No presente:
A casa parecia normal. Jantamos todos juntos naquela noite. Conversa leve. Meu pai comentando notícias, minha mãe falando sobre o enxoval que queria montar antes mesmo do segundo trimestre … Mariana quase não tocou na comida, mas ninguém percebeu. Ou fingiu não perceber.
Depois do jantar, ela disse que estava cansada e foi para o quarto. Eu a acompanhei. Ela se deitou de lado, a mão repousando sobre a barriga.
— Vai dar tudo certo … — ela murmurou, já com a voz embargada pelo sono.
E, como se o corpo tivesse desligado um interruptor invisível, ela adormeceu em poucos minutos.
Continuando:
Eu fiquei olhando para Mariana depois que sua respiração começou a ficar mais pesada. Ela dorme de lado desde que descobriu a gravidez. A mão sempre protegendo a barriga, como se já existisse ali alguém que pudesse ouvir.
“Vai dar tudo certo”.
Eu queria acreditar naquilo. Mas não acredito em sorte, acredito em variável. E variável se controla.
Saí do quarto devagar para não a acordar. A casa estava silenciosa. Meus pais já tinham ido dormir. Passei pela sala e desliguei a televisão que meu pai sempre esquece ligada. Na cozinha, encostei na pia e fiquei alguns segundos olhando o reflexo escuro da janela. Meu advogado estava certo, mudar meu depoimento agora seria suicídio. Mas ficar parado também era.
Eu precisava de provas. Precisava encontrar uma forma em que a verdade viesse à tona, sem que eu fosse o responsável por mostrá-la.
Me sentei no sofá da sala e abri o notebook pessoal, não o da agência. A conexão era separada, nada que pudesse ser associado oficialmente ao lado profissional.
Primeira coisa: revisitar o passado. O nome do coronel, meu principal suspeito para a pessoa que queria foder com a minha vida, não aparecia em notícias recentes. Oficialmente, ele já estava exonerado há anos, afastado de qualquer proteção governamental. Mas, extraoficialmente, permanecia ativo. Suas conexões permaneceram fortes, o território expandido nos últimos dez anos. Crescimento muito rápido para quem “saiu da corporação”.
Eu conhecia o método dele. Ele não fazia nada diretamente. Ele criava camadas. Se alguém estivesse armando contra mim, em busca de vingança, meu instinto dizia ser ele. Alguém que eu ajudei a derrubar. Alguém que perdeu cargo, dinheiro, proteção, mas se reinventou “no outro lado”.
Mas aquilo não explicava o Bruno. Se ele estava endividado com agiotas, estava vulnerável. Vulnerabilidade é porta de entrada, e gente desesperada vira ferramenta.
Abri uma planilha em branco e comecei a montar uma linha do tempo paralela. As coisas que eu me lembrava da época de policial, a investigação e os fatos concretos sobre aquele maldito coronel corrupto. Ele tinha envolvimento com tráfico e recebia dinheiro para fazer vista grossa em comunidades. Além de ser um corrupto da velha guarda, muito antes de se falar em milícias.
Já o Bruno, desviou dinheiro da agência, fez empréstimos com agiotas, visitou meu apartamento, e é suspeito de deixar Mariana “apagada”. Fora a manipulação de imagens, que não é trabalho de amador, já que ele se encontrou com suspeitos que provavelmente tinham a intenção de me prejudicar
Se o ex coronel está envolvido, é pessoal. É vingança. Mas se não estiver … então, Bruno está jogando um jogo maior do que eu imaginei.
Fechei o notebook e fiquei alguns segundos parado. Eu não podia investigar nada oficialmente. Qualquer movimentação errada poderia ser interpretada como obstrução.
Mas havia outra via, uma mais perigosa. E quanto maior o risco, maior o ganho. Se o coronel tem rivais, e eu sei que tem, basta acender a faísca certa. Informação errada no lugar certo gera conflito real. Eu precisava pedir ajuda, plantar dúvida. Mas uma jogada tão ousada exigiria precisão. E intermediários.
Peguei o celular e rolei contatos antigos até encontrar um nome que eu não acionava há anos. Não era amigo, nem aliado. Mas era pragmático, e me devia favores.
Meu dedo ficou suspenso sobre o número por alguns segundos. Se eu apertasse “ligar”, não teria volta. Não era ilegal conversar, mas era perigoso.
Olhei em direção ao quarto. Mariana dormia acreditando que tudo ia dar certo, mas eu não podia depender de esperança.
Pressionei o botão. Chamou duas vezes.
— Estava esperando sua ligação. Sabia que ia se lembrar de mim — a voz do outro lado disse, seca.
Eu não sorri.
— Uma mão lava a outra. E eu já lavei a sua mais vezes do que você merecia.
O silêncio foi curto.
— O que você quer?
Fui direto.
— Informação.
— O submundo tem um preço. — Ele rebateu.
— Ser condenado sem ter feito nada, é bem mais caro — respondi.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Você está mexendo com coisas grandes. Sabe disso, né?
— Talvez. — E pensei antes de continuar. — Pelo jeito, é tudo ou nada.
— E por que eu entraria nisso? — Ele disse, me testando.
— Porque você me deve.
A pausa do outro lado foi mais longa. Toquei exatamente onde precisava, no limite entre o dever e a honra.
— Deixe tudo o que você tem, e o que precisa, na caixa de correio dos seus pais … — A respiração do outro lado mudou levemente. — ... e seja paciente.
Ele apenas desligou, sem nem se despedir, como sempre fazia.
Depois daquela ligação, fiquei alguns minutos sentado no escuro, ouvindo apenas o próprio silêncio da casa. Abri o notebook, peguei um pendrive novo, coloquei toda a informação que eu tinha, o que eu precisava que ele fizesse e sai rapidamente, seguindo as instruções e colocando o pendrive na caixa de correio.
Voltei para dentro, fechei o notebook, desliguei a luz e voltei para o quarto.
Mariana estava na mesma posição. A respiração regular. A mão sobre a barriga. Eu me deitei ao lado dela, mas o sono não veio. Fiquei olhando para o teto. Quando finalmente apaguei, o despertador dela já estava tocando. Me levantei junto com ela.
A manhã começou comum. Mariana tomou o café rapidamente e saiu apressada, tentando manter a naturalidade. Disse que ligaria para o obstetra e pediria os exames ainda naquele mesmo dia. Beijei sua testa antes que ela saísse e segurei sua mão por um segundo a mais do que o habitual.
Meus pais também saíram logo depois. Minha mãe comentou algo sobre loja de enxoval. Meu pai precisava resolver coisas no banco. Quando a porta se fechou e a casa ficou vazia, eu tive mais liberdade para seguir com meus planos.
Peguei o celular e liguei para Mateus.
— E aí? Tem coisas novas pra mim? Vem pra cá.
— Estou indo.
Ele chegou quarenta minutos depois. Roupa comum, boné, totalmente discreto. Entrou sem formalidade. Indiquei a sala, não o escritório/galpão. Estávamos sozinhos.
Mateus foi direto ao assunto:
— O desvio na agência está confirmado. Bruno retirou valores fracionados ao longo de meses. Mas já devolveu tudo.
Eu mantive o rosto neutro.
— Disso já sabíamos.
Mateus continuou:
— Mas a novidade é que as dívidas com os agiotas foram quitadas. Bruno está zerado. Não deve nada a ninguém.
Mateus tinha mais a dizer:
— Os registros contábeis foram “ajustados” — ele fez o sinal de aspas com a mão. — Antes de qualquer auditoria formal. Para fora, parece erro contábil corrigido. A agência está protegida nesse ponto.
Aquilo era importante.
— E como ele pagou os agiotas?
Mateus deu de ombros
— Ainda não sei. Estou trabalhando nisso. Devo descobrir em breve.
— E sobre a empresa de segurança? — Continuei, objetivo.
Mateus soltou um leve sorriso, daqueles que não são exatamente de humor.
— A versão oficial é bonita. — Ele começou.
— Quero ouvir.
— Bruno esteve com o responsável da empresa que administra o sistema de monitoramento do seu prédio. Reunião registrada, motivo declarado como possível contrato de parceria. Ele estaria interessado em investir. Expandir a atuação deles para condomínios comerciais.
Eu não falei nada.
— Só que … — Mateus continuou — não existe proposta formal. Não existe minuta de contrato. Não existe troca de e-mails posterior.
— Então por que a reunião?
Ele tirou o celular do bolso, abriu uma foto e me mostrou.
— Porque ele pediu apresentação técnica.
Eu analisei a imagem. Era um slide projetado numa sala de reunião. Tópicos visíveis: Arquitetura de monitoramento. Integração com controle de acesso. Armazenamento em nuvem. Logs e redundância de dados.
Meu maxilar tensionou.
— Ele não estava interessado em investir, mas em entender como operar a tecnologia? — Eu disse baixo.
— É o que parece. Ele estava interessado em entender como funciona. Pediu detalhes sobre retenção de imagens. Backup externo. Tempo de armazenamento. Quem tem acesso administrativo. Como os registros podem ser extraídos.
— E eles entregaram tudo?
— Entregaram o que se entrega a um possível investidor. Visão geral. Fluxo de dados. Protocolos.
— O suficiente para alguém saber onde mexer … — Completei.
— O suficiente para alguém saber quem contratar para mexer.
O ar ficou mais denso.
— Ele tem conhecimento técnico para isso? — perguntei.
Mateus cruzou os braços, ansioso.
— Provavelmente, não. Mas o problema maior é com quem ele se encontrou depois de sair da reunião com a empresa de segurança …
Mateus sempre teve a mania de ser dramático ao explicar suas descobertas.
— Fala logo, caralho. Quer me matar de ansiedade e tensão? — Explodi com ele.
— O laranja daquela empresa, lembra? A mesma empresa que depositou dinheiro para a vítima que você supostamente matou e que também aparece nas suas investigações na época da polícia.
Antes que eu pudesse me surpreender ainda mais, Mateus completou:
— Esse cara, Adoniran Maciel, é cunhado do ex coronel … aquele ex coronel.
Eu me levantei e caminhei até a janela. Olhei para a rua por alguns segundos.
— Já não estamos mais no campo das coincidências aqui, concorda? — Perguntei a ele.
— São fatos muito concretos para serem apenas coincidência. — Respondeu Mateus.
— Obrigado pelo bom trabalho. Não sei o que eu faria sem a sua ajuda …
Mateus me interrompeu.
— Quando voltar, melhora meu bônus. — Ele brincou, para quebrar a tensão.
Conversamos por mais alguns minutos, Mateus disse que ia continuar seguindo a linha investigava que ficava cada vez mais consolidada e nós nos despedimos.
Eu precisava esperar a resposta da ligação que tinha feito mais cedo. E eu sabia que ela não chegaria tão rápido. Só assim eu poderia criar uma tática de ação mais assertiva.
Meu celular vibrou sobre a mesa. Era Mariana. Atendi no primeiro toque.
— Oi.
A voz dela veio mais baixa do que o normal.
— Consegui marcar os exames.
Houve uma pausa curta, tensa, mas ela tentava soar casual.
— Para quando? — Perguntei, ansioso.
— Daqui a pouco, no meu horário de almoço. O doutor conseguiu me encaixar.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Ricardo … eu estou com um pouco de medo.
Mariana já soava vulnerável, tensa.
— Eu vou te buscar. — Disse, tentando acalmá-la.
— Não precisa, amor. Eu posso ir sozinha. É aqui perto.
— Eu vou te buscar — repeti, firme. — Quero estar com você.
Do outro lado, um silêncio diferente, mas mais quente.
— Tá bom … — ela disse, e eu consegui ouvir o pequeno sorriso na voz. — Me sinto mais tranquila com você comigo.
— Mari ...
— Oi?
— Se alguém te perguntar, é só pré-natal. Nada além disso.
— Entendi.
— Nada de comentar exame específico. Nem com colega ou amigas.
— Eu sei.
Nós nos despedimos e desligamos.
Me arrumei com calma, mesmo estando ansioso. Camisa neutra, calça jeans e sapatos. Nada que chamasse atenção. Documento, carteira, chave … entrei no carro e parti.
No caminho até o trabalho dela, minha cabeça estava fria outra vez. Emoção ajuda pouco nessas horas. Quando parei em frente ao prédio, Mariana já estava esperando na calçada. Ela entrou no carro e fechou a porta com cuidado.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— Você está bem? — perguntei.
Ela assentiu, mas com o semblante tenso.
— Eu fiquei pensando … — ela começou — e se realmente tiver alguma coisa no meu organismo?
— A gente resolve.
— E o bebê?
Eu virei o rosto para ela.
— A gente resolve. — Repeti, com mais firmeza.
— De novo isso … — Ela resmungou. — Nós já o perdoamos uma vez, deixamos que ele voltasse para as nossas vidas …
Ela respirou devagar, mudando de assunto.
— Eu inventei uma história para o doutor. Disse que pessoas da empresa passaram mal depois de um evento e que eu queria garantir que não tive contato com nada estranho.
Eu balancei a cabeça.
— Ótimo.
— Você acha que ele vai desconfiar?
— Médico não investiga narrativa, ele investiga risco.
Ela relaxou um pouco.
— Se alguém perguntar, foi consulta de rotina — eu reforcei. — Ultrassom, pressão, exame de sangue comum … essas coisas.
— Você acha que alguém vai perguntar?
Eu não respondi de imediato.
— Eu prefiro agir como se fosse uma possibilidade real.
Ela me encarou por alguns segundos.
— Isso me assusta mais do que você estar com raiva.
Aquilo me pegou desprevenido.
— Eu não estou com raiva.
— Eu sei. — Ela olhou para o próprio colo. — Você está … diferente.
E talvez eu estivesse mesmo.
Estacionei em frente à clínica. Antes de sairmos do carro, eu segurei a mão dela.
— Independentemente do que sair nesses exames, nós vamos encarar o que vier. De novo.
Ela apertou meus dedos.
— Eu sei.
A consulta começou como qualquer outra. Peso, pressão aferida, perguntas básicas sobre enjoo e alimentação ... Mariana manteve o tom controlado. Quando o obstetra terminou a parte padrão, ela respirou fundo.
— Doutor, e os exames que eu pedi. O senhor pode solicitar?
Ele ergueu os olhos por cima dos óculos.
— Já vou chamar a enfermeira para colher o sangue. Não deve demorar.
Mariana continuou na personagem.
— Teve dois eventos seguidos na empresa. Semana passada e há um mês e meio … algumas pessoas passaram mal. Eu também andei me sentindo fraca, um pouco zonza, e como estou grávida, queria fazer um exame mais completo. Um painel toxicológico amplo. Só para garantir que não houve exposição a nada que possa prejudicar o bebê.
O médico ficou alguns segundos em silêncio e cruzou as mãos sobre a mesa.
— Em gestação, somos conservadores. Exame nunca faz mal. Vou solicitar hemograma completo, função hepática, renal e triagem toxicológica padrão. Se houver qualquer indício, ampliamos.
Mariana assentiu.
— E o bebê?
O médico sorriu de leve.
— Pelo que vimos hoje, está tudo dentro da normalidade. Mas vamos acompanhar.
Enquanto ele preenchia a requisição, eu senti algo estranho. Era um certo alívio, mas não completo. A enfermeira chegou na sala e chamou Mariana para a coleta. Segui ao lado dela pelo corredor. Antes de entrar na sala reservada, ela segurou meu braço.
— Obrigada por ter vindo.
— Eu disse que vinha.
Ela apoiou a cabeça no meu ombro por um segundo. E naquele instante, apesar de todo o cálculo que eu estava fazendo nos bastidores, aquilo era real. Ela estava com medo. E eu estava tentando proteger os dois.
A enfermeira preparou a bandeja com movimentos automáticos. Algodão, tubos, garrote … e chamou Mariana. Ela se sentou na cadeira, estendendo o braço, mas evitou olhar. Eu fiquei ao lado.
— Relaxa a mão — a enfermeira pediu.
Mariana respirou fundo, mas os dedos estavam rígidos. Eu toquei de leve na outra mão dela. Ela entrelaçou os dedos nos meus com força. A agulha entrou e ela fechou os olhos. Não foi dramático, nem exagerado. Mas a respiração dela ficou curta, o maxilar travado, a mão apertando a minha.
— Está tudo bem — eu disse, tentando acalmá-la.
Ela assentiu, ainda de olhos fechados. O tubo encheu devagar. Ela não estava nervosa com a agulha, estava nervosa com o que podia estar dentro dela.
A enfermeira trocou o frasco.
— Você comentou que se sentiu fraca? — ela perguntou casualmente.
Mariana abriu os olhos por um segundo.
— Um pouco. Mas pode ser só ansiedade.
— Pode ser — a enfermeira disse, sorrindo.
“Ou pode não ser”, pensei, mas logo voltei minha atenção para Mariana.
Quando terminou, a enfermeira colocou um band-aid e explicou:
— O resultado deve sair em três a cinco dias úteis. Se houver qualquer alteração relevante, o médico entra em contato antes.
“Três a cinco dias. Muito tempo quando existe dúvida”.
Mariana se levantou devagar. Por um segundo, pareceu perder o equilíbrio. Eu a segurei pelo braço, a apoiando.
— Estou bem — ela disse, recuperando o equilíbrio.
No corredor, ela caminhou em silêncio. Só quando chegamos perto da saída da clínica, ela falou:
— Eu odeio não ter controle sobre o que está acontecendo dentro do meu próprio corpo.
— Você não fez nada de errado — respondi.
Ela parou antes de atravessar a porta de vidro.
— E se eu fiz? — A voz saiu mais baixa. — E se eu não percebi?
Não era só medo. Era culpa antecipada.
— Mariana … — Eu a segurei carinhosamente pelos braços.
Ela me encarou.
— Você não fez nada de errado. Se tiver qualquer alteração nos exames … nós, pelo menos, deixamos de ser cegos.
Ela respirou fundo, segurando as lágrimas como se fosse inapropriado chorar ali.
— Eu fico pensando naquele dia … — ela começou, mas não terminou.
Eu sabia qual dia, mas não respondi. Só segurei o olhar dela até que ela decidisse continuar ou desistir. E ela desistiu.
— Me leva de volta pro trabalho. — Ela perguntou, recompondo a postura.
No carro, o silêncio era diferente do silêncio da ida. Era mais pesado. Quando parei em frente ao prédio, ela não abriu a porta imediatamente.
— Você acha que ele faria isso? — Ela perguntou, sem dizer o nome.
Eu não respondi de imediato.
— Eu queria muito acreditar que não, mas …
Ela assentiu devagar.
— Se sair tudo normal … você promete que a gente conversa sobre isso de verdade? — Ela praticamente implorou.
— Prometo. — Disse, sincero.
Ela segurou minha mão mais uma vez, a acariciou, e depois saiu do carro.
Eu esperei até ela entrar no prédio. “Três a cinco dias. Tempo suficiente para muita coisa acontecer”. ... Pensei e então, acelerei.
Voltei para casa sem pressa. Não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento. Passei a tarde com meus pais. Meu pai comentava as notícias como se ainda estivesse na ativa. Minha mãe falava do enxoval com uma convicção quase religiosa.
— Eu já vi um conjunto branco com bordado azul que é a coisa mais linda — ela dizia, animada. — Mas nem sabemos se é menino …
Eu sorria, respondia, concordava. Era curioso como aquela casa conseguia ser tão normal enquanto, na minha cabeça, tudo era estratégia.
Mariana chegou por volta das dezoito e trinta, o horário habitual. Entrou com o cansaço estampado no rosto, mas tentando manter a naturalidade. Beijou minha mãe, cumprimentou meu pai, deixou a bolsa no aparador e foi direto para o banheiro tomar banho. Só depois veio para a cozinha ajudar.
Eu fui junto. Não precisava, mas fui. Precisava me manter ocupado, produtivo. Enquanto elas cortavam legumes, temperavam o peixe, organizavam as panelas, eu ficava organizando a bagunça, lavando a louça já usada, ou apenas recolhendo o lixo.
Minha mãe falava do bebê como se ele já estivesse correndo pela sala.
— Esse neto vai ser mimado, aviso logo. Eu mesma vou montar o guarda-roupa inteiro.
Mariana sorriu. Um sorriso educado, mas honesto. Eu percebia o esforço e mesmo no meio do caos que eu transformei a vida de todos, ela parecia feliz com a gravidez. Estávamos terminando de arrumar a mesa quando a campainha tocou. O som ecoou alto. Meu pai foi atender. E antes mesmo de ver quem era, eu já sabia.
— Fala, família! — A voz dele entrou na casa primeiro. Era o Bruno.
Entrei na sala a tempo de vê-lo abraçando meu pai com aquela energia exagerada de sempre. Beijou minha mãe no rosto como se fosse filho dela.
— Vim ver como estão meus tios favoritos!
Eles riram. Como sempre riam. Eu me aproximei e ele abriu os braços.
— E aí, irmão?
O abraço foi rápido. Eu mantive o corpo firme, até um pouco neutro.
— Tudo tranquilo — respondi.
Ele se afastou e olhou em direção à cozinha.
— Cadê a futura mamãe?
Meu estômago se contraiu. Mariana estava parada perto da pia quando ele entrou. Eu vi o segundo exato em que ela o viu. Foi mínimo, um micro congelamento.
Bruno se aproximou sorrindo, de forma casual, familiar, como sempre fazia. Como se nada tivesse mudado e abriu os braços para abraçá-la.
— Vem cá, Mari …
E quando os braços dele tocaram os ombros dela…
— Não me toca!
A voz dela cortou a casa. Ela o empurrou com força. Bruno deu um passo para trás, surpreso. O silêncio foi absoluto. Minha mãe ficou imóvel, atônita. Meu pai franziu a testa, preocupado. Bruno piscou, sem entender.
— Mari …? O que foi?
— Não encosta em mim! — ela repetiu, a voz tremendo entre raiva e medo.
Ela saiu. Passou por mim quase correndo, em direção ao quarto. O corredor pareceu pequeno enquanto ela caminhava em disparada. A porta bateu e o som ecoou dentro de mim.
Todos me olharam, à procura de explicação e eu precisei pensar rápido. Soltei o ar devagar, como se estivesse constrangido.
— Ela não está muito bem esses dias — falei, mantendo a voz estável. — Gravidez … hormônios. Hoje teve pré-natal, ela está mais sensível.
Minha mãe relaxou imediatamente.
— Ah … claro. É normal nessa fase.
Meu pai assentiu, compreensivo. Bruno ainda parecia perdido.
— Eu fiz alguma coisa errada?
Eu sustentei o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário.
— Não.
Era uma mentira calculada, óbvio. Mas eu precisava que ele não desconfiasse de nada.
— Ela só está passando por muita coisa.
Ele passou a mão na nuca, apreensivo.
— Se eu soubesse ...
Coloquei a mão no ombro dele.
— Fica tranquilo, cara. — Apertei um pouco mais do que deveria. — Eu vou ver como ela está.
Caminhei pelo corredor sentindo algo crescer dentro de mim. Não era só tensão, era medo de ser descoberto, de ele começar a desconfiar que nós o estávamos investigando.
Quando abri a porta do quarto, Mariana estava sentada na beirada da cama, os ombros tensos, as mãos apoiadas na barriga como se ainda precisasse proteger algo.
Fechei a porta atrás de mim e ela me encarou. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela falou:
— Me desculpa.
A voz estava mais controlada do que eu esperava.
— Por um momento … a raiva foi maior que a prudência.
Eu me aproximei devagar.
— Você não fez nada de errado, Mari. Não tem motivo para se desculpar.
Ela balançou a cabeça.
— Fiz, sim. Perdi o controle. E ele não pode desconfiar.
Ali estava a lucidez que eu conhecia e eu me sentei ao lado dela.
— Você está grávida, assustada ... Ninguém vai questionar sua reação.
— Ele pode.
Eu sustentei o olhar dela.
— Então a gente não deixa espaço pra isso.
Mariana respirou fundo e endireitou a postura.
— Vamos voltar.
Eu apenas tentei apoiá-la.
— Tem certeza?
— Temos que voltar. Não podemos deixar que ele ache que existe qualquer coisa diferente.
Ela estava certa e nós nos levantamos juntos. Antes de abrir a porta, ela segurou minha mão.
— Se eu perder o controle de novo …
— Eu estou com você. Faça o que achar que deve.
Ela assentiu e nós voltamos para a sala. O clima ainda estava suspenso no ar, como poeira que ainda não assentou. Mariana foi direto até Bruno.
— Desculpa, amigo … — disse, forçando um sorriso leve. — Eu não sei o que deu em mim.
Minha mãe foi rápida.
— Isso é normal, querida. Instinto materno. A gente fica mais sensível, querendo proteger a cria o tempo todo.
Bruno ergueu as mãos em rendição.
— Não, Mari … eu que exagerei. Chego invadindo espaço, abraço todo mundo … posso ter te assustado. Vou me policiar melhor.
Ele sorriu. O mesmo sorriso de sempre. Mas eu estava mais do que atento para acreditar completamente nele.
A tensão, aos poucos, começou a se diluir. Nos sentamos à mesa. Bruno, inclusive. O jantar seguiu com conversas leves. Meu pai contando uma história antiga. Minha mãe rindo alto. Mariana respondendo quando perguntavam algo, mas falando pouco.
Eu percebi quando ela olhou para mim. E percebi quando Bruno também percebeu. Ele estava atento. Mais atento do que deveria.
Assumi meu papel de apoio, de segurança, e peguei o peixe do prato dela.
— Deixa que eu tiro as espinhas.
Ela me olhou, feliz pelo gesto carinhoso, que aliviou sua tensão. Eu fiz com calma, cuidadoso, como um marido exemplar.
— Obrigada — ela disse.
— Sempre.
Senti o olhar do Bruno sobre nós. Eu estava desviando a atenção, transformando qualquer possível tensão em cuidado conjugal, uma normalidade encenada.
Depois do jantar, minha mãe começou a recolher os pratos. Meu pai foi até a sala ligar a televisão. Bruno se levantou e me lançou um olhar rápido.
— Ricardo, posso falar com você um minuto?
O silêncio foi imediato outra vez. Eu senti os olhos dos meus pais e de Mariana sobre nós.
— É coisa da agência — ele acrescentou, dissipando a curiosidade de todos. — Nada demais. Não deve demorar.
Eu assenti.
— Claro.
Mariana manteve o rosto neutro. Mas eu vi o alerta nos olhos dela. Bruno caminhou em direção ao quintal e eu o segui. E enquanto a porta se fechava atrás de nós, eu soube que aquele não era um pedido inocente.
Bruno encostou no corrimão, calmo, postura muito relaxada. Eu fiquei de frente para ele.
— Então — ele começou — como você está segurando tudo isso?
— Um dia de cada vez.
Ele assentiu, como se estivesse avaliando a resposta.
— E a investigação? — perguntou, casual. — Vai mesmo assumir a linha da legítima defesa que passou do ponto?
Eu mantive o olhar firme.
— É a estratégia mais segura.
— Se declarar culpado?
— Se for necessário …
Ele inclinou a cabeça, estudando meu rosto.
— Corajoso da sua parte.
“Ou conveniente”, pensei, mas não disse nada.
— E … fora isso? — Ele continuou. — Como anda sua investigação pessoal?
A pergunta veio leve demais, quase casual. Eu franzi a testa.
— Que investigação?
Ele deu um meio sorriso.
— Ah, Ricardo … eu te conheço. Você não é o tipo que se senta e espera. Você deve estar mexendo em alguma coisa.
Ali estava … uma sondagem disfarçada de preocupação. Eu dei de ombros.
— Mexi, procurei, mas não encontrei nada.
Deixei o peso cair na voz.
— Talvez não haja nada para encontrar.
Ele me observou por alguns segundos.
— Eu falei com o Mateus hoje à tarde … — Ele continuou.
Por um segundo, a possibilidade de traição se formou na minha cabeça. Bruno percebeu minha reação. Claro que percebeu.
— Ele me mostrou as coisas que conseguiu — continuou. — Ou seja, quase nada. Se nem o garoto prodígio conseguiu achar alguma coisa…
Eu mantive o rosto imóvel. Mas por dentro eu já estava reorganizando o tabuleiro. Mateus jamais me trairia.
Bruno suspirou, quase solidário.
— Quem armou para você parece ter feito um trabalho impecável. Criaram algo … limpo até demais. — Ele me encarou. — Parece o crime perfeito.
Eu senti o impulso. Queria pegar aquele desgraçado pelo colarinho, encostar na parede, arrancar a máscara do rosto dele ali mesmo. Mas respirei, voltando a me controlar.
— Crime perfeito não existe — eu disse, um pouco mais sarcástico do que pretendia.
Ele arqueou a sobrancelha e eu dei um passo mais perto.
— A verdade sempre aparece, irmão.
Sustentei o olhar dele, sem piscar.
— De um jeito ou de outro … ela sempre aparece.
O sorriso dele não desapareceu, mas perdeu um pouco da leveza. Ficamos em silêncio por alguns segundos, depois ele deu dois tapinhas no meu ombro.
— Espero que você esteja certo.
“Eu também”.
Continua …
