Acordei na segunda-feira com o celular vibrando em cima da cômoda. 9h47. Três mensagens não lidas e um lembrete que eu mesma tinha colocado três dias atrás: "Entrevista no Escritório Mendes & Associados - 11h".
Levantei, cambaleando um pouco, e fui até o espelho. A imagem que me encarou de volta era de uma mulher que eu mal reconhecia. Olheiras. Cabelo ainda meio molhado do banho da madrugada. E marcas. Mordidas leves no ombro. Vermelhidão nos peitos. Nada muito óbvio, nada que um vestido fechado não escondesse, mas eu sabia que estavam lá. Marcas dele.
Tomei outro banho. Dessa vez sozinha. Dessa vez com a porta trancada. Fiquei debaixo da água quente por um longo tempo, tentando lavar a noite anterior da pele, mas não adiantava. O cheiro dele parecia grudado em mim.
Quando saí do banheiro, a casa estava em silêncio. Passei pelo corredor de toalha, ouvindo. Nada. A sala vazia. A cozinha vazia. Um bilhete em cima da mesa: "Fomos resolver umas coisas. Voltamos à noite. Parabéns de novo, campeã! Beijos, mãe."
Bufei e joguei o bilhete de lado. Me arrumei em modo automático. Escolhi um conjunto azul marinho que eu usava nas apresentações de trabalho da faculdade. Saia lápis na altura do joelho, blazer estruturado por cima de uma blusa branca. Nada muito justo. Nada que marcasse demais. Prendi o cabelo num coque baixo, passei maquiagem leve, coloquei um scarpin preto. Me olhei no espelho de corpo inteiro antes de sair. Advogada séria e profissional. Era assim que eu precisava parecer.
Peguei o ônibus das 10h15. A cidade vizinha ficava a 40 minutos de distância. Durante a viagem, fiquei olhando pela janela, as paisagens passando, a cabeça longe. Tentei revisar mentalmente as perguntas que poderiam fazer, as respostas que eu havia preparado. Mas não conseguia focar. A única coisa que vinha à mente era a água caindo, a mão dele no meu queixo, a voz dele dizendo "papai" e minha própria voz repetindo a palavra.
Desci na rodoviária e peguei um Uber até o endereço. O escritório ficava num edifício comercial todo de vidro, no centro da cidade. Muito diferente dos escritórios decadentes da minha cidade. Entrei no saguão, me identifiquei na recepção, peguei o elevador até o 14º andar.
A recepcionista do escritório era uma loira de uns 40 anos, impecavelmente vestida, com um sorriso profissional. Ela me pediu pra aguardar, ofereceu café, água. Sentei numa poltrona de couro preto, segurando minha pasta, tentando parecer mais calma do que estava.
O escritório era lindo. Tudo branco, preto e detalhes em madeira. Plantas nos cantos. Quadros com certificados e diplomas na parede. Gente bem vestida passando de um lado pro outro com pastas e tablets. Barulho de teclado ao fundo. Telefone tocando. O tipo de lugar que eu imaginava quando pensava em "ser alguém na vida".
- Luana Dias? - uma voz masculina me chamou.
Levantei. Era um homem de meia idade, terno escuro bem cortado, cabelo grisalho nas laterais, olhos pequenos e vivos. Reconheci na hora: Ricardo Mendes. Sócio fundador, inteligentíssimo. Eu já havia lido artigos e até mesmo um livro escrito por ele.
- Prazer - ele falou, estendendo a mão para me cumprimentar. - Pode vir comigo.
Atravessamos o escritório. A sala dele era ampla, elegante, com uma janela enorme que tomava uma parede inteira. Mesa de mogno, estantes repletas de livros jurídicos, um sofá de couro marrom. Ele sentou atrás da mesa e apontou pra cadeira à frente.
Sentei. Coloquei a pasta no colo. Respirei fundo.
Ele pegou meu currículo, que já estava em sua mesa, folheou distraidamente, depois levantou os olhos pra mim. Ficou me olhando por alguns segundos em silêncio. Um olhar demorado, que desceu do meu rosto até meus peitos, escondidos sob o blazer, e depois voltou.
- Luana - ele disse, finalmente. - Seu rosto é familiar. A gente já se viu em algum lugar?
- Acho que não, Dr. Ricardo. É a primeira vez que venho a essa cidade.
Ele franziu a testa, ainda me olhando.
- Estranho. Tenho certeza que já vi você antes. Me diz uma coisa... Você não participou daquele concurso no sábado? Na cidade vizinha?
Meu estômago deu um nó. O rosto esquentou.
- E-eu... sim, participei.
Ele bateu na mesa, um sorriso largo se abrindo no rosto.
- Sabia! - ele riu, balançando a cabeça. - Você ganhou, não foi? A cacheada da bunda gigante, de fio dental azul.
- Fui eu, sim - a voz saiu baixa.
Conseguia sentir meu rosto queimando. Obviamente eu não conseguiria o emprego.
- Meu Deus do céu - ele se recostou na cadeira, os olhos brilhando. - Que coincidência. Eu estava lá, na plateia. Vi você desfilar. Quando você virou de costas, aquela bunda enorme ocupou o palco inteiro. O povo foi à loucura. Eu incluso.
Ele riu de novo, como se estivesse relembrando um momento agradável.
- Sabe o que eu pensei na hora? Pensei: "Essa bunda merece um prêmio". E você realmente ganhou. Merecidíssimo, por sinal.
Minhas mãos suavam dentro da pasta. Meu rosto queimava. Mas entre as pernas, uma pulsação começava.
- Bom, vamos ao que interessa - ele pegou meu currículo de novo, agora com mais atenção. - Formada há pouco tempo. Boa faculdade, estágios interessantes, tema de TCC relevante. Seu currículo é impressionante pra sua idade, Luana. De verdade.
Um fio de esperança se acendeu.
- Obrigada, Dr. Ricardo. Eu me dediquei muito.
- Dá pra ver - ele largou o papel em cima da mesa. - Olha, vou ser sincero com você. Nosso escritório está crescendo muito, temos vagas. Mas a maioria é para áreas mais concorridas, onde já temos gente. A única posição que eu poderia te encaixar no momento seria... direito penal.
Direito penal. Não era minha área. Nunca tinha sido.
- Penal? - repeti, tentando disfarçar a decepção.
- Isso mesmo - ele apoiou os cotovelos na mesa, inclinando o corpo pra frente. - A gente tem um andar separado só pra isso, com uns oito advogados, todos homens. Ainda não tenho nenhuma mulher trabalhando lá. Meus funcionários iam amar ter uma presença feminina como a sua por lá.
Ele sorriu. Um sorriso que não era profissional.
- Como assim, Dr. Ricardo?
- Ah, Luana - ele balançou a cabeça, como se fosse óbvio. - Você se olhou no espelho hoje de manhã? Essa bunda, essas pernas, essa cintura... meus advogados iam trabalhar com um sorriso no rosto todo santo dia.
- Dr. Ricardo, eu não tenho experiência em direito penal - tentei desviar. - Meu foco sempre foi cível.
- Claro, podemos ver uma vaga em cível depois, quando você já tiver algum tempo de trabalho aqui no escritório.
Engoli em seco.
- Bom... Então acho que tudo b...
- Mas - ele me cortou. - Tem uma condição.
- Condição? - pisquei, confusa.
- É. Vou pedir pra você vir trabalhar sempre de saias curtas. Bem curtas. Nada dessas saias comportadas que você está usando hoje. Quero ver essas coxas. Quero que meus advogados vejam. A produtividade vai lá em cima, pode ter certeza.
Fiquei paralisada. Minha boca abriu, mas não saiu som.
- Olha, Luana. Você é linda. Tem um corpo de outro mundo. E pelo que vi no concurso, não tem vergonha de mostrar. Então por que esconder aqui? Aqui é lugar de gente bonita, de gente que se cuida. Você ia se destacar. Ia ser a musa do penal.
- Dr. Ricardo, eu me sinto desconfortável com esse tipo de...
- Desconfortável? - ele me interrompeu, franzindo a testa. - Por que desconfortável? Estou te elogiando. Te dando uma oportunidade. Quantas recém-formadas você acha que entram num escritório desse porte? E você quer jogar tudo fora porque não quer usar saia curta?
Meu rosto queimava. A pulsação entre as pernas ficava mais forte.
- Não é isso... é que...
- Escuta, minha linda - ele se levantou, deu a volta na mesa e sentou na borda, bem perto de mim. - Deixa eu te mostrar uma coisa.
- Pegou o celular no bolso, mexeu na tela por um segundo, e virou pra mim. Era um vídeo. Meu desfile. Eu no palco, de costas, a bunda gigante ocupando a tela, o fio dental sumido. Ele deu play. Meu corpo se mexendo, rebolando, a multidão assobiando.
- Olha isso - ele murmurou, segurando o celular perto do meu rosto. - Olha essa bunda. É uma obra de arte, Luana. Você tem noção disso?
Eu olhava, hipnotizada. Meu próprio corpo na tela. A bunda balançando. O fio dental desaparecendo. O volume, a forma, a pele lisa.
- E você quer esconder isso atrás de um blazer e uma saia comportada? - a voz dele era baixa, quase um sussurro. - Quer enterrar essa bunda gigante num escritório, trabalhando igual uma formiga, ganhando salário mínimo?
Ele pausou o vídeo no momento em que eu estava de costas, a bunda em primeiro plano.
- Com essa bunda, Luana, você podia conseguir tudo. Tudo mesmo. E eu posso te ajudar com isso.
Levantei os olhos pra ele. Ele estava me olhando de um jeito que eu já conhecia. O mesmo olhar de Fernando.
- O que o senhor quer dizer? - minha voz saiu estranha.
Ele largou o celular na mesa ao lado e inclinou o corpo mais perto de mim.
- Que tal... Eu te pago muito mais do que uma recém-formada ganha, pra você vir trabalhar com as saias mais curtas que tiver em casa. Não precisa nem fazer expediente integral.
- Dr. Ricardo...
- Me chama de Ricardo. A gente já passou da fase das formalidades, não acha?
Ele estendeu a mão e tocou no meu joelho. Só um toque leve, por cima da saia. Meu corpo inteiro congelou.
- Imagina você aqui no escritório, passando todo dia de saia curta, essa bunda balançando na frente dos meus funcionários - ele falou, a voz macia. - Imagina o efeito que isso ia ter. A produtividade ia explodir. Os caras iam trabalhar felizes. Preciso deles motivados, entende?
A mão dele subiu um pouco pela minha coxa. Só um pouco. Senti o calor dos dedos através do tecido.
- E eu, como chefe, ia ter que... supervisionar de perto, claro - ele sorriu. - Garantir que ninguém passe dos limites. Que você seja bem tratada. Protegida.
- Protegida? - repeti, a voz fraca.
- Claro. Uma mulher bonita num escritório cheio de homens precisa de proteção. Alguém que olhe por ela. Que cuide. Que garanta que ela esteja sempre... confortável.
A mão dele subiu mais um pouco. Agora estava no meio da minha coxa.
- Você ia gostar disso, Luana? Ia gostar de ter um chefe que cuida de você? Que te protege?
Minha buceta latejava. O nojo e o tesão se misturavam num nó no estômago. Eu sabia que aquilo era errado. Sabia que era assédio. Sabia que qualquer pessoa racional levantaria agora, daria as costas e iria embora.
Mas eu não levantava.
- Eu... eu não sei direito penal - foi a única coisa que consegui dizer.
Ele riu baixo, satisfeito.
- Direito penal a gente ensina. Isso aqui... - ele apertou de leve minha coxa. - Isso aqui não se ensina. Isso é dom.
Ele tirou a mão devagar, se levantou e voltou pra trás da mesa. Ajeitei a saia, tentando disfarçar o tremor nas pernas.
- Se você topar, começa semana que vem. Se não topar, infelizmente não terei outra vaga pra você. A decisão é sua.
Fiquei em silêncio por um longo momento. Minha cabeça era um turbilhão. O dinheiro que eu não tinha. A chance de sair de casa. De ter meu próprio dinheiro. De construir alguma coisa.
E aquela pulsação. Aquela pulsação idiota, nojenta, que não parava.
- Eu aceito - a voz saiu antes que eu pudesse pensar.
Ele sorriu. Um sorriso largo, vitorioso.
- Sabia que você ia dizer isso. Mulher inteligente. Bonita e inteligente. Combinação rara.
Ele pegou um cartão de visita na mesa e deslizou até mim.
- Meu número pessoal. Qualquer coisa, qualquer dúvida, pode me ligar. E quero você aqui segunda, 9h, com uma saia bem curta pra gente começar bem.
Peguei o cartão, guardei na pasta e levantei, as pernas ainda tremendo.
- Até segunda, Dr. Ricardo - eu falei, com o melhor sorriso falso que consegui forjar.
- Ricardo - ele corrigiu, com um piscar de olhos. - Até segunda, Luana. E parabéns pelo concurso de novo. Foi muito merecido.
Saí da sala com o rosto em chamas. Atravessei o escritório sem olhar pra ninguém, apertei o botão do elevador com dedos trêmulos. Só quando a porta fechou e o elevador começou a descer é que soltei o ar que eu nem sabia que estava segurando.
Minha buceta latejava. Toda molhada.
No caminho de volta pra rodoviária, o celular vibrou. Mensagem de número desconhecido: "Já estou aqui imaginando você de saia curta na minha sala. Segunda não chega nunca. Bjs, Ricardo."
Salvei o número. Não respondi. Mas também não apaguei.
No ônibus, de volta pra cidade, fiquei olhando a paisagem passar. A cabeça era um turbilhão. Eu tinha conseguido o emprego. Mas a que preço? E por que, mesmo com nojo, mesmo sabendo que aquilo era errado, minha buceta não parava de latejar?
Caminhei até a casa. Quando abri o portão, a luz da sala estava acesa. Minha mãe no sofá, vendo TV, provavelmente tinha voltado mais cedo do trabalho. Fernando estava na poltrona, com uma cerveja na mão. Ele levantou os olhos quando entrei. Sorriu.
- E aí, mocinha? Como foi?
Contei sobre a entrevista. Sobre a contratação. Minha mãe pulou do sofá e me abraçou, gritando de alegria. Fernando ficou na poltrona, me olhando, a cerveja imóvel na mão.
- Direito penal? - ele repetiu, quando eu mencionei a área. - Interessante. Nunca imaginei você nessa área.
- Foi o que tinha - respondi, evasiva.
Minha mãe já estava na cozinha, pegando vinho pra comemorar, apesar de ser apenas duas horas da tarde. Aproveitei o segundo em que ela estava distraída e olhei pra Fernando. Ele me encarava com um sorriso no canto da boca. O mesmo sorriso de Ricardo. O mesmo brilho nos olhos.
- Parabéns, Lu - ele disse baixo. - Sabia que você ia conseguir. Você consegue tudo o que quer.
Antes que eu pudesse responder, ele se levantou da poltrona e veio na minha direção. Meus pés pareciam colados no chão. Ele abriu os braços e me puxou para um abraço, daqueles de parabéns, inofensivos aos olhos de quem visse de longe. Mas não era inofensivo.
Enquanto me apertava contra o peito dele, as mãos escorregaram devagar pelas minhas costas até chegarem no destino inevitável. Os dedos apertaram fundo minha bunda, separando as nádegas por cima do vestido, puxando minha pélvis contra a dele. Senti o volume duro já se formando na bermuda.
A boca dele encostou no meu ouvido, o hálito quente.
- Papai está muito orgulhoso de você, filhota - ele murmurou, bem baixinho, a voz grossa de tesão. - Muito orgulhoso. Hoje à noite a gente comemora direito, só nós dois. Combinado?
As mãos apertaram mais uma vez, fundas, possessivas, antes de me soltar completamente. Ele deu um passo para trás com um sorriso satisfeito, como se nada tivesse acontecido, e voltou para a poltrona.
Minha mãe voltou da cozinha com a garrafa de vinho e três taças, toda sorridente.
- Vamos brindar!
Peguei a taça que minha mãe me estendeu e virei o vinho de uma vez, tentando apagar o calor que ele tinha deixado no meu corpo.
Não adiantou.
Fiquei mais um pouco na sala e depois fui para o quarto. Eu estava morrendo de sono. Sentei na cama, o celular na mão. A mensagem de Ricardo ainda estava lá. Abri de novo. Li três vezes.
Joguei o celular na cama e enterrei o rosto no travesseiro. Nojo. Tesão. Confusão. Tudo misturado. E no fundo, uma voz pequena perguntando: o que você virou, Luana?
Mas eu não sabia responder.
(N.A.: Estou feliz por ver tantos comentários positivos! Fico feliz que estejam gostando do conto :D)
