Depois daquele sábado na academia, as coisas começaram a mudar, mas de um jeito tão sutil que eu quase conseguia me convencer de que não estava acontecendo nada.
Na segunda-feira seguinte, Pedro chegou mais cedo na sala. Quando entrei, ele já estava na terceira fileira, como sempre. Só que dessa vez, quando eu terminei a aula sobre direitos fundamentais, ele não saiu logo. Ficou esperando os outros alunos irem embora e se aproximou da minha mesa novamente.
— Professora, obrigado pela indicação dos livros na semana passada. Eu li o trecho que a senhora sugeriu sobre o STF e o ativismo. Realmente mudou minha visão sobre alguns pontos.
Eu sorri, guardando meus materiais com calma.
— Fico feliz que você tenha lido, Pedro. Poucos alunos do primeiro semestre se dedicam tanto.
Conversamos por uns dez minutos sobre o tema. Ele fazia perguntas inteligentes, discordava educadamente de alguns pontos que eu havia defendido em aula e defendia sua opinião com argumentos sólidos. Eu me peguei gostando da conversa. De verdade. Era raro ter um aluno tão engajado, tão curioso. Ele me tratava com respeito, mas havia uma naturalidade que fazia a conversa fluir fácil.
No final, ele disse:
— Se a senhora tiver tempo algum dia, eu adoraria ouvir mais sobre sua experiência como professora e advogada. Deve ser incrível equilibrar tudo isso com a família.
Foi um elogio leve, mas tocou em um ponto que eu raramente ouvia. A maioria das pessoas só via a “professora bonitona” ou a “mãe perfeita”. Ele pareceu genuinamente interessado na minha vida.
— Quem sabe um dia — respondi, mantendo o tom profissional. — Agora vai, que você ainda tem outras aulas.
Ele sorriu, aquele sorriso de canto que eu já estava começando a reconhecer, e saiu.
A partir daí, as conversas depois da aula viraram quase rotina. Não todo dia, mas duas ou três vezes por semana. Sempre sobre Direito, sobre casos famosos, sobre carreira. Ele me contava que morava com os pais, que trabalhava meio período numa livraria pra ajudar em casa, que sonhava em passar no concurso pra magistratura. Eu contava um pouco sobre minha trajetória: como conciliei a gravidez do Theo com o mestrado, como Paulo sempre me apoiou. Nunca falei nada íntimo. Nada sobre meu casamento, nada sobre minha vida sexual. Só o básico.
Mas eu percebia que gostava cada vez mais daqueles minutos depois da aula. Me sentia… viva. Estimulada intelectualmente. E, sim, fisicamente também. Quando ele se inclinava um pouco sobre a mesa pra mostrar alguma anotação no caderno, eu sentia o cheiro dele: sabonete simples, suor limpo de quem veio direto da faculdade. Jovem. Diferente do cheiro maduro e familiar do Paulo.
Na academia, nos encontramos novamente no sábado seguinte. Dessa vez não foi surpresa. Eu já esperava, no fundo. Ele me cumprimentou com um “Bom dia, professora” simpático e treinamos perto um do outro. Conversamos entre as séries: sobre música, sobre filmes, sobre como ele gostava de correr de manhã pra clarear a cabeça. Ele elogiou meu treino de glúteos de forma indireta:
— A senhora tem uma disciplina impressionante. Dá pra ver que os resultados vêm com consistência.
Eu ri, um pouco sem graça, e mudei de assunto. Mas senti um calor subir pelo pescoço. Quando eu estava no aparelho de abdômen, deitada, ele passou por perto e, por um segundo, nossos olhares se cruzaram no espelho. Ele não desviou. Eu também não. Foi só um segundo, mas meu coração acelerou como se eu tivesse feito um sprint.
Em casa, as coisas continuavam normais. Paulo e eu transamos na quarta-feira à noite. Foi bom, como sempre. Ele me beijou com carinho, me virou de quatro, me comeu com vontade. Eu gozei. Mas, quando fechei os olhos no momento do orgasmo, a imagem que veio foi a de Pedro na academia, suado, me olhando pelo espelho. Eu me senti culpada na hora. Depois do sexo, enquanto Paulo dormia, eu fiquei acordada pensando: “É só atração boba. Ele é um aluno. Eu sou casada, tenho filhos. Isso passa.”
Só que não passava.
Na quinta-feira, depois da aula, a conversa durou mais tempo. A sala já estava vazia. Ele me perguntou sobre como era dar aula pra alunos tão jovens, se eu sentia diferença de energia entre as turmas. Eu respondi sinceramente:
— Vocês do primeiro ano têm um fogo que a gente perde com o tempo. É revigorante.
Ele olhou pra mim com aqueles olhos escuros e disse baixinho:
— A senhora também tem um fogo que inspira a gente, professora. Não é só o jeito de explicar. É o jeito como a senhora está presente.
Foi o elogio mais direto que ele já tinha feito. Meu estômago deu um nó. Eu senti minhas coxas apertarem uma contra a outra por baixo da mesa sem querer. Respirei fundo, sorri e disse:
— Obrigada, Pedro. Mas cuidado com elogios exagerados, hein? Professoras também são humanas.
Ele riu, um riso baixo e gostoso, e respondeu:
— Eu sei. Mas é difícil não notar.
Depois disso ele foi embora. Eu fiquei sentada na sala vazia por mais uns dois minutos, sentindo o coração bater forte.
À noite, em casa, enquanto dava banho nas crianças, eu me peguei sorrindo sozinha sem motivo. Quando Paulo chegou e me deu um beijo no pescoço, eu correspondi… mas minha mente estava longe. Estava pensando na voz grave de Pedro dizendo “é difícil não notar”.
Eu estava começando a notar também.
Notar demais.
E o pior era que, pela primeira vez em muitos anos, eu não queria que essa sensação passasse.
Na terça-feira, Pedro esperou novamente. Quando a sala esvaziou, ele se aproximou da mesa com aquele sorriso tímido de sempre.
— Professora, posso roubar mais uns minutinhos da senhora hoje?
— Pode, Pedro. O que foi?
Ele sentou na cadeira da frente da mesa, mais perto do que o normal. Olhou para mim por um segundo antes de falar:
— Eu estava pensando… a senhora parece ter uma vida tão equilibrada. Dá aula, cuida dos filhos, malha, ainda consegue estar sempre tão… bem cuidada. Eu admiro isso. Muita gente da minha idade reclama de tudo, e a senhora parece fazer tudo com leveza.
Senti um calor subir pelo peito. Era um elogio diferente. Não era sobre minha aparência direta, mas sobre mim como mulher. Respirei fundo e respondi, tentando manter o tom leve:
— Obrigada, Pedro. Mas não é tão leve quanto parece. Tem dias que eu chego em casa exausta. Você também é impressionante, sabia? Com 19 anos já trabalhando, estudando tanto e ainda tirando tempo pra academia. Isso mostra caráter. Poucos garotos da sua idade têm essa disciplina.
Ele baixou o olhar por um instante, como se meu elogio tivesse pegado ele de surpresa. Quando levantou os olhos novamente, havia algo mais suave neles.
— A senhora acha mesmo? Às vezes me sinto um pouco perdido ainda. Mas ouvir isso de você… ajuda. A senhora tem um jeito de falar que faz a gente se sentir visto. Não é só professora boa. É uma mulher que transmite segurança, elegância… e beleza também, se me permite dizer.
Meu coração deu um salto. Ele disse “beleza” de forma tão natural, sem grosseria, que eu não consegui ficar brava. Só sorri, um pouco sem graça, e respondi:
— Você pode dizer, mas cuidado pra não exagerar. Eu sou só uma professora de 40 anos tentando não parecer tão velha perto de vocês.
— Velha? — ele riu baixinho, balançando a cabeça. — Professora, a senhora é uma das mulheres mais bonitas e interessantes que eu já conheci. Não é só o cabelo loiro ou o jeito que se veste. É o conjunto. Inteligente, elegante, forte… Dá vontade de aprender com a senhora não só Direito, mas sobre a vida também.
Eu ri, nervosa, e desviei o olhar para o quadro apagado.
— Agora você está me deixando sem graça, Pedro. Mas… obrigada. De verdade. É raro ouvir elogios assim tão sinceros. Meu marido elogia, claro, mas é diferente. Você fala com uma maturidade que não combina com 19 anos.
Ele deu de ombros, sorrindo.
— Talvez seja porque eu presto atenção. E a senhora merece ser prestada atenção.
A conversa durou quase vinte minutos. Falamos sobre como é difícil equilibrar tudo, sobre o medo de não dar conta, sobre sonhos. Ele me contou que às vezes se sentia pressionado pelos pais para ser “o filho perfeito”. Eu contei, pela primeira vez, que depois do segundo filho tive um período de ansiedade forte e que a academia e o trabalho me salvaram. Ele ouviu com atenção, sem interromper, só balançando a cabeça.
Quando ele finalmente se levantou para ir embora, parou na porta e virou:
— Professora… eu sei que é pedir demais, mas eu estou tendo dificuldade em entender melhor o tema de limitação de direitos fundamentais, especialmente a proporcionalidade. As explicações em aula são boas, mas eu queria entender com mais profundidade. A senhora daria uma aula particular pra mim? Só uma horinha, em algum horário que não atrapalhe sua rotina. Eu pago o que for justo, claro. Pode ser aqui na faculdade mesmo, na sala de estudos ou na biblioteca.
Eu hesitei por dois segundos. Meu cérebro gritava “não”. Meu corpo e minha curiosidade sussurravam “é só uma aula”.
— Vou pensar, Pedro. Não é comum eu dar aula particular pra alunos da minha própria turma. Mas… se for só sobre o conteúdo, posso ver se consigo encaixar uma horinha na semana que vem.
Ele sorriu, aquele sorriso que já estava mexendo comigo mais do que deveria.
— Obrigado, professora. Mesmo que não dê, só o fato de você considerar já significa muito pra mim.
Ele saiu. Eu fiquei sentada, sentindo o coração bater no peito como se eu tivesse corrido na esteira.
À noite, em casa, Paulo me abraçou por trás enquanto eu preparava o jantar. Beijou meu pescoço e disse que eu estava cheirosa. Eu sorri e correspondi ao beijo. Mas, quando fechei os olhos, a voz de Pedro ecoava na minha cabeça: “Você é uma das mulheres mais bonitas e interessantes que eu já conheci.”
Eu estava entrando num terreno perigoso.
E, pela primeira vez, eu não tinha certeza se queria parar.