Numa Tarde Chuvosa

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2424 palavras
Data: 02/03/2026 22:00:44
Última revisão: 02/03/2026 22:26:35

Depois daquela manhã, algo mudou entre nós, não de forma explosiva, mas sutil. Não foi um anúncio, não foi uma conversa definidora. Foi postura. Eu percebi primeiro nos pequenos detalhes. Rodrigo já não provocava apenas por esporte. Havia intenção agora, mas também cuidado. Ele parecia menos interessado em me testar e mais disposto a estar comigo.

Rodrigo passou a me encarar sem desviar. Não era mais o olhar desafiador de antes, nem o deboche adolescente. Havia intenção clara ali. Uma certa firmeza.

Por minha vez, eu já não congelava com tanta facilidade. Ainda havia aquele segundo de hesitação, traço antigo, quase estrutural, mas eu começava a atravessá-lo. Eu aprendia a sustentar o olhar dele de volta, a responder com um meio sorriso. Aprendia que desejo não precisava ser culpa.

Na vida cotidiana, mantínhamos discrição. A cidade pequena não era cenário para imprudência ou para ousadias. De qualquer maneira, nós dois não éramos inseparáveis. Na realidade, nós tínhamos relativamente poucas coisas em comuns, gostos muito diferentes, e personalidades bem distintas. Então não era como se, de repente, criássemos um relacionamento profundo um com o outro. Continuávamos circulando entre nossos próprios grupos.

Mas agora existia uma linha invisível nos ligando. Havia códigos. Um olhar que demorava. Um comentário com duplo sentido que só nós dois entendíamos. Às vezes, no meio de uma conversa qualquer, Rodrigo encostava de leve no meu ombro ao passar. Um toque que permanecia meio segundo além do necessário, breve demais para ser notado por outros, mas suficiente para acender algo por dentro.

Eu me surpreendia com a própria leveza. Nas relações que eu havia experimentado antes, tudo era carregado de densidade emocional. Havia sempre algo a provar, algo a disputar, algo a decifrar. Com Rodrigo, não. Era mais físico, mas não superficial. Era mais direto, mas não vazio. Era como se a história antiga entre nós tivesse criado um alicerce silencioso.

A outra ocasião em que ficamos juntos aconteceu numa tarde chuvosa. Daquelas em que o céu de Minas pesa baixo e o cheiro de terra molhada invade as janelas. A irmã de Rodrigo tinha saído para resolver coisas da faculdade. A mãe estava trabalhando. O pai, como quase sempre, viajando.

Eu passei lá depois da aula com a desculpa de estudar. Mas nenhum dos dois acreditava muito nisso. A chuva batia forte no telhado, criando uma espécie de isolamento acústico natural. A casa parecia mais fechada, mais íntima.

Nos sentamos no quarto de Rodrigo, livros abertos sobre a cama, mais para encenar mesmo. O ar no quarto estava pesado, carregado de uma expectativa que nem ousávamos nomear. Algo havia mudado. A barreira invisível que mantinha a nossa amizade firmemente no campo do platônico tinha começado a rachar e, agora, sob a luz fraca da tarde chuvosa, as rachaduras se alargavam.

Tentamos manter a aparência de concentração por alguns minutos. Mas o silêncio entre uma explicação e outra parecia pesado demais. Foi Rodrigo quem o quebrou primeiro.

— Vai querer estudar mesmo?

Eu ergui os olhos.

— Depende do que você chama de estudar.

A palavra ficou no ar. Eu fechei o livro devagar.

— Você ainda faz isso — ele disse.

— Isso o quê?

— Fica sério quando tá nervoso.

Eu respirei fundo.

— E você ainda provoca quando quer alguma coisa.

Rodrigo não sorriu dessa vez. Se levantou sem pressa, decidido. Se sentou ao meu lado na cama, o coração a martelar no peito com uma força que o assustava. Ele olhou para mim, a apoiar a cabeça na mão, com um olhar que era ao mesmo tempo desafiador e convidativo.

A distância entre nós dois diminuiu naturalmente, até não haver mais espaço para ironias. Não houve desafio explícito. Não houve provocação performática. Houve decisão. Sem uma palavra, estendi a mão e toquei levemente no joelho de Rodrigo. O simples contato fez uma corrente elétrica percorrer o corpo dele, um arrepio que não tinha nada a ver com a chuva lá fora.

E eu continuei. A minha mão subiu lentamente pela coxa de Rodrigo, o tecido do seu short a criar uma fricção estimulante sob a palma da minha mão. O mundo lá fora desapareceu, só existia nós dois, o quarto, e a tensão crescente entre nós.

Rodrigo retribuiu o toque, os dedos dele encontrando o meu pulso. A minha pele quente. Rodrigo levou a mão ao meu rosto, como fizera naquela manhã, mas agora com menos urgência e mais intimidade. Não houve pedido verbal.

Nos aproximamos até que os nossos rostos estivessem a poucos centímetros de distância. Eu podia sentir o calor da respiração de Rodrigo, ver a dilatação das suas pupilas castanhas. Então, com uma hesitação que durou apenas um segundo, eu o beijei. O beijo começou tranquilo, quase exploratório. Não foi um beijo tímido. Foi um beijo profundo, carregado de anos de desejo reprimido.

Os meus lábios eram firmes e exigentes, e Rodrigo respondeu com a mesma fome, abrindo a boca para deixar a minha língua encontrar a sua. Era um beijo de descoberta, de mapeamento, de promessas não ditas. As nossas mãos encontraram os corpos um do outro, se agarrando às costas, aos ombros, nos puxando para mais perto como se quiséssemos nos fundir num só ser.

Mas havia algo diferente. Havia menos hesitação e mais reconhecimento. Eu não estava apenas reagindo; estava conduzindo. As minhas mãos não ficaram indecisas no ar, elas já sabiam onde repousar. Encontraram o corpo de Rodrigo com curiosidade segura. Percorreram costas, ombros, a linha firme do peito sob a camiseta. Quando puxei Rodrigo pela camisa, foi um gesto consciente.

Rodrigo respondeu com a mesma intensidade crescente. O contato deixou de ser teste e se tornou diálogo. A chuva lá fora intensificava a sensação de clausura. Como se o mundo tivesse encolhido para aquele quarto, o barulho da rua, o latido de um cachorro ao longe, tudo abafado pela nossa respiração entrecortada.

A respiração de ambos se tornou ofegante entre os beijos. As minhas mãos, agora mais ousadas, deslizaram por baixo da camisa de Rodrigo, sentindo a pele quente e o contorno dos músculos das suas costas.

Rodrigo soltou um gemido abafado contra a minha boca, um som que era puro prazer e surpresa. Eu ansiava por sentir cada centímetro da sua pele, fazia anos que esse desejo me consumia, e poder realizá-lo era uma conquista inimaginável.

A minha própria mão, trêmula, encontrou a camisa de Rodrigo e a puxou, ansioso por sentir mais da sua pele. Nos separamos apenas o tempo suficiente para nos livrarmos das nossas camisas, as atirando para um canto do quarto sem olhar para trás.

Quando nos deitamos na cama, não abruptamente, mas numa transição quase inevitável, o que se descobria não era apenas o corpo do outro. Rodrigo me pressionou contra o colchão, mas não com força, com firmeza. Era ritmo. Era temperatura. Era o ponto exato entre avanço e espera.

Agora, peito contra peito nu, a sensação foi avassaladora. O calor, a textura da pele, a batida dos corações um do outro. Eu empurrei suavemente Rodrigo, o fazendo recuar na cama até que estivesse deitado de costas.

Eu fiquei por cima dele, apoiado nos cotovelos, e simplesmente o observei por um momento. O cabelo castanho despenteado, os lábios inchados e úmidos, o peito a subir e a descer rapidamente, os pelos que nasciam em torno dos seus mamilos rosados. Era um quadro de vulnerabilidade e desejo, e eu senti uma onda ardente de possessividade.

Eu percebi que, com Rodrigo, o desejo vinha acompanhado de riso contido, de respirações entrecortadas que terminavam em sorrisos cúmplices. Não havia peso dramático. Não havia culpa esmagadora depois do toque. Havia prazer, mas também curiosidade genuína. Nada ali era sobre dominar, era sobre experimentar.

Eu comecei a beijar novamente, mas dessa vez a jornada foi para baixo. Beijei o maxilar, o pescoço, a garganta, mordiscando a pele com delicadeza e ouvindo os soluços de prazer de Rodrigo. A minha mão desceu pelo torso dele, sentindo os músculos da barriga se contraírem sob o meu toque.

Parei na cintura, meus dedos a brincar com o elástico do seu short, um questionamento silencioso. Houve aquela pausa essencial, o olhar que pergunta. Eu respondi me aproximando ainda mais. Rodrigo respondeu arqueando o quadril, um movimento involuntário que pedia mais. O toque deixou de ser curioso para se tornar intencional. A descoberta era mútua, perceber como o outro reagia, onde a respiração falhava, onde a pele arrepiava.

Nossos corpos se aproximavam como quem aprende um idioma novo, errando, ajustando, tentando de novo. Um riso nervoso escapou quando quase caímos da cama. A tensão tinha calor, mas também tinha cuidado.

As mãos exploravam com mais liberdade, mas não sem respeito instintivo. Cada reação do outro era observada com atenção quase cuidadosa. Rodrigo murmurou algo baixo, mais sensação do que frase. Eu senti o meu próprio nome sussurrado contra a minha pele e percebi o quanto aquilo me afetava. Isso me desarmou. Não era só excitação. Era reconhecimento.

Com a confiança de que precisava, puxei os shorts de Rodrigo. Eu desci lentamente, beijando o peito e a barriga dele no caminho. Quando finalmente tirei sua cueca verde, a última peça de roupa, o membro de Rodrigo estava ereto e pulsante contra a barriga, um testemunho claro do seu desejo. Rodrigo sentiu uma onda de exposição, mas o olhar de admiração nos meus olhos dissipou qualquer insegurança.

E então, fiz algo que Rodrigo nunca esperou, algo que ele só tinha visto em filmes e fantasiado em segredo. Eu inclinei a cabeça e, com uma hesitação que se dissolveu em pura determinação, envolvi a cabeça do pau dele com a boca.

Um grito agudo de choque e prazer escapou dos lábios de Rodrigo. Era a primeira vez que ele recebia um boquete. A sensação foi indescritível. O calor úmido e envolvente da minha boca, a textura suave da minha língua a roçar a pele sensível, a pressão delicada, mas firme.

Era um universo de novas sensações a explodir no seu cérebro. Ele tinha tentado manter a pose de experiente, de autoconfiante, mas naquele momento, toda a fachada se desmoronou, deixando apenas um adolescente a sentir pela primeira vez um prazer que o ultrapassava completamente.

Eu movi a cabeça para cima e para baixo, lentamente no início, aprendendo o ritmo, a resposta do corpo dele. Eu usava a língua com uma habilidade que o deixava tonto, traçando veias, explorando a base (afinal, tinha trabalhado muito nos cacetes de Leandro, Heitor e Rafael, antes de Rodrigo).

As minhas mãos também não estavam paradas, uma acariciava a coxa interna de Rodrigo, aumentando a sensação, enquanto a outra se movia em sincronia com a minha boca, estimulando o que não conseguia abranger do seu pau. Rodrigo estava completamente perdido, as mãos agarradas aos lençóis, a cabeça atirada para trás, gemidos incoerentes a saírem da sua garganta.

Naquele mar de prazer avassalador, um instinto tomou conta de Rodrigo. Ele queria retribuir. Queria dar a mim o mesmo sentimento de êxtase que estava a receber. Com um esforço sobre-humano, ele abriu os olhos e olhou para baixo, para a minha imagem a servi-lo com tanta dedicação. Me puxando suavemente pelo cabelo, ele sussurrou: "Eu também... quero te tocar."

Eu parei, olhando para cima com os lábios brilhantes e um sorriso satisfeito. Mudei de posição, me deitando ao lado de Rodrigo, permitindo o acesso. A mão de Rodrigo, ainda um pouco insegura, encontrou o meu pau, igualmente duro e pronto. Ele começou a me punhetar, imitando o ritmo que sentira momentos antes. Para ele, era estranho e excitante sentir o peso e a textura da pica de outro homem na sua mão, sentir a minha resposta imediata ao seu toque.

Nós ficamos assim por um longo tempo, um a dar prazer ao outro com as mãos e a boca. Eu voltei a pegar no membro estalando de Rodrigo, e os nossos corpos se moveram num ritmo sincronizado, um dueto de gemidos e respirações ofegantes.

Era um momento de descoberta total, de entrega sem reservas. As nossas inseguranças, as nossas poses, tudo se tinha desfeito, deixando apenas a crua e honesta partilha de desejo. O quarto estava cheio do nosso som, um som que era mais íntimo do que qualquer conversa que jamais tínhamos tido. O mundo exterior não existia; só havia o calor, o toque, e a promessa de um clímax que se aproximava rapidamente para ambos.

Quando o momento se intensificou, não houve pressa em ultrapassar limites. Havia desejo suficiente no que já estava acontecendo. E isso me surpreendeu. Antes, a intensidade sempre parecia exigir mais. Um passo além. Um risco maior. Com Rodrigo, o que havia já bastava.

O momento cresceu até se tornar grande demais para o quarto pequeno, e explodimos juntos num gozo súbito. Nós acabamos sentados na cama, encostados na parede, rindo entre beijos, respirando fundo para recuperar o controle. Não avançamos além do que ambos estávamos prontos para viver, naquele momento. Mas o suficiente aconteceu para que não restassem dúvidas entre nós.

Quando finalmente desaceleramos, ficamos deitados lado a lado, respirando pesado, olhando para o teto. A chuva diminuía. Rodrigo virou o rosto, seus olhos castanhos estavam mais suaves.

— Dessa vez você não ficou parado — ele disse, com aquele sorriso que misturava orgulho e desafio.

Eu passei a mão pelo próprio cabelo, tentando reorganizar a respiração.

— Eu tô melhorando.

Rodrigo encostou a testa na minha.

— Você ainda vai fugir?

Eu pensei na pergunta. Pensei em tudo que fizera até ali na minha vida, nos amores mal resolvidos, na necessidade de intelectualizar sentimentos, na tendência de transformar afeto em teoria. Porque ali não havia passado para competir. Não havia triângulo amoroso, não havia sombra de ninguém. Era presente. E isso era quase assustador.

— Não — respondi, dessa vez sem hesitar.

E percebi que estava dizendo mais do que parecia. Rodrigo se aproximou. Não houve promessa. Não houve definição. Mas houve algo mais raro: tranquilidade depois do desejo. Eu percebi que talvez estivesse aprendendo uma forma diferente de me envolver. Menos dramática, menos performática. Mais presente. E isso, para alguém que sempre confundiu intensidade com profundidade, era uma descoberta quase revolucionária.

Naquela tarde, voltei para casa com uma sensação inédita. Não era euforia descontrolada. Não era culpa. Não era a necessidade de justificar o que sentia. Era tranquilidade inquieta.

Como se algo finalmente estivesse no lugar certo, ainda frágil, ainda novo, mas honesto. Eu percebi que, pela primeira vez, não estava buscando intensidade para me sentir vivo. Estava apenas permitindo. E talvez o que tornava tudo mais íntimo não fosse o calor dos encontros. Era o fato de que, depois deles, eu não sentia necessidade de fugir.

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