Acordei antes das seis, como sempre. O quarto ainda estava escuro, mergulhado num silêncio denso, apenas interrompido pela respiração dela no tapete. Não me mexi. Fiquei deitado, a observar, a ouvir, a deixar o tempo passar.
Um minuto.
Dois.
Queria ver se ela antecipava. Se já não precisava de ser chamada.
O relógio marcou as seis.
Exatas.
E ela não se mexeu.
Esperei mais um pouco. O suficiente para não haver dúvida.
Depois falei.
— Milu.
A voz saiu baixa.
Sem esforço.
Mas suficiente.
O corpo dela reagiu de imediato, num sobressalto desordenado. Demorou um segundo a perceber onde estava, outro a encontrar-me no quarto… e, quando o fez, tudo mudou. O erro ficou claro no olhar.
Levantou-se depressa demais, ainda presa ao sono, ao pânico, à urgência de corrigir. Não pensou. Não avaliou. Limitou-se a agir.
Começou a aproximar-se da cama, primeiro hesitante, depois mais rápida, a gatinhar, como se pudesse recuperar o tempo perdido.
Foi direta ao meu pau, para tentar remediar a situação, a tentar que a falha dela fosse esquecida.
Observei.
Sem me mexer.
Sem a ajudar.
Deixei-a começar a chupar-me.
Depois parei-a.
— Não.
A palavra saiu seca.
Ela congelou no instante seguinte, o corpo suspenso no movimento, os olhos presos em mim.
— Falhaste.
Ela não respondeu.
Não tentou justificar.
Mas o corpo denunciou.
— E erro… corrige-se com punição.
A frase saiu calma.
Mas definitiva.
Ela ficou imóvel.
A medir.
— Concordas?
Ela hesitou, mas respondeu.
— Sim… meu senhor.
— Quem falha… deve ser castigado?
— Sim… meu senhor.
Apontei para o espelho, para o sítio que ela já conhecia.
— Para ali.
O olhar dela seguiu o gesto.
— Vai.
Ela moveu-se.
Devagar, gatinhou com receio do que vinha a seguir… só que seria o seu castigo.
Parou em frente ao espelho e, como uma cadela treinada, colocou-se de quatro.
Ficou imóvel.
O olhar evitou o reflexo.
Por instinto.
Aproximei-me por trás.
— Olha.
Os olhos subiram.
Contra vontade.
Encontraram-se no espelho.
Aproximei-me mais um pouco.
O suficiente para que sentisse a presença.
— Pode ser que assim aprendas mais depressa.
— Sabes contar até dez?
Respondeu com algum receio:
— Sim… meu senhor.
Assenti.
— Então vais contar até 10. Hoje são 10, e cada dia que falhares… soma 10. E já sabes…
— Se falhares…
Inclinei-me ligeiramente.
— Começas do início.
Fui até ao armário e procurei o acessório ideal para aquele momento.
Quando a palmatória bateu pela primeira vez no rabo dela, acordou definitivamente. Estremeceu, mas aguentou firme.
Cerrou os dentes de força primeiro, e depois soltou…
— Um…
A voz já não era a mesma.
— Dois, três…
Os ombros enrijeceram.
— Quatro…
O olhar manteve-se no reflexo.
Fixo.
— Cinco…
O corpo antecipava.
Antes de cada número.
— Seis…
A voz vacilou.
— Sete…
Houve um atraso.
Pequeno.
Mas suficiente.
Observei.
Deixei seguir.
— Oito…
O corpo cedeu ligeiramente.
— Nove…
A respiração falhou.
A décima foi a mais forte de todas, foi com toda a minha força.
Ela não aguentou a posição e rebolou pelo chão, passando as mãos pela zona machucada, enquanto dizia:
— Dez…
Assim que recuperou a respiração, voltou à posição inicial, e instintivamente o corpo relaxou.
Ficou exatamente onde estava, como se qualquer movimento pudesse anular o que tinha acabado de fazer.
Soltei a palmatória e fui acariciar o corpo dela, ver o efeito da palmatória no corpo dela.
O rabo estava quente, a pele bem sensível. Acariciei primeiro o rabo, depois a minha mão foi em direção à bucetinha… surpreendentemente está molhada.
A dor começava a excitá-la!
E com isso eu também fiquei excitado.
Dois dos meus dedos escorregaram lentamente pela bucetinha dela…
O corpo dela tremeu, e senti um suspiro.
Ainda sentia a dor da punição, mas agora havia um outro sentimento. Estava excitada!
De início, os meus dedos penetraram-na lentamente, depois aceleraram… aceleraram muito, até os dedos ficarem bem molhados.
Parei…
Ela ficou surpresa.
Manteve-se imóvel, sem saber como se comportar.
Agarrei-lhe pelos cabelos e arrastei-a para a cama, como quem arrasta um objeto.
Ela reagiu, tentou gatinhar para não cair ao chão.
Perto da cama, agarrei-lhe no pescoço.
Eu em pé, ela de gatas junto à cama. Puxei-a a mim e comecei a penetrá-la na boca.
Ela respondeu… chupou com vontade para não ser punida.
Cinco minutos a ser chupado e estava mais duro que nunca.
Atirei-a para a cama e caí sobre ela.
E desfrutei daquela bucetinha quente, molhada e apertada por longos minutos.
— De quatro! Porta-te como uma cadela que és — disse-lhe, soltando-a.
Ela cumpriu, mas com receio. Sabia o que se seguia.
Dois dos meus dedos foram lubrificados na bucetinha antes de serem introduzidos no cuzinho dela.
Soltou um ai contido.
— Gostas de ser uma cadela, não gostas?
Não respondeu à pergunta.
— Dói muito, senhor!
E foi naquele cuzinho que me vim, admirando o meu pau a entrar e sair enquanto ela se esforçava por aguentar a dor de ser comida assim.
Afastei-me e admirei aquele corpo mais uma vez.
— Vá, volta à tua posição!
Saiu da cama e foi andando em direção ao espelho.
Observei-a por um momento, avaliando não só o resultado, mas a forma como lá chegou. Não houve falha. Nem no corpo, nem no ritmo.
— Ficas assim! Não mexes nem um cabelo!
O efeito foi imediato. O corpo voltou a enrijecer, não por antecipação, mas por manutenção. Agora não era sobre executar, era sobre aguentar.
— Ou voltamos à conta até 10, 20, ou o que eu quiser…
Virei-me e afastei-me, caminhando até à cadeira. Comecei a vestir-me com o mesmo método de sempre, cada peça colocada com precisão quase automática. A camisa primeiro, ajustando os punhos com cuidado, depois as calças, o cinto, tudo no sítio certo, sem necessidade de pressa ou repetição
Atrás de mim, o silêncio manteve-se, mas já não era vazio. Era ocupado pelo esforço dela. Não precisei de olhar para saber que continuava na posição, a sustentar o corpo, a lidar com o cansaço que começava a acumular. Pequenos ajustes involuntários deviam surgir, mas eram contidos. O controlo agora vinha dela.
Peguei na farda e vesti-a com o mesmo rigor, alinhando os ombros, endireitando a gola, passando a mão pelo tecido para garantir que tudo estava exatamente como devia.
Só então voltei a olhar.
Ela ainda estava ali.
Mais baixa, mais pesada, mas firme.
Depois de terminar de me vestir, mantive-me por um instante a observá-la. Continuava na mesma posição, visivelmente mais cansada, mas ainda firme. O corpo já não respondia com a mesma leveza, mas não tinha quebrado.
Aproximei-me.
Sem dizer nada.
Peguei numa camisa minha e atirei-lha.
O tecido caiu sobre ela.
— Veste.
A ordem saiu simples.
Direta.
Ela olhou para a camisa por um instante, como se aquele objeto fosse estranho naquele contexto. Era a primeira vez desde que tinha sido capturada. O gesto mais banal… tornava-se agora significativo.
Moveu-se devagar.
Saiu da posição com cuidado, como se ainda não tivesse a certeza de que podia. Pegou na camisa e vestiu-a, os movimentos ainda marcados pelo cansaço. A camisa era larga, caía-lhe pelo corpo, chegando próximo aos joelhos, escondendo parte do que até ali tinha estado exposto.
Coloquei-lhe a coleira.
Ajustei.
Firme.
O clique ecoou no quarto.
Ela não reagiu.
Limitou-se a aceitar.
Peguei na trela.
— Vamos.
Ela seguiu.
Sem questionar.
Saímos do quarto e avançámos pelo corredor. O contraste foi imediato. O espaço já não era fechado, já não era só meu. Havia movimento, som, presença.
Saímos do quarto sem troca de palavras. Ela ajustou-se ao meu lado quase de imediato, não por conforto, mas porque já começava a antecipar o que era esperado. O corredor recebeu-nos com o silêncio habitual, e o som dos passos tornou-se a única referência, regular, firme, sem desvios.
Quando entrámos no refeitório, a mudança foi subtil, mas clara. As conversas não pararam, mas perderam consistência, fragmentando-se em murmúrios contidos. Os olhares começaram a surgir com mais frequência do que o normal, alguns rápidos, outros demasiado demorados para serem inocentes.
Continuei a avançar com naturalidade, ocupando o espaço como sempre fiz. Não precisei de o afirmar — a reação dos outros fazia-o por mim.
Ela seguia ao meu lado, e era impossível ignorá-la. A camisa cobria-lhe o corpo, mas não alterava o que representava naquele contexto. Não era exposição física. Era posição. E isso tornava-se evidente em cada olhar que se demorava mais do que devia.
Parei no centro do refeitório e deixei que a minha presença fosse suficiente para abafar o que ainda restava de ruído. As conversas não desapareceram de imediato, mas foram perdendo consistência até deixarem de fazer sentido. Quando comecei a falar, já ninguém estava verdadeiramente distraído.
— Sei exatamente o que estão a pensar.
A voz saiu firme, mais dura, com o tipo de controlo que não precisa de ser elevado para se impor. Não me movi. Mantive-me fixo, obrigando-os a ajustar-se a mim, não o contrário.
— Já falaram disto entre vocês, em voz baixa, como fazem sempre quando acham que ninguém está a ouvir.
Deixei que a frase assentasse antes de continuar.
— Podem continuar a falar. Não me interessa.
O olhar percorreu a sala com mais intenção, detendo-se o suficiente em alguns rostos para tornar desconfortável a tentativa de sustentar o contacto.
— O que me interessa é que percebam exatamente o que está em causa: aquela prisioneira foi capturada por mim, numa operação que eu conduzi, e é da minha responsabilidade direta.
A forma como disse isto não deixava espaço para interpretação.
— Sou eu que a vou interrogar. Sou eu que determino o que lhe acontece. E sou eu que respondo por todas as decisões tomadas a partir daqui.
Houve uma pausa breve, não por hesitação, mas para garantir que ninguém perdia o essencial.
— Isto não é uma opinião. Não é matéria para discussão. É uma decisão tomada e executada sob a minha autoridade.
Comecei a caminhar devagar, não para me aproximar de alguém em particular, mas para manter todos dentro do mesmo campo de pressão.
— Não estão aqui para concordar ou discordar. Estão aqui para cumprir. E isso implica saber exatamente onde termina o vosso papel e onde começa o meu.
Parei novamente, deixando o silêncio ganhar peso.
Deixei o olhar percorrer a sala mais uma vez, confirmando aquilo que já era evidente, antes de acrescentar, de forma deliberada:
— Alguém ainda tem dúvidas? — disse num tom quase de ameaça.
— Alguém tem dúvidas? — voltei a repetir, num tom ainda mais forte.
Esperei.
O tempo suficiente para que a ausência de resposta deixasse de ser apenas silêncio e passasse a ser posição.
— Então estamos entendidos.
Virei-me e segui, sem necessidade de acrescentar mais nada, porque naquele ponto já não havia nada a acrescentar.
Sentei-me e indiquei-lhe o lugar junto a mim, no chão. Ela obedeceu com cuidado, ajustando-se lentamente, consciente de cada movimento. À nossa volta, o refeitório retomou o movimento, mas já não era o mesmo. Havia contenção. Havia cálculo. E havia uma atenção constante que ninguém assumia.
Ela sentia isso de forma contínua. Não como olhares isolados, mas como um peso constante, quase físico. O corpo mantinha-se controlado, mas a consciência do que representava naquele espaço tornava cada segundo mais longo.
Por um instante, levantou o olhar.
E encontrou o soldado.
O reconhecimento foi imediato, mas o que mais pesou foi o contexto. Ele já a tinha visto antes, mas não assim. Não naquele espaço. Não daquela forma.
Ele demorou a desviar o olhar.
Demasiado.
Ela também.
Foi apenas um segundo.
Mas foi suficiente.
Não interrompi. Limitei-me a registar. Bastou fixar o olhar nele para que percebesse. A reação foi imediata: o corpo enrijeceu, o olhar perdeu estabilidade, e a aproximação tornou-se inevitável.
— Senhor.
Deixei o silêncio alongar-se antes de responder, não por necessidade, mas para o obrigar a sustentar o momento.
— Tens dúvidas?
— Não, senhor.
— Querias interrogá-la?
— Não, senhor.
— Gostavas de a ter como prisioneira?
A pergunta mudou o equilíbrio. A resposta não veio imediata. O corpo denunciou o conflito antes da voz surgir.
— Eu… não, senhor.
A resposta existiu, mas não se sustentou.
Assenti, não por acreditar, mas por encerrar.
— Ainda bem.
Inclinei-me ligeiramente, o suficiente para que apenas ele ouvisse.
— Mantém-te no teu lugar.
Voltei ao prato com naturalidade, mas a mensagem já estava instalada. Ele tinha percebido. E os outros também.
Ela ouviu tudo.
E, mais importante, percebeu o que significava.
Ali, ninguém ia intervir.
Quando terminei, peguei num pedaço de pão e estendi-o na direção dela, de forma deliberada, visível. Não era um gesto neutro. Era afirmação.
Ela aceitou sem levantar o olhar, com movimentos contidos, como se cada gesto tivesse de ser calibrado. O desconforto não desapareceu, mas começou a transformar-se em adaptação.
Enquanto comia alguns pedaços de pão da mão dele, como uma verdadeira cadela amestrada, a mente dela saiu daquele lugar. Talvez porque sentia vergonha de ali estar, assim exposta, talvez porque estar ali perante todos tornava tudo aquilo real.
Pela primeira vez, deixou de ver apenas um homem à sua frente e passou a ver tudo o que o rodeava. A forma como o silêncio se instalou sem ser pedido, os olhares que evitavam cruzar-se com o dele, a ausência total de reação quando falou — nada daquilo foi casual. Não havia confronto porque não havia espaço para ele. E isso ficou-lhe mais claro do que qualquer palavra dita. Não era só ele. Era o lugar que ocupava ali.
Sentada no chão, sentiu isso de forma quase física. Não era apenas desconforto ou vergonha; era a perceção de que não havia saída visível dentro daquele mundo. Ninguém ia intervir, ninguém ia questionar, ninguém ia alterar o rumo do que estava a acontecer. O que viesse a seguir dependeria apenas dele. E, pela primeira vez desde que tudo começou, essa ideia deixou de ser confusa e passou a ser inevitável.
Levantei-me, dando um pequeno puxão na coleira.
— Vamos.
Ela acompanhou de imediato. Ao sairmos, os olhares voltaram a segui-los, mas já sem a mesma curiosidade inicial. O que havia a interpretar tinha sido interpretado.
O corredor voltou a fechar o mundo à nossa volta, retirando o ruído, deixando apenas o essencial. À medida que avançavam, o ambiente tornava-se novamente previsível, quase mecânico.
No quarto, ela dirigiu-se ao tapete sem instrução. O movimento foi mais rápido, mais direto, como se quisesse antecipar qualquer correção.
Mas não estava correto.
A camisa mantinha-se.
— O que está errado?
Ela não precisou de muito tempo. O olhar percorreu o próprio corpo e parou.
— A camisa… meu senhor.
Corrigiu-se imediatamente, retirando-a e voltando ao lugar com mais cuidado. Desta vez demorou um pouco mais a ajustar-se, como se quisesse garantir que não havia margem para erro.
— Neste quarto, as cadelas nunca, NUNCA, usam roupa. Entendeste?
— Sim, meu senhor.
Mudei o tom, sentei-me na cadeira que estava ao lado dela e disse-lhe:
— Olha para mim.
Ela levantou o olhar e posicionou-se à minha frente, na posição que já conhecia, de quatro, mais rápida desta vez, mas com um cuidado evidente em não falhar. Havia esforço naquele gesto, não para acertar apenas, mas para evitar errar.
Observei-a por um instante antes de começar.
— Quem vivia na casa?
— Eu… o meu pai… a minha mãe… e as minhas duas irmãs… meu senhor.
— E o homem?
— Estava lá há… uma semana… talvez…
Assenti, como quem encaixa uma peça que já esperava.
— E o que sabes sobre ele?
A pergunta ficou no ar o tempo suficiente para ganhar peso antes da resposta surgir.
— Nada… meu senhor…
Aproximei-me ligeiramente.
— Nada.
Repeti.
— Um homem passa dias dentro de uma casa pequena, fala com o teu pai… e tu não sabes nada.
Ela tentou sustentar.
— Ele só falava com o meu pai…
— E a tua mãe estava lá.
— Numa cabana onde tudo se ouve.
O silêncio voltou a fechar-se.
— Nós passávamos muito tempo fora… a minha mãe mandava-nos sair…
— Mandava-vos sair.
Inclinei ligeiramente a cabeça.
— Então ela ficava lá.
Pausa curta.
— Com ele.
— Talvez tenha de falar com ela.
— Interrogá-la.
— Não… ela não sabe de nada… por favor…
Observei-a.
— Achas que ela dava uma boa cadelinha aqui? Achas que ela aguentava?
— Não… meu senhor…
— Então tu aguentas.
— Se te portares bem, não preciso de a trazer.
— Nem as tuas irmãs.
— Nós não sabemos de nada… eu e as minhas irmãs… não temos nada a ver com isto… por favor…
— Mas o teu pai sabe.
— Posso ir buscá-lo.
— Ele… ele já não deve estar lá…
— Não deve estar lá.
— Então onde está?
— Eu não sei…
— Disseste que não sabias nada.
— E agora sabes que ele já não está lá.
— Onde ficam?
— Os sítios onde se escondem.
— Não sei… meu senhor…
— Uns dias na cela podem ajudar-te a lembrar.
A mão foi à coleira e puxei-a para se levantar.
— Entra.
E ela entrou… o corpo tremia, não apenas pelo frio que se colava à pele, mas sobretudo pelo que já sabia que aquele espaço significava.
Atrás de mim, o silêncio manteve-se, mas já não era vazio. Era ocupado pelo esforço dela. Não precisei de olhar para saber que continuava na posição, a sustentar o corpo, a lidar com o cansaço que começava a acumular. Pequenos ajustes involuntários deviam surgir, mas eram contidos. O controlo agora vinha dela.
Peguei na farda e vesti-a com o mesmo rigor, alinhando os ombros, endireitando a gola, passando a mão pelo tecido para garantir que tudo estava exatamente como devia.
Só então voltei a olhar.
Ela ainda estava ali.
Mais baixa, mais pesada, mas firme.
Depois de terminar de me vestir, mantive-me por um instante a observá-la. Continuava na mesma posição, visivelmente mais cansada, mas ainda firme. O corpo já não respondia com a mesma leveza, mas não tinha quebrado.
Aproximei-me.
Sem dizer nada.
Peguei numa camisa minha e atirei-lha.
O tecido caiu sobre ela.
— Veste.
A ordem saiu simples.
Direta.
Ela olhou para a camisa por um instante, como se aquele objeto fosse estranho naquele contexto. Era a primeira vez desde que tinha sido capturada. O gesto mais banal… tornava-se agora significativo.
Moveu-se devagar.
Saiu da posição com cuidado, como se ainda não tivesse a certeza de que podia. Pegou na camisa e vestiu-a, os movimentos ainda marcados pelo cansaço. A camisa era larga, caía-lhe pelo corpo chegando próximo aos joelhos, escondendo parte do que até ali tinha estado exposto.
Coloquei-lhe a coleira.
Ajustei.
Firme.
O clique ecoou no quarto.
Ela não reagiu.
Limitou-se a aceitar.
Peguei na trela.
— Vamos.
Ela seguiu.
Sem questionar.
Saímos do quarto e avançámos pelo corredor. O contraste foi imediato. O espaço já não era fechado, já não era só meu. Havia movimento, som, presença.
Saímos do quarto sem troca de palavras. Ela ajustou-se ao meu lado quase de imediato, não por conforto, mas porque já começava a antecipar o que era esperado. O corredor recebeu-nos com o silêncio habitual, e o som dos passos tornou-se a única referência, regular, firme, sem desvios.
Quando entrámos no refeitório, a mudança foi subtil, mas clara. As conversas não pararam, mas perderam consistência, fragmentando-se em murmúrios contidos. Os olhares começaram a surgir com mais frequência do que o normal, alguns rápidos, outros demasiado demorados para serem inocentes.
Continuei a avançar com naturalidade, ocupando o espaço como sempre fiz. Não precisei de o afirmar — a reação dos outros fazia-o por mim.
Ela seguia ao meu lado, e era impossível ignorá-la. A camisa cobria-lhe o corpo, mas não alterava o que representava naquele contexto. Não era exposição física. Era posição. E isso tornava-se evidente em cada olhar que se demorava mais do que devia.
Parei no centro do refeitório e deixei que a minha presença fosse suficiente para abafar o que ainda restava de ruído. As conversas não desapareceram de imediato, mas foram perdendo consistência até deixarem de fazer sentido. Quando comecei a falar, já ninguém estava verdadeiramente distraído.
— Sei exatamente o que estão a pensar.
A voz saiu firme, mais dura, com o tipo de controlo que não precisa de ser elevado para se impor. Não me movi. Mantive-me fixo, obrigando-os a ajustar-se a mim, não o contrário.
— Já falaram disto entre vocês, em voz baixa, como fazem sempre quando acham que ninguém está a ouvir.
Deixei que a frase assentasse antes de continuar.
— Podem continuar a falar. Não me interessa.
O olhar percorreu a sala com mais intenção, detendo-se o suficiente em alguns rostos para tornar desconfortável a tentativa de sustentar o contacto.
— O que me interessa é que percebam exatamente o que está em causa: aquela prisioneira foi capturada por mim, numa operação que eu conduzi, e é da minha responsabilidade direta.
A forma como disse isto não deixava espaço para interpretação.
— Sou eu que a vou interrogar. Sou eu que determino o que lhe acontece. E sou eu que respondo por todas as decisões tomadas a partir daqui.
Houve uma pausa breve, não por hesitação, mas para garantir que ninguém perdia o essencial.
— Isto não é uma opinião. Não é matéria para discussão. É uma decisão tomada e executada sob a minha autoridade.
Comecei a caminhar devagar, não para me aproximar de alguém em particular, mas para manter todos dentro do mesmo campo de pressão.
— Não estão aqui para concordar ou discordar. Estão aqui para cumprir. E isso implica saber exatamente onde termina o vosso papel e onde começa o meu.
Parei novamente, deixando o silêncio ganhar peso.
Deixei o olhar percorrer a sala mais uma vez, confirmando aquilo que já era evidente, antes de acrescentar, de forma deliberada:
— Alguém ainda tem dúvidas ? Disse num tom quase de ameaça.
-Alguém tem dúvidas? Voltei a repetir num tom ainda mais forte!
Esperei.
O tempo suficiente para que a ausência de resposta deixasse de ser apenas silêncio e passasse a ser posição.
— Então estamos entendidos.
Virei-me e segui, sem necessidade de acrescentar mais nada, porque naquele ponto já não havia nada a acrescentar.
Sentei-me e indiquei-lhe o lugar junto a mim, no chão. Ela obedeceu com cuidado, ajustando-se lentamente, consciente de cada movimento. À nossa volta, o refeitório retomou o movimento, mas já não era o mesmo. Havia contenção. Havia cálculo. E havia uma atenção constante que ninguém assumia.
Ela sentia isso de forma contínua. Não como olhares isolados, mas como um peso constante, quase físico. O corpo mantinha-se controlado, mas a consciência do que representava naquele espaço tornava cada segundo mais longo.
Por um instante, levantou o olhar.
E encontrou o soldado.
O reconhecimento foi imediato, mas o que mais pesou foi o contexto. Ele já a tinha visto antes, mas não assim. Não naquele espaço. Não daquela forma.
Ele demorou a desviar o olhar.
Demasiado.
Ela também.
Foi apenas um segundo.
Mas foi suficiente.
Não interrompi. Limitei-me a registar. Bastou fixar o olhar nele para que percebesse. A reação foi imediata: o corpo enrijeceu, o olhar perdeu estabilidade, e a aproximação tornou-se inevitável.
— Senhor.
Deixei o silêncio alongar-se antes de responder, não por necessidade, mas para o obrigar a sustentar o momento.
— Tens dúvidas?
— Não, senhor.
— Querias interrogá-la?
— Não, senhor.
— Gostavas de a ter como prisioneira?
A pergunta mudou o equilíbrio. A resposta não veio imediata. O corpo denunciou o conflito antes da voz surgir.
— Eu… não, senhor.
A resposta existiu, mas não se sustentou.
Assenti, não por acreditar, mas por encerrar.
— Ainda bem.
Inclinei-me ligeiramente, o suficiente para que apenas ele ouvisse.
— Mantém-te no teu lugar.
Voltei ao prato com naturalidade, mas a mensagem já estava instalada. Ele tinha percebido. E os outros também.
Ela ouviu tudo.
E, mais importante, percebeu o que significava.
Ali, ninguém ia intervir.
Quando terminei, peguei num pedaço de pão e estendi-o na direção dela, de forma deliberada, visível. Não era um gesto neutro. Era afirmação.
Ela aceitou sem levantar o olhar, com movimentos contidos, como se cada gesto tivesse de ser calibrado. O desconforto não desapareceu, mas começou a transformar-se em adaptação.
Enquanto comia alguns pedaços de pão da mão dele, como uma verdadeira cadela amestrada, a mente dela saiu daquela lugar.
Talvez porque sentia vergonha de ali estar, assim exposta, talvez porque estar ali perante todos tornava tudo aquilo real
Pela primeira vez, deixou de ver apenas um homem à sua frente e passou a ver tudo o que o rodeava. A forma como o silêncio se instalou sem ser pedido, os olhares que evitavam cruzar-se com o dele, a ausência total de reação quando falou — nada daquilo foi casual. Não havia confronto porque não havia espaço para ele. E isso ficou-lhe mais claro do que qualquer palavra dita. Não era só ele. Era o lugar que ocupava ali.
Sentada no chão, sentiu isso de forma quase física. Não era apenas desconforto ou vergonha; era a percepção de que não havia saída visível dentro daquele mundo. Ninguém ia intervir, ninguém ia questionar, ninguém ia alterar o rumo do que estava a acontecer. O que viesse a seguir dependeria apenas dele. E, pela primeira vez desde que tudo começou, essa ideia deixou de ser confusa e passou a ser inevitável.
Levantei-me, disse dando um pequeno puxão na coleira.
— Vamos.
Ela acompanhou de imediato. Ao sairmos, os olhares voltaram a segui-los, mas já sem a mesma curiosidade inicial. O que havia a interpretar tinha sido interpretado.
O corredor voltou a fechar o mundo à nossa volta, retirando o ruído, deixando apenas o essencial. À medida que avançavam, o ambiente tornava-se novamente previsível, quase mecânico.
No quarto, ela dirigiu-se ao tapete sem instrução. O movimento foi mais rápido, mais direto, como se quisesse antecipar qualquer correção.
Mas não estava correto.
A camisa mantinha-se.
— O que está errado?
Ela não precisou de muito tempo. O olhar percorreu o próprio corpo e parou.
— A camisa… meu senhor.
Corrigiu-se imediatamente, retirando-a e voltando ao lugar com mais cuidado. Desta vez demorou um pouco mais a ajustar-se, como se quisesse garantir que não havia margem para erro.
— Neste quarto, as cadelas nunca, NUNCA, usam roupa. Entendeste ?
- sim, meu senhor
Mudei o tom, sentei-me na cadeira que estava ao lado dela e disse-lhe
— Olha para mim.
Ela levantou o olhar e posicionou-se à minha frente, na posição que já conhecia, de 4, mais rápida desta vez, mas com um cuidado evidente em não falhar. Havia esforço naquele gesto, não para acertar apenas, mas para evitar errar.
Observei-a por um instante antes de começar.
— Quem vivia na casa?
— Eu… o meu pai… a minha mãe… e as minhas duas irmãs… meu senhor.
— E o homem?
— Estava lá há… uma semana… talvez…
Assenti, como quem encaixa uma peça que já esperava.
— E o que sabes sobre ele?
A pergunta ficou no ar o tempo suficiente para ganhar peso antes da resposta surgir.
— Nada… meu senhor…
Aproximei-me ligeiramente, sem pressa de preencher o silêncio.
— Nada.
Repeti, não como dúvida, mas como algo que precisava de ser ouvido.
— Um homem passa dias dentro de uma casa pequena, fala com o teu pai… e tu não sabes nada.
Ela tentou sustentar.
— Ele só falava com o meu pai…
— E a tua mãe estava lá.
Não esperei confirmação.
— Numa cabana onde tudo se ouve.
A frase fechou-se sozinha, e o silêncio que se seguiu tornou-se mais denso, mais difícil de sustentar.
— Nós passávamos muito tempo fora… a minha mãe mandava-nos sair…
A explicação surgiu, mas já sem a mesma consistência.
— Mandava-vos sair.
Inclinei ligeiramente a cabeça.
— Então ela ficava lá.
Pausa curta.
— Com ele.
A ideia não precisou de ser desenvolvida.
— Talvez tenha de falar com ela.
Deixei que a palavra seguinte ganhasse espaço antes de a dizer.
— Interrogá-la.
A mudança foi imediata. Já não havia construção, apenas reação.
— Não… ela não sabe de nada… por favor…
Observei-a enquanto falava, sem interromper, deixando que fosse ela a perceber o que estava a acontecer.
— Achas que ela dava uma boa cadelinha aqui ? Achas que ela aguentava ?
A pergunta caiu com precisão.
— Não… meu senhor…
— Então tu aguentas.
A frase não procurava resposta.
Aproximei-me mais um pouco.
— Se te portares bem, não preciso de a trazer.
Deixei um instante passar.
— Nem as tuas irmãs.
A partir daí, deixou de haver controlo.
— Nós não sabemos de nada… eu e as minhas irmãs… não temos nada a ver com isto… por favor…
Esperei que terminasse.
— Mas o teu pai sabe.
— Posso ir buscá-lo.
— Ele… ele já não deve estar lá…
O erro surgiu sem filtro.
Parei.
Deixei a frase assentar.
— Não deve estar lá.
— Então onde está?
Ela tentou recuperar, mas já não havia estrutura.
— Eu não sei…
Mantive o olhar nela.
— Disseste que não sabias nada.
Inclinei ligeiramente a cabeça.
— E agora sabes que ele já não está lá.
O silêncio tornou-se mais pesado.
— Onde ficam?
A pergunta mudou.
Mais precisa.
— Os sítios onde se escondem.
Ela não conseguiu acompanhar.
— Não sei… meu senhor…
As respostas começaram a cair sempre iguais, cada vez mais vazias, como se já não houvesse nada para sustentar.
Deixei que se ouvisse.
Que se tornasse evidente.
Depois endireitei-me.
— Uns dias na cela podem ajudar-te a lembrar.
A decisão não precisou de mais nada.
A mão foi à coleira e puxei-a para se levantar, conduzindo-a até à porta. Desta vez não houve o mesmo controlo no movimento, apenas a continuação inevitável do que já tinha sido decidido.
— Entra.
E ela entrou… o corpo tremia, não apenas pelo frio que se colava à pele, mas sobretudo pelo que já sabia que aquele espaço significava.
cou de pé, imóvel, como se qualquer movimento pudesse piorar aquilo que já era inevitável. O olhar perdeu-se por um instante no vazio da cela, à procura de alguma referência que não existia.
Caminhei à volta dela, lentamente, observando-a em silêncio. Não havia pressa naquele gesto, apenas a intenção de a deixar sentir onde estava, de a obrigar a tomar consciência completa do espaço, da ausência de saída, do tempo que ali ia passar.
Quando voltei a ficar à sua frente, parei e dei-lhe um estalo forte. O som ecoou por todo o piso.
Deixei um instante passar antes de falar.
— Vais ver que uns dias aqui ajudam.
Prendi-lhe os braços e as pernas com cordas.
Depois fixei-as ao teto e fui ajustando a tensão até o corpo dela ficar bem esticado, suspenso, com apenas a ponta dos pés a tocar no chão.
Ela suplicou, a voz a falhar entre o medo e a urgência.
— Por favor… meu senhor… eu faço o que o senhor quiser… eu não sei nada…
Posicionei-me em frente a ela e, durante um instante, limitei-me a observá-la naquele estado, deixando que o silêncio fizesse o seu trabalho.
Levei a mão ao bolso, retirei um pequeno objeto e fiquei a rodá-lo entre os dedos, como se estivesse mais interessado nele do que nela. A luz apanhava-lhe os contornos enquanto o analisava com aparente calma.
— É bonito, não é?
Levantei ligeiramente o olhar.
— O que achas?
Ela respondeu de imediato, sem pensar, mais por necessidade de acertar do que por convicção.
— Sim… meu senhor…
O olhar manteve-se preso no objeto, mas sem realmente o ver. Era uma resposta dada para evitar errar, não para dizer algo verdadeiro.
Inclinei ligeiramente a cabeça.
— Sabes o que é?
A pergunta ficou no ar, simples, mas suficiente para a desorganizar outra vez.
— Não… meu senhor…
Deixei um pequeno silêncio antes de responder, ainda a rodar o objeto entre os dedos.
— É um adereço, chama-se plug.
Pausa curta.
Levantei o olhar para ela.
— Para ti.
— Achas que cabe no teu cuzinho?
O efeito foi imediato. O rosto dela perdeu qualquer tentativa de controlo, os olhos abriram-se mais do que antes e, por um instante, deixou de conseguir sequer esconder o medo.
— Por favor… meu senhor… eu faço o que quiser, mas isso não…
Eu passei a mão, leve, na bucetinha dela para o lubrificar. Aproximei-o do cuzinho dela de uma só vez… Meti o plug naquele anel apertadinho.
Ela gritou enquanto o corpo se moveu num reflexo imediato, tentando afastar-se, mas sem conseguir ir a lado nenhum. Foi um gesto curto, inevitável, mais instinto do que decisão.
Saí da cela sem olhar para trás, deixando o som da porta a fechar-se marcar o fim daquele momento. As cordas ficaram bem presas, sem folga, mantendo-a exatamente onde a tinha deixado.
Atrás de mim, a voz dela continuava.
— Por favor… meu senhor… por favor…
As palavras seguiam-me pelo corredor, cada vez mais desorganizadas, mais urgentes, já sem estrutura, apenas repetição.
Continuei a andar.
Sem abrandar.
Sem responder.
O som dos meus passos sobrepôs-se lentamente à voz dela, até que, a cada metro, foi ficando mais distante… mais fraca…
Até desaparecer.