A Crente e o Pecado Negro. Capítulo 2

Um conto erótico de Dr.jakyll6
Categoria: Heterossexual
Contém 1600 palavras
Data: 08/03/2026 15:36:31

Meu nome é Débora, e nos três dias seguintes ao beijo roubado, eu não voltei ao apartamento dele.

Não respondi as mensagens. Não atendi as ligações. Simplesmente segui minha vida como se nada tivesse acontecido, como se ele não existisse, como se aquela boca quente na minha não tivesse despertado algo que eu lutei a vida inteira para manter adormecido.

Na segunda-feira, ele mandou uma mensagem.

· Me desculpa. Fui idiota. Não devia ter feito isso. Só queria pedir desculpa de verdade.

Li a mensagem três vezes. Meu dedo pairou sobre o teclado, pronto para responder. Mas guardei o celular. Fui trabalhar. Atendi pacientes, passei medicamentos, fiz meu turno como um robô. Mas a cada minuto, a mensagem queimava no meu bolso.

Na terça-feira, outra mensagem chegou.

· Tô com o braço doendo muito hoje. Acho que mexi demais tentando arrumar as coisas. Não sei fazer nada sozinho com uma mão só. A casa tá uma zona.

Li. Li de novo. A culpa cresceu, mas a raiva ainda era maior. Ele me beijou sem permissão. Ele roubou. Eu não devia nada a ele.

Na quarta-feira:

· Já entendi que você não quer mais falar comigo. Só queria saber se você tá bem. E se puder pelo menos me dar umas dicas do que fazer com o braço... a dor não passa.

Na quinta-feira:

· O gesso saiu hoje. Não consigo levantar o braço direito. Mal consigo segurar um copo. Vou ficar mais um mês sem trabalhar. Minha mãe ligou, disse que vai tentar vir me ajudar, mas ela mora longe e não tem dinheiro pra passagem. Não sei mais o que fazer.

Li a mensagem no horário do almoço, sentada no refeitório do hospital. Sandra estava do outro lado da mesa, comendo e falando sobre algum paciente, mas eu não ouvia nada. Só via as palavras na tela.

Motoboy. Sem trabalhar. Sem dinheiro. Sozinho.

A culpa que eu sentia era um peso físico no peito.

— Débora? — Sandra chamou. — Tá me ouvindo?

— O quê? — levantei os olhos, confusa.

— Perguntei se você vai no almoço de confraternização mês que vem.

— Ah. Não sei. Vou ver.

Ela me olhou estranho, mas não perguntou mais.

Na sexta-feira, a mensagem veio de manhã cedo.

· Hoje faz uma semana. Só queria dizer que sinto muito. E que você faz falta. A casa não é a mesma sem você. Eu não sou o mesmo.

Li no carro, antes de entrar no hospital. Respirei fundo, desliguei o celular e fui trabalhar.

Mas naquela tarde, no horário do almoço, me vi estacionando em frente ao prédio dele sem ter consciência de como cheguei ali.

O sol forte batia no para-brisa. Minhas mãos suavam no volante. Olhei para o prédio, para a porta que eu conhecia tão bem, e pensei em dar a volta e ir embora.

Mas desci do carro. Subi as escadas. Bati na porta.

Ele abriu.

Estava uma bagunça. Camisa velha, desalinhado, barba por fazer, olhos inchados de quem não dormia bem. O apartamento atrás dele parecia um campo de batalha: louça na pia, roupa espalhada, pó por tudo.

Quando me viu, o rosto dele se iluminou como se eu fosse a resposta para todas as orações que ele nunca fez.

— Débora — ele disse, a voz falhando. — Você veio.

— Vim — respondi, com a voz mais dura que consegui. — Mas não é por sua causa. É porque eu te atropelei. É porque você tá assim por minha culpa. É porque não posso simplesmente ignorar que um homem está passando necessidade por minha causa.

— Eu sei. Eu entendo.

— E não quero papo. Não quero conversa. Só vou ver esse braço e ver o que dá pra fazer.

Ele assentiu, abriu a porta para eu entrar.

A casa estava realmente uma zona. Pior do que eu imaginava. Copos com resto de café, pratos com comida seca, roupa suja no sofá. O cheiro não era agradável.

— Senta — mandei, apontando para a cadeira da cozinha.

Ele sentou. Examinei o braço, agora sem gesso, mas visivelmente fraco. A pele estava ressecada, os músculos atrofiados. Quando mandei ele levantar o braço, ele mal conseguiu erguer na altura do ombro.

— Precisa de fisioterapia — eu disse. — Exercícios diários pra recuperar movimento. Senão pode ter sequelas permanentes.

— Sei. Mas não tenho dinheiro pra fisioterapeuta. E não tenho ninguém que possa me ajudar.

Olhei para ele. Para o apartamento sujo. Para a solidão que morava ali.

— Eu te ensino — eu disse, contra minha vontade. — Faço os exercícios com você.

Ele me olhou, surpreso.

— Você faria isso? Depois de tudo?

— Não é por você. É por mim. Pra limpar minha consciência. Agora levanta.

Passei as duas horas seguintes na casa dele. Ensinei os exercícios, fiz ele repetir cada movimento até cansar. Expliquei a importância de não forçar, de ir devagar, de respeitar os limites do corpo. Ele prestou atenção, repetiu os movimentos, suou, reclamou, mas continuou.

Depois, olhei para a bagunça.

— Vou dar um jeito nisso — disse, mais para mim mesma.

— Não precisa...

— Descansa Lucão, vai te fazer bem.

Lavei a louça. Juntei a roupa. Passei pano no chão. Limpei a pia, o fogão, a mesa. Ele ficou por perto, oferecendo água, perguntando se precisava de ajuda, sendo útil dentro das limitações dele.

Quando terminei, estava exausta. Sentei no sofá por um minuto para recuperar o fôlego. Ele sentou na poltrona em frente, mantendo distância.

— Obrigado — ele disse. — De verdade. Você não tem ideia do que isso significa.

— Já falei. Não é por você.

— É sim. Podia ter deixado eu me virar. Mas não deixou. Você é boa, Débora. Mesmo tentando esconder.

Olhei para ele. Para os olhos escuros que me viam de um jeito que ninguém via.

— Não se aproxima — eu avisei. — Não tenta nada. Ou vou embora e não volto mais.

Ele levantou as mãos, em sinal de paz.

— Prometo. Só amizade. Só conversa. Você me ensina os exercícios, eu melhoro, e pronto.

— Combinado.

Na segunda-feira, voltei. Ensinei mais exercícios. Conversei sobre coisas banais. Ele contou do trabalho, eu contei de Davi Lucas. Rimos de uma história engraçada que aconteceu no hospital.

Na quarta-feira, ele já conseguia levantar o braço um pouco mais. Comemoramos como se fosse uma grande vitória. Fiz café, ele preparou um sanduíche simples, e comemos juntos, conversando, rindo.

Na sexta-feira, ele me mostrou que tinha arrumado a casa sozinho. Não estava perfeito, mas ele tinha tentado. Fiquei orgulhosa, e ele viu isso nos meus olhos.

— Tô aprendendo — ele disse. — Com você.

— Que bom.

Na segunda-feira seguinte, ele já conseguia pegar objetos leves. Fizemos os exercícios, depois sentamos no sofá para conversar. Ele contou da infância em Minas, dos irmãos que não via há anos, da mãe que trabalhava tanto que mal tinha tempo para ele.

— Cresci aprendendo que ninguém dá nada a ninguém — ele disse. — Que todo mundo quer se aproveitar. Que a gente tem que ser esperto, levar vantagem.

— E você acredita nisso?

— Acreditava. Até você chegar.

Desviei o olhar. Meu coração bateu mais forte.

— Você me mostrou que tem gente boa no mundo — ele continuou. — Que tem gente que ajuda sem querer nada em troca.

— Eu quero sim — respondi, a voz baixa. — Quero limpar minha consciência. Quero não me sentir culpada pelo acidente.

— É mais que isso. Você sabe.

Não respondi.

Ficamos em silêncio por um momento. Depois ele contou mais uma história, engraçada, e eu ri. Rir com ele era fácil. Era leve. Era gostoso.

Em algum momento, no meio da risada, eu olhei para ele. Ele olhou para mim. E naquele instante, alguma coisa mudou. A risada foi morrendo, dando lugar a um silêncio diferente. Um silêncio cheio de coisas não ditas.

Eu vi os lábios dele. Lembrei do beijo. Lembrei do gosto.

E sem pensar, sem planejar, sem querer — ou querendo, muito querendo — me inclinei e beijei ele.

Dessa vez não foi ele. Fui eu.

Foi um beijo rápido, leve, só um selinho. Mas foi eu. Eu beijei ele.

Quando percebi o que tinha feito, afastei o rosto, os olhos arregalados, a mão na boca.

— Meu Deus — eu sussurrei. — Meu Deus, o que eu fiz?

Levantei do sofá num pulo, peguei a bolsa, corri para porta.

— Débora! — ele chamou.

— Preciso ir!

Desci as escadas tropeçando, entrei no carro, fiquei ali, ofegante, o coração querendo sair pela boca. Eu beijei ele. Eu beijei ele. Depois de passar uma semana dizendo que não queria, depois de jurar que era só amizade, eu beijei ele.

Dirigi para o hospital em transe. Trabalhei o resto da tarde como zumbi, errando medicações, esquecendo coisas. Sandra me perguntou o que havia acontecido, eu disse que era cansaço.

À noite, em casa, deitei ao lado de Davi Lucas e fiquei olhando para o teto. Pensando nele. Pensando no beijo. Pensando em como eu tinha gostado.

O celular vibrou. Mensagem dele.

· Você me beijou. Dessa vez foi você.

Respirei fundo. Respondi:

· Foi sem querer.

· Mentira. Não foi sem querer. Mas tudo bem. Eu gostei.

Olhei para a mensagem. Ele gostou. E eu também.

· Preciso pensar no que estou fazendo— respondi.

· Pensa bem, sem pressa. Estou aqui. Não vou a lugar nenhum.

Desliguei o celular, virei para o lado e fechei os olhos. não consegui dormir. Só pensava nele. Só pensava no beijo. Só pensava em como era bom estar lá, em como rianos por coisas banais, em como ele me escutava.

Em um primeiro momento era um negro malandro que queria tirar vantagem, ele disse que mudei ele também, será que ele estaria se tornando alguém melhor.

E pela primeira vez em muito tempo, eu não pensei em pecado. Não pensei em culpa. Não pensei em Deus.

Só pensei em mim.

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NOTA DO AUTOR

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Comentários

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Muito bom,ótima sequência,mas o cara não vai pro hospital,ela deveria dar esse tipo de baixa nele.

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