Cinco anos se passaram desde que o André deixou de existir, e o tempo, antes contado em conquistas profissionais, progressões de carreira e prazos contábeis rigorosos, agora é apenas uma massa disforme, viscosa e indistinguível de luz e sombra. Se alguém me perguntasse hoje, num momento de lucidez rara — daqueles que ocorrem no breve intervalo entre o fim de um serviço e o início de um desmaio por exaustão —, quem era aquele homem, eu não saberia responder com convicção. Para mim, André é um nome esquecido num arquivo morto de uma empresa que faliu há décadas; uma personagem secundária de um filme a que assisti na infância e cujos diálogos se perderam no ruído branco da minha mente saturada de trauma. Talvez tenha sido um colega de faculdade de quem perdi o contacto, ou um irmão distante que morreu cedo demais para deixar saudades reais. A única coisa que é palpável, 24 horas por dia, 365 dias por ano, é a Andrea. Ou melhor, a "Unidade 42", um ativo depreciado, marcado pelo uso excessivo e violento, mas ainda funcional no balanço patrimonial implacável de Valquíria.
O meu corpo, que um dia foi planeado como um templo de vaidade e o ápice de uma transição de luxo meticulosa, é agora um mapa geográfico de abusos, negligência sistémica e procedimentos estéticos que perderam a batalha contra a gravidade, o tempo e o descaso humano. O implante que rompeu naquelas noites brutais e húmidas do porto nunca foi tratado, removido ou sequer limpo; Valquíria decidiu, numa breve e fria chamada por telefone que selou o meu destino físico, que a deformidade no meu seio esquerdo — agora uma massa endurecida, fria e visivelmente assimétrica — me conferia um "charme bizarro e decadente". Segundo ela, essa "imperfeição de mercado" atraía um nicho específico de clientes sádicos e colecionadores de traumas, homens que sentiam um prazer adicional ao tocar na falha física de uma criatura que deveria ser perfeita. O meu busto, que um dia foi a glória da minha feminilidade em tons de rosa e branco, está agora descaído e marcado por estrias profundas e violáceas que parecem raízes de uma árvore morta a tentar sustentar o que resta da minha pele macerada.
A minha tez, outrora comparada por Valquíria a porcelana chinesa sob luz de estúdio, é hoje um mosaico de cicatrizes queloides e queimaduras de cigarro que servem de pontuação rítmica para o meu sofrimento. Estas marcas não são casuais; são cicatrizes de guerra de uma servidão que não conhece limites. Tatuagens baratas, feitas com agulhas sujas e tinta de baixa qualidade em garagens de beira de estrada, cobrem partes do meu corpo para esconder hematomas permanentes ou para marcar a minha casta. Madalena obrigou-me a tatuar códigos de barras sutilmente na parte interna das coxas e siglas na base da coluna para "identificar o lote do produto" à distância, garantindo que eu nunca fosse confundida com uma mulher livre ou com a propriedade de outra casa de hospedagem.
Eu vivo na Unidade Móvel agora, um contentor de metal itinerante e sufocante que cheira permanentemente a óleo diesel queimado, suor velho acumulado nas paredes de zinco e o desespero residual de outras como eu que não sobreviveram ao trajeto. O rosa ainda é a cor que domina a minha visão periférica, mas não é mais o rosa-pastel calmante dos quartos da mansão; é um rosa desbotado pelo sol inclemente, descascado pela ferrugem corrosiva e manchado pela imundície orgânica, tal como a pintura exterior da própria van que anuncia os nossos serviços nas clareiras de garimpo e nos acampamentos de lenhadores. O meu "uniforme" é uma túnica de rede de nylon rosa neon, um material áspero que não oferece proteção contra o frio cortante das madrugadas nem mistério para o olhar predatório, apenas acessibilidade imediata e total. A vergonha, aquele sentimento tão intrinsecamente humano que nos diferencia dos animais, morreu assassinada há muito tempo pela repetição mecânica e brutal de milhares de atos forçados, transformando-me numa carcaça vazia de pudor, uma boneca que já não sabe como corar porque o sangue no seu rosto é apenas o resultado de uma bofetada.
Não tenho mais cabelo para acariciar, perfumar ou pentear com escovas de prata. Madalena mantém a minha cabeça rapada todas as semanas com uma lâmina velha e cega que muitas vezes me corta o couro cabeludo, deixando crostas de sangue seco que nunca chegam a cicatrizar totalmente. A marca da rosa na minha nuca tornou-se uma cicatriz escura, saliente e sensível ao toque, um relevo táctil que os homens usam para segurar a minha cabeça com firmeza durante o serviço, como se fosse o cabo de uma ferramenta de trabalho pesada. Sou a escrava perfeita porque o sistema me retirou, um a um, todos os vetores de resistência: não tenho dinheiro, não tenho documentos de identidade, não tenho um nome legal perante o Estado e não tenho para onde fugir que não seja outro deserto de exploração igual ou pior. Sou propriedade exclusiva, vitalícia e absoluta de uma mulher que já mal se recorda do tom da minha voz original antes da terapia hormonal agressiva e do trauma vocal.
O domingo continua a ser o meu único ponto de referência frágil no calendário da servidão. Valquíria não se digna mais a aparecer pessoalmente para conferir a qualidade da "carne" ou a integridade dos seus ativos biológicos; ela envia seguranças de rosto impenetrável para recolher a parte dela do lucro gerado pelos meus ossos, músculos e fluidos. No entanto, por um sadismo refinado, intelectualizado e profundamente cruel que só ela possui, às vezes ela envia um pequeno envelope de papel de seda rosa, perfumado com a essência de gardénias que eu costumava usar na mansão, endereçado apenas à "Número 42".
Lá dentro, encontro invariavelmente a mesma relíquia: uma fotografia da Andrea nos seus breves e ilusórios tempos de glória. Na imagem, vejo uma criatura de cachos negros longos, lustrosos e vibrantes, vestindo um vestido de seda branca imaculada que flutua à sua volta, com um sorriso doce de quem acredita ingenuamente no futuro. No verso da foto, a caligrafia elegante e afiada de Valquíria repete a mesma sentença de morte psicológica: "Vê o que eu te dei? Vê o que você jogou fora por não ser suficientemente forte para manter o padrão? Você é o seu próprio fracasso, 42."
Aquela fotografia é, simultaneamente, o meu maior tesouro e a minha maior tortura. Eu olho para aquela imagem sob a luz trémula e azulada de uma lâmpada de bateria dentro da van e não consigo reconhecer-me nela. Aquela Andrea parece uma deusa de um reino esquecido, algo inalcançável, etéreo e divino comparado com o trapo humano manchado que ocupa este colchão de plástico pegajoso. Eu choro sobre a foto, as minhas lágrimas limpando por breves segundos a poeira e a gordura do plástico protetor, e percebo que o triunfo de Valquíria foi absoluto. Ela não me destruiu apenas fisicamente; ela aniquilou a minha capacidade de me recordar de quem eu era sem o comando dela. A minha memória, os meus desejos e até os meus pesadelos foram colonizados pela sua vontade soberana. Eu não sonho mais com a liberdade; sonho apenas que as fichas rosa de Madalena sejam suficientes para eu não ser castigada.
Sou Andrea 24 horas por dia, sem folgas, feriados ou interrupções de sanidade. Sou a submissa que aprendeu a agradecer silenciosamente pela dor, porque a dor aguda é a única coisa suficientemente forte para furar o nevoeiro da dissociação e me fazer sentir que ainda habito um corpo biológico. Sou a sissy que gera dividendos na poeira sufocante dos garimpos do norte e nas clareiras lamacentas de obras ilegais no meio da selva amazónica. Sou a boneca que não precisa de alma, identidade ou passado, apenas de um sistema respiratório funcional, uma abertura disponível e uma marca de dono bem visível na nuca. A minha utilidade produtiva é a minha única e última forma de existência reconhecida pela sociedade que me consome.
A Unidade Móvel é um mundo de sons metálicos e gritos abafados. O ranger da suspensão da van mistura-se com o som dos meus próprios ossos a estalar sob o peso de homens que nem sequer olham para o meu rosto. À noite, quando a van para e o silêncio da estrada nos envolve, o vazio é o mais assustador. Não há conversas entre as "unidades". Madalena proíbe qualquer tipo de laço humano; somos mercadorias isoladas em invólucros de carne. Eu olho para as minhas mãos, as unhas agora curtas, sujas e partidas, e lembro-me vagamente de quando eram longas, pintadas de um rosa perfeito e delicado. Aquelas mãos pertenciam a uma princesa; estas mãos pertencem a um animal de carga.
Enquanto a van avança aos solavancos violentos por uma estrada de terra batida no meio do nada absoluto, eu olho pela pequena e estreita fresta da janela de metal que range com o movimento incessante. O pôr-do-sol tinge o horizonte de um rosa pálido, doente e artificial, uma cor que é tragicamente idêntica à do plástico gasto e suado do meu colchão de espuma barata. Eu sorrio, um movimento reflexo de lábios rachados que não chega aos olhos mortos e sem brilho. O mundo inteiro transformou-se na minha gaiola cor-de-rosa, uma prisão sem muros ou grades visíveis porque eu já não sei o que significa ser livre, e a própria ideia de liberdade causa-me um terror paralisante. Eu teria medo da luz do sol se ela não estivesse filtrada pelo plástico rosa da minha cela itinerante.
Não há mais luta interna entre o homem que fui e a coisa que sou. O conflito entre o André e a Unidade 42 dissolveu-se na aceitação letárgica e absoluta do destino. O André é um fantasma que finalmente parou de gritar, de lutar e de me assombrar nos meus breves e febris sonhos de febre; ele desistiu de mim no momento em que eu desisti de sentir qualquer forma de esperança. Ele é uma casca vazia que a Andrea habita para poder continuar a sofrer. Resta apenas o ativo financeiro que respira com dificuldade. Resta apenas o silêncio pesado, denso e eterno da servidão total. Resta apenas a eternidade rosa da minha absoluta e irremediável insignificância. Estou, finalmente, em casa, no fundo do abismo que Valquíria cavou para mim com pás de ouro e seda.
FIM?
