Oito horas de estrada. Eu deveria ter parado o carro e dado meia-volta. Débora ia se casar. Já era. Mas o idiota aqui continuou indo.
Aquilo tinha passado da conta havia tempo. Olhares longos demais, sorrisos que ficavam depois da conversa. Dei tanto na cara que no centenário da cidade, uma prima percebeu e me cutucou durante a festa.
Mas quando soube do casamento, juro que tentei me afastar. Tentei mesmo.
Débora tinha entrado na vida do Juliano uns sete anos antes. A família se encantou com ela logo de cara. Não tinha como ser diferente. Gentil, atenciosa. Fazia um bolinho de queijo que derrubava qualquer coração duro. O cabeça dura do Tio Zé que o diga.
Virou figurinha carimbada nas noites de truco da família. Foi aí que a gente se aproximou de verdade. E sabe quando rola aquela sintonia instantânea? Aquelas noites eram intensas, abraço que demorava, a mão no ombro por tempo demais. E aquele jeitinho de falar perto? Quando percebi, já estava fisgado.
Teve um dia que rodei a cidade toda atrás do tal vinho que ela gostava. Voltei com a garrafa na mão e uma coisa ruim no peito.
Mas eu não era o único a cobiçar aquela mulher. Eu via os olhares, as brincadeiras só pra chegar perto. Só que, admito, eu era o que mais dava na cara. Acho até que Juliano sabia, os olhos dele às vezes cruzavam os meus e ficavam por um segundo a mais, mas nunca falou nada.
Até hoje não sei se ela entendia o efeito que causava. Talvez. Talvez preferisse deixar assim.
Mas na última vez, algo escapou.
Era Carnaval. Saímos num bloquinho da cidade. Ela de bailarina de frevo, saia curta de tule multicolorida balançando a cada passo, fitas presas no cabelo voando com o vento, blusinha branca grudada no suor, guarda-chuva colorido girando na mão.
Naquele dia eu tinha que sair antes do fim do bloco pra pegar o ônibus de volta pra São Paulo.
Na despedida, no meio da multidão de foliões, ela veio jogando os braços por cima dos meus ombros. Apertei a cintura dela, a puxei pra mim. Rostos colados. Risos. As unhas dela subiram pela minha nuca arranhando de leve.
— Eu te amo — ela sussurrou, hálito quente de cerveja misturado ao perfume doce.
Puta que pariu.
O corpo dela colou no meu, suas coxas roçando na minha calça, o calor subindo. Senti ela tremer de leve… ou era eu? Débora mordiscou meu lábio inferior e se afastou, olhos ainda grudados nos meus.
Ficamos nos olhando. O som do bloco pulsava ao fundo, mas o mundo estava parado.
Juliano, que tinha ido mijar, apareceu do nada, puxou ela pela cintura com aquele jeito desengonçado dele e continuaram seguindo o bloco.
Eu fiquei parado uns segundos, depois virei e fui embora, pernas moles, o estômago revirando.
No ônibus, a mão subia aos lábios sem mandar. Olhava pela janela escura sem ver porra nenhuma. Aquilo não saía da cabeça. Quando percebi, estava rindo sozinho feito idiota.
E agora, menos de um ano depois, lá estava eu. Encostado num canto da igreja, vendo Débora entrar. Linda. O pai ao lado. Ela me viu, sustentou o olhar por um instante, os olhos brilhando como no bloquinho. Merda. Na festa, a cachaça de Seu Antunes ajudou a empurrar tudo goela abaixo, mas não apagava a imagem dela de véu e grinalda.
Quando voltaram da lua de mel, Juliano chamou a turma pra conhecer a casa nova. Eu ainda estava na cidade. Não consegui evitar. Era sempre assim.
Fui.
Estavam os de sempre. Os salgados da tia Valdete sumindo das bandejas. O CD No Compasso do Criador, do Katinguelê, rodando sem parar, aquela melodia romântica zombando da minha cara.
A atenção do casal disputada. Débora, empolgada, testava a máquina de café que ganharam, enchendo xícaras de cappuccino pras tias.
Sentei na mesa do truco e larguei as cartas na segunda rodada. Fui pro quintal, joguei uma coxinha pro Brutus.
— Cê tá gordo, hein, bichão!
O cachorro pegou, me olhou como se dissesse “olha quem tá falando” e deitou ali mesmo.
Fiquei ali, parado, olhando o céu. Meio sem saber o que fazer.
— Apaixonado pelas estrelas?
Era Débora, no batente da porta. Pés descalços. Cabelo preso. Blusinha. Short curto, o tecido colado na pele. Covardia.
— E tem como não ficar?
Ela chegou perto, juntando o cabelo num coque.
— Fiquei feliz que cê veio.
— Não perderia. Você sabe.
Silêncio.
— Acho que te devo desculpas.
— Carnaval… você já tinha tomado umas cervejinhas...
— Nem me fala. Passei muito mal naquele dia.
O assunto morreu por um instante.
— Estamos bem então? — abriu os braços.
Assenti.
As mãos vieram no meu peito e subiram até os ombros. Fechei os braços nela, minha mão aberta subindo por suas costas. Rocei a barba no pescoço. O som que escapou daqueles lábios acabou com o resto de juízo que me restava.
Não aguentei. Levei a mão à nuca, segurei firme e encaixei meus lábios na sua boca. A língua entrou, encontrando a outra no mesmo desejo faminto.
Os dedos dela desceram, tímidos, me encontrando duro por baixo da calça. Abri o zíper, olhei pra porta, pra janela. Ninguém dava falta da gente.
Segurou firme.
Começou lento, a palma subindo e descendo, apertando meu pau. Ganhando força conforme o beijo desandava.
Caralho…
O latido do Brutus rasgou o quintal. Filho da…
Débora se afastou e entrou rápido na casa.
Fiquei ali, parado, feito troxa. E juraria que vi o cachorro rindo da minha cara.
— Porra, Brutus…
Mais tarde, no quarto, não consegui pregar os olhos. Fiquei olhando o teto. O cheiro dela ainda grudado em mim. Na pele, no lençol, na barba. Virava de um lado pro outro, inquieto. Quando cochilava, acordava logo depois, o coração acelerado. Fui assim até a luz da manhã.
Tomava café quando uma moto parou na frente. Olhei pela janela. A caneca quase caiu.
Juliano. Fodeu.
Fui até a frente da casa com as pernas bambeando.
— Que milagre, primo. Acordou cedo, hein? Já ia deixar isso com teu pai.
Como de costume, trazia o queijo da fazenda onde trabalhava. Isso seria a última coisa de que me lembraria.
— Pois é… preciso resolver umas coisas antes de ir.
Falamos de futebol, lembramos de presepadas do passado, até o nome dela surgir.
— Débora acordou meio indisposta. Nem foi trabalhar.
O estômago apertou.
Juliano ajustou o capacete.
— Mas ela falou que vai ficar brava se você não passar lá.
Alívio.
— Eu passo.
No começo da tarde, fui até a casa.
Débora abriu o portão antes do segundo toque.
— Ah, seu… por que demorou tanto?!
O portão fechou e a boca já estava na minha. As roupas foram ficando pelo caminho. Na sala, agarrei as coxas dela, colei na parede e entrei. As unhas afundaram no meu braço. A pele ardia.
No quintal, Brutus latia sem parar enquanto eu fodia sua dona. Dava pra ouvir as patinhas raspando na porta da cozinha.
Fomos pro quarto. A cama deles.
Ela sentou na beira. Cheguei perto, segurei o pé e levei à boca. Meu ponto fraco. Sempre foi. Apreciei sem pressa, a língua traçando o arco, contornando os dedos.
Desci pelos tornozelos, pelas pernas, devagar. Quando encostei a língua no clitóris, o corpo respondeu inteiro. Um tremor subindo pelas coxas, as pernas se abrindo mais. Segurando as coxas, trouxe ela mais pra perto. Abocanhei.
Chupava com fome. Alternava levando dois dedos à boceta dela. Socando, sentindo ela apertar em volta, depois colocando rápido, curvando os dedos pra acertar o ponto que a fazia gemer mais alto.
Débora apertava o lençol, se contorcia, o gemido escapando abafado.
Virei ela de costas e entrei outra vez, dedos entrelaçados no cabelo, puxando devagar, fazendo-a arquear as costas e empinar.
Ela pedia mais. Pra eu fodê-la mais forte.
Firmei a cintura e acelerei. Aquele cuzinho me provocava. Encostei o dedo, testando. Ela deixou. Gemeu baixo, empurrando de leve contra mim. Não fiz rodeio, cuspi e afundei meu pau ali. Devagar no início, sentindo a resistência ceder, o calor me envolvendo.
O gemido dela tomou o quarto.
— Desgraçado…
Me xingava de tudo que era nome. Ali perdi a mão. Meti fundo, sem controle. Só barulho de pele contra pele, respiração falhando e a cama batendo na parede.
Então caímos.
Exaustos.
— Nossa… não dormi nada — ela confessou.
— Juliano apareceu cedo lá em casa. Achei que tinha dado merda — passei a mão no rosto, olhando o teto, perdido. — Ninguém pode nem sonhar.
Ela riu.
— Alguém sempre sonha.
Levantei o olhar.
— Ah é?
— Já me perguntaram se eu já tinha ficado com cê.
— Só pode ser Suelen. Ela vive me amolando.
Ela sorriu.
— A própria.
Ficamos mudos por um instante.
Débora montou em mim.
— Olha. Não sei o que é isso… o que a gente tem — disse, os dedos subindo pelo meu peito —, mas eu gosto.
Queria ter dito que a amava. Qualquer coisa. Mas não saiu.
Ela se inclinou, me beijou e se ajeitou sobre mim, já querendo de novo. E eu estava pronto. Segurando meu pau, ela o levou pra entrada e começou a se mover sem tirar os olhos dos meus. Sorrindo. Caralho. Linda demais.
Gozamos juntos. De novo.
Horas depois, estava de volta à estrada. As marcas das unhas de Débora ainda vivas na pele. Cada quilômetro mais longo que o outro.
Nos dias seguintes, tentei seguir, mas a angústia só crescia. Débora sumiu. Nem aquelas provocações por SMS quando o time dela ganhava. O celular quieto. Hora após hora. Dia após dia. Quando a mensagem chegou, eu já desconfiava.
Li mais de uma vez.
Cada linha mais dura que a outra.
— Merda…
Vicente Braga
VicenteBragaCortez@Gmail.Com
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