Ali estava a intimação com algumas acusações, como calúnia, difamação, fraude, corrupção ativa e falsidade ideologica. Queria entender o que estava acontecendo. Olhei pro Doda, e então perguntei.
— Doda, como você conseguiu essa informação?
Ele então engoliu seco e me respondeu.
— Não vou mentir pra você. Eu fui contratado como advogado de alguém, e essa pessoa formalizou uma denúncia contra Raquel na delegacia, e essa denúncia foi protocolada no ministério público.
— E quem é que te procurou? — Perguntei pro Rodrigo, desesperado. Ele respondeu.
— Gui, Você sabe que você é meu parceiro e eu te dei muita força aqui quando você entrou. Mas você sabe das normas no escritório, nós não podemos ficar revelando nossos casos para colegas, isso prejudicaria o interesse do cliente. Além do mais, eu nem sei quem veio aqui, eu só vim te avisar que a sua namorada está sendo intimada porque eu acho que você vai querer defender ela.
Rodrigo tinha razão, a empresa tinha um protocolo sério de não interferência em casos envolvendo um dos nossos, então eu simplesmente deixei para lá.
Agradeci Rodrigo por ter me informado, então tudo o que pensei naquele momento foi falar com Raquel.
Como bom namorado, peguei o telefone da mesa e disquei o número dela. Chamou. Uma vez. Duas. Três. Tocando, tocando, sem atender. Caiu na caixa postal. Tentei de novo. Mesma coisa.
— Merda — murmurei baixo, passando a mão no cabelo preto bagunçado.
Não dava pra ficar ali. Levantei, peguei o blazer no encosto da cadeira e fui até a sala do meu superior. Bati na porta, entrei e expliquei rápido: Chefe, eu preciso ir embora por hoje. Estou com um assunto importante, pessoal, urgente! Eu... precisava resolver agora.
Ele olhou pra minha cara – eu devia tá com uma expressão de quem viu fantasma – e deu o aval na hora.
— Vai lá, Guilherme. Resolve o que precisa. Mas amanhã preciso de você aqui.
Agradeci e voltei pra minha mesa, juntando as coisas: pasta, celular, o papel dobrado no bolso interno do blazer. Enquanto fechava a gaveta, olhei pro corredor de vidro da sala ao lado. E foi aí que eu vi.
Uma mulher loira próxima ao elevador, de costas. Baixinha, uns 1,58m, com aquele cabelo loiro caindo nos ombros, pele clara, segurando uma pastinha de papéis nas mãos. Meu coração parou por um segundo. Era ela. Fernanda. O rosto… aqueles olhos castanho-claros, a boca pequena, a forma como ela andava, um pouco apressada mas com aquela de sempre.
Eu não via ela há dois anos. Desde o dia que eu a botei pra fora do meu antigo apartamento, depois de eu ter chamado ela de vagabunda e filha da puta. O corpo pequeno, a tatuagem na coxa esquerda que aparecia quando ela usava short de malhar, a bundinha redonda que eu apertava quando metia nela… tudo voltou num flash. Saudade misturada com raiva. Mas acima de tudo, uma necessidade de ve-la.
— Fernanda! — chamei alto, voz ecoando no corredor.
Ela nem virou a cabeça. Continuou andando reto, como se não tivesse escutado, ou como se quisesse fingir que não era ela. Entrou no elevador que tava abrindo as portas. As portas fecharam antes que eu conseguisse chegar.
Corri pros elevadores. Apertei o botão do outro, o que tava parado no térreo. Demorou uma eternidade pra subir. Quando finalmente chegou e as portas abriram, eu desci correndo pro térreo. Saí no hall, olhei pra todo lado: recepção, saída principal, o café do prédio. Nada. Ela tinha sumido. Evaporado. Eu sabia que era ela. O rosto, os cabelos loiros, o jeito de andar… inesquecível. Mesmo depois de tudo, eu ainda lembrava muito bem dela.
Fui até a recepção, e perguntei.
— Ei, você viu aquela loira que saiu agora daqui? A baixinha com pasta de papéis?
A recepcionista me olhou, curiosa.
— Ela sorriu pra mim e saiu. Entrou num carro, e foi embora.
Perguntei pra mais dois. Ninguém sabia. Por fim, chamei o Doda, meu amigo de confiança no escritório, o cara que sempre me cobria nas audiências.
— Doda, por favor, eu preciso saber mais sobre aquela mulher, foi ela que veio te procurar não é? Uma baixinha, loirinha?
Ele olhou pra mim, sério, e balançou a cabeça.
— Guilherme, se ela veio procurar alguém aqui pra ajudar em algum caso, por ética a gente não pode conversar sobre isso com outros advogados. Você sabe como é.
— Mas é ela que te procurou? — Perguntei.
— Foi mal, amigo. Você sabe. — Respondeu.
Eu assenti, frustrado pra caralho. Deixei pra lá. Não adiantava insistir. O passado tava batendo na porta de novo, mas eu tinha coisa mais urgente pra resolver agora. Peguei o carro no estacionamento e fui direto pro hospital onde a Raquel fazia estágio. O trânsito tava leve, mas minha cabeça não parava.
Cheguei na recepção do hospital, e fui direto para a recepção, precisava saber onde ela estava, falar com ela. A recepcionista era uma mulher de uns quarenta anos, uniforme azul, olhando pra tela do computador.
— Boa tarde. Eu tô procurando a Raquel, estagiaria de Medicina. Ela deve tá fazendo estágio com o Dr. Marcelo hoje.
A moça digitou o nome, olhou os registros, franziu a testa.
— Olha, segundo o expediente de hoje... O Doutor Marcelo tá aqui sim, na ala de cirurgia. Mas a Raquel… não. Ela não apareceu hoje. Tá registrada como folga. Deveria ter avisado se fosse vir, mas… nada.
Aquilo caiu como uma bomba no meu colo. Folga. Ela tinha me dito que ia ficar de plantão o dia todo e boa parte da noite, que mal ia ter tempo de me ver. Mentira. Direto na minha cara.
Meu estômago revirou de novo. Me lembrei da mensagem de mais cedo, mas acima de tudo, da intimação, e do cinismo dela em mentir pra mim. Será que depois de dois anos ela tava traindo? Será que toda aquela história de “eu jamais faria isso com você” era papo furado? De repente, me lembrei daquele almoço com o Roger, o pacote de dinheiro que ele tinha levado, e me questionava se não era ela quem deu por algum motivo, tudo aquilo na lanchonete ainda era muito nebuloso, agora isso… tudo girando na minha cabeça.
Saí do hospital atordoado. Peguei o celular no bolso, disquei o número da Raquel de novo. Chamou. Uma vez. Duas. Três. Tocando, tocando, sem atender. Caiu na caixa postal mais uma vez.
Fiquei ali, parado no estacionamento do hospital, olhando pro celular como se ele fosse me dar alguma resposta. O coração batendo forte, a raiva e a dúvida misturando com aquela imagem da Fernanda sumindo no elevador. Tudo tava voltando ao mesmo tempo. E eu não sabia mais em quem confiar.
Cheguei em casa destruído. Joguei a chave na mesinha da entrada, tirei o blazer e me joguei no sofá grande da sala. O apartamento tava silencioso, só o barulho do ar-condicionado baixinho ligado, enquanto eu ligava a tv da sala para tentar me distrair e assistir algo. Peguei o celular e tentei ligar pra Raquel mais três vezes seguidas. Chamou. Chamou. Chamou. Caixa postal toda vez. Desisti.
Larguei o telefone no sofá, estiquei o corpo inteiroe me deitei, deixando a cabeça jogada pra trás no encosto, e assim fiquei com os olhos fechados. Um mar de emoções tomou conta da minha mente. Raiva, dúvida, medo, tudo misturado. A intimação impressa estava no bolso do blazer, e a foto do jantar ainda estava no meu celular. A mentira sobre o plantão. E pra fechar com chave de ouro, ainda tinha a Fernanda aparecendo do nada no escritório. Tudo girando como um furacão dentro da cabeça.
Fiquei ali um tempão, olhando pro teto, e de repente comecei a ter uma falta súbita de ar, o peito subindo e descendo rápido. “Será que eu tô ficando louco? Será que ela tá mesmo me traindo depois de dois anos?” A imagem dela saindo da lanchonete, o pacote de dinheiro que eu deixei passar na hora, o Roger… e agora isso. Não conseguia parar de pensar.
Puta que pariu, será que ela ta sendo chantageada pelo Roger? Será que... Não, não pode ser! Eu precisava de respostas.
Por volta de 00:35 o celular começou a tocar. Vibrou forte no sofá. Olhei a tela: nome da Raquel brilhando. Meu primeiro impulso foi explodir, gritar “onde porra você tava?”, cobrar explicação. Mas de repente eu tive um estalo. Se eu confrontar ela agora, se ela estiver traindo, vai só dar uma volta, inventar mais mentira. O melhor era eu mesmo seguir ela, descobrir aonde ela tava indo quando mentiu pra mim. Se ela estava mentindo pra mim, eu iria mentir também. Calma. Estratégia.
Atendi, voz controlada.
— Oi, amor — ela disse do outro lado, doce como sempre.
— Raquel, por que você não atendeu minhas ligações? — perguntei direto.
— Eu te disse, amor. Eu estava em plantão. Aqui hoje tá um caos! Eu tô indo agora pra casa.
Eu só confirmei com um “hum” baixo. Ela tava mentindo na cara dura. Eu sabia. Mas não explodi. Soltei a bomba com calma:
— Raquel, no escritório hoje meu amigo me mostrou que a justiça colocou seu nome no sistema. Você vai ser intimada a depor na delegacia por crimes de difamação, calúnia, falsificação de documentos, entre outras coisas. Isso é grave. Eu quero saber por que estão te acusando disso. Como seu namorado e advogado, a gente precisa elaborar uma defesa.
Do outro lado da linha ficou um silêncio pesado. Segundos que pareceram minutos. Eu só escutava a respiração dela. Depois ela respondeu, voz firme, mas com um tom que eu nunca tinha ouvido:
— Amanhã vamos nos ver, amor. Eu quero que você me mostre direitinho isso daí. Eu nunca fiz nada pra dever à justiça. Eu tô com a minha consciência limpa.
A gente desligou. Eu fiquei o resto da noite acordado. Deitado no sofá, olhando pro teto escuro, tentando juntar os pontos. Por que ela seria acusada de calúnia e difamação? Quem era o caluniado? O que ela tinha manipulado e adulterado? Uma teoria começou a surgir na minha cabeça, algo que eu não queria acreditar de jeito nenhum. Será que eu vivi uma mentira esse tempo todo? Será que a Raquel…?
No dia seguinte ela veio cedo. Tocou a campainha por volta das oito da manhã. Eu abri a porta, ainda de calça folgada e camiseta, cabelo bagunçado de quem não dormiu. Ela me abraçou forte, como sempre, mas eu senti que tava tensa. Entramos, sentamos no sofá e abri o notebook. Entramos no site do Fórum da cidade. Procuramos o processo. Estava em segredo de justiça, mas dava pra ver claramente o nome da autora: Fernanda.
Raquel leu e o rosto dela mudou na hora.
— É aquela vaca sem vergonha, querendo prejudicar minha vida! — cuspiu, voz cheia de veneno.
Eu olhei pra ela, sério.
— Raquel, por que a Fernanda está te acusando dessas coisas? Ela nem vive mais na minha vida.
Ela se virou pra mim, com os seus olhos verdes faiscando de raiva.
— Porque ela até hoje não consegue superar o fato de que perdeu. Foi uma safada sem vergonha e perdeu você pra mim. Mas ela me paga. Eu sempre ganho! Ninguém me vence!
Eu vi um lado da Raquel que nunca tinha observado antes. Frio. Cruel. Possessivo. Ela não era mais a namorada carinhosa que dormia no meu peito. Era outra coisa.
Logo o celular dela tocou. Ela me olhou na hora, gélida e me pediu licença. Eu olhei ela se afastar, ela atendeu, ouviu o que tinham a dizer, e logo me olhou, com o rosto completamente branco.
— Fui intimada a depor na delegacia na próxima semana.
Eu levantei, já no modo advogado.
— Eu vou com você. Como seu advogado, posso te acompanhar.
— Não, Guilherme. Não quero que você se incomode com a despeitada da Fernanda. Eu vou resolver as coisas do jeito dela.
— Como não? — Perguntei. — Isso tem a ver com a gente. Não posso deixar batido.
Ela se virou pra mim, sentou no meu colo, pernas abertas em volta da minha cintura.
— Gui, eu não quero aquela perdedora em cima do que é meu. Ok? Prefiro você aqui, eu vou com o advogado do hospital do meu pai.
Depois disso, ela enfim, sossegou, levando seu indicador para meu peito. Olhou nos meus olhos, e disse com a sua voz mais doce agora, quase sedutora.
— E o que você queria me mostrar ontem, amor?
Eu respirei fundo. Fui até a gaveta da mesinha de cabeceira, peguei a caixinha pequena. Voltei pro sofá, sentei com ela ainda no colo. Abri a caixinha devagar. O anel de prata simples, com a pedrinha brilhando, apareceu.
— Eu já estava planejando fazer isso a muito tempo, mas as coisas foram sendo adiadas, então eu acho que agora era o melhor momento... Raquel… casa comigo?
Ela olhou pro anel, depois pros meus olhos. Um sorriso largo abriu nos lábios carnudos. Me beijou forte, apertando o corpo contra o meu. Ela estava naquele momento totalmente desarmada e na vantagem, se ela realmente estivesse me traindo, agora seria a melhor hora de descobrir.