Água e Ouro p2

Um conto erótico de Gabs
Categoria: Gay
Contém 1014 palavras
Data: 17/03/2026 01:49:52
Assuntos: Gay

Oie, espero que gostem dessa história mineira, sedutora e perigosa. Bjos é boa leitura!O prédio da Andrade Mineração não era o maior da cidade.

Mas era o mais silencioso.

Erguia-se na lateral da praça principal de São Jerônimo do Vale, com suas paredes claras e janelas largas demais para um lugar acostumado a esconder coisas. Não havia placas chamativas, nem movimento excessivo. Apenas portas de madeira pesada e um fluxo constante — e discreto — de pessoas que entravam e saíam com passos medidos.

Diego parou diante da entrada por alguns segundos.

Observou.

Dois homens deixavam o prédio sem se encarar. Um terceiro aguardava do lado de fora, fumando, mas apagou o cigarro antes de entrar — não por educação, mas por cálculo.

Ali, tudo parecia calculado.

Diego ajustou o casaco e entrou.

O interior cheirava a madeira encerada e papel antigo. Um ventilador girava lentamente no teto, cortando o ar com um som ritmado, quase hipnótico. Atrás de um balcão, uma mulher de expressão neutra levantou os olhos.

— Bom dia.

— Bom dia. Sou Diego Ferraz. Fui chamado.

Ela não pediu documento.

Não perguntou mais nada.

Apenas pegou o telefone e falou, em tom baixo:

— Ele chegou.

Uma pausa.

Ela desligou e voltou a encarar Diego.

— Pode subir. Segunda porta à direita.

Nada de sorrisos. Nada de boas-vindas.

A escada de madeira rangia sob seus pés, como se cada degrau guardasse lembranças demais para sustentar silêncio. No andar de cima, o ar parecia diferente — mais frio, mais parado.

A porta estava entreaberta.

Diego bateu duas vezes.

— Entra.

A voz era firme, grave, sem pressa.

Ele abriu.

O escritório era amplo, mas não excessivo. Havia uma mesa grande de madeira escura, organizada com precisão quase cirúrgica. Nenhum papel fora do lugar. Nenhum objeto sem função aparente.

E, ao fundo, ocupando quase toda a parede, uma janela aberta para as montanhas.

Carlos Andrade estava de pé diante dela.

De costas.

As mãos apoiadas no parapeito, como se sustentassem mais do que o próprio corpo.

Por um instante, ninguém falou.

O vento entrou pela janela, leve, trazendo cheiro de terra úmida.

Carlos virou-se.

O olhar veio primeiro.

Direto. Avaliador. Sem pressa — como quem lê algo antes de decidir o que fazer com aquilo.

— Diego Ferraz — disse ele, finalmente.

Não era uma pergunta.

— Sim.

Carlos se aproximou alguns passos. O som do sapato no chão era seco, ritmado, quase calculado.

Parou a uma distância segura.

Nem perto demais.

Nem longe o suficiente.

— Achei que você fosse mais velho.

Diego sustentou o olhar.

— E eu achei que o senhor fosse diferente.

Um silêncio curto.

Mas carregado.

Carlos inclinou levemente a cabeça, como se examinasse melhor.

— Diferente como?

Diego não desviou.

— Menos… tranquilo.

Carlos sorriu.

Não um sorriso aberto.

Mas uma linha breve, quase imperceptível.

— Tranquilidade é uma ferramenta — disse ele. — Assim como o silêncio.

Uma pausa.

— Sente-se.

Diego permaneceu de pé por um segundo a mais do que o necessário.

Depois, sentou.

Carlos voltou para trás da mesa, mas não se acomodou imediatamente. Passou os dedos por um pequeno objeto de metal — um peso de papel, talvez ouro — antes de finalmente ocupar a cadeira.

— Seu currículo é bom — começou. — Técnico. Preciso. Sem exageros.

Abriu uma pasta.

— Trabalhou em estruturas subterrâneas antes.

— Sim.

— E saiu?

— Saí.

Carlos ergueu os olhos.

— Por quê?

Diego respondeu sem hesitar:

— Porque aprendi o suficiente.

Carlos o encarou por alguns segundos.

Longos o bastante para que a pergunta se transformasse em outra coisa.

— Aqui você também vai aprender — disse ele, fechando a pasta com cuidado. — Mas não só sobre engenharia.

O ventilador continuava girando.

Marcando o tempo.

Diego apoiou as mãos nos joelhos.

— Eu não vim só pelo trabalho.

Carlos não pareceu surpreso.

— Eu sei.

Aquilo quebrou o ritmo.

Por um instante, o ar pareceu mais pesado.

— Sabe? — repetiu Diego, mais baixo.

Carlos se levantou lentamente.

Deu a volta na mesa.

Parou novamente diante da janela.

— Todo mundo que chega aqui vem por mais de um motivo — disse, olhando para fora. — Uns procuram dinheiro. Outros, fuga.

Virou o rosto, apenas o suficiente para que Diego visse o perfil.

— E alguns… respostas.

O silêncio que se seguiu não era mais neutro.

Era um campo de tensão.

Diego se levantou também.

Deu dois passos à frente.

— E o senhor costuma dar essas respostas?

Carlos o encarou de novo.

Mais próximo agora.

Os dois de pé.

Sem a mesa entre eles.

— Não — disse ele, com calma. — Eu costumo decidir quais perguntas podem ser feitas.

O ar entre os dois parecia reduzir.

Como se o espaço físico já não obedecesse às mesmas regras.

Diego sentiu — contra a própria vontade — algo deslocado dentro de si.

Não era medo.

Não era raiva.

Era outra coisa.

Algo que ele não havia planejado.

— E se eu fizer a pergunta errada? — disse, quase desafiando.

Carlos deu um passo à frente.

Agora perto demais para conforto.

Mas longe demais para contato.

— Então você aprende rápido — respondeu. — Ou não aprende nunca.

O som do ventilador pareceu mais alto.

Ou talvez fosse apenas o sangue pulsando nos ouvidos de Diego.

Um segundo.

Dois.

Ninguém recuou.

Até que Carlos se afastou primeiro.

Como quem decide o momento de encerrar.

— Começa amanhã — disse, retomando o tom prático. — Às seis. A mina não espera.

Diego não se moveu imediatamente.

— E as respostas?

Carlos já voltava para a mesa.

— Elas também não.

Pegou um documento, como se a conversa tivesse acabado.

Mas antes que Diego saísse, falou, sem levantar os olhos:

— Ferraz.

Diego parou na porta.

— Sim?

Carlos ergueu o olhar pela última vez.

E agora havia algo diferente nele.

Algo mais profundo.

Mais perigoso.

— Aqui, a terra guarda o que a gente tenta esconder.

Uma pausa.

— Inclusive a gente mesmo.

Diego segurou a maçaneta.

— Então é melhor cavar fundo.

Carlos sustentou o olhar.

— É exatamente isso que me preocupa.

Diego saiu.

A porta se fechou com um som seco.

Lá fora, o ar parecia mais leve — mas apenas na superfície.

Porque, pela primeira vez desde que chegara, ele teve certeza de uma coisa:

ele não estava mais no controle.

E, em algum nível que ainda não compreendia totalmente…

Carlos Andrade também não.

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