O sol de Londres, pálido e hesitante, filtrou-se pelas frestas das cortinas da cobertura, mas Fernanda já estava desperta. Ela não acordava como as pessoas comuns; ela emergia do sono com a clareza de quem sabe que o mundo mudou enquanto ela dormia. Sentada na borda da cama, e com a pele exalando o perfume residual da noite anterior, ela pegou o celular.
O que viu a fez sorrir com um orgulho predatório.
Não eram apenas as notícias sobre seu prêmio ou as prévias das fotos de Julian Vance. Uma hashtag dominava as tendências mundiais: #nossapeleénossaroupa. Ao clicar, Fernanda deparou-se com uma avalanche de imagens. Pessoas de todos os gêneros, corpos e origens postando fotos de biquínis ou sungas, alguns mais ousados estavam nus, emulando sua pose de libertação. Mulheres trans exibindo suas genitálias com o mesmo orgulho que ela; homens e mulheres comuns despindo-se de preconceitos em praças, quartos e escritórios.
— Olhem só para vocês... — ela murmurou, iniciando uma live matinal antes mesmo de tomar café.
A câmera capturou Fernanda em um ângulo baixo, focando primeiro em suas pernas longas e em seu pau, antes de subir para seu rosto iluminado pelo triunfo.
— Eu acordo e vejo que o vírus da liberdade finalmente infectou o sistema — ela disse, a voz rouca de sono e luxúria. — Vocês estão entendendo agora? A pele não é um pecado, é um manifesto. Ver cada um de vocês usando a hashtag #nossapeleénossaroupa me dá um tesão que nenhum prêmio de cristal conseguiria dar.
Ela se levantou, caminhando pela suíte enquanto falava, exibindo sua bunda para os milhões que assistiam ao vivo.
— Londres foi uma amante incrível, mas o Brasil está gritando pelo meu nome. E eu não costumo deixar meus seguidores esperando. Vejo vocês no desembarque... se tiverem coragem de olhar.
O trajeto até o Aeroporto de Heathrow foi uma extensão de sua soberania.
Dentro do sedã preto blindado, ela observava as ruas de Londres. O trajeto de Mayfair até o aeroporto parecia uma procissão. Fernanda mantinha-se sentada com as pernas abertas no banco de couro, uma mão repousando casualmente sobre seu pau, sentindo a vibração do motor entre suas coxas. Ela ignorava os flashes que tentavam penetrar o insulfilm nos semáforos; ela estava ocupada demais saboreando o poder.
Ao passar por Piccadilly Circus, ela viu um telão imenso exibindo uma das fotos que Julian Vance enviara às pressas: Fernanda nua, de costas para o Serpentine, no centro da metrópole.
— É uma bela despedida, não é? — ela comentou com o motorista, que mantinha os olhos fixos na estrada, embora suas mãos suassem no volante pela presença eletrizante de Fernanda no banco de trás.
O carro deslizou pela rodovia M4 em direção ao terminal VIP. Fernanda usou o tempo para retocar o batom vermelho-sangue, o tom que seria sua marca registrada ao pisar em solo brasileiro. Ela abriu a live mais uma vez por breves segundos, apenas para mostrar a paisagem passando rápido.
— O céu de Londres está cinza, mas o que eu estou levando para o Brasil é puro fogo — ela sussurrou para a câmera.
Ao chegar ao terminal, o jato particular aguardava, mas Fernanda parou na porta do carro por um segundo extra. Ela deixou o vento soprar, expondo-se integralmente para o pequeno grupo de funcionários e paparazzi autorizados. O silêncio que se seguiu foi o tributo final da Europa à Fernanda.
