O que começa como um inocente jantar entre amigos rapidamente se transforma em um jogo de revelações. Bastou uma pergunta sobre uma série de TV para que os desejos ocultos de todos viessem à tona.
Este conto faz parte da nossa Seleção Especial, um clássico do nosso acervo que mostra como uma simples conversa pode escalar para algo muito mais íntimo. É um dos momentos fundadores da nossa história, que escolhemos a dedo para você conhecer nosso universo.
Entre taças de vinho e provocações, exploramos os limites de cada casal presente. Mas a noite guardava uma surpresa que nem nós esperávamos, provando que as aparências, definitivamente, enganam.
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-Freud, deixe sua playlist na televisão. Os casais vão chegar às oito em ponto. Confirmei com todos.
-Já faço isso, Martha. A mesa ficou linda, parabéns.
-Precisa de ajuda na cozinha?
-Acho que não. As brusquetas já estão prontas, é só levar ao forno. As coisas para o Carbonara também, em quinze minutos eu preparo. Já separei os chocolates para a sobremesa. E os vinhos estão na adega.
Ele coloca a playlist. Martha arruma as taças na mesa.
-Freud, você contou ao Mário que nossa relação é aberta?
-Não, não falei disso com ele. A Marcela e a Fernanda sabem?
-A Marcela sabe. Ela é super curiosa sobre isso e é bem capaz dela perguntar alguma coisa. A Fernanda nunca perguntou, é mais discreta nesses temas.
-E se perguntarem? Podemos falar? Com o Mário e com a Luciana, eu não vejo problemas. Até onde eu sei, eles não são conservadores. Acho que não julgarão.
-Podemos falar sim. A Marcela já disse que quer conhecer uma casa de swing e o Fábio é que fica enrolando ela. Mais cedo ou mais tarde, eles irão. A Fernanda não fala, mas eu não duvido que ela já tenha alguma experiência. Ela era bem descolada na faculdade. O Tiago é que me parece mais conservador.
-Quando fomos ao barzinho com eles, eu vi o Tiago olhando outras mulheres. Ele é discreto, mas olha. Não me pareceu tão conservador assim. Talvez só sejam discretos.
-Talvez hoje a gente descubra mais sobre eles.
-E se rolar algum clima hoje, o que fazemos?
-Ah, eu acho que nada. Se fosse só um casal, poderia até ser, mas três casais tradicionais? Acho arriscado.
-Também acho, só checando para estarmos na mesma página.
Fernanda e Tiago são os primeiros a chegar. Enquanto Martha os recebe na porta, Freud autoriza a subida dos demais pelo interfone.
-Martha, que linda ficou a mesa. Você caprichou!
-Ah, Fernanda, obrigada. Você sabe que eu gosto. Podem se sentar. A Marcela e a Luciana já devem estar chegando.
Freud chega da cozinha e percebe Tiago olhando a bunda de Martha enquanto ela guarda o presente que recebeu da amiga.
-Tudo bem, Tiago?! Oi, Fernanda. Martha, eles chegaram e já estão subindo.
Logo estão todos sentados à mesa. Freud prepara as brusquetas e pede ajuda para os vinhos.
-Mário, pode pegar os vinhos na adega? Pegue duas garrafas que estão na prateleira de cima.
Brusquetas prontas, vinho servido, Martha propõe um brinde:
-À amizade. E que nossos maridos não fiquem viúvos!
As risadas tomam conta da mesa. As duas garrafas são consumidas rapidamente, junto com as brusquetas. Freud orienta sobre o vinho, enquanto se dirige à cozinha:
-Mário, tem mais uma garrafa desse vinho lá. Abre pra gente. Vou preparar nosso jantar.
Minutos depois, com o Carbonara pronto, Freud retorna:
-Pessoal, o jantar está pronto. Mário, pode abrir os vinhos da segunda prateleira? Martha, pode trocar as taças?
A harmonia dos vinhos com os pratos é um dos assuntos à mesa. Também sobram elogios para a comida e para a seleção musical. Freud e Martha se olham felizes e trocam carinhos. Quando terminam o jantar, Martha pede ajuda com os pratos:
-Marcela, me ajude a tirar a mesa? Fernanda, me ajude aqui com a sobremesa?
Enquanto as mulheres estão na cozinha, Freud pega o vinho da sobremesa e providencia taças limpas. Logo estão todos sentados à mesa, saboreando os chocolates com vinho. Aproveitando um momento de silêncio nas conversas, até então sobre amenidades, Marcela dispara:
-Gente, eu estou assistindo uma série que vocês precisam assistir. É muito interessante. O Jogo das Chaves, já viram?
Freud e Martha se olham, enquanto os demais dizem que não conhecem. Fábio prepara os demais para o que virá a seguir:
-Gente, a Marcela fala tanto nesse assunto que eu já estou ficando preocupado. Acho que vou arrumar um sócio em breve.
Sem entender, os casais olham para Marcela.
-Fábio, o que eles vão pensar de mim?! Gente, não é nada disso! É que eu achei a série interessante, só isso.
Luciana não se contém:
-Mas o que tem nessa série, mulher?! Tô curiosa?
Feliz da vida, Marcela conta:
-É a história de vários casais que participam do Jogo das Chaves. Eles se reúnem e os homens colocam suas chaves em uma vasilha. Depois, cada uma das mulheres pega uma chave, sem olhar. O dono da chave é com quem ela vai passar a noite.
Luciana é a primeira a comentar:
-Passar a noite?! Troca de casais, é isso?!
-Isso. Eu e o Fábio nunca fizemos, mas eu achei a ideia muito interessante. Até já disse a ele que quero ir numa casa de swing em São Paulo, só para conhecer.
Fábio dá o seu depoimento:
-Eu me preocupo com a seleção dos casais. Já pensou ver a esposa saindo com um bonitão e ir embora com uma senhora desprovida de beleza?
Fernanda não se contém:
-Seu medo é a Marcela não voltar para casa, Fábio, isso sim!
Luciana dá seu pitaco:
-Eu acho justa a preocupação do Fábio. Eu ficaria louca vendo o Mário saindo com uma gostosona.
Mário aproveita a chance:
-Então se não for gostosona, eu posso sair?!
Luciana trás o marido para a realidade:
-Só se você não tiver amor ao seu pinto. Já te falei: se me trair, te capo!
Marcela intervém:
-Mas não é traição, gente. É combinado. Isso que eu achei interessante. É uma noite, cada casal vai fazer o que achar que deve e o parceiro não vai cobrar nada depois.
Martha dá seu primeiro depoimento:
-Para funcionar, os casais precisam estar muito bem alinhados antes.
Marcela aproveita a deixa:
-Você e Freud já fizeram, Martha? Conta pra gente.
Sob os olhares de todos os casais e de Freud, Martha toma um longo gole de vinho e responde:
-Não, nunca fizemos. E eu toparia, com algumas condições.
Tiago participa da conversa pela primeira vez:
-Quais são as condições, Martha?
-Em primeiro lugar, preciso me sentir segura. Então, quero conhecer todos os casais que estarão na brincadeira.
As meninas acenam com a cabeça, concordando com Martha.
-Depois, garantir que não haverá trocas injustas, né?! Os homens precisam estar à altura das mulheres.
Ela olha ao redor para se certificar, antes de continuar:
-Não dá para sair com homem acima do peso, né?! Não aguentam nada, vão dormir cedo e vão roncar, não me deixando dormir. Ninguém merece.
Uma onda de risadas toma conta da mesa, enquanto Freud abre mais vinho. Ele esquenta a conversa:
-A régua dela é alta para esses casos.
Todos os olhos se viram para ele e Marcela verbaliza a dúvida geral:
-Então Martha já recebeu convites desse tipo?
Freud consulta Martha com o olhar, antes de responder:
-Sim, em uma balada liberal de São Paulo. Fomos abordados por um casal e Martha não gostou do marido.
Marcela quer mais detalhes:
-Vocês frequentam baladas liberais? Como é que funciona?
Martha responde:
-Já fomos algumas vezes. As pessoas dançam, bebem, conversam e paqueram, como em qualquer balada. Só que as paqueras também rolam entre os casais.
Fernanda também mostra seu interesse no tema:
-E os casais transam ali mesmo?
-Há um espaço reservado para a interação, não rola ali na pista de dança ou no bar. A bagunça é organizada gente, não é putaria não!
Marcela retoma o tema da abordagem inicial
-E como vocês fazem quando não gostam do casal?
Freud responde:
-Eu e Martha temos nossos códigos. Então eu sei se ela gostou ou não. Se não gostou, eu digo que estamos esperando um casal de amigos ou algo assim. Nesses ambientes, as pessoas sabem que não podem ser insistentes.
Marcela tem outra dúvida:
-E qual a melhor balada liberal. Estou cheia de dúvidas, pesquisando no Google e meus amigos são especialistas. Podem contar tudo!
Freud e Martha sorriem e ele apimenta:
-A melhor casa de São Paulo é o Hotbar. E eu e Martha preferimos as festas liberais particulares.
Tiago vai logo ao cerne da questão:
-E como somos convidados para essas festas?
Martha esclarece:
-Há várias dessas festas e cada organizador tem as suas regras sobre os convites. Alguns são mais abertos, outros mais exclusivos. Foi um casal de amigos de São Paulo que nos convidou para a nossa primeira festa.
Marcela mantém sua curiosidade:
-E como foi? Quero saber de tudo! Nos detalhes!
Martha ri e explica:
-Foi numa suíte enorme de motel. Acho que tinha umas cem pessoas, entre casais, solteiros e solteiras. E o clima é parecido com a balada: as pessoas ficam conversando e bebendo próximo do bar e da pista de dança. E quando querem interagir, vão para os espaços mais reservados.
Luciana observa:
-Interagir é o sinônimo de transar, pelo visto.
-Sim, é isso. É que às vezes não rola penetração. Então, usa-se o termo interagir. E, pensando bem, essa é uma palavra que identifica alguém que já tem alguma experiência no meio liberal.
Marcela quer saber mais:
-E quais outras palavras, além dessa?
Martha provoca a amiga:
-Ah, amiga, não vou te entregar o ouro assim de bandeja. Vai ter que aprender por conta própria.
Fernanda faz sua pergunta:
-E vocês interagiram nessa primeira festa?
Freud coloca Martha em uma saia justa:
-Ela mais do que eu.
Todos olham para ela e Marcela dispara:
-Como assim, amiga?! Que babado é esse?
Martha não se faz de rogada:
-Bem, tinha um casal que a esposa não gostou do Freud. Então eu fiquei com o marido.
Os homens olham para Freud e Mário verbaliza:
-E você ficou assistindo?
-Fiquei, de longe, até para garantir a segurança dela.
Mário insiste:
-E tudo bem?
-Sim, Mário, tudo bem. É como ela disse mais cedo: o casal precisa estar alinhado para isso funcionar. E nós estamos muito bem alinhados.
Martha dá um beijinho em Freud e responde à curiosidade não verbalizada das amigas:
-E super recomendo, amigas. Faz um bem danado para a pele, se é que me entendem!
As risadas tomam conta da mesa e os olhares entre os casais mostram que o assunto renderá nas conversas particulares.
As conversas seguem animadas e Freud dá o sinal de que a reunião está próxima do fim.
-Pessoal, acabaram os vinhos. Querem beber outra coisa?
Os casais começam a se movimentar para ir embora e Martha comete uma ousadia:
-Meninas, o que vocês acham de fazermos nosso Jogo das Chaves?
Luciana é a primeira a pular fora:
-Amiga, deixa eu respirar. Foi muita novidade para mim hoje. Depois falamos disso.
Ela e Mário se despedem dos demais e pegam o elevador.
Marcela troca olhares com Fábio e também percebe que ainda não é a hora:
-Vou terminar de assistir a série e entender melhor isso, amiga. Voltamos a nos falar.
Os casais se despedem e deixam o apartamento. Freud provoca Martha:
-Seu convite os apavorou, Martha.
-Calma, Freud. Eu acho que ainda vai render frutos.
-Será?! Elas tiraram o time rapidinho!
Martha dá um sorriso e começa a recolher as coisas da mesa, ajudada por Freud. Minutos depois, uma mensagem de Fernanda em seu celular mostra que ela estava certa:
-Amiga, eu e Tiago topamos. Quando?
-Onde vocês estão?
-Aqui embaixo.
Ela sorri, olha para Freud e responde:
-Subam!
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E eles subiram. Aquele "Subam!" deu início a uma noite inesquecível, mas o que aconteceu depois que Fernanda e Tiago voltaram para o nosso apartamento é uma história que guardamos com mais intimidade.
Aqui na Casa dos Contos, você tem acesso à nossa Seleção Especial, um capítulo marcante da nossa jornada. O diário completo, com a cronologia real e centenas de outras aventuras — incluindo a continuação desta — está no nosso site oficial. Decidimos manter o acervo integral lá, onde você pode seguir nossa história na ordem em que tudo aconteceu.
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