Roberto e eu chegamos ao restaurante pouco depois das oito. Era um lugar discreto de gastronomia mediterrânea, com paredes de pedra aparente, luz baixa de lâmpadas quentes e cheiro de azeite, ervas e pão recém-assado pairando no ar. Escolhemos uma mesa no canto, longe do movimento principal, onde podíamos falar sem pressa. Ele vestia uma camisa social num tom de laranja queimado que esticava suavemente sobre os ombros largos e a barriga generosa; eu, uma camisa Aloha leve que deixava os antebraços à mostra, veias ainda marcadas do treino da tarde que eu fizera ao lado dele.
Pedimos entradas — burrata cremosa com tomate-cereja confit, azeitonas kalamata e um carpaccio de polvo — e uma garrafa de vinho tinto húngaro. Roberto acomodou-se na cadeira com aquele jeito dele, coxas grossas ocupando espaço, uma mão descansando casualmente na mesa. Conversávamos baixo sobre o dia dele na transportadora, sobre o filho mais velho. Eu ouvia, assentindo.
Foi então que ela apareceu.
Caminhava entre as mesas com elegância natural: vestido preto simples, mas bem cortado, cabelo loiro camomila preso num coque solto, brincos de prata discretos. Uns cinqüenta e poucos anos, pele ainda firme, postura ereta de quem nunca deixou de se cuidar. Seus olhos percorreram o salão e pararam em mim. Ela franziu ligeiramente a testa, como quem tenta encaixar um rosto num arquivo antigo.
— Desculpe… — disse ela, aproximando-se com um sorriso educado e hesitante. — Você? Turma de 2012 ou 2014?
Eu sorri, educado, sem corrigir de imediato a idade que ela claramente me atribuía.
— Sim, fui aluno seu. Há bem mais tempo.
Ela inclinou a cabeça, ainda me estudando.
— Nossa… parece ter uns trinta no máximo.
Sempre elegante, voz calma, mas com uma autoridade serena. Agora, mais madura, continuava bonita — traços finos, boca bem desenhada, um colar delicado que descia até o decote discreto.
Conversamos por uns dois minutos. Ela perguntou o que eu fazia hoje. Contei que tinha comprado uma fazenda de trezentos hectares mais afastada da área urbana. Ela comentou que o tempo voava, que os alunos pareciam cada vez mais jovens. Roberto ficou em silêncio, apenas observando com aquele olhar calmo e acolhedor, a barriga subindo e descendo devagar enquanto ele bebia um gole de vinho.
Quando ela finalmente se despediu com um “foi um prazer te ver tão bem”, deu meia-volta e caminhou em direção à saída. Foi só então, quando ela já estava a uns cinco metros de distância, que Roberto se inclinou ligeiramente para a frente, voz baixa e rouca, quase um ronronar:
— Viu a tatuagem no pescoço dela?
Eu ergui uma sobrancelha, ainda com o copo de suco de romã na mão.
Ele deu um sorrisinho lento, daqueles que fazem a barba grisalha se mexer de leve.
— Parece um arranjo de flores delicadas, né? Tipo um ramo de lavanda ou algo assim, subindo pela lateral do pescoço. Mas… não é flor coisa nenhuma. É uma vulva estilizada. Bem sutil, mas dá pra ver o formato: as pétalas externas, o contorno central mais escuro, as curvinhas internas.
— Sério. Quando ela virou o rosto pra falar contigo, a luz bateu certinho. É delicado, elegante até… mas é uma buceta desenhada no pescoço. Aposto que ela acha que ninguém nota. Ou talvez queira que só quem entende note.
Ele deu de ombros, a camisa esticando sobre o peito peludo, e pegou mais uma azeitona com os dedos grossos.
— Mulheres… — murmurou, quase para si mesmo, com um tom entre admiração e gozação leve. — Capazes de tatuar uma flor que não é flor e sair por aí com a cabeça erguida.
Eu ri baixo, balançando a cabeça.
— Você reparando tatuagem de ex-professora feminista enquanto eu converso com ela… — comentei, voz baixa. — Safado.
Roberto sorriu devagar, olhos castanhos escuros brilhando com aquela mistura de acolhimento e fome que eu já conhecia tão bem.
— Eu reparo em tudo quando tô com você. Inclusive no que você não vê. — Ele apertou minha mão de leve por baixo da mesa.
Senti um pulso quente descer direto para a virilha. O garçom chegou com os pratos principais — **camarões ao scampi** para nós dois: camarões grandes salteados no azeite com bastante alho, vinho branco, limão siciliano, salsa fresca e um toque de pimenta calabresa, servidos sobre um leve leito de linguine. O ar entre nós já tinha mudado de tom. Mais denso. Mais carregado.
Enquanto comíamos, a conversa fluiu leve, mas o subtexto ficou ali, pulsando. De vez em quando Roberto olhava para o meu lado. Eu observava a forma como ele cortava a comida, os dedos grossos segurando o talher com firmeza, a barriga acomodando-se suavemente contra a borda da mesa.
Quando terminamos a sobremesa — um baklava quente com sorvete de rosas —, Roberto se recostou na cadeira, satisfeito, e murmurou só para mim:
— Boa escolha o restaurante. Boa comida… boa companhia… e uma professora com uma flor bem sexy no pescoço. Dia redondo.
Eu sorri, sentindo o peso gostoso da cumplicidade que sustentamos sem esforço.