Ricardo não se afastou. Pelo contrário, a pressão do seu corpo contra o de Marco aumentou, um peso deliberado e quente que ancorava o homem mais novo à madeira fria da mesa. O silêncio no escritório era absoluto, quebrado apenas pelo som ofegante da respiração de Marco, que tentava inutilmente recuperar o controlo dos seus próprios pulmões. Ricardo mantinha a mão espalmada no peito de Marco, sentindo o coração dele bater freneticamente contra as costelas, um tambor descompassado de medo e uma luxúria que ele recusava-se a nomear.
Com um movimento lento, calculista, Ricardo retirou a mão do peito de Marco e levou-a aos botões da sua própria camisa. Os dedos, com o anel de prata brilhando sob a luz fluorescente, trabalharam o primeiro botão. Depois o segundo. Marco olhou, imóvel, preso entre o desejo de empurrar aquele homem para longe e uma curiosidade magnética que o paralisava. À medida que a camisa branca se abria, revelava não apenas pele, mas um mapa de história.
O peito de Ricardo era uma paisagem de músculos duros, definidos por décadas de disciplina, mas eram as cicatrizes que roubavam o olhar. Linhas irregulares, algumas pálidas, outras mais escuras, cruzavam a pele acima dos mamilos e desciam pelo abdómen, desaparecendo na cintura das calças. Não eram marcas de cirurgia estética; eram feridas de combate, de vida bruta. Ricardo deixou a camisa aberta, expondo o torso sem vergonha, sem pudor, num desafio silencioso.
— Olha para mim — ordenou Ricardo, a voz rouca, vibrando contra o pescoço de Marco.
Marco engoliu em seco, os olhos percorrendo as marcas. Ele via a força ali, uma violência contida que lhe era estranha e, ao mesmo tempo, irresistivelmente familiar. Havia uma beleza terrível naquele corpo danificado, uma prova de sobrevivência que fazia o seu próprio terno Armani parecer uma fantasia de criança.
— Você vê um inimigo — sussurrou Ricardo, aproximando o rosto, a barba com fios prateados a roçar na bochecha de Marco. — Mas o seu corpo sabe o que isto é. Sabe que eu sou o homem que pode partir você ao meio... e que é exatamente isso que você está a pedir escondido naquela jaula.
Ricardo agarrou o queixo de Marco, forçando-o a manter o contacto visual. A pressão dos dedos foi dura, deixando marcas vermelhas na pele.
— Essas cicatrizes são de batalhas que você não consegue imaginar, garoto. E agora, você é a minha próxima guerra. Não tente fugir disso. Sinta.
Ele desceu a mão pelo torso de Marco, roçando as marcas vermelhas da punição anterior, fazendo o corpo mais novo estremecer. A dor ainda latejava, mas agora estava misturada com algo mais quente, mais viscoso. Ricardo sorriu, um movimento quase impercetível dos lábios, sentindo a resistência de Marco a desmoronar-se como papel molhado.
— Vamos sair daqui — disse Ricardo de súbito, afastando-se.
A perda de calor foi brutal. Marco ficou deitado na mesa por um segundo, desorientado, a cabeça a girar. Ricardo já estava a arrumar a camisa, mas não a abotoou. Deixou-a aberta, o peito exposto num ato de arrogância pura. Ajustou o pulso, olhando para Marco como se fosse um objeto que acabara de utilizar e que agora precisava de ser guardado.
— Levante-se. Arrume-se. Não vou levar um desordeiro para a minha casa.
Marco sentou-se lentamente, as pernas a tremerem ligeiramente. Puxou as calças para cima, o tecido a roçar dolorosamente nas nádegas castigadas. A jaula de metal apertou-se quando ele abotoou a calça, um lembrete constante e frio da sua situação. Ele olhou para Ricardo, que já estava à porta, postura impecável exceto pela camisa aberta que revelava o seu peito marcado. Não havia questionamento. A ordem estava implícita na postura do homem mais velho.
A viagem até ao apartamento de Ricardo fez-se num silêncio carregado. O carro de Ricardo, um sedan preto e espaçoso, cheirava a couro novo e ao tabaco do charuto que Ricardo fumara antes. Marco sentou-se no banco do passageiro, os olhos fixos na cidade que passava lá fora, as luzes desfocadas através do vidro. Ricardo conduzia com uma mão relaxada sobre o volante, a outra apoiada no descanso do braço, o anel de serpente a apanhar a luz dos postes de rua. Ele não tentou fazer conversa. Não precisava. A presença dele preenchia o espaço, sufocando qualquer tentativa de Marco de organizar os pensamentos.
Quando o carro parou frente a um prédio antigo e nobre no centro da cidade, Marco sentiu um nó no estômago. Aquilo não era apenas um apartamento; era o covil do predador. Ricardo saiu primeiro, abrindo a porta de Marco num gesto de cavalheirismo que parecia grotesco dado o contexto.
O elevador subiu em silêncio, e Marco sentia o peso do olhar de Ricardo sobre ele, analisando cada movimento, cada micromovimento de desconforto. Quando as portas se abriram, Ricardo guinou-o pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que não admitia recusa. O apartamento era vasto, com tetos altos e pisos de madeira escura que ecoavam os passos. As paredes estavam cheias de livros e arte abstrata, mas o que chamou a atenção de Marco foi a ausência de qualquer traço de vida pessoal. Era um lugar frio, funcional, desenhado para um único propósito: controlo.
Ricardo fechou a porta atrás deles. O som do fecho a clicar pareceu mais alto do que deveria, um som final.
— Tira o terno — disse Ricardo, andando até uma pequena mesa de auxílio e deitando as chaves em cima. — Deixa-o na cadeira. O sapatos também.
Marco hesitou. O instinto gritava para ele correr, para lutar, mas o corpo recordava a dor, a humilhação e, pior de tudo, o beijo que o tinha deixado sem ar. Ele começou a despir-se. Primeiro o casaco, depois o colete. As mãos tremiam-lhe enquanto desatava a gravata. Quando ficou apenas de camisa e calças, sentiu-se nu, exposto naquele espaço estranho.
Ricardo aproximou-se, circulando-o como um animal a inspecionar a presa. Ele parou atrás de Marco, colocando as mãos nos ombros dele. Através da camisa fina, Marco sentia o calor das mãos de Ricardo, a textura das palmas ásperas.
— A partir de agora, as regras são simples — sussurrou Ricardo no ouvido dele, o hálito quente a fazer Marco arrepiar. — Aqui dentro, você não fala a menos que lhe perguntem. Você não se toca a menos que eu permita. E aquela jaula entre as pernas... isso é a minha vontade. Enquanto ela estiver aí, você pertence-me.
Ele deslizou as mãos pelos braços de Marco até aos pulsos, puxando-os suavemente para trás, cruzando as costas. A posição forçava o peito de Marco para fora, deixando-o vulnerável.
— Você pensa que é forte, Marco. Pensa que o seu cargo, o seu dinheiro, os seus músculos fazem de você um homem. — Ricardo riu baixinho, um som grave que ressoou no peito de Marco. — Mas veja-se agora. A tremer nas minhas mãos. Molhado de medo e desejo. Eu vou quebrá-lo, peça por peça, até não sobrar nada desse gerente arrogante. E quando eu terminar, o que restar será meu. Só meu.
Ricardo soltou os pulsos de Marco, mas a sensação de algemas invisíveis permaneceu. Ele caminhou para a frente, virando-se para olhar nos olhos de Marco.
— Agora, ajoelhe-se. É hora de começar o seu treino.