Gosto amargo 2

Da série Gosto amargo
Um conto erótico de Marcos
Categoria: Heterossexual
Contém 7120 palavras
Data: 07/03/2026 11:37:53

Gosto amargo 2

O trabalho correu bem e fiz questão de sair na hora para ter certeza de estar lá para receber Ana. Quando ouvi a porta da garagem abrir, levantei-me ansiosamente e sorri quando ela se aproximou.

Pum! Ela me deu um tapa na cara com toda a força que tinha, me fazendo cambalear para trás, com os ouvidos zumbindo. —Por que diabos foi isso? Gritei, sentindo o gosto amargo de sangue na boca.

—Seu filho da puta! — Ela gritou para mim. —Você estava me espionando! Contratou uma agência de detetives para me seguir, para fotografar cada movimento meu. Você não confia em mim! Tava bom demais pra ser verdade esse fim de semana, eu bem que desconfiei que havia algo errado.

Puta merda, isso NÃO é bom.

Ela ficou parada ali, com os punhos cerrados ao lado do corpo, o rosto vermelho de raiva. —Não acredito que você me desrespeitaria assim. Você tem ideia de como é humilhante descobrir que seu marido não confia em você? — Ela fez uma pausa para recuperar o fôlego. —Bem, o que você tem a dizer em sua defesa? Agora que sabe que eu não faço essas coisas!

O que eu poderia dizer? Ela tinha toda a razão: eu não havia confiado nela. Eu havia mandado a seguir. Como posso consertar isso?

Fiquei ali parado como um idiota, tentando desesperadamente pensar em algo que pudesse salvar a situação. —Mas eu confio em você, Cajuzinho. Sei que você tem sido fiel e honesta.

—Claro que sim - depois de me ter seguido pela cidade, pra baixo a pra cima! — O rosto dela contorceu-se ainda mais. —E nunca mais me chame de Cajuzinho!

Tudo o que eu conseguia fazer era encarar o chão, sem reação. Meu silêncio a deixou ainda mais irritada. —Acho que eu estava certa, afinal, sobre este fim de semana. Você só estava sendo gentil comigo porque se sentia culpado pelo que tinha feito. Depois que quebrou a cara, tentou se redimir.

—Não, Ana, isso não é verdade — comecei a dizer, mas ela me interrompeu.

—Bem, se você não se sentiu culpado, com certeza deveria ter se sentido. — Lágrimas de raiva escorriam de seus olhos enquanto ela me encarava. —Nunca fui tratada tão horrivelmente em toda a minha vida. E para piorar, foi meu próprio marido quem fez isso!

Ela se virou bruscamente e foi em direção às escadas. —Neste momento, não consigo nem olhar para você. — Dito isso, subiu as escadas pisando duro, e ouvi a porta do nosso quarto bater.

Me joguei no sofá, com a cabeça entre as mãos. Isso é terrível, é o pior. O que posso dizer, o que posso fazer para compensá-la? Levantei-me e comecei a andar de um lado para o outro na sala, com a mente girando em círculos. Acho que flores ou chocolates não vão resolver. No momento, não acho que exista nenhum presente que eu possa dar a ela, a qualquer preço, para reconquistá-la. Preço? Ah, droga, e se ela descobrir quanto eu paguei ao Master? Ela vai surtar de vez.

Minha mandíbula começou a doer, então fui até a cozinha e coloquei gelo em um saco plástico sobre ela. Eu mereço isso. Aliás, eu mereço muito pior.

Então, um pensamento ainda mais terrível me atingiu. E se ela quiser o divórcio? Eu realmente não poderia culpá-la. Por que deixei minha paranoia tomar conta?

Ouvi-a a andar de um lado para o outro no andar de cima e fiquei pensando o que estaria fazendo. Depois de algum tempo, desceu as escadas, pegou na mala e lançou-me um olhar malévolo. Disse, cuspindo as palavras: —Não quero estar na mesma casa que você — e dirigiu-se para a porta.

Corri atrás dela. —Por favor, a gente pode superar isso. Você tem que entender o meu ponto de vista, com certeza vc agiria da mesma forma. Você vai voltar?

—Ainda não decidi. — Com isso, ela foi até o carro e saiu dirigindo, com os pneus cantando.

Fiquei ali parado, impotente, por um minuto, e então decidi subir para descobrir o que ela estava fazendo lá em cima. À primeira vista, nosso quarto parecia normal, mas quando vi o quarto de hóspedes pelo canto do olho, entendi. Ela tinha tirado todas as minhas roupas do nosso armário e jogado-as de qualquer jeito na cama de hóspedes. Tudo o que eu guardava nas gavetas da cômoda tinha sido jogado sem cerimônia no chão do quarto de hóspedes. Tava tudo esparramado.

Suspirei e comecei a juntar minhas coisas e guardá-las no quarto de hóspedes. Acho que vou dormir aqui por um bom tempo. Pelo menos ela não está me expulsando de casa.

Eu não estava com muita fome, mas me forcei a comer as sobras enquanto esperava ela chegar em casa. Estava ficando cada vez mais tarde, e finalmente desisti e fui dormir.

Algum tempo depois, acordei com o som de passos subindo as escadas. Levantei-me na cama para vê-la passar; um instante depois, a porta do quarto bateu e ouvi a fechadura trancar. Desabei de volta no travesseiro, em desespero.

Depois de uma noite em claro, levantei cedo e usei o banheiro de hóspedes para tomar banho e fazer a barba. Quando terminei, tentei abrir a porta do nosso quarto em silêncio, mas ela estava — sem surpresa — trancada.

Lá embaixo, preparei um café, mas como não tinha apetite, pulei o café da manhã. Antes de sair para o trabalho, olhei para cima e vi nosso quadro de avisos. Peguei o giz e escrevi: "Sinto muito, Ana. Podemos conversar?" Havia tanta coisa mais que eu precisava dizer, mas parei por aí.

Por sorte, não havia grandes problemas no trabalho, porque eu seria inútil tentando resolvê-los. Tudo em que eu conseguia pensar era em como explicar o que eu tinha feito sem piorar as coisas. "Amor, eu te amo, mas suspeitava que você estava me traindo." Hum, talvez não seja a abordagem certa. Que tal: "Agora que te investiguei a fundo, confio em você novamente." É, isso a faria se sentir melhor.

Depois de ficar remoendo isso durante a maior parte do dia, finalmente decidi contar a verdade para ela. "Amor, eu estava com medo de que estivéssemos nos afastando e deixei a paranoia se sobrepor ao meu bom senso." Isso tinha a vantagem da honestidade, e se eu combinasse com um pedido de desculpas sincero, talvez resolvesse tudo.

Saí do trabalho um pouco mais cedo, planejando implorar pela misericórdia do tribunal matrimonial quando ela chegasse em casa. Mas minhas esperanças se esvaíram quando passei pela cozinha e vi o quadro de recados. Meu apelo havia sido apagado e, em seu lugar, em letras maiúsculas, estava escrito: "VÁ PARA O INFERNO". Aquilo não parecia nada promissor. Mesmo assim, preparei um jantar gostoso para nós dois. Talvez pudéssemos conversar enquanto comíamos. Duas horas depois, a tolice daquele plano ficou claro quando me sentei sozinho à mesa. Admitindo a derrota, comi meu jantar e coloquei o prato dela na geladeira.

Eu tinha acabado de assistir ao noticiário da noite quando ela chegou em casa. Enquanto ela se dirigia para as escadas, não consegui me conter. —Eu estava preocupado com você querida. Não sabia onde você estava.

Ela me encarou com olhos de pedra. —Por que você não chamou seu detetive particular para fazer um relatório? — perguntou, com sarcasmo escorrendo da voz. Então, subiu as escadas e ouvi a porta do nosso quarto bater. Tudo o que consegui fazer foi gemer.

Aquela noite definiu o padrão do nosso relacionamento: estávamos em guerra fria e não havia negociações. Ela ia e vinha quando queria, e eu não fazia ideia da sua rotina. Não íamos a lugar nenhum nem fazíamos nada juntos. Eu tinha certeza de que ela ia se divorciar de mim e ficava desconfiado sempre que um estranho se aproximava. Mas, para meu alívio, os papéis nunca chegaram.

Com o tempo, notei, senão uma maior cordialidade, pelo menos uma mudança gradual em nossa relação. Sua raiva de mim gradualmente se transformou em indiferença. Ela voltou a falar comigo, mas apenas sobre necessidades banais: "Amanhã é dia de coleta de lixo" ou "Havia alguma correspondência para mim?". Mas ela se recusava terminantemente a falar sobre nossa situação, e a porta do nosso quarto permanecia fechada.

Deitado na cama à noite, meus pensamentos oscilavam entre uma emoção e outra, como aquelas imagens GIF irritantes que giram na internet. Começava me sentindo ressentido e na defensiva com o jeito que ela me tratava. Até quando ela vai continuar assim? Não é como se eu tivesse feito algo para machucá-la. Não é justo ela me punir desse jeito. Mas logo em seguida, o remorso me dominava. A culpa é toda sua, Marcos. Imagine a raiva que você sentiria se ela tivesse feito a mesma coisa com você. Quanto tempo levaria para você superar isso? Depois, o ressentimento voltava.

Acima de tudo, eu sentia uma profunda dor. Sentia falta da minha esposa; sentia falta da intimidade física e emocional que compartilhávamos. Meu objetivo era nos aproximar, e tudo o que consegui foi nos afastar ainda mais. Eu não conseguia parar de me lembrar do maravilhoso fim de semana que passamos juntos pouco antes de tudo desmoronar, e me vi lamentando minha perda.

As pessoas ao meu redor começaram a notar minha depressão, mas suas perguntas e preocupação só pioravam as coisas. A última coisa que eu queria era discutir o que tinha feito. Eu não tinha dúvidas sobre a reação que receberia, principalmente dos meus amigos. Eles ficariam indignados com o que eu tinha feito.

Pior ainda, o fato de eu ter contratado um detetive para seguir Ana — se isso vazasse — provavelmente daria início a boatos. Poderia ser usado contra ela em uma campanha. Se eu arruinasse o futuro político de Ana, certamente seria o nosso fim. Eu me sentia preso em uma situação sem saída: estava realmente angustiado, mas não havia ninguém com quem eu pudesse conversar sobre isso. Agora eu sei como deve ser o purgatório.

Saí para uma caminhada no parque num domingo, na esperança de que o ar fresco me ajudasse a clarear os pensamentos. Depois de seguir a trilha por uma hora, cheguei a uma pequena clareira e sentei-me num tronco para descansar. A serenidade da cena contrastava com a minha turbulência interior. Não posso continuar assim. Amo a minha esposa, mas não temos mais um casamento. Não é justo comigo e não é justo com ela continuarmos assim. Ambos tivemos nossa parcela de culpa, mas tenho que assumir a maior parte dela. Nosso casamento acabou e fui eu quem o matou.

Estranhamente, assim que cheguei a essa conclusão, uma sensação de alívio me invadiu, a aceitação do inevitável, agora parecia me acalmar de alguma forma. Respirei fundo e olhei ao redor para o céu, as árvores e a clareira. É tão lindo aqui. Gostaria que Ana pudesse ver isso comigo. Então me dei conta do que acabara de pensar, e o gosto amargo da derrota encheu minha boca.

Depois de colocar meu trabalho em dia na segunda-feira seguinte, fiz uma busca e encontrei um escritório de advocacia especializado em direito de família que anunciava uma "abordagem não conflituosa para a dissolução do casamento em um ambiente respeitoso". Isso me atraiu. Se nosso casamento não tinha mais jeito, eu queria terminá-lo da maneira menos dolorosa possível. Liguei e marquei uma consulta para o final da semana.

Mal tinha desligado o telefone quando ele tocou de novo. —É o Marcos Sandoval? — Perguntou uma voz hesitante que me soava vagamente familiar.

—Sim. Quem está falando, por favor?

—É Maria Helena. Não sei se você se lembra de mim, mas nos conhecemos no Coffee Five e...

Claro, a donzela em apuros. —Eu me lembro de você, Maria Helena. O que posso fazer por você?

—Preciso falar com você sobre algo muito importante.

—Hum, ok, acho que tenho um tempinho. Sobre o que você precisa falar comigo?

—Não, não, isso é algo que preciso discutir pessoalmente, cara a cara.

O que é isso, algum tipo de extorsão? Ela não parecia ser desse tipo, mas mesmo assim... —Eu realmente não entendo. Se você pudesse explicar...

—Por favor, Marcos, é urgente que eu o veja imediatamente, se possível. Eu poderia ir ao seu escritório, se isso ajudasse.

Comecei a recusá-la, mas algo em seu tom de voz e em toda a situação me intrigou. Ainda assim, melhor ser cauteloso — escolher um lugar público.

—Não, meu escritório não é bom. Que tal o seguinte: posso estar no Coffee Five em quinze minutos. Isso serve para você?

—Sim, perfeito. Te vejo lá. Obrigada.

Em que enrascada eu me meti agora? Mas ela realmente parecia uma pessoa legal antes, e a urgência em sua voz me incomodou. Guardei meu trabalho e comecei a caminhar em direção à cafeteria.

Ela já estava me esperando em uma mesa no fundo quando entrei. Ela se levantou, apertou minha mão quando me aproximei e me ofereceu uma xícara do meu café favorito.

Dei um gole, tentando descobrir a melhor maneira de começar. Decidi ganhar tempo com uma conversa fiada. —Então, como estão os trabalhos na Master Investigação?"

Ela fez uma careta. —Não muito bem: fui demitida ontem.

—Demitida! O que aconteceu?

—Contarei sobre isso mais tarde. Primeiro, deixe-me perguntar: como estão as coisas com sua esposa?

Fiquei em choque. Como ela sabia sobre mim e a Ana? Aí me dei um tapa mental na cara. Claro que ela sabe. Ela me viu entrando na agência. Aliás, ela provavelmente fazia parte da equipe que estava vigiando a Ana. Naquele momento, todos os meus problemas vieram à tona e senti minha depressão voltar.

Recostei-me na cadeira e balancei a cabeça. As coisas não estão indo bem, nada bem mesmo. De alguma forma, Ana descobriu que eu a estava seguindo e ficou furiosa!" Então, para minha surpresa, toda a minha dor e tristeza vieram à tona, e acabei contando a essa quase desconhecida a história que guardei para mim por tanto tempo.

Ela me observou sem expressão enquanto eu relatava minha triste história. Quando finalmente terminei, ela inclinou a cabeça para o lado e perguntou:

—Quando você se encontrou com o Sr. Master, ele lhe mostrou as fotografias de vigilância?

—Sim, claro. Por quê?

—O que as fotos mostravam?

Eu estava confuso. —Eram apenas fotos da Ana seguindo sua rotina: reunindo-se com compradores de imóveis, indo a reuniões do Conselho, trabalhando em seu escritório. Tudo era completamente normal, completamente inocente. Por quê?

Ela se inclinou para mim com um olhar intenso no rosto. —Marcos, ontem de manhã, na agência, eu precisava fazer cópias de alguns documentos. Quando fui à copiadora, encontrei sua pasta lá. — Ela corou levemente. —Eu não deveria tê-la tocado, mas me lembrei de como você foi gentil comigo e fiquei curiosa, então dei uma olhada.

—Eu vi as fotos que você acabou de descrever, Marcos, mas havia outras fotos lá também, fotos que Mauricio provavelmente não lhe entregou. Marcos, eu vi várias fotos da sua esposa nos braços de outro homem. Eram fotos íntimas, fotos deles fazendo sexo!

—O quê?! Isso é impossível! Mauricio me garantiu...

—Mas não é só isso, Marcos. As fotos tinham datas e horários diferentes. Não foi um erro isolado, sua esposa está tendo um caso com esse homem.

Eu não conseguia acreditar. —Você deve ter se enganado. Aquela não poderia ter sido a Ana. Por que Mauricio mentiria para mim?

—Não sei, Marcos, mas quando ele me pegou com seu arquivo, ficou furioso e me demitiu na hora. Por que ele reagiria assim se não tivesse nada a esconder?

—Você tem uma cópia de alguma das fotos? Preciso vê-las.

—Não, desculpe. Não tive tempo de fazer cópias.

Olhei para ela atentamente. —Tem certeza de que não está inventando isso só para se vingar do Mauricio por tê-la demitido?

Imediatamente percebi a mágoa em seus olhos. —É claro que estou com raiva do Mauricio, mas eu jamais usaria você para me vingar. Você foi tão bom para mim, me defendeu mesmo sem me conhecer. Eu jamais conseguiria retribuir sua bondade de uma forma tão cruel.

Havia lágrimas em seus olhos. Talvez ela seja uma grande atriz... mas descartei essa ideia imediatamente. Ela não está mentindo para mim.

No entanto, eu ainda estava com dificuldade para compreender as implicações do que ela estava dizendo. —Certo, então quem era esse outro homem na fotografia?

Ela balançou a cabeça negativamente. —Não sei. Não o reconheci.

Comecei a dizer algo mais, mas ela estendeu a mão por cima da mesa e apertou a minha. —Marcos, há muita coisa que eu não entendo, mas acho que sei um possível motivo pelo qual Mauricio mentiu para você. Sua esposa é uma pessoa influente nesta cidade. Acredito que ele esteja chantageando sua esposa!

Isso me fez parar. Havia muitos outros na cidade que ficariam felizes em usar um escândalo para destituir Ana na próxima eleição. Por mais ambiciosa que fosse, ela faria quase tudo para evitar uma revelação tão embaraçosa.

Sem pensar, esfreguei o queixo onde Ana tinha me dado um tapa. Será que ela estava mentindo para mim o tempo todo? Será que ela me tratou como lixo e depois riu disso com o amante dela? Quanto mais eu pensava nisso, mais raiva eu sentia.

Levantei-me, saí e comecei a caminhar pela calçada. Maria Helena correu atrás de mim e agarrou meu braço. —Marcos, aonde você vai?

—Vou falar com Mauricio agora mesmo e descobrir o que realmente está acontecendo.

—Espere, Marcos. Pare e pense bem. Se eu estiver certa, Mauricio só vai mentir para você porque essa é a única maneira de manter o controle sobre sua esposa. Além disso, a essa altura ele certamente já sumiu com aquelas fotos do seu arquivo. Você não vai conseguir nada dele.

Ela me viu hesitar e apressou o passo. —E a mesma coisa vai acontecer se você confrontar a Ana. Você acha mesmo que ela admitiria alguma coisa?

Ela me puxou para um banco na calçada. —Se você os confrontar com o que eu lhe contei, ambos dirão que sou apenas uma funcionária insatisfeita. Será a minha palavra contra a deles. — Ela olhou-me nos olhos com seriedade. —Marcos, eu juro que estou falando a verdade. Espero que você acredite nisso.

Examinei seu rosto e busquei em minhas entranhas. Ela não está mentindo, está tentando retribuir a alguém que a ajudou. —Eu acredito em você, Maria Helena.

Vi alívio misturado com gratidão em seu rosto, mas logo ela ficou séria. —Há algo mais, Marcos. Há um motivo pelo qual eu queria te ver imediatamente. Descobri algo importante ontem. Vi a agenda do Mauricio, ele tem uma reunião com sua esposa daqui a meia hora. Se você estiver disposto a fazer uma pequena vigilância, talvez possamos descobrir o que ele está aprontando."

—Sim, com certeza! Você sabe onde eles vão se encontrar?

—Eu anotei. — Ela me entregou um pedaço de papel com um endereço.

—Rua xxx,por que lá? — Resmunguei, mais para mim mesmo do que para ela. —É uma área residencial. — Dei de ombros, eu descobriria depois. —Vamos, meu carro está estacionado aqui perto.

Logo estávamos dirigindo em direção ao endereço que Maria Helena havia me dado. Não disse nada, mas por dentro eu fervia de raiva. Eu me sentia tão culpado por não confiar na minha esposa, e agora parecia que eu tinha bons motivos para duvidar dela o tempo todo. Aquela vadia!

E quem era seu amante secreto? Há quanto tempo durava o caso? Aliás, qual era o envolvimento de Mauricio?

Calma, eu disse para mim mesmo, espere até ter certeza de que Ana está te traindo. Tirar conclusões precipitadas foi o que te meteu em encrenca antes. É, mas foi porque Mauricio mentiu para mim. Foi difícil me controlar.

—Ali está! — gritou Maria Helena enquanto eu passava sem enxergar o endereço. Dirigi mais um quarteirão, virei e voltei para estacionar na rua, duas casas adiante. —Caramba, este bairro é muito bonito. De quem será essa casa? Perguntei, mais para mim mesmo.

Então, quando nos aproximamos da casa, vi o que não tinha notado antes: a placa de "Vende-se" da imobiliária da minha esposa. De repente, tudo fez sentido. —É por isso que estão reunidos aqui: esta casa está vazia— disse a Maria Helena em tom baixo, mas urgente. —Os donos se mudaram e estão tentando vendê-la há meses.

Permanecemos atrás da grande cerca viva que cercava a propriedade e seguimos até a entrada de carros. Havia dois carros estacionados lá; não reconheci nenhum deles.

—Fique aqui Maria. Vou dar uma olhada ao redor para ver se consigo encontrá-los— sussurrei.

—Eu também vou— respondeu ela com firmeza, e eu dei de ombros.

Juntos, fomos nos aproximando lentamente pela lateral da casa, mantendo-nos escondidos atrás da cerca viva. Conseguíamos ouvir um murmúrio vindo dos fundos da casa e, quando nos aproximamos sorrateiramente, avistamos um conjunto de portas francesas que davam para o que devia ser a sala de estar. Espiamos lá dentro e minha adrenalina começou a subir.

Lá estava Ana, usando uma lingerie que eu nunca tinha visto antes, esparramada em um sofá, conversando com alguém que não conseguíamos ver por causa do ângulo. Seus dedos brincavam com a virilha de sua minúscula calcinha preta. Cerrei os dentes. Ela está se excitando.

De repente, uma figura surgiu à vista, e eu fiz um esforço enorme para me manter em silêncio. Mauricio Master entrou na sala vestindo apenas um sorriso. Eu já sabia que ele era um homem grande, agora descobri que ele era grande em todos os sentidos, muito grande.

Ana sentou-se ereta e seus dedos roçaram seus mamilos enquanto ela o encarava com desejo. Ela abriu as pernas num gesto tão antigo quanto o tempo: —Aqui estou, venha me comer seu puto.

Mas, em vez de ir até ela, Mauricio caminhou casualmente até uma espreguiçadeira, se jogou nela e esticou as pernas. Imediatamente, Ana se aproximou e se ajoelhou a seus pés, passando as mãos pelas coxas dele em direção ao Monte Everest.

Ele sorriu, e eu consegui ouvir o que ele disse. —Por que você não demonstra o quanto você gosta disso, querida?

Ana deslizou os seios pelas pernas dele até estar perto o suficiente. Então, começou a adorar seu pênis, beijando-o, lambendo-o e tentando enfiar o máximo possível na boca. Mauricio colocou as mãos atrás da cabeça e recostou-se, apreciando as atenções dela.

Agarrei o braço de Maria Helena e fiz um gesto para que ela voltasse para a rua. Nunca tinha sentido tanta raiva na minha vida. "Aquela vadia!", sibilei, assim que estávamos fora do alcance dos ouvidos deles. —Se ele está chantageando-a, ela com certeza não parece estar se ressentindo muito disso!

—Não deveríamos tirar fotos? — Perguntou ela.

Pensei por um instante e então sorri. —Ah, sim, vamos tirar muitas fotos. E talvez possamos envolver outras pessoas também. — Corri até a placa de "Vende-se" da Ana, arranquei-a do chão e a joguei atrás da cerca viva, onde não pudesse ser vista facilmente. Em seguida, peguei meu celular e disquei 190.

—Quero denunciar uma invasão residencial. Eu estava caminhando pelo bairro e vi duas pessoas arrombando a porta da casa de número 2232 na Rua xxx. Isso mesmo, eles estão lá dentro agora, provavelmente saqueando o local. Se você se apressar, pode pegá-los antes que fujam!

Desliguei sem dizer meu nome, enquanto Maria Helena me encarava confusa. Mas a ignorei e liguei para minha amiga do Canal do Youtube. —E aí, Amanda, vocês ainda estão cobrindo aquela onda de roubos a residências? Bom, tenho uma dica quente para você. Está rolando um arrombamento na Rua xxx, número 2232. A polícia já foi avisada e está a caminho. Se você chegar aqui rapidinho, pode passar na frente da concorrência e conseguir umas imagens ótimas. Isso mesmo: Rua xxx, número 2232. Sem problemas, eu te devia uma.

—O que você fez? — Perguntou minha companheira, mas eu a dispensei com um gesto de mão. —Vamos voltar e pegar aquelas fotos.

Quando voltamos para as portas francesas, Ana ainda estava de quatro, adorando o Monte Everest. Eu conseguia ouvi-la gemer claramente, como sempre faz quando fica muito excitada. Mauricio se abaixou e a levantou o suficiente para conseguir alcançar os seios dela. Assim que fez isso, beliscou seus mamilos, e ela soltou um grito entre dor e prazer.

Então, para nossa surpresa, outro homem nu surgiu de algum lugar da casa. Enquanto Ana se curvava e se contorcia sobre o torso de Mauricio, o segundo homem se aproximou por trás e também começou a apalpá-la.

Maria Helena puxou meu braço bruscamente. —Aquele era o homem das fotografias— sussurrou ela. —Você sabe quem ele é?

Assenti com raiva. —Ah, sim, eu o conheço. Ana me apresentou a ele em uma de suas recepções políticas. Trata-se de ninguém menos que Haroldo Herculano, o chefe da Comissão de Zoneamento da nossa bela cidade!

O comissário tentava, desajeitadamente, puxar a calcinha de Ana para baixo. Enquanto ele se esforçava, não pude deixar de notar que ele era bem menos dotado que o detetive grandalhão. Que pinto minúsculo! Pensei, e me perguntei por que minha esposa estava tendo um caso com ele. Mas antes que eu pudesse refletir mais sobre a questão, ele conseguiu arrancar a peça de roupa frágil. No instante em que se libertou, Ana se moveu para cima e começou a contrair os músculos da vagina, tentando freneticamente se empalar em Mauricio. Quase imediatamente, comecei a ouvir os gemidos de paixão familiares subindo do fundo de sua garganta.

Agora que ele havia removido a última barreira, Haroldo se agachou atrás dela e começou a introduzir seu próprio pênis no orifício rugoso de Ana. Ele vai penetrá-la duplamente! Percebi, surpreso. Ela nunca me deixou chegar perto dali!

De repente, Maria me puxou para longe da porta e apontou para o final da entrada da garagem, onde uma viatura policial acabara de parar. Juntos, corremos até lá. —Acabamos de ouvi-los, policiais— eu disse ofegante. —Eles ainda estão lá dentro. Se vocês se apressarem, podem pegá-los em flagrante.

O policial mais velho olhou para o parceiro. —Há dois carros estacionados na entrada da garagem e não vejo nenhum sinal de arrombamento. — Então, olhou para mim com desconfiança. —Tem certeza de que algum crime está sendo cometido?

Nesse instante, a van de notícias do Canal do Youtube parou bruscamente na rua, e um repórter e um cinegrafista saíram correndo para se juntar a nós. —Qual é a notícia? Conseguiremos filmar alguma coisa?

O primeiro policial começou a falar quando ouvimos um grito feminino alto que pareceu tremer no início antes de se transformar em um gemido agonizante. —Meu Deus! — Gritei, —ele está matando a mulher!

Os dois policiais se entreolharam em pânico. Então Ana gritou novamente, desta vez ainda mais alto. —Vamos! — Gritou o primeiro policial, sacando a pistola e correndo em direção à porta da frente. Com o policial mais jovem em seu encalço, os dois arrombaram a porta e desapareceram lá dentro.

—Começa a gravar! — Gritou o repórter para seu parceiro. Em seguida, virou as costas para a casa e começou a falar rapidamente para a câmera. —Atrás de mim está a casa no número 2232 da Rua xxx, onde a polícia está investigando uma possível invasão. Acabamos de ouvir gritos vindos de dentro da casa, e a polícia entrou para investigar.

Assim que ele terminou, sons de uma terrível comoção começaram a vir de dentro da casa. Parecia uma briga de filme antigo, só que era de verdade. As pessoas gritavam e ouvíamos o som de móveis e copos quebrando.

O cinegrafista focou na casa bem a tempo de ver o comissário sair correndo pela porta da frente, completamente nu balançando uma tripinha murcha entre as apernas. Logo atrás dele estava minha esposa, tão nua quanto. —Espere por mim! — Ela gritou enquanto Haroldo abria a porta de um dos carros e ligava o motor. Assim que ela entrou, ele engatou a marcha à ré. Em seguida, pisou no freio a tempo de evitar uma colisão com a viatura estacionada no final da entrada da garagem.

Em um ato de desespero, Haroldo engatou a marcha à frente e acelerou em direção ao quintal. Em seguida, virou o volante bruscamente, abrindo enormes buracos na grama, e tentou forçar a passagem pela cerca viva. Ele quase conseguiu, mas os galhos grossos frearam o carro e travaram o eixo traseiro a tal ponto que os pneus só conseguiam girar em falso.

O repórter reconheceu os dois políticos imediatamente. Fez um gesto para o cinegrafista e correu para o lado do carro preso. —Comissário Haroldo, vereadora Ana, vocês se importariam de explicar aos nossos telespectadores o que estavam fazendo juntos naquela casa? Ah, e onde estão suas roupas?

O comissário se recusou a falar com ele e, quando o repórter insistiu, Haroldo fechou a janela. Enquanto a câmera continuava filmando, as duas pessoas dentro do carro faziam o possível para cobrir a nudez com as mãos e os braços, gritando furiosamente uma com a outra.

Então o cinegrafista olhou para cima e focou novamente na casa. A figura nua e curvada de Mauricio Master emergiu, com os braços algemados atrás das costas e sangue escorrendo de vários cortes. Os dois policiais que o conduziram para fora também pareciam bastante machucados.

—Quem é esse? — Perguntou o repórter, confuso.

—Esse é Mauricio Master, presidente da Master Investigações— disse Maria Helena. —Ele é detetive particular.

O repórter anotou o nome, mas ainda estava confuso. —E quem é você? — Perguntou ele a Maria Helena.

—Precisamos voltar para casa, querida— eu disse firmemente, pegando em seu braço e a conduzindo em direção ao meu carro. Quando nos afastamos, vimos a polícia tentando espantar os vizinhos que tinham saído para observar.

Nos dias seguintes, a notícia foi a sensação da cidade. O Canal do Youtube usou a gravação para criar uma chamada para o seu noticiário noturno, então imagens reais do comissário, da vereadora e do detetive, com suas partes íntimas digitalmente cobertas, foram exibidas repetidamente. A história era tão picante que a afiliada nacional de um canal de tv a repercutiu e ela chegou ao noticiário nacional da noite. Logo, havia poucas partes do país onde as pessoas não tivessem visto a maior parte da figura gloriosa da minha esposa correndo pela grama.

Mauricio, naturalmente, foi imediatamente preso por agressão agravada contra um policial. Enquanto era transferido para sua cela, fez diversos comentários impensados sobre os dois policiais e o que pretendia fazer com eles assim que fosse libertado. O juiz responsável pela audiência não achou graça nos comentários de Master e negou-lhe a fiança.

A polícia teve mais dificuldade em determinar se algum crime havia sido cometido pelo comissário e pela vereadora. A hipótese de arrombamento foi rapidamente descartada e, quando se descobriu que Ana era a corretora responsável pelo imóvel de número 2232 da Rua xxx, até mesmo as acusações de invasão de propriedade foram retiradas. Mesmo assim, a intensa repercussão do caso fez com que ambos se escondessem.

O jornal matutino ficou indignado por ter sido superado na cobertura do escândalo, e o editor designou todos os funcionários da editoria para descobrir o que realmente estava acontecendo. "O Comissário e a Vereadora: A Política Cria Alianças Inusitadas", estampava a manchete do dia seguinte.

Eu havia presumido que tudo se resumia a sexo, mas estava enganado. Um repórter perspicaz investigou e descobriu evidências de suborno envolvendo diversos projetos imobiliários locais. Descobriu-se que a vereadora vinha solicitando propinas de incorporadoras e que o comissário havia conseguido alterações favoráveis no zoneamento em troca de favores sexuais da vereadora.

Aparentemente, os dois não estavam suficientemente escondidos, pois assim que a história veio à tona, foram rapidamente presos e acusados de corrupção.

A primeira coisa que fiz ao voltar para o meu escritório, foi ligar para o escritório de advocacia que eu havia contatado e cancelar minha consulta. —Ah— perguntou a simpática senhora com quem falei, esperançosa, —isso significa que você e sua esposa se reconciliaram?

—Significa que não quero mais uma separação amigável— disse friamente. —Vou contratar um verdadeiro tubarão e acabar com ela!

Acho que era inevitável que eu me envolvesse nessa confusão, pelo menos no começo. A polícia me interrogou várias vezes, tentando descobrir se eu estava envolvido ou se tinha me beneficiado do pequeno esquema da minha esposa. Felizmente, Ana mantinha todo o seu dinheiro em uma conta separada, somente em seu nome. E quando contei ao tenente que havia contratado Master para investigar minha esposa, ele apenas balançou a cabeça em sinal de compreensão.

Meus amigos e colegas de trabalho também se mostraram compreensivos, mas nenhum deles sabia o que me dizer. "Todos nós adorávamos a Ana e lamentamos saber que ela se revelou uma política corrupta e uma vadia infiel" simplesmente não parecia certo. Nem "Sinto muito por você ter sido traído". No fim, a maioria deles me evitou, e eu realmente não podia culpá-los.

Contratei um advogado implacável para cuidar do meu divórcio, embora isso tenha se revelado um exagero. Entre a traição pública de Ann e a probabilidade de uma longa pena de prisão, nunca houve dúvidas de que o divórcio seria concedido. Mas meu advogado garantiu que Ana ficasse com a pior parte do acordo financeiro.

Pensei que tinha me livrado dela, mas para minha surpresa tive mais um encontro com minha futura ex-esposa. Recebi uma ligação da advogada de Ana, ela queria que eu fosse testemunha de defesa de Ana! Dei uma gargalhada só de pensar nisso, mas parei de rir quando a advogada me disse que planejava me intimar se eu me recusasse a cooperar.

A ideia de ser arrastado de volta para os problemas da Ana não me agradava nem um pouco, e cheguei a pensar em recusar. Mas aí a advogada dela mencionou que queria me entrevistar antes do julgamento e que a Ana estaria presente. De repente, decidi aceitar, desde que a Ana respondesse a algumas perguntas. Fiquei satisfeito quando ela concordou; talvez agora eu finalmente conseguisse algumas respostas.

Quando entrei na sala de reuniões do escritório da advogada, Ana estava lá com ela. Vestia um de seus elegantes ternos que gostava de usar nas reuniões da Câmara quando sabia que haveria câmeras de TV presentes. Tive que admitir: ela ainda estava bonita. Mas, ao olhar para seu rosto, percebi claramente que o estresse a havia afetado.

—Sr. Marcos— começou a advogada de Ana, —entendo que seu casamento será dissolvido em breve em circunstâncias difíceis. Não estamos aqui para falar sobre isso. O que estamos tentando fazer é demonstrar que, antes de a Sra. Ana ser levada para o mau caminho pelas tentações de outros, ela era uma esposa amorosa e uma companheira dedicada e de bom caráter. Gostaríamos de chamá-lo ao banco das testemunhas para que testemunhasse sobre a vida de vocês juntos antes dos infelizes acontecimentos dos últimos meses.

"Levada pelo mau caminho pelas tentações alheias", pensei sarcasticamente. Bem, essa é uma forma de dizer. Mas me contive e olhei para advogada com calma.

—Quando me casei com minha esposa— comecei —achei que ela era a mulher mais atraente e fascinante que já havia conhecido. Ela era inteligente, engraçada e tinha um jeito de deixar as pessoas à vontade, fazendo com que quisessem estar perto dela.

A advogada acenou rapidamente com a cabeça para Ana e depois se virou para mim com um sorriso encorajador. Ela estava anotando cada palavra minha.

—Durante os primeiros seis anos do nosso casamento, Ana e eu compartilhamos os mesmos objetivos e sonhos, e eu sentia que estávamos no caminho certo para alcançá-los.

A advogada me interrompeu. —O senhor quer dizer 'os primeiros oito anos', não é, Sr. Marcos? Creio que o senhor está casado há oito anos.

Eu a ignorei e continuei: —Mas desde que foi eleita para a Câmara Municipal, minha esposa mudou. Ela se tornou uma pessoa ambiciosa e manipuladora, preocupada apenas consigo mesma e com seus próprios objetivos. Cada vez mais, ela me negligenciava e ao nosso casamento em busca de ascensão pessoal. Foi a crescente indiferença e o desprezo que ela me demonstrava que, por fim, me levaram a contratar um detetive particular.

—Não, não, Sr. Marcos, não é isso que queremos. O senhor precisa...

—Não se preocupe, Virginia— interrompeu Ana. —Eu te disse que era uma tentativa arriscada. Ele nunca ia me ajudar. — Então ela me encarou com amargura. —Então por que você veio aqui hoje, Marcos? O que você quer?

Cruzei as mãos e inclinei-me sobre a mesa em sua direção. —Quero trinta minutos a sós com você para lhe fazer algumas perguntas.

—Você me ajudará se eu fizer isso?

—Nem pensar.

Ela me olhou por alguns segundos, depois suspirou e se recostou na cadeira. —Tudo bem, acho que te devo isso. Você pode nos dar licença Virginia?

—Tem certeza? — Perguntou o advogado de Ana.

—Está tudo bem. Ele não vai me machucar.

Balançando a cabeça, a advogada saiu da sala, fechando a porta da sala de conferências. Ana se virou para mim. —Muito bem, Marcos, o que você quer perguntar?

Eu tinha tantas perguntas, mas decidi começar pela mais básica: —Por quê, Ana? Por que você fez isso?

De repente, ela se endireitou bruscamente e seus olhos faiscaram. —É tudo culpa sua, sabia? Eu não estaria nessa enrascada se você não tivesse contratado aquele detetive para me seguir!

Fiquei atônito. —Minha culpa? Como pode ser minha culpa? Foi você quem...

Mas ela estava tão furiosa que nem me ouviu. —Tudo estava indo tão bem até aquele desgraçado aparecer no meu escritório com aquelas fotos minhas e do Haroldo. E foi você quem o mandou atrás de mim. Fiquei tão brava com você quando descobri!

—Eu não teria precisado fazer isso se você não estivesse tendo um caso com Haroldo!

Ela zombou. —Aquilo não foi um caso, foi só política. Haroldo era um péssimo amante e era menor que você. Eu só o seduzi porque ele conseguia as isenções de zoneamento que eu queria.

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. —Por que você precisava de autorizações especiais de zoneamento? Você não é um incorporador imobiliário.

Ela balançou a cabeça como se eu fosse a criança mais lenta da sala de aula. —Eu não precisava das autorizações especiais, mas as grandes construtoras precisavam, e eu precisava do apoio delas para me candidatar a prefeita. Como eu disse, era tudo uma questão de política.

—Então era só uma questão de apoio político, é isso? Então por que a polícia encontrou mais de um milhão de dólares na sua conta bancária secreta?

Ela até me deu um sorriso sem graça. — Tá bom, talvez tenha sido um pouco sobre dinheiro também. — Aí a expressão dela voltou a ser de raiva. —Mas nada disso teria sido problema se você não tivesse se intrometido tanto.

Não vou deixar que ela me atraia para essa armadilha.

—E quanto a Master - o que ele queria?

—Metade do que eu recebia e metade do que Haroldo recebia.

—Espere um minuto, você disse que Haroldo só estava nisso porque você o seduziu.

Seu rosto assumiu uma expressão estranha. —Como eu disse, Mauricio queria metade do que Haroldo estava recebendo. E depois da primeira vez que ele conseguiu, descobri que ele era uma grande melhoria em relação a Haroldo, uma grande melhoria mesmo.

De repente, me lembrei de Ana ajoelhada aos pés de Mauricio, adorando seu enorme pênis com a boca, e senti nojo. —Então, suponho que ele não precisou se impor a você.

Ela me deu um sorriso malicioso. —Só na primeira vez. Depois disso, fiquei mais do que feliz em atender a todos os pedidos. — Ela viu minha expressão e deu uma risadinha. —Todos nós temos nossas preferências sexuais, eu só tive a sorte de descobrir as minhas.

—Pelo que entendi, você não ficou tão chateado assim com a minha contratação do Master, afinal— eu disse sarcasticamente.

Ela me lançou um sorriso preguiçoso. —Não, na verdade, acho que te devo uma por isso. — Então o sorriso desapareceu. —E tudo teria dado certo se não fossem aqueles vizinhos intrometidos da Rua xxx. Se eles não tivessem chamado a polícia, eu não estaria nessa enrascada.

Pela primeira vez naquele dia, me senti melhor. Levantei-me e sorri para minha amada esposa. —Na verdade, não foram os vizinhos. Fui eu quem chamou a polícia e também liguei para o Canal do Youtube.

—Você fez tudo isso? Seu filho da puta! — Ela se levantou tão rápido que derrubou a cadeira em que estava sentada. Pegou um livro de direito da prateleira atrás dela e o arremessou por cima da mesa na minha direção. Ela estava prestes a pular por cima da mesa para tentar me atacar quando sua advogada entrou correndo e segurou seu braço.

—Calma, Ana, calma! Você não pode fazer isso!

—Sinto muito por não poder testemunhar a favor da sua cliente, advogada— eu disse enquanto saía pela porta atrás de mim. Então me virei e disse: —Aproveite seu tempo na prisão, Cajuzinho!

No fim das contas, Mauricio se declarou culpado da acusação menor de agressão a um policial em troca de testemunhar sobre o esquema de suborno. Além da pena de prisão, é claro, ele também perdeu sua licença de detetive particular. Haroldo recebeu uma pena menor porque, na verdade, não aceitou dinheiro nenhum. Mas perdeu o emprego, a esposa e a dignidade, e nunca mais foi visto na cidade. Decidi que aquele idiota tinha recebido o que merecia.

Evitei propositalmente todas as notícias sobre o julgamento de Ana, em parte porque não me importava com o que aconteceria com ela e em parte porque queria poder alegar ignorância se alguém me perguntasse. Mas, algum tempo depois, quando estava no Coffee Five, vi um jornal com a notícia da sua sentença. Não resisti à tentação de ler.

Soube que Ana acabou pegando de três a cinco anos de prisão estadual, além de uma multa de 25o mil por solicitar compensação ilegal. Também fiquei satisfeito ao descobrir que ela agora enfrenta acusações federais de sonegação de imposto de renda por seu fundo pessoal. Aparentemente, o fato de o estado ter confiscado seus ganhos ilícitos não constituiu circunstâncias atenuantes para os federais.

É como diz, na política é tudo barganha, toma lá da cá, mas ela levou ao pé da letra aquela piada “me de 100 camisas que eu te dou sem calças” ou “vamos trocar de calça, te dou a minha rasgada no joelho e vc me dá uma rasgada na bunda” seria cômico se não fosse trágico.

Esfreguei a bochecha. Ótimo, era exatamente o que ela merecia. Talvez agora eu possa seguir em frente com a minha vida.

Nesse instante, meus pensamentos foram interrompidos por uma voz que eu não ouvia há muito tempo. —Ei, estranho, que tal pagar um café para uma garota?

Eu sorri para ela. —Eu ficaria encantado, Maria Helena.

Fim.

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Casos raros nesse cdc, maridos traídos te tomam uma atitude de homens.

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