O alarme tocou, e eu sabia o que significava. Precisava sentar na cadeira e observar as câmeras.
A câmera externa mostrou a limusine parando diante da casa e, uma a uma, as meninas descendo, rindo alto, falando por cima umas das outras, como se chegassem a uma casa de praia, e não a uma armadilha.
A fachada surgiu inteira no enquadramento. Uma casa gigante, linda e moderna, infinitamente melhor do que a porra do cubículo em que eu me encontrava.
Ana desceu por último. Ajeitou o vestido, passou a mão no cabelo e ficou alguns segundos observando a casa. Não parecia nervosa. Parecia curiosa, interessada.
Quando elas entraram, todos os meus monitores se ligaram, e a Casa do Ricardão se revelou por completo para mim.
Parecia bem maior por dentro do que por fora, graças ao pé-direito duplo. A sala se integrava totalmente à área externa. Portas de vidro enormes que, quando abertas, apagavam a fronteira entre o que era dentro e o que era fora.
Uma piscina longa ocupava o centro do quintal. Em volta, um deck novinho com espreguiçadeiras modernas, que mais pareciam objetos de um museu de design do que móveis para descanso.
Por dentro, os móveis eram de cores pastéis, grandes e confortáveis. A cozinha ficava logo atrás da sala, sem nenhuma separação, com uma ilha enorme de pedra escura, bancos altos e luminárias penduradas no teto.
Nada ali parecia natural. Tudo não passava de um grande cenário. Uma armadilha…
E, mesmo assim, as mulheres exploravam a casa como crianças soltas num parque. Subiam escadas, abriam portas, disputavam quartos, comentavam sobre a vista, o tamanho do closet, o tamanho da cama. Cada descoberta vinha acompanhada de risadas e comentários empolgados.
Enquanto isso, eu continuava sentado diante das telas.
Doze monitores. Diversos ângulos. Nenhuma trilha sonora, nenhuma edição dramática. Só gente andando, falando de decoração, abrindo gavetas, perguntando onde ficava o banheiro.
Nos primeiros minutos, a sensação foi de tédio. Era como assistir ao Big Brother vinte e quatro horas por dia.
O botão embaixo do alto-falante amarelo não estava mais aceso; eu não era obrigado a ficar ali sentado vendo aquilo. Naquela hora, poderia pegar um livro ou mexer no celular.
Ainda assim, mesmo quando nada acontecia, eu não conseguia parar de olhar. Meus olhos seguiam, a cada segundo, tudo o que minha esposa fazia, ansioso para saber como ela se comportaria naquele lugar.
Totalmente hipnotizado — e o programa nem tinha começado de verdade.
Um alarme avisou as meninas de que a primeira dinâmica iria começar.
Elas se juntaram no sofá da sala, ainda meio elétricas. Era uma experiência única; tudo o que acontecia era novidade.
Sentadas lado a lado, era como se tivessem saído de um comercial de absorvente ou de shampoo. Tinha a loira de cabelo liso, a ruiva de pele clara, a morena de cabelo crespo e volumoso. Cada uma representando um tipo, um arquétipo diferente de mulher, como se fossem um catálogo.
Só faltava saber o que realmente estava sendo vendido ali.
A TV à frente delas se acendeu sozinha. O apresentador apareceu na tela, sorrindo.
— E aí, meninas, estão gostando da casa?
A reação foi imediata. Um coro de “sim”, risadas, comentários atravessados. Ele deixou o barulho correr por alguns segundos e depois retomou o controle.
— E me diz uma coisa: alguma de vocês gosta de roupas?
As quatro responderam juntas, quase por reflexo, gritando que sim, e depois rindo.
O clima estava tão leve que eu me perguntava se elas lembravam onde estavam.
— Roupas são importantes, né? — ele continuou. — Dizem muito sobre quem a gente é. Ou, pelo menos, sobre o que a gente quer mostrar para o mundo.
As mulheres assentiam, totalmente focadas, como se ele fosse um filósofo em plena epifania, e não um ex-participante de reality recitando um roteiro tosco.
— Às vezes a gente escolhe uma roupa para parecer mais forte. Outras vezes, mais delicada. Mais séria. Mais ousada — ele continuou, fazendo uma pequena pausa dramática, como se recitasse uma poesia. — No fundo, roupa é só isso: uma fantasia para o mundo.
A porta lateral da sala se abriu.
Um cara da produção, vestido de vermelho dos pés à cabeça, entrou empurrando um cabideiro. Penduradas lado a lado, estavam fantasias masculinas de sex shop.
A reação foi imediata.
A loira levou a mão à boca, incrédula.
A morena deu um gritinho animado, já se inclinando para a frente.
Ana arregalou os olhos e soltou um riso levemente histérico.
— Hoje, vocês vão escolher uma fantasia, a que mais gostarem. Depois, vão explicar para a gente, por que essa fantasia? — ele fez uma pausa longa. — Prontas? Vocês têm sessenta segundos.
A imagem dele sumiu, substituída por um cronômetro gigante marcando o tempo. Foi a deixa para a sala se tornar puro caos.
As quatro praticamente se jogaram no cabideiro ao mesmo tempo. Braços passando por cima de braços, gritos, risadas, fantasias voando para todo lado.
Fiquei observando, realmente curioso para saber o que minha esposa escolheria. Ana passou a mão por uma fantasia de bombeiro, depois por uma de cowboy, até puxar algo xadrez.
Quando o cronômetro zerou, um alarme alto soou pela casa. As meninas voltaram para o sofá, cada uma com a fantasia escolhida no colo, ofegantes, como se tivessem participado de uma corrida.
O apresentador reapareceu no telão.
— Muito bem, meninas. Agora é hora do vamos ver. Lais pode começar.
A loira ajeitou a fantasia no colo, visivelmente constrangida.
— Eu escolhi a de policial… porque meu marido é policial. E… — ela sorriu de um jeito quase bobo, enquanto gaguejava — eu amo ele naquele uniforme. Sempre achei muito bonito.
As meninas soltaram um “aaaawn” coletivo.
— Ah… não tem uma mulher que resista ao uniforme, não é mesmo? — o apresentador perguntou. — Agora, será que é seu marido que usa o uniforme ou o uniforme que usa ele?
As cabeças se inclinaram, confusas. Apesar da tentativa de soar profundo, acho que ninguém entendeu o que aquele mala queria dizer.
— Renata, sua vez.
— Eu escolhi a de diabinho — disse, sem conseguir segurar os risos. — Porque na cama é preciso ser um pouquinho diabo, não é, meninas?
Todas elas riram.
— Quando a gente está perdido, é o diabo que costuma aparecer para nos tentar. A questão é, meninas: vocês vão conseguir resistir à tentação?
Silêncio na sala. Pelo menos essa parábola estava mais fácil de acompanhar.
— Mônica, agora é a sua vez. Confesso que fiquei curioso… por que a fantasia de coelhinho da Playboy?
— Para mim essa é a mais sexy de todas. É o que eu pediria para o meu marido usar! — respondeu, fazendo uma caretinha que fingia vergonha.
— Ah… a atração física — comentou o apresentador, sorrindo. — Mas será que é só isso que sustenta uma relação? — perguntou, sem dar tempo para que ninguém respondesse. — Por último, mas não menos importante… você, Ana.
Ela ajeitou a fantasia xadrez no colo antes de falar, como se precisasse se organizar.
— Gosto da ideia de natureza, de força… — disse, rindo de leve, um pouco constrangida. — Do homem independente, que vai lá e conquista tudo o que quer, sabe?
Eu senti o golpe.
A fantasia que ela segurava, de lenhador, representava para ela força, autossuficiência, domínio, maestria. Tudo o que eu não conseguia ser desde que perdi meu emprego.
— Claro que sei — o apresentador disse, com um sorriso calmo. — Mas também sei que, no altar, a gente faz uma promessa: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza.
Ele fez uma pausa curta, deixando o silêncio trabalhar.
— A pergunta é: se a força é o que te excita… o que acontece quando ele não consegue ser forte?
Ana parou de sorrir. Uma leve indignação surgiu em seu rosto. Não respondeu nada, já que a pergunta era claramente retórica, mas devia estar se sentindo atacada naquele momento.
Para o apresentador, porém, se ela gostava ou não das baboseiras que ele dizia não fazia a menor diferença. Apenas continuou com seu script:
— Perfeito, meninas. Assim, encerramos a primeira dinâmica.
— Ué… e cadê os Ricardões? — Renata perguntou.
O apresentador arqueou a sobrancelha, com um sorriso debochado.
— Para alguém casada, você está ansiosa demais, não acha? — disse, enquanto as meninas riam da interação. — Respira. Não saiam daí do sofá. Voltamos em minutos.
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