bacana. Muito legal, cortês. Me trata bem. — Senti um calor subir pelo pescoço enquanto falava.
— É mais velho também. Não muito. São poucos anos de diferença. E… digamos que é alguém… ou melhor… uma opção segura pra eu estar junto.
Mesmo dizendo o nome do Yan, minha mente me traía. Era como se outra palavra quisesse escapar da minha boca. Era pra eu ter falado que era o Arthuro. Mas como? Como dizer que era o irmão dele, sem magoar, sem antes conversar, sem saber até onde eu podia ir? E se ele descobrisse por outro? E se o próprio Arthur contasse antes de mim?
Meu pensamento pausou abruptamente, como um corte seco. Eu voltei pra ele.
Arthur riu baixo, quase nasal.
— É… esse amigo do Arthuro… — ele fez um gesto com a mão, desenhando círculos no ar.
— Eu pensei até que… sei lá.
— Que o quê?
— Ele se aproximou um passo.
— Uma vez quando vocês saíram todos juntos… outra também. Ele disse que tinha um amigo que era gay.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— E eu pensei… pronto. Tem algo rolando ali.
— Agora eu não sou mais o unico gay de estimação de vocês, né?
Ele riu também, o som leve, mas carregado de algo que eu ainda não conseguia decifrar.
— Você nunca foi o gay de estimação da gente. Até porque o nosso grupo sempre teve você e o Miguel. Ele inclinou o rosto para o lado.
— E vocês sempre foram um casal, né?
O nome de Miguel pairou entre nós como um fantasma educado.
— É… nós éramos um casal.
Arthur me observou com atenção. Os olhos dele passearam pelo meu rosto como se buscassem marcas que nem eu sabia que carregava. Ele abriu um sorriso enviesado.
— Mas eu pensei… — ele hesitou, depois soltou de vez — O Arthuro já tinha até comido esse amigo dele.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
— O quê? Como assim?
Ele deu uma risada curta.
— Ah… o Arthuro disse que esse amigo era bem atirado e tudo mais. Eu até imaginei que já tinham ficado. — Ele encolheu os ombros.
— Só que eu acho que o meu irmão não curtiria certas coisas.
A provocação veio suave, mas carregada de intenção.
Eu cruzei os braços, me aproximando um pouco mais dele, o suficiente para sentir o calor do corpo dele atravessar a distância.
— Ah… nunca se sabe, né? — inclinei o rosto, deixando minha voz mais baixa.
— De você também a gente não sabia.
Os olhos dele escureceram. Não de raiva. De interesse.
Por um segundo que pareceu longo demais, ficamos ali, próximos o suficiente para que minha respiração encostasse na pele dele. Arthur quebrou a tensão primeiro. Ele se aproximou de vez e me deu um beijo no rosto. Um gesto simples. Mas o toque dos lábios dele demorou um segundo além do necessário.
Quando se afastou, passou a mão pelo próprio rosto, como se estivesse tentando organizar pensamentos que eu também sabia que estavam bagunçados. Caminhou até o sofá e sentou. Não com raiva. Não com frieza. Mas como alguém que processava.
Eu permaneci de pé por alguns instantes, observando-o.
— Então… — ele começou, apoiando os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos.
— Você e o Yan.
— Eu e o Yan — repeti.
— Vocês estão…?
— Estamos nos conhecendo.
Ele ergueu os olhos pra mim.
— E você gosta dele?
A pergunta não veio leve. Veio direta. Quase íntima demais.
Eu me aproximei devagar, parando diante dele. Arthur levantou o olhar, e por estarmos em níveis diferentes, a linha da visão dele ficou exatamente na altura do meu abdômen antes de subir de novo para meus olhos.
— Eu gosto do jeito que ele me olha — respondi, com honestidade.
— Do jeito que ele toca. É seguro. Calmo. Ele não me apressa.
Arthur inclinou a cabeça.
— E eu apresso?
O ar entre nós mudou de densidade.
Eu me sentei ao lado dele, não tão perto, mas perto o suficiente para que nossas coxas quase se tocassem.
— Você nunca foi exatamente… calmo.
Ele soltou um riso baixo.
— Não?
— Não.
Arthur virou o rosto lentamente para mim. Os olhos dele desceram para minha boca, depois subiram de novo.
— E isso é ruim?
Meu coração começou a bater mais forte, denunciando o que eu tentava manter sob controle.
— Depende — respondi, sentindo a tensão se espalhar pela pele. — Tem coisas que não precisam ser calmas.
O silêncio que se instalou não era vazio. Era carregado. Cada respiração parecia mais audível. Cada pequeno movimento parecia ampliado.
Arthur deslizou a mão pelo próprio pescoço, como se sentisse calor. Depois deixou o braço repousar atrás de mim, no encosto do sofá. Não me tocava. Mas a proximidade do corpo dele era uma provocação constante.
— E o Yan… — ele murmurou, quase rouco — ele te beija como?
Meu olhar encontrou o dele de novo.
— Com intenção.
— E eu?
Meu estômago revirou.
— Você… — respirei fundo — você beija como se estivesse testando limites.
Os lábios dele se curvaram em um sorriso lento.
— Talvez eu esteja.
O espaço entre nós diminuiu sem que eu soubesse exatamente quando. Meu joelho encostou no dele. Nenhum de nós afastou.
O ar parecia mais quente. Mais denso.
Arthur inclinou o rosto, a respiração dele agora claramente misturada à minha. Não havia pressa. Só expectativa.
E naquele instante, entre o nome que eu disse e o nome que eu não tive coragem de dizer, eu soube que começava ali algo que eu precisava tomar coragem esclarecer..
Começava ali.
No sofá.
Entre duas verdades mal ditas. E um desejo que nenhum de nós parecia disposto a ignorar.
O peso daquela mentira. O nome de Yan flutuando entre nós como uma boia de salvação, parecia vibrar no ar denso da sala. Arthur estava ali, a centímetros de mim, exalando aquele magnetismo bruto que o sexo de mais cedo apenas intensificara. O braço dele, estendido no encosto do sofá atrás de mim, era uma fronteira que eu não sabia se queria cruzar ou se já tinha atravessado sem volta.
— Talvez eu esteja — ele repetiu, a voz descendo uma oitava, tornando-se aquele barítono que me fazia perder o prumo.
— Testando limites, Ber. É o que eu faço de melhor.
Eu sentia o calor da coxa dele pressionando a minha através da aproximação. O contraste era absurdo: estávamos ali, vestindo as máscaras de novo, agindo como amigos que conversam sobre pretendentes, enquanto o meu interior ainda guardava a memória do toque dele, da força dele na poltrona, do chá de pica que ele tinha acabado de me servir.
— Você testa — murmurei, sustentando o olhar.
— Mas o Yan... ele oferece algo que você não oferece, Arthur. Ele oferece sossego. E com tudo o que está acontecendo... com essa história da Minna... talvez sossego seja o que eu precise.
O nome da Minna agiu como um balde de água fria, mas apenas por um segundo. Arthur não se afastou. Pelo contrário, ele inclinou o corpo mais para o meu lado, o cheiro de sabonete e pele quente me inebriando.
— Sossego é bom para dormir, Ber — ele provocou, a mão que estava no encosto descendo lentamente para tocar a curva do meu ombro, os dedos traçando o desenho da minha clavícula por cima da camisa.
— Mas para viver... para sentir o sangue correndo... você precisa de mais do que calma.
Ele deslizou a mão para o meu pescoço, o polegar pressionando levemente a minha mandíbula, obrigando-me a encará-lo com ainda mais proximidade. O olhar de Arthur era predatório e, ao mesmo tempo, estranhamente vulnerável.
— O Yan sabe o que você gosta? — ele sussurrou, a boca tão perto da minha que eu sentia o movimento dos lábios dele.
— Ele sabe como te fazer gemer daquele jeito que você fez lá em cima? Ele sabe o quanto você fica gostoso quando perde o controle?
Meu coração martelava contra as costelas. A imagem do Arthuro: O verdadeiro dono dos meus pensamentos, lampejou na minha mente. A ironia era cruel: eu estava ali, sendo desejado pelo Arthur, mentindo sobre o Yan, enquanto desejava o Arthuro, que o Arthur achava que tinha ficado com o Yan. Era um círculo vicioso de segredos.
— Ele sabe o necessário — respondi, a voz falhando.
— O necessário não basta — Arthur rebateu, e antes que eu pudesse formular qualquer defesa, ele selou nossos lábios.
Não foi o beijo selvagem de antes. Foi um beijo carregado de uma possessividade silenciosa, uma disputa de territórios. A língua dele buscou a minha com uma urgência contida, testando, como ele mesmo disse, os limites do meu compromisso com aquela mentira. Eu retribui, não por querer trair o que sentia pelo Arthuro, mas porque o corpo do Arthur era um ímã, uma força da natureza que eu não conseguia ignorar estando tão perto.
Separamo-nos ofegantes, os olhos fixos um no outro. O desejo ainda estava ali, vivo e pulsante, mas a sombra das verdades mal ditas agora era um terceiro elemento no sofá.
— Eu preciso ir — falei, finalmente reunindo forças para me levantar.
O ar na sala ainda estava impregnado com o magnetismo do que havíamos vivido lá em cima, mas a tensão agora era de outra natureza. Arthur, com aquele olhar de quem não aceita ser apenas um capítulo na vida de alguém, lançou a pergunta que ecoava como um desafio:
— Você não respondeu o que eu perguntei, Ber. O que o Yan tem que eu não posso te oferecer? Por que ele é melhor do que eu?
Respirei fundo, sentindo o peso daquela possessividade. Toquei o braço dele, tentando trazer um pouco de realidade para aquele turbilhão.
— Arthur, eu odeio esse nível de comparação que você faz. Desde a primeira vez, você se compara ao Miguel. Agora, tenta se comparar ao Yan. São situações completamente diferentes. O Miguel foi o primeiro amor da minha vida, um dos homens que eu mais amei. Terminamos por uma opção em conjunto, e você sabe disso, você era amigo dele também.
Aproximei-me mais, encarando-o com seriedade.
— Compartilhei com você que gosto de alguém e você age de forma ofensiva. Isso me faz pensar que talvez tenha sido um erro tudo o que aconteceu entre a gente hoje. Eu não quero perder sua amizade por conta de um ciúme seu.
Arthur soltou uma risada irônica, mas seus olhos amoleceram.
— A gente nunca vai perder a nossa amizade, Ber. Eu só não quero perder você para outra pessoa. Eu não queria ter que te disputar.
— Chega, Arthur — cortei, firme. — Você não vai me disputar com ninguém. Eu me abri com você como você se abriu comigo sobre a Minna. Peço que me respeite. Essa conversa acaba aqui.
Eu já estava em pé, pronto para sair, quando senti suas mãos grandes e quentes envolverem minha cintura por trás. Ele inclinou a cabeça e depositou um beijo demorado no meu ombro, um toque que fez minha pele arrepiar apesar da minha irritação.
— Desculpa, Ber... fiz sem intenção. É que eu te amo.
Virei-me devagar, encontrando o rosto dele tão próximo que nossas respirações se misturavam novamente.
— Eu também te amo, Arthur. Mas te amo como meu melhor amigo. Não é o amor de relacionamento que você acredita. Entende?
Ele me olhou com uma intensidade que quase me fez recuar, buscando nos meus olhos alguma brecha. Dei um beijo suave no rosto dele, tentando selar aquela paz frágil.
— Se cuida. A gente se fala mais tarde, tá?
— Tá... se cuida também. Foi excelente passar a tarde com você — ele disse, com a voz baixando de tom, o desejo voltando a brilhar nos olhos claros lindos herdado de sua mãe.
Antes de cruzar a porta, não resisti a uma última provocação. Aproximei meus lábios do ouvido dele e sussurrei:
— Esse chá de pica que você deu foi gostoso... poderia ser viciante.
Arthur riu, um som gutural, e apertou minha cintura com força, trazendo-me para perto por um segundo final.
— Na próxima, eu quero receber o seu chá — ele murmurou, o hálito quente me causando um calafrio delicioso.
— Vou te dar um chá que você jamais vai esquecer — respondi, olhando-o nos olhos antes de dar as costas e caminhar para casa.
O trajeto foi curto, mas minha mente trabalhava a mil por hora. Cheguei, tomei outro banho para tirar qualquer vestígio de suor que não fosse o meu, separei uma roupa impecável — uma camisa que valorizava meus ombros e uma bermuda que se ajustava bem — e avisei meus pais que sairia. O Arthuro já havia mandado mensagem: por volta das nove de moto.
No entanto, quando o relógio marcou o horário e eu me aproximei do portão, a surpresa veio sobre quatro rodas. Ao invés do ronco da moto, vi o brilho dos faróis de um carro. O vidro baixou lentamente e meu coração deu um solavanco.
No banco do motorista, o Arthuro, com aquele sorriso calmo que sempre me desarmava. Mas, ao lado dele, no banco do carona, estava o Arthur.
— Olha quem decidiu sair com a gente hoje! — Arthuro exclamou, animado. — Faz tempo que não saímos todos juntos, né?
Arthur me olhou com um sorriso sarcástico, um brilho de segredo compartilhado nos olhos que só eu e ele poderíamos entender.
— Foi ele que insistiu — Arthur continuou. — Disse que ia ser legal.
— Tudo bem, sem problemas — respondi, tentando manter a voz neutra, embora a presença dos dois juntos, depois do que eu e Arthur tínhamos feito naquela tarde, criasse um campo elétrico perigoso.
Num movimento rápido e surpreendente, Arthuro saiu do carro e veio até mim. Ele me envolveu num abraço apertado, sentindo o cheiro do meu perfume, e por um segundo, seus lábios roçaram meu pescoço de forma quase imperceptível para quem olhasse de fora. Ele abriu a porta de trás para eu entrar.
— Nossa, Arthuro, você está muito educado, né? — Arthur comentou, rindo do banco do carona. — Desceu do carro pra abrir a porta pro Ber?
— Ah... mania, né? — Arthuro brincou, coçando a nuca com aquele jeito de garoto travesso que ele usava tão bem.
Entrei no banco de trás, sentindo o olhar de Arthuro me seguir pelo retrovisor assim que ele voltou ao banco do motorista. Arthuro deu partida e seguimos pelas ruas iluminadas.
— Hoje dá pra gente ficar tranquilo — Arthuro disse, relaxado ao volante. — O Arthur tá com a gente, ele não bebe hoje, então ele pode dirigir na volta se eu quiser tomar uma.
— Não, não, não — Arthur rebateu rápido. — Se vocês beberem, eu também vou beber. Ninguém dirige se beber. O carro fica lá.
— Ah, meninos, eu posso dirigir! — ofereci. — Eu não pretendo beber mesmo.
Entramos numa discussão engraçada, uma dinâmica de irmãos que eu conhecia bem, mas que agora parecia carregada de subtextos. Conversamos sobre o passado, rimos de histórias antigas, até que o Arthur, num tom que parecia calculado para testar minha reação, soltou a frase que fez o clima no carro esfriar instantaneamente:
— Poxa, nesses momentos dá a maior saudade do Miguel... não é, Ber?
O silêncio que se seguiu foi cortante. Olhei pelo retrovisor e encontrei os olhos de Arthur fixos nos meus, desafiadores, enquanto Arthuro mantinha os olhos na estrada, sem imaginar que, entre nós três, o passado e o presente estavam prestes a colidir.
O trajeto no carro era curto, mas cada metro percorrido parecia esticar o silêncio que se seguiu à menção do nome de Miguel. O Arthuro mantinha as mãos firmes no volante, o perfil concentrado na estrada, enquanto o Arthur, ao seu lado, exalava uma energia de desafio. Eu, no banco de trás, sentia-me o centro de um cabo de guerra invisível.
— É... o Miguel é um cara legal — Arthuro finalmente respondeu, quebrando o gelo, mas sem tirar os olhos do asfalto. — Mas as coisas mudam, né?
— Mudam muito — Arthur completou, virando o rosto levemente para trás para capturar meu olhar. — Às vezes mudam para muito melhor, não é, Ber?
O brilho no olhar dele era uma referência direta à nossa tarde, ao suor e aos gemidos que ainda pareciam ecoar nos meus ouvidos. Eu apenas assenti, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. Quando Arthuro manobrou o carro para estacionar, a iluminação neon do bar começou a refletir nos vidros.
— Chegamos — Arthuro anunciou, desligando o motor.
Ao sairmos do veículo, o ar fresco da noite de sexta-feira nos atingiu. O bar era imponente, com uma fachada de madeira rústica e luzes quentes que prometiam um ambiente acolhedor. Antes de entrarmos, meu celular vibrou. Era o Yan, avisando que já estava a caminho de Uber. Mandei uma mensagem rápida para o Lucas confirmando nossa chegada.
Ao cruzarmos a entrada, o som ambiente, um misto de vozes baixas e o tilintar de copos; nos envolveu. O lugar era muito bem produzido, com mesas de madeira escura e um palco ao fundo onde instrumentos já estavam posicionados. O Lucas, ao me ver, abriu um sorriso radiante. Ele estava com uma camisa leve, os braços à mostra, transbordando carisma.
— Caraca, Bernardo! Que bom que você veio — ele disse, me puxando para um abraço apertado que cheirava a energia de show.
— É bom ter pessoas conhecidas para prestigiar.
— Ah, que isso, Lucas! Deixa eu te apresentar meus amigos. Este aqui é o Arthur e este é o Arthuro.
Lucas riu, alternando o olhar entre os dois.
— Deu para acertar, são gêmeos, né? Prazer, pessoal.
Fomos guiados para a mesa reservada, estrategicamente posicionada para termos uma visão privilegiada do palco. Assim que nos sentamos, Yan entrou no bar. Ele caminhava com uma confiança quase aristocrática, vestindo uma camisa de botões que realçava seu porte físico. Quando ele se aproximou, o clima na mesa mudou instantaneamente.
— E esse aqui é o Yan — apresentei, sentindo a tensão subir.
— Prazer, Yan. Eu sou o Lucas — o músico disse, estendendo a mão.
Yan deu um sorriso de canto, sentando-se e cruzando as pernas de forma elegante.
— Prazer Lucas, eu sou "alguma coisa" do Bernardo — ele respondeu, lançando um olhar enigmático para mim que fez o Arthur travar o maxilar na hora.
A risada foi geral, mas Lucas me chamou em um canto rápido antes de voltar ao palco.
— Poxa, Ber, eu convidei o Beto para vir hoje. Ele disse que gosta de pagode e samba. Ele viria com a esposa, mas até agora nada. Deixei dois lugares para ele na mesa de vocês, tudo bem?
— Sem problemas, Lucas. O Beto é um querido.
Voltei para a mesa e a disputa já havia começado. Yan, com seu charme cosmopolita, já pedia uma rodada de chope de vinho.
— Não acredito que você vai beber água, Ber — Yan provocou, vendo que eu ainda não tinha pedido álcool.
— Já basta o Arthuro que disse que não vai beber. Só esse irmão dele aqui que vai me acompanhar.
Arthur, sentado ao lado do Yan, deu uma risada curta e seca.
— Eu tenho nome, tá? Eu sou o Arthur. — Ele disse.
O olhar dele para o Yan era puramente analítico, como se estivesse medindo o tamanho do adversário.
— Ah, deixa de ser bobo, garoto — Yan brincou, mas seus olhos brilhavam de um jeito diferente ao encarar o Arthur.
Arthuro, ao meu lado, me deu um cutucão por debaixo da mesa, um olhar confuso cruzando seu rosto ao notar a faísca imediata entre o irmão e o amigo. Foi nesse instante que o perfume de Beto inundou o ambiente.
Beto chegou.
Ele não apenas entrou no bar; ele tomou posse do espaço. Estava deslumbrante em uma vestimenta preta, que realçava seu corpo magro e elegante, conferindo-lhe um ar de maturidade extremamente atraente.
— E aí, Bernardo. O Lucas falou que você vinha, decidi vir também — Beto disse, sua voz calma e segura silenciando por um momento a conversa da mesa.
— Que bom que veio, Beto! Senta aqui — apontei para a cadeira ao meu lado.
— A esposa desistiu — ele explicou, sentando-se com uma elegância natural.
— Decidi vir sozinho e aproveitar a música.
Beto se apresentou a todos, e logo ele estava dominando a conversa com uma maestria invejável. Ele era articulado, engraçado e tinha um jeito de olhar que fazia você se sentir a pessoa mais importante da mesa. Mas, enquanto ele falava, eu não conseguia deixar de notar o que acontecia à minha frente.
Yan e Arthur haviam estabelecido uma conexão estranha e cordial. Mesmo sem se conhecerem, eles se encaravam com uma intensidade que beirava intimidade. Yan analisava cada movimento dos braços fortes de Arthur, e Arthur, por sua vez, respondia com sorrisos sarcásticos e olhares que desciam para o pescoço de Yan. Era como se dois predadores tivessem se encontrado e estivessem decidindo quem atacaria primeiro.
Arthuro percebeu. Ele olhava de um para o outro, visivelmente incomodado com a proximidade súbita daquele flerte silencioso.
— Eu não sabia que o Lucas cantava, Beto — comentei, tentando focar na conversa ao meu lado.
— Ele tem uma voz excelente — Beto respondeu, inclinando-se para mim, seu hálito quente de bebida roçando meu ouvido.
— Você vai se surpreender.
O bar agora estava lotado, o calor aumentando, e a sensualidade daquela mesa era quase insuportável. De um lado, o frescor juvenil e perigoso dos gêmeos e de Yan; do outro, a sofisticação madura de Beto. E no centro de tudo, eu, carregando o segredo da tarde com um e o desejo latente pelo outro.
O show começou com uma sofisticação que pegou todos de surpresa. Lucas não era apenas um rosto bonito e inteligente; ele tinha o domínio do palco, uma malemolência que transformava o arranjo de MPB em um pagode elegante e cadenciado. A voz dele preenchia o bar, e logo as mesas foram sendo afastadas. O clima de flerte estava no ar, e o calor dos corpos se movendo começou a elevar a temperatura do ambiente.
— Eu preciso ir ao banheiro — murmurei para o Arthur, que estava ao meu lado, a presença dele ainda pesada pelo que vivemos mais cedo.
— É logo ali, Ber — ele indicou, mas antes que eu desse dois passos, Yan se levantou com um sorriso.
— Eu também vou, espera aí — disse Yan, emparelhando comigo.
Caminhamos pelo corredor lateral. O banheiro ainda estava tranquilo. Antes de entrarmos, Yan me prensou levemente contra a parede, um movimento rápido e seguro.
— Caraca, o irmão do Arthuro é um gato, né? — ele soltou, os olhos brilhando.
— Os dois são lindos, Yan. São meus amigos, mas não sou cego — respondi, tentando manter a neutralidade.
— É, mas... você é mais — ele sussurrou e me deu um beijo rápido, roubado, com gosto de chope de vinho.
— Estava com saudade de você.
— Yan, aqui não é o lugar — repreendi, embora meu corpo reagisse ao toque dele.
— Relaxa, Bernardo. A gente está num banheiro e, se você não percebeu, isso aqui é um bar LGBT friendly. Ninguém está nem aí.
— Acho que o Arthur e o Arturo não iam gostar muito dessa liberdade toda — comentei, lembrando da possessividade de Arthur.
— O Arthuro? É só dar uma bebida pra ele — Yan desdenhou, e aquela frase me incomodou. Havia uma leve arrogância no jeito que ele falava do meu amigo.
Saímos do banheiro após lavarmos as mãos. No corredor, Yan parou novamente, me encarando de forma analítica.
— Ber, deixa eu te perguntar... a gente está "livre" aqui, né?
— Como assim?
— Digo... a dinâmica entre a gente. Estamos livres para viver o ambiente? Você sabe, a temática do bar...
— Yan, você é livre para fazer o que quiser, assim como eu. Mas por quê? Já está de olho em alguém? — perguntei, sentindo uma pontada de curiosidade ácida.
— Não, não... só queria entender se haveria problema. Você sabe como é bar... — Ele sorriu e me deu outro beijo, mais lento dessa vez.
— Curte também.
— Minha intenção aqui é prestigiar um amigo e estou com dois colegas de trabalho. Não vim para caçar — respondi, firme.
— Entendi. Mas esse seu amigo, o Lucas... é mó gato também. Olha o sorriso dele — Yan comentou enquanto voltávamos para a mesa.
De volta ao grupo, o clima estava em ebulição. Lucas tinha passado o microfone para outro integrante do grupo, e o som agora era um samba de roda pesado, impossível de ficar parado. Yan, surpreendendo a todos, começou a sambar com uma habilidade que eu não conhecia.
— Ah, eu sei fazer muita coisa, Bernardo... você só precisa ir descobrindo — ele provocou, piscando para mim.
Beto também entrou na dança, com uma elegância de quem já frequentou muito samba de elite.
— Não me subestime pela idade, garoto — Beto brincou, movendo os ombros com uma cadência perfeita.
Eu me sentia um pouco travado. Arthuro se aproximou por trás e segurou minha cintura com as duas mãos, seus dedos grandes pressionando minha pele por cima da camisa. Ele inclinou a cabeça e sussurrou no meu ouvido:
— Você não precisa saber dançar, tá? Relaxa.
Foi quando o Arthur se aproximou, com aquele jeito mais doce e expansivo.
— Eu não danço tão bem, mas deixa eu te tirar para essa dança, Ber?
— Ai não, Arthur! Vou passar vergonha — ri, recusando gentilmente.
Yan, percebendo a deixa e com uma ousadia que beirava a insolência, puxou o Arthur pela mão.
— Vamos, eu danço com você!
O Arthur, que logo abriu um sorriso enorme, surpreendendo-me com sua simpatia súbita para com o Yan. Eles começaram a dançar juntos. Yan guiava o ritmo, conduzindo o Arthur, que parecia estar se divertindo genuinamente com a audácia do outro.
ArtHuro, que tinha ficado perto de mim, comentou em voz baixa, com um tom de deboche:
— Nossa, o Yan está caindo matando em cima do Arthur. Logo, logo o Arthur dá um fora nele. Ele deve estar achando que o Arthur sou eu, o "irmão simpático".
— É, deixa eles — respondi, observando a cena.
— Você não se incomoda? — Arthuro me perguntou, os olhos fixos na mão do Yan que agora repousava no ombro do seu irmão.
— Porque vocês dois ficam, né?
— Não, me incomodaria se fosse com você, Arthuro. Mas com ele? De jeito nenhum — falei, soltando uma verdade que fez o Arthuro sorrir de orelha a orelha.
— Entendi... — Arthuro murmurou, chegando mais perto. — Queria te beijar agora.
— Aqui não, Arthuro. Seu irmão está logo ali e...
— Deixa eu resgatar ele das garras do Yan — Arthuro brincou e se aproximou da dupla, criando uma pequena roda. O Arthuro tentou fazer sinal de que não ia entrar na dança, mas os três acabaram se misturando em risadas e passos de samba.
Beto, que tinha ido ao banheiro, voltou e parou ao meu lado, observando a movimentação.
— A galera aqui é muito gente boa, né? Vocês não vão dançar? — perguntou Beto.
— Eu não sei dançar muito bem — confessei.
— Faz assim, ó — Beto indicou, começando a marcar o passo de uma música do Thiaguinho que Lucas começara a cantar.
— É só um jogo de pé e ombro. Vai no ritmo.
Eu comecei a me soltar, acompanhando o Beto e o Arthuro, mas meus olhos não conseguiam se desviar do fundo da pista. Yan e Arthur estavam cada vez mais próximos. A dança, que antes era apenas simpática, estava se tornando algo mais. O corpo do Yan roçava propositalmente no de Arthur, e o Arthur, ao invés de se afastar, parecia estar testando aquele novo limite, com um sorriso desafiador no rosto.
O bar estava em seu ápice. O calor humano, misturado ao aroma de álcool e ao ritmo percussivo que Lucas impunha no palco, criava uma atmosfera onde as inibições pareciam derreter. Eu estava ali, naquele triângulo particular entre o Beto e o Arthuro, sentindo-me observado e, ao mesmo tempo, livre. Por alguns minutos, o mundo lá fora não existia. Eu me deixei levar pela conversa inteligente de Beto, que gesticulava com elegância, as mãos bem cuidadas contrastando com o copo de bebida, e pela presença solar de Arthuro, que não perdia a chance de encostar seu ombro no meu, um toque sutil, mas carregado de uma promessa que me fazia arder por dentro.
Confesso que perdi o Arthur e o Yan de vista por um tempo. A multidão dançante formava uma barreira de corpos suados e sorridentes. Mas a calmaria durou pouco. Logo, Yan ressurgiu do meio do povo, as mãos espalmadas nas minhas costas, um toque possessivo que atravessou o tecido da minha bermuda e fez meu corpo tencionar.
— Nossa, Ber, eu estou me divertindo muito aqui! Esse lugar é incrível! — ele exclamou, a voz levemente alterada, os olhos brilhando com uma euforia que o álcool potencializava.
Arthur apareceu logo atrás, colado a ele, rindo de algo que haviam compartilhado na pista. Ele segurava um copo de bebida, a camisa levemente desabotoada revelando o início do peito definido e bronzeado.
— Fiz muito bem em sair de casa hoje — Arthur disse, a voz rouca, lançando-me um olhar que era um misto de deboche desafiador.
No palco, Lucas anunciou a interação com o público. Chamaria três pessoas para um concurso de samba. Antes que pudéssemos processar, Yan se lançou à frente com uma volúpia quase teatral. Ele deu uma esbarrada proposital em mim, o quadril batendo no meu antes de ele abrir caminho entre as pessoas.
— Meu Deus, eu acho que o Yan bebeu demais — comentei, observando-o subir os degraus do palco com agilidade.
— Eu não o conheço tanto assim, mas ele parece estar apenas se divertindo, Ber — Arthur defendeu, com sua benevolência habitual.
— Ele está alegre, é normal.
— É... alegre até demais — rebati, sentindo um incômodo crescer no peito.
Lá em cima, Yan deu um show. Ele sambava de uma forma exibida, os movimentos dos pés eram precisos, mas o corpo se movia com uma masculinidade provocante, os músculos das pernas e do abdômen trabalhando sob a roupa. Ele jogava o charme para a plateia, um predador sob os refletores. Quando o termômetro de aplausos começou, nós todos gritamos e batemos palmas. Yan foi declarado o vencedor, e o prêmio seria um drink surpresa escolhido pelo Lucas.
O que aconteceu a seguir congelou todos.
Lucas, com o microfone na mão, ia anunciar a garrafa de bebida, quando Yan, num movimento audacioso, tomou o microfone dele.
— Me dá um beijo seu de brinde — Yan disparou, a voz ecoando por todo o bar.
Houve um "oh" coletivo. Lucas, visivelmente pego de surpresa, buscou meu olhar na multidão. Seus olhos brilhavam com uma interrogação ética. Eu apenas assenti levemente com a cabeça, um sinal silencioso de que não faria uma cena. Lucas, o mestre do jogo, pegou o microfone de volta.
— Existe um brinde melhor... uma garrafa de gin de primeira — Lucas tentou contornar.
— Eu prefiro o beijo — Yan insistiu, fixando os olhos nos de Lucas com uma intensidade sexual que fazia qualquer um corar.
Lucas, num gesto rápido e performático, tampou os olhos de Yan com uma das mãos e deu-lhe um selinho rápido. O bar explodiu em gritos. Yan desceu do palco rindo, vitorioso, e voltou em nossa direção desfilando.
— Caraca, ele é muito gostoso! — Yan disse, elogiando o Lucas com uma liberdade que começou a me irritar.
— Ele é gentil e educado, Yan. Mas você está passando da conta, não acha melhor maneirar? — Arthur interveio, o tom de voz ficando mais ríspido, a autoridade vindo à tona.
— Gente, deixa o garoto! — Arthur interveio, rindo e passando o braço pelo ombro do Yan. — Estamos aqui para nos divertir, bebê. Deixa ele um pouco.
— É, me deixem! — Yan protestou, mas seus olhos estavam vidrados.
— Vamos lá fora um pouco, Yan. Você precisa tomar um ar e eu vou pegar uma água para você — falei, tentando ser o adulto da situação.
Yan começou a protestar, a teimosia do álcool falando mais alto, quando Arthur deu um passo à frente, segurando uma garrafa de água gelada que ele acabara de pegar no balcão.
— Deixa que eu vou, Ber. Eu levo ele lá fora rapidinho para ele se refrescar. Pode ser, Yan?
Estranhei a prontidão de Arthur. Eles tinham acabado de se conhecer, mas havia entre eles uma estranha sintonia.
— Tá bom, vamos — Yan cedeu, a voz arrastada. — Eu aproveito para F1.
— F1? — perguntei, surpreso.
Arthuro se aproximou do meu ouvido, o hálito quente refrescante de bala e o cheiro de seu perfume viril me envolvendo.
— É, o Yan fuma de vez em quando, Bêr. Relaxa — ele sussurrou, a mão descendo discretamente para a minha cintura, apertando-me de leve por baixo da camisa.
O clima estava tenso. Eu via Arthur e Yan saindo do bar, a figura imponente de Arthur guiando o Yan, cujos olhos não paravam de analisar as costas largas do meu amigo.
Beto, observando a cena com um sorriso de canto, comentou:
— Ah, menos estresse, pessoal. Vamos aproveitar que o Lucas está nas últimas músicas. Eu também já estou indo embora assim que ele terminar.
Fiquei ali, em pé, entre o Arthuro e o Beto. A música de Lucas continuava a balançar o bar, mas minha mente estava lá fora, no ar gelado da calçada, imaginando o que Arthur — o homem que me possuíra com tanta força à tarde — estava fazendo com o Yan — o homem que me oferecia "sossego".
Arthuro percebeu minha distração. Ele se colou nas minhas costas, o peito firme me pressionando, e começou a se mover no ritmo do samba, me forçando a acompanhar seus passos.
— Deixa eles lá, Bêr... — ele murmurou no meu pescoço, os lábios roçando a minha orelha, causando uma descarga elétrica que desceu direto para o meu baixo ventre.
— Agora é a nossa hora.
Senti o volume de Arthuro contra minhas nádegas enquanto dançávamos, um roçar lento e rítmico que me fazia esquecer de Arthur, de Yan e até da gravidez de Minna.
Beto nos observava com um olhar profundo, quase como se estivesse saboreando a nossa juventude e a nossa confusão. O jogo de olhares, o suor que começava a brotar na testa de Arthuro e o toque possessivo dele em minha cintura criavam uma bolha erótica no meio da multidão.
Eu estava preso entre dois mundos: o desejo calmo e profundo por Arthuro e a curiosidade perigosa sobre o que estava acontecendo lá fora, na escuridão da noite, entre o Arthur e o Yan.
O som do cavaco ecoou uma última vez, uma saideira vibrante que fez as últimas pessoas na pista girarem em um êxtase coletivo. Lucas, com a camisa levemente úmida colada ao tronco e o carisma transbordando, desceu do palco com a agilidade de quem acabara de entregar a alma em cada nota. Ele se aproximou de nossa mesa, onde eu, Arthuro e Beto o aguardávamos entre aplausos.
— E os outros meninos? — Lucas perguntou, passando a mão pelo rosto suado e ofegante, os olhos escaneando o grupo.
— Foram lá fora tomar um ar — respondi, tentando disfarçar o desconforto que ainda sentia.
— Desculpa pelo Yan, Lucas. Ele se empolgou demais.
— Não, que isso! Sem problema algum, Bernardo.
— Lucas riu, a voz rouca pelo esforço.
— Eu já estou mais do que acostumado com esse tipo de "brinde".
Beto, mantendo sua postura impecável de homem vivido, aproximou-se de Lucas e deu um tapinha amigável em seu ombro, embora seu olhar demorasse um segundo a mais nos braços fortes de Lucas.
— Ele é um artista, Beto. Já viu de tudo — brinquei.
— Exatamente — Beto concordou, com um sorriso de canto.
— Bom, eu já vou indo. Já está tarde e eu não sou tão jovem quanto vocês, embora o corpo ainda aguente o tranco. Você canta muito bem, Lucas. Meus parabéns.
Lucas devolveu um olhar profundo, um escaneamento lento que percorreu a figura slim e sofisticada de Beto.
— Obrigado, Beto. Quando quiser, as portas estão abertas. Eu te acompanho até lá fora.
Arthuro, que até então estava encostado em mim, sentindo o calor do meu corpo, avisou que precisava ir ao banheiro.
— Eu vou com o Beto e o Lucas lá fora respirar um pouco e já volto, tá? — avisei.
Arthuro sorriu, aquele sorriso solar que sempre me desarmava, e num gesto inesperado na frente dos outros, segurou meu rosto e me deu um selinho demorado. Meus olhos se fecharam por instinto, sentindo a maciez dos lábios dele e a promessa de algo mais profundo.
— Tá bom, Bêr. Vai lá.
Caminhei em direção à saída com o Beto e o Lucas. O ar da noite estava gelado, um contraste violento com o abafamento erótico do interior do bar. Conversávamos brevemente, mas meus olhos já estavam em modo de busca. Eu procurava por Yan ou a silhueta imponente de Arthur em cada canto da calçada, em cada grupo de fumantes, mas não via nada.
O Uber de Beto chegou em poucos minutos. Ele se despediu de mim com um abraço caloroso e, em seguida, deu um abraço em Lucas — um contato que pareceu ter uma duração e uma pressão diferentes, algo que ficou suspenso no ar enquanto ele entrava no carro e partia.
Lucas se virou para mim, a expressão mudando de "artista simpático" para alguém que carregava um segredo pesado.
— Bernardo... que estranho os dois não estarem aqui fora — comecei, olhando para os lados.
— O Yan disse que ia fumar alguma coisa.
— Bernardes, deixa eu te falar uma coisa — Lucas começou, baixando o tom de voz, aproximando-se tanto que eu conseguia sentir o calor que seu corpo ainda emanava do show.
— Eu não sei se você percebeu, mas lá do palco eu tenho uma visão privilegiada de tudo. Eu vi os dois se pegando perto da porta do banheiro antes de saírem.
O chão pareceu oscilar sob meus pés.
— O quê? — minha voz saiu quase como um sussurro.
— É. Ele e o irmão do... qual o nome mesmo? O Arthur? Estavam se pegando forte com o Yan. Eu até estranhei, porque você disse que eles eram héteros, e agora vi o outro te dar um beijo... estou meio confuso.
As palavras de Lucas martelavam minha cabeça. Arthur e Yan. O "hetero" possessivo da tarde e o meu suposto "porto seguro" da noite. Um turbilhão de flashes de Arthur me possuindo na poltrona colidiram com a imagem dele agora, nos braços de outro.
— Lucas, é uma longa história... — murmurei, o estômago dando voltas.
— Vamos ali rapidinho — Lucas sugeriu, apontando para a rua lateral onde o carro de Arthur estava estacionado sob a sombra de uma árvore.
Caminhamos em silêncio, a tensão subindo pela minha espinha. À medida que nos aproximávamos do veículo, a luz amarelada de um poste distante revelou o que o suspense da noite vinha cozinhando. Através do vidro levemente abaixado, pude ver o vulto dos dois. Não era apenas uma conversa. Yan estava inclinado sobre o banco, as mãos mergulhadas no pescoço de Arthur, e as silhuetas se fundiam em um movimento rítmico e urgente. O carro parecia um casulo de desejo proibido, isolado de tudo.
A cena era de um sensualidade inesperada. Arthur, que horas antes dizia me amar como amigo e agia com ciúme do Yan, agora estava entregue àquela boca, àquele toque.
— É... eu te falei — Lucas sussurrou ao meu lado, a voz carregada de uma ironia triste.
— Acho que você precisava ver isso, né? Entendi que esse Yan era algo seu, mas... as coisas parecem bem confusas por aqui.
Eu sentia o sangue ferver e, ao mesmo tempo, congelar. A traição. s
De é que eu podia chamar assim?! Não era apenas física; era uma quebra de tudo o que tínhamos conversado no sofá.
— Vamos entrar — falei, sentindo uma urgência de sair dali.
— Eu quero achar o Arthuro e ir embora. Não quero ver isso.
— Tudo bem, Bernardo — Lucas concordou prontamente. — Mas... o que você vai fazer?
— Lucas, por favor, não comenta nada disso com o Arthuro. Depois eu te explico tudo. Só... vamos sair daqui como se não soubéssemos de nada.
— Fica tranquilo, Bernardo. Eu não tenho nada a ver com essa história. Só espero que isso não acabe com a sua noite.
Dei um sorriso forçado para o Lucas, um gesto de agradecimento que não chegava aos meus olhos. Voltamos para o interior do bar, onde o som do DJ agora substituía a banda. Cruzamos o umbral da porta e eu respirei o ar pesado novamente, sentindo que a noite, que deveria ser de celebração, acabara de se transformar em um campo minado de verdades que eu ainda não sabia se estava pronto para enfrentar. O suspense do que exatamente aconteceu naquele carro, e do que Arthur diria quando voltasse, pairava sobre mim como uma tempestade iminente.