Comprei Um Carro E Descobri Que Sou Corno - 4

Um conto erótico de Mais Um Autor
Categoria: Heterossexual
Contém 872 palavras
Data: 04/03/2026 23:25:36

As lágrimas vieram grossas, sem aviso, e eu nem tentei segurar. Mas o medo de ser ouvido me fez tapar a boca com a mão trêmula. Saí dali tropeçando, descendo as escadas como um bêbado.

Entrei no carro e meti o pé. Dirigi sem ver nada, sem destino.

Quando dei por mim, o asfalto tinha virado ponte.

A mesma ponte velha que todo mundo da cidade conhece. Ela tem o nome em homenagem a um general da Guerra do Paraguai, embora todo mundo só chame de “Ponte do Suicídio” pelos inúmeros casos que já aconteceram ali.

Parei o carro no acostamento e desliguei o motor.

Eu sabia que era clichê e patético. Mas a vontade veio mesmo assim, forte, como um soco na nuca. Simples. Acabar com essa merda de uma vez. Descer do carro, subir na grade, soltar as mãos e deixar o vazio me levar. Quinze segundos de queda e pronto. Sem prestação de carro, sem ver a cara da minha mulher mentindo pra mim todo dia, sem ouvir a risada do meu falso amigo.

Fiquei lá um tempo considerável, olhando o rio lá embaixo. Pensando em tudo. No casamento que eu achava que era sólido, nas noites de conchinha no sofá, nas vezes que ela dizia “você é o melhor marido do mundo” com aquela voz doce enquanto eu coçava as costas dela. No emprego de merda, nos bicos de Uber que me deixavam com as costas moídas, nas contas que nunca fechavam. No amigo que eu achava que era irmão, que morou na mesma república, que me apresentou pra ela numa festa. Nos meus filhos e os rostinhos deles correndo pra me abraçar quando eu chegava em casa. Na minha mãe, que ainda ligava toda semana perguntando se eu estava comendo direito. Na minha irmã, que sempre me dizia pra não fazer nenhuma besteira e que as crianças dependiam de mim.

Tudo aquilo passou pela cabeça como um filme em câmera lenta. E doía. Doía tanto que parecia que meu peito ia explodir.

Mas aí, do nada, veio uma voz dentro da minha própria cabeça. Não era a voz de um anjo, nem de um demônio, nem nada poético. Era só eu mesmo, seco, cansado, quase entediado: “Se você sobreviver a isso, nada mais vai te afetar. Nunca. Você já sentiu a pior dor que um homem pode sentir.”

Eu não ia pular. Não porque a vida era linda. Não porque eu tinha esperança. Mas porque eu queria ver o que acontecia depois.

Peguei o celular e mandei mensagem pra minha irmã: “Preciso falar com você. Agora.”

Ela ligou em menos de um minuto. Voz baixa, preocupada. “O que houve, João? Tá me assustando.”

Eu contei tudo. A voz no Bluetooth. A corrida pra casa. A cena na nossa cama. Felipe metendo na minha esposa como se fosse dono dela. As palavras saíam secas, sem emoção. Era como se estivesse narrando algo que não aconteceu comigo.

Do outro lado da linha, um silêncio longo. Depois de respirar profundamente, minha irmã deu os conselhos dela.

“Meu Deus… João, escuta aqui. Não faz nada agora. Nada. Você tem duas crianças. Se você explodir hoje, amanhã eles vão acordar no meio de um inferno. A festa do Pedrinho é sábado. Ele vai fazer 8 anos. Vai ter bolo, palhaço, balão, a família toda. Se você fizer qualquer coisa agora, vai ser ele que vai pagar. As crianças não têm culpa da putaria dos adultos.”

Me assustei. Minha irmã era muito fria e calculista. Parecia até mesmo que ela já sabia de tudo antes de eu contar. Talvez eu fosse o último a saber.

“Eu sei”, murmurei. “Mas como eu vou olhar na cara dela? Como eu vou dormir do lado dessa prostituta depois do que ela fez?”

“Você vai fingir. Vai fingir muito bem. Pelo menos até depois da festa. Depois a gente pensa no que fazer. Mas agora não. Promete pra mim, João. Não faz nenhuma besteira.”

Eu jurei que não faria nada. Não porque eu quisesse manter aquela farsa, mas porque não tinha forças pra brigar naquela noite. Convenci-me de que aquilo era o melhor a fazer pelas crianças.

Voltei pra casa já de noite. O rosto inchado de chorar. Letícia estava na cozinha, terminando de lavar a louça. Virou pra mim com aquele sorriso calmo de sempre.

“Demorou hoje, amor. Tá tudo bem?”

Eu olhei pra cara dela. A mesma carinha de santa, os mesmos olhos que me diziam “você é o melhor marido do mundo”. Quis arrancar aquele sorriso com as mãos. Em vez disso, forcei um meio sorriso cansado.

“Dia puxado. Passageiro chato, trânsito infernal. O de sempre.”

Ela veio, me deu um beijo leve na boca. Senti o vômito subindo na garganta. Mesmo assim deixei.

Os dias seguintes foram um exercício de autocontrole que eu nem sabia que era capaz de ter. Acordava cedo, beijava os meninos, dava bom dia pra Letícia, tomava café com ela, perguntava do dia dela como se me importasse. A falsidade dela era tão perfeita que às vezes eu quase acreditava.

Sábado chegou rápido demais.

E eu nem imaginava o que descobriria na festa do meu filho.

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