A Crente e o Pecado Negro. Capítulo 1 – O Acidente

Um conto erótico de Dr.jakyll6
Categoria: Heterossexual
Contém 4944 palavras
Data: 07/03/2026 11:13:58
Última revisão: 07/03/2026 11:37:39

Meu nome é Débora, Débora Mendes da Silva, tenho vinte e oito anos e até pouco tempo atrás minha vida cabia dentro de três lugares: minha casa no bairro do Limão, o hospital municipal onde trabalho como enfermeira e a Igreja Assembleia de Deus Monte Sinai, onde passo todas as noites e os fins de semana inteiros.

Meu corpo sempre foi uma cruz que carrego. Deus me fez assim, morena, de olhos um pouco puxados que herdei de uma avó indígena, boca larga de lábios médios, pele cor de café com leite. Mas me deu também coxas grossas demais, uma bunda redonda que insiste em aparecer mesmo nas saias mais largas, seios médios mas empinados que nenhuma blusa consegue esconder completamente. Meu cabelo é preto liso e vivo preso num coque, sempre num coque, porque senão Paulo reclama.

Paulo é meu marido, quarenta anos, diácono da igreja, homem sério e temente a Deus que me escolheu quando eu tinha vinte anos e me tirou da casa dos meus pais com a bênção do pastor. Na igreja ele é exemplo, ajuda os irmãos, ora com unção, faz discursos bonitos sobre o amor ao próximo e a santidade do lar. Mas em casa é outra coisa.

Em casa ele é magro, de feições severas, usa paletó mesmo no calor e nunca perde uma oportunidade de me corrigir. A saia está curta demais mesmo quando bate no joelho. O batom está chamativo mesmo quando é rosa bebê quase transparente. A amizade com fulana é mundana demais. O cabelo solto é provocação. Eu aceito porque mulher cristã aceita, porque a Bíblia diz que a mulher sábia edifica o lar e eu quero edificar. Porque minha mãe sempre disse que homem de Deus é assim mesmo, zeloso, cuidadoso, e que eu devia agradecer por ter um marido que não bebe, não sai, não me trai.

E eu agradeço. Juro que agradeço. Todo dia agradeço.

Mas tem noites que eu deito e choro baixinho no travesseiro para Davi Lucas não ouvir.

Davi Lucas é meu filho, tem dez anos e é minha luz, minha alegria, minha razão de levantar da cama todo dia. Ele é um menino doce, inteligente, com os mesmos olhos puxados que eu. Deus me deu ele num momento difícil da minha vida e desde então ele é tudo para mim. Cuido dele com um zelo que às vezes até assusta. Levo e busco na escola, ajudo com a lição de casa todo dia, faço os lanches que ele gosta, durmo com ele toda noite porque ele ainda tem medo de escuro e porque Paulo disse que ronco e atrapalho o sono dele.

Davi Lucas é meu melhor amigo, meu companheiro, a única pessoa que me abraça sem querer nada em troca. E quando ele me pergunta por que eu choro, eu digo que é alergia, que é poeira, que é nada. Porque ele é pequeno demais para entender que a mãe dele às vezes morre por dentro.

Minha rotina é um ciclo que se repete como um terço. Acordo cinco da manhã, preparo café, acordo Davi Lucas para a escola com um beijo na testa e um aperto de abraço. Ele reclama que quer dormir mais, eu rio e digo que na vida a gente não pode dormir demais senão perde o trem. Ele ri também e me abraça. Arrumo a casa pensando nele, no que ele vai comer no lanche, se a prova de matemática vai ser difícil, se ele está feliz. Vou para o hospital, trabalho das oito às cinco com uma hora de almoço que nunca uso para mim. Volto pra casa, faço janta, ajudo Davi Lucas com a lição, leio a Bíblia com ele antes de dormir. Ele gosta das histórias de Davi e Golias, de Daniel na cova dos leões, diz que um dia vai ser corajoso igual. Eu digo que ele já é, mais corajoso do que imagina.

Depois que ele dorme, eu tomo banho, visto minha saia longa e minha blusa de manga comprida e vou para a igreja. Paulo já está lá, sempre no banco da frente perto do púlpito. Eu fico no fundo com as outras mulheres. Ouvimos a palavra, louvamos, e no caminho de volta ele vai falando dos irmãos, de como a irmã fulana estava com uma roupa que não convém, de como o irmão ciclano precisa de mais unção. Eu concordo com a cabeça, amém, amém, amém. Chegamos em casa, ele vai pro quarto dele, eu vou pro meu com Davi Lucas. E assim passam os dias, as semanas, os meses, os anos. E eu vou vivendo, ou sobrevivendo, não sei.

Naquela terça-feira, catorze de março, eu estava no carro. Um Uno cinza 2010 que Paulo comprou usado e que vive dando problema, mas naquele dia estava funcionando. Eu tinha saído mais cedo do hospital para buscar Davi Lucas na escola porque ele não estava se sentindo bem. A professora ligou dizendo que ele tinha passado mal, dor de barriga. Eu sai voando, preocupada, com o coração apertado.

Foi numa rua perto da escola, uma rua estreita de mão dupla. Eu vinha devagar porque as crianças atravessam ali, quando de repente uma moto cortou a minha frente vindo de uma transversal. O motoqueiro não parou na placa de pare, simplesmente avançou. Eu buzinei, freei, mas não deu tempo. A lateral do carro pegou a roda da moto e o homem voou. Voou mesmo. Vi o corpo no ar, vi a moto arrastando no asfalto, ouvi o som do impacto. Um som que vou levar para o túmulo.

Parei o carro no meio da rua, desci com as pernas tremendo, o coração na boca. E lá estava ele no chão. Um homem enorme, preto, forte, caído ao lado da moto, segurando o braço, sangrando. E eu pensei em Davi Lucas. Pensei que ele estava me esperando. Pensei que eu não podia estar ali, que aquilo não estava acontecendo.

Ele levantou a cabeça e me olhou. Os olhos dele eram tão escuros que pareciam poço sem fundo. E em vez de desespero, eu vi uma calma estranha. Uma calma que me gelou.

— A senhora me atropelou — ele disse, a voz grave, cansada.

— Eu... o senhor avançou o sinal. O senhor não parou. Eu buzinei, eu freei, eu...

— Avancei não. A senhora que veio rápido demais.

— Não vim. Eu vinha devagar, tem criança aqui perto, meu filho estuda ali, eu...

— Bom — ele interrompeu, tentando se levantar, cambaleando, segurando o braço que sangrava. — A gente chama a polícia, eles veem quem tá certo. Tem câmera ali.

Olhei para onde ele apontou. Uma câmera de segurança num poste. Meu coração gelou de vez. Eu não tinha certeza. Tudo aconteceu tão rápido. Será que eu estava rápida demais? Será que a culpa era minha? E se for, e se a polícia vier, e se eu perder a carteira, e se Paulo descobrir, e se...

— Olha — eu disse, a voz saindo trêmula, desesperada. — Meu filho tá passando mal. Ele tá na escola ali me esperando. Eu preciso buscar ele. Eu não posso... por favor, deixa eu pelo menos te levar no hospital. Eu pago os seus pontos, eu pago o que for preciso. Só não chama a polícia. Pelo amor de Deus. Meu marido... ele não pode saber. Ele vai...

Parei, percebendo que estava falando demais, entregando demais. Ele me olhava com aqueles olhos escuros, me estudando. E pela primeira vez eu vi um brilho diferente neles. Um brilho de quem entendeu que eu tinha algo a perder. Algo que ele podia usar.

— Seu marido não pode saber — ele repetiu devagar, como se provasse a palavra. — Por quê?

— Não é da sua conta. Só... deixa eu te ajudar.

Ele olhou para o braço, para o sangue escorrendo, para a moto caída, para mim. E então disse:

— Hospital não. Não gosto de hospital. A senhora é enfermeira?

— Sou.

— Então pode cuidar em casa. Moro ali perto.

— Eu não posso. Eu tenho que buscar meu filho. Eu tenho que...

— A senhora quer evitar polícia ou não quer?

Ameaça. Foi uma ameaça clara, direta, e eu entendi na hora. Esse homem sabia que eu estava com medo e ia usar isso. Respirei fundo, pensei em Davi Lucas, pensei em Paulo, pensei na igreja, pensei em tudo que eu podia perder.

— Me dá seu endereço. Eu volto depois de buscar meu filho.

Ele deu, número e apartamento. Eu anotei no celular com as mãos tremendo. Ele pegou a moto com dificuldade, ligou, saiu mancando. E eu fiquei ali parada no meio da rua, ouvindo as buzinas atrás de mim, até que entrei no carro e fui buscar Davi Lucas.

Meu filho estava sentado na sala da coordenadora, pálido, com uma bolsa de gelo na testa. Quando me viu, ele levantou e me abraçou com tanta força que eu quase caí.

— Mãe, minha barriga doeu muito. A professora disse que eu ia vomitar mas não vomitei. Tô com medo de ter prova amanhã e não poder fazer.

Sentei com ele, passei a mão no cabelo, fiz carinho no rosto.

— Calma, meu amor. Você vai ficar bem. Mãe vai levar você em casa, fazer um chazinho. E amanhã se não melhorar a gente vai no médico. Prova a gente resolve depois.

— A senhora vai ficar comigo?

— Vou. Mãe vai ficar com você.

No carro ele perguntou:

— Mãe, por que a senhora tá tremendo?

— Tremendo, filho?

— Tua mão tá tremendo no volante.

Olhei para minha mão. Estava tremendo mesmo.

— É o frio, amor. Tá esfriando.

— Tá não, mãe. Tá calor.

Sorri para ele, apertei a mão dele.

— É que mãe tava com medo de você. Agora que te vi bem, passa.

Ele sorriu de volta, confiante. E eu pensei: meu Deus, o que eu fiz? O que eu vou fazer? Esse homem sabe onde moro, sabe que tenho medo do meu marido, sabe que posso ser chantageada. E eu vou ter que ir na casa dele. Vou ter que lidar com aqueles olhos escuros que me olhavam como se eu fosse presa.

Em casa cuidei de Davi Lucas. Dei chá, coloquei ele na cama, fiquei fazendo carinho na testa até ele dormir. Quando ele fechou os olhos e a respiração ficou leve, eu me sentei no chão do quarto, encostei a cabeça na parede e chorei em silêncio. Chorei de medo, de raiva, de desespero. Pensei em ligar para Paulo, contar tudo, pedir ajuda. Mas imaginei a cara dele. A decepção, o julgamento, as palavras na igreja. A irmã Débora que atropelou um homem e está sendo chantageada. Eu não aguentaria. Não aguentaria mais isso.

Quando Paulo chegou, eu já tinha lavado o rosto, já estava na cozinha preparando janta. Ele entrou, largou a pasta, foi direto para o quarto de Davi Lucas, espiou o menino dormindo. Depois veio para cozinha.

— O que ele teve?

— Dor de barriga. A professora ligou, fui buscar.

— Hum. Melhorou?

— Tá dormindo.

Ele sentou à mesa, abriu a Bíblia, começou a ler. E depois de um tempo disse sem me olhar:

— Tomara que não seja verme.

Fechei os olhos por um segundo, respirei fundo.

— Não é verme, Paulo. Foi ansiedade. Tem prova amanhã.

— Ansiedade? Ansiedade em menino de dez anos? Isso é falta de Deus. Tem que orar mais.

— A gente ora toda noite.

— Ora, mas não ora com fé. Você precisa ensinar ele a ter fé.

Mordi a língua, virei para o fogão, continuei cozinhando em silêncio. Pensei em como eu queria ter um marido que chegasse e perguntasse como eu estava, se eu estava cansada, se eu queria ajuda. Mas não. Eu tinha um marido que julgava meu filho, que julgava minha fé, que julgava tudo. E eu não podia reclamar porque ele era homem de Deus.

No dia seguinte pela manhã fui no endereço que ele me passou, bati na porta com o coração na mão. O prédio era antigo, o corredor apertado, a pintura descascando. Eu nunca tinha feito nada parecido na vida. Ir à casa de um desconhecido, um homem, sozinha. Minha mãe teria um troço. Paulo teria um troço. A igreja inteira teria um troço.

A porta abriu. Ele estava sem camisa, um curativo improvisado no braço, o sangue já seco ao redor. Era enorme. Eu já tinha reparado na rua, mas ali, naquela distância curta, ele parecia ocupar o espaço inteiro. A pele preta brilhava, os músculos do peito e dos ombros definidos, o abdômen desenhado. Desviei o olhar rápido, mas já tinha visto demais.

— Pensei que não vinha — ele disse. A voz era grave, calma, diferente do que eu esperava.

— Vim. Mas quero deixar claro uma coisa — entrei e virei para ele com a voz mais dura que consegui. — Eu vim porque você me chantageou, porque eu tô com medo de polícia e de confusão. Então vamos fazer o seguinte: eu cuido desse braço, você fica bom, e a gente nunca mais se vê. Certo?

Ele me olhou, surpreso. Depois um sorriso lento apareceu no rosto dele. Não era um sorriso debochado, mas também não era inocente. Era um sorriso de quem estava avaliando a situação.

— Nossa, dona, a senhora é brava, hein?

— Não tem graça nenhuma.

— Tá bom, tá bom.

— Vamos ver esse braço então.

O apartamento era simples. Pequeno, mas limpo. Sofá preto, mesa de centro com controle remoto, uma estante com poucos livros. Nada de mulheres ali. Nada de enfeites, nada de capricho. Era uma casa de homem solteiro, e isso me deixou mais nervosa.

Na cozinha, mandei ele sentar numa cadeira. Abri meu material, comecei a limpar o ferimento. Ele não reclamou, não gemeu, não fez careta. Só ficou me olhando.

Eu sentia. Sentia os olhos dele em cada movimento meu. Nos meus dedos, no meu rosto, descendo para os meus seios, subindo de novo. Desviava rápido, mas eu via. Meu rosto queimava, minhas mãos tremiam levemente.

— A senhora tem mão boa — ele disse.

— Silêncio.

Ele riu baixinho.

— Brava mesmo.

Passei os pontos em silêncio, rápida, profissional. Quando terminei, guardei o material e expliquei os cuidados. Tudo muito rápido, muito seco, muito profissional.

— Pronto. Agora vou te explicar os cuidados. Troca de curativo a cada dois dias, não molha, não pega peso. Volta aqui na sexta que eu vejo como tá.

— A senhora vai voltar na sexta?

— Não. Você vai no hospital. Pronto-socorro, qualquer enfermeiro faz.

Ele levantou devagar. Veio na minha direção. Eu recuei um passo, minhas costas bateram no balcão da cozinha. Ele parou, mantendo uma distância, mas preenchendo o espaço.

— Olha, dona Débora — o jeito como ele disse meu nome, devagar, saboreando, me fez ter arrepios. — Eu não vou no hospital. Não gosto. E como a senhora mesma disse, eu posso chamar a polícia a qualquer momento. Falar que a senhora fugiu do local do acidente, que me deixou largado. Não é verdade, mas a gente sabe como essas coisas funcionam. Dá trabalho, dor de cabeça. Seu marido ia gostar disso?

Olhei para ele com ódio. Ódio puro.

— Você tá me ameaçando de novo.

— Tô só lembrando a senhora da situação. Eu quero que a senhora cuide de mim. Só isso. Mais dois, três curativos e pronto. Depois a gente nunca mais se vê, como a senhora quer.

— E se eu disser não?

Ele deu de ombros, mas o gesto foi acompanhado de uma careta de dor. Levou a mão ao braço imobilizado.

— Aí a senhora vai embora, eu chamo a polícia, e a gente vê no que dá. Mas acho que a senhora não quer isso. Pelo seu filho. Pelo seu marido. Pela sua igreja.

Fechei os olhos por um segundo, tentando controlar a raiva.

— E tem mais — ele continuou, a voz mais baixa agora. — Eu sou motoboy, dona Débora. Vivo de entregas. Se não trabalho, não como. Não pago minhas contas. E com esse braço, vou ficar pelo menos um mês sem poder trabalhar. Tudo por causa desse acidente.

Meu estômago embrulhou. A culpa que eu já sentia triplicou.

— Não tô dizendo que a senhora tem que me sustentar — ele completou, vendo minha expressão. — Mas se puder pelo menos cuidar desse braço pra eu voltar a trabalhar logo... eu agradeço.

— Isso não é minha culpa — respondi, mas minha voz já não tinha a mesma firmeza. — Você que avançou o sinal.

— A câmera vai mostrar. A gente pode ver.

Meu sangue ferveu de novo, mas a culpa já tinha se instalado. Motoboy. Sem trabalho. Sem dinheiro. Tudo por minha causa, mesmo que ele tivesse errado.

— Sexta — eu disse, entre dentes. — No meu horário de almoço. E você vai ficar de camisa o tempo todo.

Ele sorriu, mas agora o sorriso era diferente. Menos provocador, mais grato.

— Combinado, dona Débora. E obrigado. De verdade.

Saí de lá com tanta raiva que quase bati a porta. Desci as escadas bufando, entrei no carro e bati no volante.

— Desgraçado! Desgraçado!

E depois chorei. Chorei de raiva, de impotência, de nojo. Pensei em Davi Lucas, pensei em como eu queria estar em casa com ele. E não ali, refém de um homem que me olhava como se eu fosse um pedaço de carne e que agora dependia de mim para voltar a trabalhar.

Liguei o carro, fui para o hospital. O dia seguiu, a rotina seguiu. Mas naquela noite, quando deitei ao lado de Davi Lucas, fiquei olhando para o teto e pensando nele. Nos olhos escuros. No sorriso. Na voz.

E na culpa que agora eu carregava, maior e mais pesada..

Em casa tive mais trabalho, o tempo passava rápido, trabalho no hospital, trabalho em casa, com um marido ignorante e um filho necessitado, agora ainda tenho que cuidar daquele motoboy. Eu estava exausta e não percebia.

Na sexta durante o almoço voltei na casa de Lucão. Dessa vez me recebeu mais comportado. Fomos pra cozinha, mandei ele sentar, examinei o ferimento. A laceração estava limpa, os pontos que eu mesma tinha dado aguentaram bem. Mas o inchaço no ombro denunciava algo mais sério.

— Fraturou — eu disse, mais para mim mesma. — Precisa de imobilização adequada. Isso aí é uma fratura, não é só laceração.

— Pois é dona, eu estava sentindo uma dor bem grande mesmo.

— E por que não me disse antes?

— A senhora não perguntou. Só veio, fez o curativo e foi embora com cara de ódio.

Respirei fundo. A culpa começou a crescer dentro de mim. Eu tinha atropelado o homem, ele tinha fraturado o braço, e eu só pensava em mim, no meu medo, na minha chantagem.

Olhei para ele, para o apartamento simples, para a solidão que parecia morar ali. E a culpa cresceu mais.

— Vou precisar imobilizar com gesso. Vou precisar vir mais vezes — eu disse, contrariada. — Pra acompanhar a recuperação. Pelo menos até o gesso sair.

— A senhora não precisa. Eu me viro.

— Como? Com um braço só? Vai cozinhar? Lavar louça? Se vestir?

Ele deu de ombros, o movimento limitado pela tipóia.

— A gente dá um jeito.

— Não vai dar jeito não. Eu venho. Por minha conta. Até você estar bem.

Ele me olhou, os olhos escuros me analisando.

— Por que a mudança de coração?

— Porque eu te atropelei. Porque você tá assim por minha causa. Porque... porque é o certo.

Ele sorriu, um sorriso diferente. Menos safado, mais sincero.

— Tá bom, dona Débora. Se a senhora quer ajudar, quem sou eu pra recusar?

Nas semanas seguintes, passei a ir no apartamento dele no meu horário de almoço. No começo era só pra ver o braço, trocar o curativo, verificar a evolução. Mas aos poucos, foi ficando mais do que isso.

Ele não pedia ajuda. Diferente de Paulo, que exigia, que mandava, que ordenava. Diferente de Davi Lucas, que precisava e eu dava por amor. Ele não pedia nada. Ele tentava fazer sozinho. E eu via a dificuldade.

Um dia, cheguei e ele estava na cozinha, tentando fazer café com uma mão só. Derramando pó, sujando tudo.

— Deixa que eu faço — eu disse, pegando o bule.

— Não precisa. Eu consigo.

— Tá vendo que não consegue. Deixa.

Ele me olhou, um brilho diferente nos olhos.

— A senhora não é obrigada.

— Eu sei. Mas já que tô aqui...

Fiz o café. Lavei a louça que estava acumulada. Varri a cozinha. Arrumei a sala. Ele ficou sentado, me observando, sem dizer nada. Mas o olhar dele... o olhar dele me via. Realmente me via.

Na semana seguinte, cheguei e encontrei a bagunça. Roupa no sofá, cama desfeita, pó nos móveis.

— Não teve como arrumar — ele disse, encolhendo os ombros. — Com uma mão só não dá pra fazer tudo.

— Tá bom. Vou dar um jeito.

Comecei a lavar a louça, ele veio para perto, ficou me olhando.

— Você não precisa fazer isso.

— Vai descansar Lucão...

Lavei, enxuguei, guardei. Depois passei um pano na pia, organizei os armários. Ele ficou lá, sentado, me observando em silêncio. Eu sentia os olhos dele em mim, nas minhas costas, na minha bunda enquanto mexia, e isso mexia comigo, me deixava nervosa, mas ao mesmo tempo me dava uma sensação estranha, uma sensação de ser vista, de ser notada.

Quando terminei a cozinha, fui para a sala. Dobrei as roupas que estavam jogadas no sofá, separei as claras das escuras, fiz montinhos organizados. Passei pano nos móveis, tirei o pó das estantes, arrumei as revistas na mesa de centro. Ele só observava, quieto, com aquele sorriso que eu já conhecia.

— Pronto — disse, cansada, enxugando o suor da testa. — Tá melhor.

— Você é uma mulher e tanto — ele disse, com aquele sorriso.

— Não começa.

— Não tô começando nada. Só constatando. Você chegou aqui, viu a bagunça, e sem ninguém pedir, colocou tudo em ordem. Isso é raro.

— Preciso ir — disse, pegando a bolsa.

— Fica mais um pouco? Conversa comigo?

Olhei para ele, para os olhos escuros, para o pedido simples. E sem querer, sentei no sofá.

Conversamos. Ele contou do trabalho na transportadora, do chefe chato, dos colegas folgados. Contou da mãe, que morava longe e ligava todo domingo para saber se ele tava comendo direito. Eu contei de Davi Lucas, da prova de matemática que ele tinha ido mal, das aulas de natação que ele adorava. Por um momento, esqueci onde estava, esqueci o perigo, só conversei como se ele fosse um amigo, um amigo de verdade.

Quando olhei no relógio, já tinha passado uma hora.

— Preciso ir mesmo — disse, levantando.

— Volta amanhã? — ele perguntou.

— Amanhã é terça. Não é dia.

— Mas pode ser. Se você quiser.

Olhei para ele, para a expectativa no rosto. E sem pensar, concordei.

— Tá bom. Amanhã eu venho.

Em casa, Paulo continuava o mesmo. Chegava, jantava, ia para o quarto. Não me perguntava onde eu ia no almoço, não notava que eu chegava mais tarde, não via nada. Uma noite, tentei conversar.

— Paulo, a gente precisa conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre nós. Sobre como as coisas estão.

Ele me olhou, os olhos frios.

— As coisas estão como Deus quer. Você tem reclamado de quê?

— Não tô reclamando. Só queria...

— Se não tá reclamando, então não tem o que conversar. Vou ler a Bíblia.

E foi. Me deixou ali, sozinha, com minhas palavras engasgadas.

Na terça-feira, quando cheguei no apartamento de Lucão, ele tinha feito café. Pão com manteiga, café coado na hora, tudo arrumado na mesa da cozinha. Ficamos ali, comendo, conversando, rindo. Depois, sem que ele pedisse, lavei as xícaras, limpei a mesa, varri o chão. Ele só observava, com um sorriso que parecia cada vez mais sincero.

— Você gosta de cuidar, né? — ele perguntou.

— É meu trabalho.

— Aqui não é trabalho. Aqui é você. Você gosta de cuidar das pessoas.

— Talvez.

— Seu marido sabe disso? Sabe que você é assim?

— Ele não me vê.

— Então ele é cego.

Na quarta-feira, lavei a roupa que ele tinha acumulado. Separei as brancas, as coloridas, coloquei na máquina. Depois estendi no varal, com cuidado para não amassar. Ele veio para perto, ajudou com uma mão só, me atrapalhando mais que ajudando, mas eu deixei, porque era gostoso ter ele perto.

— Você é caprichosa — ele disse, vendo eu alisar uma camisa dele. — Dá pra ver que faz com amor.

— É só cuidado.

— É amor sim. Você coloca amor em tudo que faz.

Na quinta-feira, passei as roupas, dobrei, guardei no armário. Organizei as gavetas dele, separei as meias, as cuecas. Quando vi as cuecas, desviei o olhar, mas já tinha visto, já tinha imaginado ele usando.

— Tá procurando alguma coisa? — ele perguntou da porta do quarto, com aquele sorriso safado.

— Tô organizando — respondi, seca.

— Hum.

Na sexta-feira, fiz almoço para ele. Arroz, feijão, frango grelhado, salada. Ele comeu, elogiou, repetiu. Depois do almoço, sentamos no sofá, ele colocou um filme qualquer na TV, e a gente ficou ali, vendo, comentando, rindo.

Em algum momento, no meio do filme, ele pegou minha mão. Não fez nada, só segurou, os dedos grandes envoltos nos meus. Eu deixei. Ficamos assim, de mãos dadas, vendo o filme, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Quando o filme acabou, ele virou para mim. O olhar dele estava diferente. Mais intenso. Mais próximo.

— Débora — ele disse, a voz mais baixa.

— O quê?

— Você é a pessoa mais especial que já entrou na minha vida.

Meu coração disparou. Eu devia ter levantado, ido embora, parado ali. Mas fiquei.

— Não fala isso — eu sussurrei.

— É verdade. Você me vê. Você cuida de mim. Você é... diferente.

Ele se aproximou mais. Tão perto que eu sentia o calor do corpo dele, a respiração dele na minha pele.

— Lucão...

— Eu sei que não devia. Sei que você é casada, que tem sua vida. Mas não consigo evitar.

Antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse pensar, ele se inclinou e me beijou.

Não foi um beijo pedido. Não foi um beijo consentido. Ele simplesmente roubou. A boca dele na minha, quente, urgente, os lábios pressionando os meus. Senti a língua dele querendo entrar, senti a mão dele no meu rosto, segurando, como se tivesse medo que eu fugisse.

Por um segundo, um único segundo, meu corpo respondeu. Meus olhos fecharam sozinhos. Meu coração disparou. Senti o gosto dele, o calor dele, algo que eu não sentia há anos.

Então o pânico veio.

Empurrei ele com força, com raiva, com medo. Levantei do sofá tão rápido que quase caí.

— Seu... seu idiota! — gritei, a voz trêmula, os olhos enchendo de lágrima. — O que você pensa que tá fazendo?

Ele ficou sentado, me olhando. O sorriso tinha desaparecido. No rosto dele, uma expressão que eu não sabia ler. Confusão? Arrependimento?

— Débora, eu...

— Cala a boca! Você não tem esse direito! Eu sou casada, tenho um filho, tenho uma vida! Eu tava aqui te ajudando por bondade, por culpa, e você... você...

— Eu sei — ele disse, a voz calma, mas os olhos arrependidos. — Eu sei que errei. Não devia ter feito isso.

— Não devia mesmo!

— Mas não consigo evitar o que sinto. Desde que você apareceu na minha vida, tudo mudou. Você me olha, me vê, cuida de mim. Ninguém nunca fez isso.

— Isso não justifica! — gritei, as lágrimas escorrendo. — Você me chantageou, me obrigou a vir aqui, e agora me beija sem permissão?

Ele levantou devagar, veio na minha direção. Eu recuei até bater na parede.

— Eu sei — ele repetiu. — Eu fui criado no meio de gente que se aproveita dos outros, que usa o que tem pra conseguir o que quer. Minha vida inteira foi assim. Até você chegar.

— Não me use como desculpa.

— Não tô usando. Tô dizendo que você tá me mudando. Que pela primeira vez eu não quero só me aproveitar. Que quando você tá aqui, eu esqueço de ser quem eu era.

Olhei para ele. Os olhos escuros estavam sinceros. As mãos dele tremiam levemente.

— Me desculpa — ele disse. — De verdade. Fui idiota. Não devia ter feito isso. Se você quiser ir embora e nunca mais voltar, eu entendo.

Fiquei paralisada. A raiva ainda queimava, mas misturada com algo que eu não queria nomear.

— Eu... eu preciso ir — consegui dizer.

Peguei minha bolsa, abri a porta. Antes de sair, olhei para trás. Ele estava ali, parado, os ombros caídos, a expressão de quem realmente se arrependia.

— Débora — ele chamou. — Você volta?

Olhei para ele, para o homem que me chantageou, que me roubou um beijo, que me fez sentir coisas que eu não sentia há anos.

— Não sei — eu disse, a voz falhando. — Não sei se volto.

E fechei a porta.

Desci as escadas tropeçando, entrei no carro, fiquei ali, ofegante, chorando, com a mão na boca. Sentindo ainda o gosto dele. Sentindo ainda o calor. Sentindo a vergonha, a raiva, e pior, sentindo que por um segundo eu tinha gostado.

Liguei o carro, dirigi até o hospital sem lembrar do caminho. Entrei no plantão, fiz meu trabalho como zumbi. E quando chegou a noite, em casa, com Davi Lucas dormindo no quarto ao lado, eu fiquei olhando para o teto, pensando.

Ele me beijou. Ele roubou um beijo. E eu deixei. Eu fechei os olhos. Eu senti.

Na manhã seguinte, acordei com o celular vibrando. Mensagem dele.

— Me desculpa de novo. Não vou te incomodar mais. Mas se você quiser voltar, a porta tá sempre aberta. Só pra conversar. Juro.

Li a mensagem três vezes. Guardei o celular. Fui trabalhar.

Não respondi.

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NOTA DO AUTOR:

Este conto vai ser mais focado na vida reprimida de Débora, diferente do conto do corrupto e da esposa exemplar não haverá perversões extremas, são contos de mesma temática porém com personagens diferentes Débora é uma pessoa boa e de coração que só quer ser amada como mulher, Isabella no outro conto é uma puta vagabunda que não controla seus desejos corporais e que perdeu sua moral, talvez no final role um crossover entre os personagens pra mostrar esse contraste. Me sigam no insta @dr.jakyll6

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