O Barman e o Confeiteiro (Capítulo 5)

Um conto erótico de R. Valentim
Categoria: Gay
Contém 3741 palavras
Data: 14/03/2026 17:03:24
Assuntos: Gay, Sexo oral

Capítulo Cinco

Adriano

Sexta-feira. Quem inventou o trabalho presencial e a escala de call center definitivamente tem um lugar vip reservado no inferno, bem do lado da panela de óleo fervendo. Deixa eu te explicar uma coisa: acordar numa sexta-feira sabendo que você ainda tem que aturar cliente surtado no ouvido é um teste de sanidade que eu reprovo toda semana.

Eu me arrastei da cama com aquela cara de quem foi atropelado por um ônibus biarticulado da linha Antônio Bezerra/Papicu. Fui direto pra cozinha passar meu café, precisando de cafeína na veia pra conseguir abrir os dois olhos ao mesmo tempo. E, para variar, nem sinal do Ykaro.

A nossa casa não é uma mansão, dá pra ouvir quando alguém respira mais forte no corredor, mas essa semana o cara virou um fantasma. Se antes a gente já mal se via por causa dos horários malucos, agora parecia que ele tava ativamente me evitando ou tentando não existir no mesmo plano astral que eu. O prato dele não tava na pia, a toalha não tava no varal. Nada.

Caio, claro, já tinha a teoria dele pronta e embalada para presente. Na noite anterior, ele me mandou um áudio de três minutos no WhatsApp enquanto tirava a maquiagem da Carmen. A bicha peçonhenta não perdeu meio segundo: "Amiga, acorda pra vida. Aquele barman tatuado devia tá macetando a ruiva escondido em todo canto daquele pub. Agora que ela assumiu o pastorzinho do Luan, o bofé perdeu o brinquedo e tá aí, lambendo as feridas no escuro do quarto dele. Homem hétero, ou supostamente hétero, com o ego ferido é pior que gato escaldado, foge de todo mundo." Eu não sabia se o Caio tava certo com essa história de macetar a Stella, mas até que fazia sentido. O Ykaro tava muito mais na dele desde que o Luan apareceu com a aliança no dedo e aquele sorriso de comercial de creme dental. De qualquer forma, eu tinha meus próprios problemas e, sendo bem sincero, meus próprios tesões pra resolver. Eu não ia ficar servindo de babá pra marmanjo emburrado.

Como o meu turno no inferno só começava à tarde, peguei meu ônibus lotado rumo ao centro da cidade. Fortaleza ao meio-dia não é para amadores; é o próprio asfalto derretendo a sola do seu tênis. Fui encontrar o Luan no nosso restaurante self-service de lei, aquele que a comida tem gosto de alho, sal e sobrevivência.

Quando cheguei, o Luan já tava lá, com um prato que parecia uma montanha de pedreiro: arroz, feijão por cima, macarrão do lado, dois bifes e uma folha de alface jogada no canto só pra dizer que faz dieta. Mas o bofé tava com a cabeça na lua. Ele cortava a carne e olhava pro nada, com uma cara de abobado que só quem tá transando muito bem e tá perdidamente apaixonado consegue ter.

— Terra chamando Luan — estalei os dedos na frente do rosto dele, puxando a cadeira de plástico. — Dá pra focar no seu amigo solteiro e carente por dois minutos? Ou a Stella já sugou toda a sua capacidade cognitiva?

Ele piscou, meio perdido, e deu um sorriso culpado que quase me fez ter pena. Quase.

— Foi mal, Dri. Tô meio aéreo hoje. É que as coisas tão... muito boas. Mas diz aí, que foi? Aconteceu alguma coisa?

— É o Nathan — soltei de uma vez, debruçando sobre a mesa, quase derrubando meu copo de suco de caju. — Hoje é o último dia de treinamento dele comigo lá na empresa. A partir de segunda, ele vai pra uma baia do outro lado do andar e a gente mal vai se falar. Eu quero muito ficar com ele, Luan. Muito mesmo. O garoto é lindo, cheiroso, e me olha de um jeito que me dá calafrio. Mas o Caio já fez o inferno na Terra. Disse que eu sou viadinho emocionado, que eu não sirvo pra dar uns pegas sem me apegar, e que vou quebrar a cara de novo porque acabei de sair do lixo que foi o Leandro... Queria saber o que você acha. Eu vou fundo ou recuo?

Luan parou de comer. Ele mastigou devagar, engoliu, tomou um gole de água e me avaliou com aqueles olhos escuros e protetores. O Luan nunca foi de julgar, ele é o oposto da jararaca do Caio. Ele tem essa aura de irmão mais velho que só quer ver a gente bem.

— Vai na calma, Dri — ele disse, a voz grave e centrada, apoiando os braços imensos na mesa. — O Caio tem o jeito dele torto de se preocupar com você. Ele só não quer te ver chorando no sofá de novo. Mas eu não vejo problema nenhum de você tentar. Você é solteiro, o moleque também. Se você tá a fim e ele tá te dando condição, vai fundo. Só faz um favor pra você mesmo: não entrega o coração na primeira transa, beleza? E nem na segunda. Aproveita o cara, beija, curte, mas segura a emoção.

Eu suspirei, sentindo um alívio gigante. O aval do meu melhor amigo hétero era tudo que eu precisava.

— Valeu, gigante. Você é o melhor. Agora termina de comer que você tem que voltar pro banco e eu tenho que ir ser humilhado por cliente que não sabe ligar o modem da internet.

Terminei meu almoço rápido e segui pro trabalho. Chegar no call center naquela sexta-feira teve um peso diferente. Minhas mãos estavam suando frio. Era o último dia daquele garoto do meu lado na baia, e eu sabia que não ia ter outra chance tão fácil. Se eu não fizesse nada hoje, o Nathan ia virar só um "oi e tchau" no corredor.

Eu estava terminando de logar no sistema quando ele chegou. Puta que pariu. O Nathan devia ter estudado a arte de me desestabilizar. Ele apareceu com uma calça preta justa que deixava a bunda dele escandalosamente empinada, uma camisa social branca dobrada até os cotovelos, revelando os antebraços lisinhos, e aquele cheirinho de perfume doce que me deixava tonto e com vontade de morder o pescoço dele.

— Bom dia, Dri — ele disse, com aquele sorriso tímido de quem sabe que é o centro das minhas atenções.

— Bom dia, principezinho — respondi, tentando manter a voz firme.

Nós passamos a tarde inteira dividindo o mesmo headset. Toda vez que a gente precisava escutar a mesma ligação, ele se inclinava na minha direção. O ombro dele roçava no meu. O joelho dele, estrategicamente posicionado por baixo da mesa pequena, encostava na minha coxa e ele não afastava. Pelo contrário. De vez em quando, ele fazia uma pressãozinha sutil, esfregando o joelho na minha perna, o que mandava um choque elétrico direto pro meu baixo ventre. Eu tava no meio de uma explicação sobre roteadores, com a voz tremendo, e ele lá, brincando com a minha sanidade.

No meio do expediente, rolou uma ligação insuportável de uma cliente que gritava tanto que o fone vibrava. O Henrique, nosso supervisor — que é a encarnação do capeta na terra e não superou o fora que eu dei nele —, tava rondando a nossa baia feito urubu. Nathan percebeu o meu estresse. Ele tirou o fone do próprio ouvido, inclinou o corpo, chegou bem perto do meu pescoço e sussurrou:

— Se você tiver que ouvir a voz dessa mulher de novo, eu juro que puxo o cabo de energia do seu computador só pra te salvar.

O hálito quente dele bateu na pele sensível do meu pescoço. Eu me arrepiei do couro cabeludo até a ponta do dedão do pé. Olhei pra ele de rabo de olho. Ele tava com aquele sorrisinho de canto, o olhar escuro e penetrante.

— Se você fizer isso, o encosto do Henrique me demite por justa causa — sussurrei de volta, virando o rosto o suficiente pra nossas bocas ficarem a uns três centímetros de distância.

— Talvez valesse a pena — ele rebateu, sustentando o olhar. Os olhos dele desceram pros meus lábios antes de voltar pro monitor, num movimento tão rápido e safado que eu quase esqueci de respirar.

A tensão do caralho que se formou entre a gente foi me deixando maluco. Eu só queria uma brecha. Uma deixa mínima para enfiar a língua na boca daquele garoto.

O expediente pareceu durar três anos. Quando finalmente deu sete horas em ponto e o relógio marcou o fim do martírio, eu desloguei do sistema tão rápido que o computador quase travou. Meu coração já tava na garganta batendo feito escola de samba.

Nathan levantou, arrumou a mochila nas costas e veio na minha direção para o nosso já clássico abraço de despedida. Ele me apertou. O abraço durou vários segundos a mais do que o aceitável para "colegas de trabalho". Senti o peito dele contra o meu, firme. Quando ele ameaçou se afastar, eu tomei a frente. Segurei o braço dele, deslizando a minha mão até o pulso dele num toque propositalmente demorado.

— Nathan... — engoli em seco, tomando coragem e foda-se o medo. — Bora tomar um sorvete lá no shopping Benfica?

Os olhos dele brilharam na mesma hora. O sorriso que ele deu foi a coisa mais linda do mundo, e a malícia que eu vi ali confirmou tudo.

— Bora. Eu já tava achando que ia ter que te pedir eu mesmo, Dri. Ou você ia me deixar ir embora só com esse abraço xoxo?

Sorri, sentindo a vitória. Nós saímos do prédio e fomos caminhando até o shopping. O trajeto inteiro foi feito de ombros se esbarrando, risadas soltas e conversas jogadas fora. Compramos nossos sorvetes no quiosque do Bob's — eu peguei um de chocolate e ele um de morango — e fomos sentar numa das mesinhas mais afastadas da praça de alimentação, que tava lotada de universitários.

A conversa fluiu de um jeito muito fácil. É bizarro quando você conhece alguém e parece que as peças simplesmente se encaixam. Nathan me contou que aquele era o primeiro emprego de carteira assinada dele, que ele tava doido pra ter um pouco de independência e parar de pedir dinheiro pra tudo.

— Minha mãe é superprotetora, sabe? — ele disse, brincando com a pazinha vermelha do sorvete, levando à boca bem devagar. E aqui eu gostaria de dizer que eu mantive a postura, mas ver ele chupando aquela pazinha rosada, com os lábios úmidos, quase me fez perder totalmente o fio da meada da conversa. Puta merda, como ele era gostoso. — Ela acha que eu sou feito de vidro, que o mundo vai me engolir. Mas eu tô cansado de ser o filhinho perfeito debaixo das asas dela. Quero viver minha vida, tomar minhas próprias decisões. E fazer as minhas próprias merdas também, se for o caso.

Ele me olhou de um jeito tão intenso, tão direto, que eu tive que pigarrear para não demonstrar o quanto ele mexia comigo.

— Você não tem muita cara de quem faz merda, principezinho. Com essa carinha aí, você parece que saiu direto de um comercial de margarina. Menino de ouro.

Nathan deu uma risada baixa e rouca que desceu quente pelos meus ouvidos. Ele inclinou o tronco pra frente, apoiando os cotovelos na mesa, diminuindo a distância entre a gente.

— As aparências enganam, Adriano. Você acha mesmo que eu sou tão inocente assim?

— Não sei. Tô tentando descobrir — provoquei, sentindo a adrenalina do flerte tomar conta. — Mas confesso que você me distrai muito lá na baia. Hoje eu quase esqueci meu próprio nome quando você sussurrou no meu ouvido daquele jeito.

O sorriso dele aumentou. Ele não recuou, não ficou com vergonha, não desviou o olhar. O garoto tinha uma atitude que não combinava com a carinha de anjo.

— Era exatamente a intenção — ele confessou na cara dura, lambendo o restinho de sorvete do canto da boca com a ponta da língua. — Eu passei a semana inteira querendo chamar sua atenção, botando minha perna na sua, mas você é muito focado naquele computador velho. Tive que apelar.

Eu ri, completamente rendido. Enquanto ele falava, eu fiquei só admirando. O bicho era lindo demais. Uma parte muito trouxa, emocionada e romântica do meu cérebro já tava lá, maquinando e criando fanfic: "Será que é ele? Será que eu achei meu end game? Imagina a gente num domingo de manhã..." Eu sei, eu sou um viadinho emocionado, o Caio tem toda razão sobre isso, mas quando o negócio bate forte, não tem como segurar.

Saímos do shopping já passava das nove e meia. O ar da noite tava mais fresco. Fomos caminhando em direção à saída lateral, aquela que dá acesso direto para a estação de metrô. A rua tava mais vazia, a luz dos postes meio amarelada e falha. Eu tava lá, quieto por fora, mas calculando mentalmente o ângulo, a luz, o vento, arquitetando o plano infalível de parar no meio do caminho, olhar fundo nos olhos dele, soltar uma frase de efeito e dar o beijo da vida dele.

Mas eu não precisei fazer absolutamente nada.

Quando a gente chegou perto de uma pilastra de concreto larga, numa parte bem mais escura da calçada onde já tinha outro casal se engolindo sem pudor nenhum, o Nathan parou de andar de supetão. Eu olhei pra trás, meio confuso, e antes que eu pudesse abrir a boca pra perguntar o que foi, o principezinho puxou a gola da minha camisa com as duas mãos.

Ele me prensou contra a pilastra áspera e colou a boca na minha com uma urgência e uma agressividade que me pegaram totalmente de surpresa. Não teve beijinho técnico de novela, não teve timidez ou pedido de permissão. O beijo foi quente, absurdamente molhado e profundo. A língua dele invadiu a minha boca explorando tudo, sugando meu lábio inferior com uma vontade de quem tava passando fome.

O baque no concreto me fez soltar um gemido abafado. Passei os braços pela cintura fina dele, puxando aquele corpo menor pro meu com força, e foi aí que o menino mostrou a que veio e provou que a história de inocente era a maior farsa do século. O safado desceu uma das mãos pelo meu peito, escorregou reto pra minha barriga, e não parou no cinto. Ele enfiou a mão por cima do jeans, bem no meio das minhas pernas, e agarrou meu pau de uma vez só.

Ele apertou o volume por cima da calça com vontade, esfregando o polegar, enquanto a outra mão puxava os meus cachos na nuca.

Puta que pariu. Eu fiquei cego.

Minha cabeça girou, a razão foi pro espaço e o tesão bateu no teto. Eu perdi a compostura na hora. Comecei a meter a mão nele também, descendo pro quadril, apertando aquela bunda redonda e sarrando meu pau duro contra a mão dele e a virilha dele. A gente tava no meio da rua, qualquer pessoa que estivesse indo pro metrô ia ver a putaria rolando ali no canto, mas eu tava pouco me fodendo. O contraste daquele rostinho delicado com a pegada suja de quem sabia exatamente o que tava fazendo me deixou completamente e irrevogavelmente louco.

A gente ficou ali por um tempo que eu perdi a conta. Era um festival de troca de beijos babados, chupões no pescoço, respiração ofegante e muito atrito de quadril. O clima tava num ponto tão crítico que, se a gente não parasse naqueles dois minutos, eu ia acabar ajoelhando e mamando ele ali mesmo, atrás daquela pilastra imunda do Benfica.

Foi o toque estridente e irritante do celular dele que estragou a brincadeira e nos trouxe de volta pra realidade.

Ele parou, com a respiração arfando no meu queixo. A boca dele tava vermelha e inchada, o cabelo perfeitinho agora tava uma bagunça. Ele gemeu frustrado e pescou o aparelho no bolso da frente.

— Porra... é minha mãe — ele resmungou, revirando os olhos e me olhando com cara de desespero. Atendeu rápido, pigarreando antes de falar, tentando disfarçar a voz de quem tava prestes a gozar na calçada. — Oi, mãe... Tô indo, mãe, já tô entrando no metrô. Já tô na catraca. Tá bom, beijo.

Ele guardou o celular e me olhou com uma carinha de frustração que quase me fez cometer a loucura de botar ele num Uber e levar pro meu quarto.

— Tenho que ir de verdade, Dri. Se eu demorar ela infarta. Mas... eu adorei. Muito. E eu juro pra você que a gente não terminou isso aqui.

— Eu também adorei — respondi, rouco, dando um último selinho demorado nele, segurando a cintura dele mais um pouco, sem querer soltar. — Me manda mensagem quando chegar em casa. E se prepara, porque da próxima vez não vai ser no meio da rua e não vai ter ligação de mãe que faça eu parar.

Ele deu um sorriso malicioso, deu as costas, olhou pra mim uma última vez e desceu as escadas do metrô correndo.

Eu peguei meu ônibus da volta me sentindo o próprio dono do mundo. De verdade, eu não sentia meus pés tocarem o chão daquele sanfona. O trajeto inteiro eu fui sorrindo que nem um idiota pra janela suja, lembrando da pressão da mão dele me apertando, imaginando o que mais ele sabia fazer, repassando o beijo mentalmente.

Cheguei em casa flutuando numa nuvem de serotonina. Fui direto pra cozinha beber uma água gelada pra ver se baixava o fogo. Não deu nem cinco minutos que eu tava lá, a porta da sala abriu com aquele barulho característico de quem acha que o mundo é um palco. Era a Carmen SanFortal. Impecável, montada num vestido preto de couro colado, maquiagem intacta, a peruca perfeitamente fixada e aquela cara de quem sabe de todos os pecados da humanidade.

O Caio me viu na cozinha. Ele me olhou de cima a baixo, estreitou os olhos marcados com delineador gatinho e cílios gigantescos, e jogou a bolsa prateada no meu sofá. Ele sempre foi um leitor de almas absurdo. Ele bate o olho e já sabe a merda que você fez.

— Ih, eu conheço essa carinha de vagabunda feliz. Tá com cara de quem deu o cu ou chupou um pau muito bom hoje. Desembucha, Adriano. O que tu aprontou?

— Não fiz nenhum dos dois, sua palhaça mal comida — ri, me encostando na bancada da pia. — Mas eu fiquei com o Nathan. A gente foi tomar sorvete depois do trabalho e ele me pegou de jeito na saída do shopping, antes do metrô. Caio... ele é incrível. E é safado, viu? Muito safado. O bicho me prensou na parede e já foi direto metendo a mão no meu pau no meio da calçada.

Caio cruzou os braços, bateu um dos saltos no chão e assumiu imediatamente a postura de juíza do tribunal da minha vida.

— Adriano, presta muita atenção no que eu vou te falar, seu jumento. Você tem uma deficiência séria em não conseguir ficar com alguém sem se imaginar de véu, grinalda e financiando um apartamento pela Caixa. É só um bofé, cacete! Um novato de call center. Você acabou de sair de um trauma pesado com aquele doutor de merda. Não se entrega tão cedo, viado! Tu vai quebrar a cara de novo, tô te avisando.

Eu cruzei os braços também. Odiava quando o Caio queria me colocar na caixinha do sofredor.

— Eu não tô entregue coisa nenhuma! — menti na cara dura, porque no fundo do meu coração eu e ele sabíamos muito bem que eu já tava fazendo o enxoval mentalmente. — A gente só se curtiu. Qual é o problema de deixar o negócio rolar naturalmente? Eu beijei o garoto, foi bom pra caralho, e eu quero de novo. Você devia parar de fiscalizar o meu rabo e tentar fazer o mesmo com o seu, sabia?

Caio descruzou os braços, a postura se retesando na hora, já na defensiva. Ele não gostava quando eu virava o holofote pra ele.

— Lá vem você meter o meu nome no meio das suas loucuras, sua bicha doida.

— O Breno, Caio! Até quando você vai fazer o cara de otário? Até quando? O bofé é rico, lindo de doer, tem um pau que as gays de Fortaleza dizem que é uma lenda urbana de tão bom, e ele é completamente doido por você. Por que você fica fugindo? Por que faz o homem te esperar feito um cachorro na chuva?

— Eu não faço ele esperar merda nenhuma! — Caio rebateu, a voz subindo um tom, a pose impenetrável da Carmen vacilando por um milissegundo. — Eu não gosto dele, Adriano. Não desse jeito meloso e apaixonado que vocês inventam na cabeça de vocês. A gente é amigo, a gente curte o mesmo rolê e ponto final.

Eu olhei bem fundo nos olhos dele. Caio podia ser o melhor leitor de pessoas que eu conhecia, o psicólogo do nosso grupo, mas ele era péssimo, medroso e patético em ler a si mesmo. Ou melhor, ele sabia exatamente o que sentia, só tinha um pavor doentio de admitir que podia ser amado.

— Mentira — falei, sério, quebrando a brincadeira. — Você sabe muito bem que não é verdade. Você só tem tanto medo de perder o controle das coisas e de deixar o sentimento tomar de conta, que prefere sabotar o que tem com o Breno antes mesmo de dar uma chance de começar. Você morre de medo de ser a Carmen SanFortal, a inabalável, e descobrir que também quer alguém pra chamar de amor.

Caio me fuzilou com os olhos. A respiração dele até acelerou. Ele abriu a boca pra soltar um dos seus piores venenos, daquelas patadas que dói até no osso, mas fechou de novo. Deu as costas num giro dramático, pegou a bolsa no sofá e foi pisando duro pro meu quarto, onde a gente deixava as coisas dele de montação.

— Vai dormir, Adriano! — ele gritou de lá de dentro, batendo a porta. — E vê se sonha com a tua independência emocional, sua vagabunda de meia tigela!

Eu ri sozinho, balançando a cabeça. O Caio era uma fortaleza muito difícil de derrubar, mas o Breno era persistente e eu ia adorar ver quem ia ceder primeiro. Deixei meu copo vazio na pia, desliguei a luz da cozinha e fui pro meu quarto deitar no escuro, com a minha boca ainda lembrando exatamente do gosto quente do Nathan.

Se eu ia quebrar a cara lá na frente como o Caio profetizou, eu não sabia. Mas que eu tava mais do que disposto a pagar pra ver... ah, isso eu tava. Pode vir, principezinho. Eu tô pronto.

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