Os dias viraram semanas, e o conflito não diminuiu. Pelo contrário: ele se refinou, ficou mais sofisticado, mais doloroso.
Eu acordava todas as manhãs com a mesma sensação: um peso no peito que não era arrependimento puro, mas uma mistura tóxica de culpa, saudade e raiva de mim mesma. Rogério saía para o trabalho beijando minha testa, dizendo “Tenha um dia abençoado, amor”. Eu sorria, acenava da porta como a esposa perfeita, depois fechava a porta e ficava alguns segundos encostada nela, respirando fundo, tentando segurar as lágrimas.
“Eu sou grata. Eu sou grata. Eu sou grata.”
Repetia como um mantra. Porque eu era grata mesmo. O apartamento era bonito, Rogério era bom, a igreja nova era acolhedora, a vida era estável. Mas gratidão não enchia o vazio que a outra Clara tinha deixado.
O banho virou o campo de batalha principal.
Todo dia, por volta das 10h, quando a casa estava silenciosa, eu entrava no box. A água quente batia nas costas e eu tentava. Tentava desesperadamente recriar aquele orgasmo monstruoso da última noite em Campinas. Enfiava os dedos, primeiro dois, depois três, depois quatro, curvando-os com força contra o ponto que eu achava que tinha feito tudo explodir. Beliscava os mamilos até doer. Apertava a própria garganta com a outra mão, imitando o controle que Marcinho fazia. Fechava os olhos e invocava as imagens com o máximo de detalhes possível: o som dos socos nas costelas, o gosto terroso do ATM coletivo, o jato quente de mijo enchendo minha boca, os dois paus esticando meu cu ao limite enquanto eu squirava como nunca.
Eu sussurrava para mim mesma, voz rouca e baixa:
— Isso… me fode… sou a puta da galera… última vez… me usa… me quebra…
Meu corpo respondia parcialmente. O clitóris inchava, a buceta ficava molhada, o ventre contraía. Eu sentia o orgasmo se aproximando, mas ele nunca chegava ao ápice. Vinha raso, seco, quase insultante — um espasmo curto que me deixava ofegante, frustrada, com lágrimas misturadas à água quente escorrendo pelo rosto.
Eu batia a testa de leve na parede do box e chorava de verdade.
“Por que não consigo mais? Por que só consigo gozar quando estou sendo destruída?”
A resposta vinha clara, cruel, sem piedade:
Porque o prazer não tinha sido só físico. Tinha sido a rendição total. Tinha sido a quebra da identidade que eu construí durante anos. Tinha sido a humilhação absoluta — ser a “santinha” que todo mundo admirava e, ao mesmo tempo, o buraco coletivo que engolia mijo, limpava merda e squirava enquanto era rasgada. Aquele orgasmo tinha sido tão violento porque eu sabia que era o fim. A consciência de que eu estava perdendo tudo tinha transformado dor, sujeira e degradação em êxtase puro.
Em Porto Alegre eu não tinha mais nada para perder. Não tinha risco. Não tinha galera. Não tinha coleira. Não tinha a certeza de que amanhã eu voltaria a ser a esposa certinha. Agora eu era só a esposa certinha. E isso me matava.
Eu saía do banho tremendo, enrolava a toalha no corpo e ficava minutos olhando meu reflexo no espelho embaçado. Tocava as marcas quase apagadas na costela, na bunda, e sentia um latejar distante entre as pernas. Depois vestia a camisola comportada, sentava na sala com a Bíblia aberta e tentava ler. Mas as palavras dançavam na página. “A mulher virtuosa…” virava “a puta da galera…”. Eu fechava o livro com força e rezava em voz alta:
— Senhor, me limpa. Me purifica. Tira isso de mim. Eu quero ser só Tua.
Mas a voz interna respondia, baixa, quase carinhosa:
“Você não quer ser só Dele. Você quer ser nada de novo.”
À noite, deitada ao lado de Rogério, o conflito ficava ainda mais cruel. Ele me abraçava, me beijava o ombro, às vezes tentava fazer amor de forma carinhosa, missionário, luz apagada. Eu correspondia. Gemendo baixinho, fingindo prazer. Mas por dentro eu comparava. Comparava o pau dele com os doze que me tinham usado. Comparava o toque gentil com os socos nas costelas. Comparava o “eu te amo” sussurrado com os xingamentos “cadela hipócrita”. E me odiava por comparar.
Depois que ele dormia, eu ficava acordada, mão entre as pernas, tentando de novo. Tentava imaginar a casinha, os doze homens, o squirt violento. Tentava apertar a garganta, beliscar os mamilos, enfiar os dedos com força. O orgasmo vinha, sempre pequeno, sempre frustrante. Eu mordia o travesseiro para não chorar alto e pensava:
“Eu sou duas Claras. Uma ama Rogério, ama a igreja, quer ser boa. A outra quer voltar para o chão sujo da casinha e ser usada até não sobrar nada.”
E a pior parte: eu não sabia mais qual delas eu queria que vencesse.
Porque uma me dava segurança.
A outra me dava vida.
E as duas estavam me destruindo por dentro.
Até que Rogério resolveu se enturmar
O primeiro churrasco em Porto Alegre aconteceu num sábado à tarde, quase dois meses depois da mudança.
Rogério estava animado. “Vamos receber o pessoal do serviço, amor. É bom integrar a equipe, mostrar que somos uma família.” Eu sorri, como sempre, e disse que ia preparar a salada e os acompanhamentos. Por dentro, senti um frio na barriga. Pessoas novas. Homens novos. O risco de alguém olhar para mim por mais de dois segundos já bastava para acender uma faísca que eu jurava ter apagado.
Eles chegaram por volta das 13h. Eram sete colegas de Rogério, alguns com esposas, outros solteiros. Eu circulei pela varanda com o avental florido, servindo refrigerante, sorrindo, perguntando se queriam mais pão de alho. A conversa girava em torno de trabalho, futebol e planos para o fim de ano. Eu participava pouco, só o suficiente para parecer gentil.
Foi quando eu estava levando mais uma bandeja de linguiça que notei ele.
Estava encostado na grade da varanda, um pouco afastado do grupo. Uns 38, 39 anos. Alto, ombros largos, pele morena queimada de sol, cabelo curto com alguns fios grisalhos nas têmporas. Barba bem aparada, olhos escuros e calmos. Usava uma camisa polo cinza simples e bermuda jeans. Não era o mais bonito do grupo, mas tinha uma presença quieta, quase pesada. Ele não falava muito. Só observava.
Nossos olhares se cruzaram por acaso quando eu passei com a bandeja. Ele sorriu de leve, educado. Mas o sorriso durou meio segundo a mais. E os olhos… os olhos pareciam saber. Não era desejo explícito. Era algo mais profundo, como se ele estivesse lendo uma página que os outros não viam. Como se soubesse que por trás do sorriso doce e do avental florido havia uma mulher que já tinha sido usada por doze homens, que já tinha squirado enquanto tomava no cu, que já tinha lambido merda de pau na frente de todos.
Eu senti um calor subir rápido pela barriga. Meus mamilos endureceram contra o sutiã de algodão. A calcinha ficou úmida num segundo. Desviei o olhar rápido, mas o estrago estava feito.
O churrasco continuou. Rogério ria alto, contava histórias do escritório. Eu servia, sorria, respondia quando falavam comigo. Mas minha mente não estava mais ali. Estava presa naquele olhar. Naquela sensação de ser vista de verdade. De ser reconhecida.
Por volta das 15h30, quando o sol estava forte e o cheiro de carne na brasa enchia o ar, eu não aguentei mais.
— Vou ao banheiro rapidinho — murmurei para Rogério, que nem prestou muita atenção.
Fui para o banheiro do corredor, tranquei a porta. Meu coração batia forte. Levantei a saia longa, baixei a calcinha até os joelhos e me sentei na privada. A mão desceu imediatamente. Eu estava encharcada. Dois dedos entraram fácil. Comecei a mexer rápido, olhos fechados, mordendo o lábio para não fazer barulho.
Na minha cabeça, não era só aquele homem. Era tudo misturado. Era Marcinho cuspindo na minha cara. Eram dois paus no cu. Era o gosto terroso do ATM. Era o jato quente de mijo enchendo minha boca. Era aquele squirt violento da última noite, o corpo convulsionando enquanto eu perdia o controle.
Eu tentei recriar a intensidade. Curvei os dedos, apertei o clitóris com o polegar, imaginei o soco nas costelas tirando meu ar. Meu corpo respondeu. O prazer subiu, quente, urgente. Mas não chegou ao ápice que eu queria. Não foi aquele orgasmo explosivo, líquido, devastador. Foi um orgasmo pequeno, contido, quase silencioso — um espasmo que me fez tremer as pernas, mas que terminou rápido demais, deixando um vazio ainda maior.
Eu fiquei ali sentada, ofegante, dedos molhados, olhando para o chão do banheiro.
Não foi grande. Não foi como antes.
Mas foi alguma coisa.
Pela primeira vez em Porto Alegre, eu tinha conseguido me tocar pensando no passado sem me sentir completamente vazia depois. Foi como se uma porta pequena tivesse se entreaberto. Não a porta da casinha inteira, mas uma fresta. O suficiente para eu sentir que a outra Clara ainda estava viva. Que ela ainda respirava.
Lavei as mãos, ajeitei a saia, passei água no rosto. Quando voltei para a varanda, o homem de olhos escuros ainda estava lá. Ele me olhou de novo. Dessa vez eu não desviei. Sustentei o olhar por dois segundos. Ele sorriu de leve, quase imperceptível, e voltou a conversar com Rogério.
Meu coração batia forte. A calcinha estava molhada de novo.
Eu não ia fazer nada. Não ia falar com ele. Não ia arriscar.
Mas só o fato de ele estar ali, de ele ter olhado para mim daquele jeito, já tinha acendido algo.
Pela primeira vez em dois meses, eu me senti um pouco mais inteira.
Não curada. Não livre.
Mas começando a se encontrar novamente.