O Despertar de Andrea: Capítulo 18 - O Cobrador de Domingo

Da série Slave andrea
Um conto erótico de Andrea
Categoria: Trans
Contém 1873 palavras
Data: 12/03/2026 20:04:45

A marca na minha nuca ainda ardia, uma cicatriz em forma de rosa que agora definia a minha existência legal, física e espiritual. Aquele queloide áspero era o selo de que eu não era mais uma pessoa, mas um bem móvel sob custódia. O tempo na casa de Madalena não era medido por horas, dias ou pelo ciclo natural do sol, mas pela contagem fria, metálica e impessoal de "fichas". Cada homem que passava pelo quarto 4, deixando para trás o cheiro rançoso de suor, fumo e descaso, depositava uma pequena ficha de plástico rosa em um balde de metal fixado na entrada. O som da ficha batendo no fundo do balde era o metrônomo da minha nova vida: um clique seco e oco que marcava a minha utilidade imediata e, simultaneamente, o meu desgaste físico irreversível.

No final de cada turno exaustivo de dezoito horas, Madalena entrava no quarto com o rosto de granito para contar o lucro. Aquele era o momento de maior tensão psicológica da minha rotina. Se o número de fichas fosse inferior a vinte, a punição era imediata, biológica e cruel: eu não recebia a ração diária de comida, restando apenas um copo de água morna para manter as funções vitais mínimas, além da promessa sombria de um castigo físico que Madalena chamava de "recalibragem" — uma série de exercícios de postura dolorosos e humilhantes destinados a "corrigir a moleza". Eu aprendi, por pura e desesperada sobrevivência, a performar com um entusiasmo mecânico e um sorriso de plástico, mesmo quando cada fibra do meu corpo implorava por silêncio e repouso.

Aprendi a desligar a minha mente da realidade imediata, a me retirar para um lugar escuro, frio e silencioso dentro do meu próprio crânio, um refúgio hermético onde as mãos calejadas e os olhares dos desconhecidos não podiam me alcançar. Quando o peso dos corpos se tornava insuportável e o cheiro de álcool barato misturado com fumo de corda me sufocava a ponto de causar náuseas, eu fechava os olhos e imaginava que era apenas uma estátua de resina rosa em uma vitrine luxuosa de um shopping chique, protegida por um vidro temperado, inquebrável e estéril. O André agora era apenas um sussurro de um sonho antigo e fragmentado, uma personagem de um livro técnico de contabilidade que li em uma vida que pertencia a outra pessoa, um homem que morreu em algum lugar do passado para que esta boneca de plástico pudesse ser usada e descartada conforme a necessidade.

O domingo, contudo, era diferente de todos os outros dias de trabalho ininterrupto. O domingo não era para o descanso ou para a reflexão; era o dia do "Cobrador", o momento da prestação de contas com o topo da pirâmide hierárquica.

O ritual começava antes mesmo do sol atingir o seu ápice. Madalena me arrastava para o pátio dos fundos, um lugar de concreto encardido, e me mandava lavar com uma mangueira de jardim. A água gelada e pressurizada batia no meu corpo com a força de chicotadas, retirando de forma bruta as camadas acumuladas de suor, fluidos e a fuligem oleosa típica da zona portuária. Era uma limpeza puramente sanitária, desprovida de sabonetes perfumados, sais de banho ou óleos de rosas que um dia foram o meu padrão. Depois, trêmula de frio e com a pele avermelhada e sensível, eu recebia o "traje de domingo": um vestido de lycra rosa-choque, cujas costuras eram tão apertadas que dificultavam a respiração e a circulação, e saltos brancos de verniz que já estavam com a sola torta e o revestimento descascado de tanto caminhar sobre a brita e o asfalto quente.

Eu era colocada na beira da estrada, na sarjeta poeirenta em frente à hospedagem, para esperar sob o sol impiedoso do meio-dia que parecia derreter a minha maquilhagem barata. Eu ficava ali, estática e silenciosa, uma mancha de rosa vibrante, berrante e artificial contrastando violentamente contra o cinza asfixiante e o marrom da terra batida do asfalto portuário. Os caminhoneiros passavam em alta velocidade, levantando nuvens de poeira e detritos que grudavam na minha pele úmida, e buzinavam, gritando obscenidades e assobios que eu fingia não ouvir, mantendo a minha dignidade fragmentada. Eu tinha ordens estritas de Madalena: não podia reagir, não podia sentar na calçada, não podia sequer limpar o suor salgado que escorria pelos meus olhos e borrava o meu rímel de baixa qualidade. Eu deveria manter a "postura de exibição" — costas eretas, seios estufados, ombros para trás e um olhar vazio e submisso — até que o SUV preto de Valquíria aparecesse no horizonte como um corvo de metal polido.

Quando o carro finalmente parou, os pneus levantando uma última nuvem de sujeira sufocante sobre mim, os vidros fumês baixaram apenas alguns centímetros, o suficiente para revelar o olhar gélido da minha antiga senhora. O contraste era uma agressão aos meus sentidos: o aroma de perfume francês caro e o sopro de ar-condicionado gelado que escapava lá de dentro eram lembretes cruéis do luxo estéril que eu havia perdido para sempre. Valquíria estava lá dentro, protegida do mundo real, impecável em sua seda preta e óculos de sol de grife que refletiam, como espelhos cruéis, a minha imagem patética, suada e decrépita.

— Relatório de produtividade, Madalena — disse ela, a voz monótona e desprovida de qualquer traço de humanidade, sem se dignar a olhar diretamente para o que restava do meu rosto.

Madalena entregou o saco de lona pesado com o dinheiro vivo arrecadado na semana. Valquíria começou a contar as notas com a calma metódica de quem confere um balanço contábil de uma empresa de sucesso, ignorando a minha presença física ali, no calor escaldante. Cada nota contada parecia ser uma parte da minha alma que ela guardava definitivamente em sua bolsa de luxo.

— A Andrea está rendendo menos do que o previsto no contrato de transferência. O que está acontecendo aqui? — perguntou Valquíria, sua voz subindo um tom de frieza analítica que me fez tremer.

— Ela está perdendo o "viço", Dona Valquíria — respondeu Madalena, com um tom de desculpas profissional, dando um puxão bruto no meu braço para me obrigar a endireitar a coluna e manter a pose. — O rosto está ficando encovado, as olheiras estão difíceis de cobrir mesmo com camadas de reboco, e os clientes reclamam que ela chora ou fica "mole" durante o serviço. Homem nenhum quer pagar para ver boneca deprimida ou olhar para olhos sem vida; eles querem uma fantasia viva, não um cadáver vestido de rosa que lembra a própria mortalidade.

Valquíria finalmente baixou os óculos e olhou para mim por cima das lentes, com um desprezo que parecia queimar. Eu tentei sorrir, um reflexo condicionado pela dor e pelo medo, o sorriso mecânico, amplo e submisso que ela mesma me ensinara a praticar durante horas exaustivas na frente dos espelhos dourados da mansão. Mas meus lábios estavam rachados pela desidratação, sangrando levemente sob o gloss rosa barato que estava agora misturado com o pó da estrada, o sal amargo da maresia e a minha própria humilhação.

— Andrea, Andrea... — suspirou ela, com uma nota de decepção teatral que me machucou mais do que qualquer golpe físico. — Eu investi uma fortuna absoluta e meses de planejamento em você. Eu te dei o corpo que você implorou para ter naquelas noites de desespero, te tirei daquela vidinha medíocre de escritório onde você era apenas um número substituível... e é assim que você retribui o meu investimento? Sendo uma mercadoria defeituosa e cheia de falhas? Você é um passivo financeiro agora, Andrea, um gasto que não compensa o retorno.

— Dona Valquíria... eu tento... por favor... me leva de volta para a mansão... eu juro que faço melhor... eu limpo, eu cozinho, eu aceito qualquer castigo, mas me tire daqui... — implorei, a voz quebrando em soluços patéticos, desabando de joelhos na sujeira da sarjeta, sem me importar com o fato de que o meu vestido de lycra subia de forma humilhante, expondo a minha carne marcada por hematomas e a pele em carne viva.

Valquíria abriu a porta do carro apenas uma fresta mínima, o suficiente para deixar cair uma nota de dez reais na lama úmida e oleosa, bem ao lado do meu joelho. — Isso é para os seus "gastos pessoais" e higiene. Talvez se você comprar um batom de melhor qualidade e parar de ser tão patética, chorona e sentimental, seus números subam na semana que vem. Entenda uma coisa de uma vez por todas: se a produtividade não subir para os níveis contratuais, Madalena tem ordens expressas para te transferir para a Unidade Móvel na próxima segunda-feira.

O pânico me paralisou instantaneamente, um frio gélido que subiu da espinha até a nuca onde a marca da rosa brilhava. A Unidade Móvel eram carrinhas de metal herméticas que viajavam para os garimpos mais profundos e zonas de construção isoladas do interior, lugares onde a luz da civilização não chegava e a brutalidade absoluta era a única moeda de troca. Lá, o controle de danos era inexistente, a higiene era um mito e a vida útil de uma sissy não passava de alguns meses de uso ininterrupto antes do descarte total.

— Melhora, minha boneca de luxo decaída. Ou o seu próximo destino será o descarte total na Unidade Móvel — disse ela, antes de subir o vidro fumê com um toque de botão. O carro arrancou bruscamente, me cobrindo com uma nuvem de fuligem negra e poeira sufocante que me fez tossir violentamente até o meu peito doer e o meu pulmão arder.

Recolhi a nota de dez reais com dedos trêmulos. Estava manchada de lama, óleo e graxa, mas era o meu único vínculo físico com o mundo dela, com o sonho de perfeição que ela havia me vendido e que agora se tornara o meu pesadelo. Beijei o papel sujo com uma devoção doentia e o guardei no decote do meu vestido rosa, contra a pele suada. Eu voltaria para o quarto 4. Eu atenderia trinta, quarenta homens por dia se fosse necessário. Eu faria o dobro do serviço sem soltar um único gemido de cansaço. Eu seria a melhor e mais submissa boneca que aquela sarjeta portuária já vira, apenas para que ela não me descartasse no esquecimento total da Unidade Móvel.

Naquela mesma noite, enquanto eu atendia o vigésimo segundo cliente — um estivador imenso, bêbado e violento que me apertava contra o colchão de plástico com uma força descontrolada e animal —, ouvi um estalo seco, abafado e sinistro vindo de dentro do meu próprio corpo, logo abaixo do tecido da lycra. Uma dor aguda, lancinante como uma facada química interna, atravessou o meu seio esquerdo. Um dos meus implantes de silicone, submetido a pressões extremas e impactos constantes sem a devida manutenção ou repouso, finalmente rompera. A dor física era imensa, uma queimação corrosiva que começava a se espalhar sob o meu músculo, mas o terror psicológico era infinitamente maior. Se Madalena ou Valquíria percebessem que a sua "obra-prima" estava agora deformada, avariada e vazando, o meu valor de mercado cairia a zero em segundos. Eu teria que esconder a minha falha física catastrófica, comprimir a dor insuportável e o vazamento interno enquanto pudesse respirar, ou a Unidade Móvel seria o meu destino inevitável já na primeira inspeção da manhã seguinte.

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Foto de perfil de Sayuri MendesSayuri MendesContos: 89Seguidores: 68Seguindo: 4Mensagem uma pessoa hoje sem genero, estou terminando medicina e resolvi contar a minha vida e como cheguei aqui, me tornei que sou depois de minhas experiencias, um ser simplismente inrrotulavel

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