Eu ainda tava com a caixinha aberta na mão, o anel brilhando ali dentro. Raquel pegou ele devagar, deslizou no dedo anelar da mão esquerda e ficou olhando, admirada. Os olhos verdes dela brilharam de verdade.
— Meu amor… que coisa linda que você me deu. Eu nunca ganhei algo tão lindo em toda minha vida, por mais que meus pais sempre puderam dar tudo pra mim.
Eu forcei um sorriso, aquele sorriso amarelo que não chega nos olhos.
— Que bom que você gostou, meu amor.
Por dentro tava um inferno. Depois de descobrir que ela tinha mentido sobre o plantão, depois de ver o nome da Fernanda no processo, depois de tudo que tava rolando… aquele anel parecia pesado pra caralho. Mas eu disfarcei. Tinha que disfarçar. E a Raquel tava ali, cantarolando, como se tivesse ganho na loteria. Ela realmente estava feliz com aquilo?
Raquel aproveitou o momento, se inclinou e me deu um beijo longo nos lábios. Um beijo profundo, daqueles que ela sabia que eu gostava. Enquanto a boca dela tava na minha, eu murmurei:
— A gente deveria aproveitar esse momento pra jantar fora, né? Comemorar direito. Afinal de contas, agora somos noivos.
Ela me abraçou mais forte, ainda sentada no meu colo, corpo quente contra o meu.
— Podemos combinar, amor. Vai ser perfeito. Quero mostrar pra todo mundo que sou sua noiva, que eu sou sua, e que você é todinho meu.
— Você realmente quer isso? — Perguntei.
— Não imagina o quanto! Afinal, eu fiz muita coisa pra ter você, para te conquistar! A Fernanda nunca te mereceu, olha só o que ela te fez!
— E o que você tanto fez, Raquel? — Perguntei, encarando ela, que de repente, gelou. Quando ela ia falar, ela foi salva pela conveniência.
Foi aí que o telefone dela começou a vibrar no bolso de trás da calça. Eu senti a vibração na minha coxa. Olhei pra ela com um olhar firme.
— Não vai atender?
— Não precisa — ela disse rápido, tentando ignorar.
Insisti, voz baixa mas séria:
— Pode ser algo importante, Raquel.
Ela suspirou, saiu do meu colo e foi pra um canto mais afastado da sala, perto da janela. Quando ela olhou quem era, ficou nervosa, e saiu imediatamente de perto. Atendeu falando o mais baixo possível, quase sussurrando. Eu não consegui ouvir direito o que ela dizia, só via o corpo dela tenso, a mão livre gesticulando pouco. Durou uns dois minutos. Depois ela desligou, guardou o celular e voltou com um sorriso animado no rosto, como se nada tivesse acontecido.
— Meu amor, o que acha de irmos a um restaurante nesse fim de semana? Estarei livre e posso passar o fim de semana todo com você.
Eu entrei no jogo. Resolvi dobrar a aposta pra ver até onde ela ia.
— Por que não amanhã? Acredito que nada vai nos impedir de ir. Você já trabalhou seis dias seguidos, inclusive ontem.
Olhei fixo pra ela. Raquel deu um sorriso amarelo, exatamente igual ao meu de antes.
— Amanhã eu não posso, amor. Amanhã meu pai estará no hospital e eu quero que ele me veja lá. Mas eu posso depois de amanhã se você quiser e puder. Que tal irmos comer hambúrguer?
Eu achei estranho pra caralho. Ela odiava hambúrguer, sempre preferia lugares chiques. Mas não estranhei tanto o local escolhido — ela sempre foi excêntrica e diferente nos lugares que gostava de frequentar. Dei de ombros e concordei.
— Beleza, depois de amanhã então.
A gente foi se deitar naquela noite. Ela dormiu rápido, enrolada em mim como sempre. Eu fiquei acordado um bom tempo, olhando pro teto escuro. Já sabia exatamente o que ia fazer no dia seguinte.
De manhã, levantei cedo, dei um beijo na testa dela e disse que precisava sair primeiro pro escritório. Pedi pra ela trancar a porta quando saísse. Saí do apartamento, entrei no meu carro e estacionei um pouco mais adiante na rua, onde dava pra ver a entrada do prédio sem ser visto.
Esperei.
Uns minutos depois, Raquel saiu. Olhou pros dois lados da rua, como quem checa se tá sendo seguida. Um carro escuro parou no quarteirão, bem na esquina. Ela entrou rápido no banco do passageiro. Meu coração acelerou. Liguei o carro e comecei a seguir, mantendo distância, como quem não quer nada.
Ela foi pro outro lado da cidade. Bem longe do hospital. Quanto mais a gente andava, mais longe ficava da zona onde ela supostamente ela frequenta. Eu fiquei tenso, com as mãos suadas no volante. Estacionei o carro na lateral da rua, num ponto discreto, e continuei observando de longe.
O carro dela parou na frente de um portão grande, com aquelas luzes neon fracas mesmo de dia. Um motel. Um motel famoso por ser discreto, a garagem foi se abrindo para eles, enquanto eu não conseguia ver o tal acompanhante da Raquel.
Eu vi claramente. O carro entrou devagar no portão. As portas automáticas fecharam atrás dele.
Fiquei ali, parado dentro do meu carro, olhando pro motel. O peito estava doendo, e a raiva subindo devagar, misturada com uma tristeza que eu não esperava sentir. “Então era isso?”, pensei. “Depois de tudo… ela joga fora esses dois anos indo pra um motel? E com sei lá quem? Fui corno duas vezes?”
Não saí do carro. Só fiquei observando o portão fechado, o tempo passando devagar. A cabeça girando com mil perguntas. Quem tava naquele carro com ela? O Roger? Alguém que eu nem conhecia? E por que mentir tanto pra mim desse jeito? Porque se esforçar pra me ter, segundo ela, para depois jogar tudo fora?
O calor dentro do carro parecia insuportável, mas o verdadeiro inferno estava na minha cabeça. Decidi esperar. Durante duas horas agonizantes, fiquei ali, estacionado a uma distância segura da saída daquele motel, com os olhos fixos no portão, sentindo cada minuto arrancar um pedaço da minha sanidade. Minhas mãos suavam no volante.
Então, o portão de ferro se abriu. O mesmo carro que eu tinha visto entrar finalmente despontou na rua. Meu coração disparou. Mas o que aconteceu a seguir fez meu estômago despencar. O carro mal havia passado para o lado de fora quando parou. A porta do passageiro se abriu e Raquel desceu.
Ela fechou a porta, curvou-se levemente em direção à janela do motorista e, com um sorriso que eu conhecia tão bem, mandou um beijo para o homem lá dentro. Depois, com a maior naturalidade do mundo, deu um passo para trás, começou a ajeitar a própria roupa — alisando a blusa, arrumando o cabelo com os dedos — e puxou o celular da bolsa para pedir um carro de aplicativo. Aquilo me destruiu. A frieza dela era aterrorizante.
Naquele momento, uma bifurcação se abriu na minha frente: eu ia atrás dela e fazia um escândalo na rua, ou seguia o desgraçado que estava no volante? Respirei fundo, engolindo a seco o gosto amargo da traição. Ignorei Raquel completamente. Quando o carro do amante dela acelerou, eu engatei a marcha e fui atrás.
Comecei a segui-lo, mantendo alguns carros de distância para não dar bandeira. Eu, que sempre fui explosivo, que sempre deixava a raiva tomar o controle, estava fazendo um esforço sobrenatural para ser frio. Mas, Deus sabe quantas vezes, naquele trajeto, eu apertei o volante com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Minha vontade era pisar fundo, jogar o meu carro contra o dele e mandar tudo para aquele lugar. Queria acabar com tudo ali mesmo. Mas a necessidade de saber a verdade era maior.
A perseguição terminou na frente de um prédio que funcionava como um cursinho pré-vestibular. Era horário de saída. O carro estacionou e eu parei um pouco mais atrás. Observei uma garota de cabelos castanhos, na altura dos ombros, caminhando em direção ao veículo. Ela usava roupas leves, parecia bem jovem e muito bonita.
A porta do motorista se abriu e o amante da Raquel desceu. Foi a primeira vez que vi o rosto dele. Era um rapaz, quase um garoto. Eu nunca tinha visto aquele cara na minha vida inteira. Ele caminhou até a garota de cabelos castanhos, abriu um sorriso apaixonado e deu um beijo nela. Em seguida, pegou a mão dela com um carinho que me deu nojo, e abriu a porta do carro para que ela entrasse.
Uma risada amarga e sem som escapou da minha garganta. Aquele moleque também namorava. Ele estava enfeitando a cabeça daquela coitada, exatamente como Raquel estava enfeitando a minha. Nós dois, eu e a garota de cabelos castanhos, éramos os idiotas da história.
Minha confusão só aumentou. Eu jurava por tudo que era mais sagrado que Raquel estava me traindo com o Roger. Mas não. Era um estranho. Quem era ele?
Continuei seguindo o carro. O percurso foi calmo. O rapaz deixou a namorada na casa dela, esperando ela entrar pelo portão, e depois seguiu para o próprio endereço. Era um bairro tranquilo, com casas de classe média. Gravei o local exato onde ele morou.
Enquanto eu voltava para o meu apartamento, o celular no banco do passageiro não parava de vibrar. O nome "Raquel" piscava na tela incessantemente. Chamada após chamada. Eu apenas olhava para a tela, deixando tocar.
Só quando finalmente entrei em casa, joguei as chaves na mesa e o celular tocou de novo, decidi que era hora de começar o meu teatro. Atendi.
— Guilherme, aonde você estava? — A voz dela soava impaciente do outro lado da linha. — Liguei para você um monte de vezes!
— Estava trabalhando, Raquel — respondi, tentando manter a voz neutra. — E eu não sei por que você está me ligando com tanta insistência, já que me disse que estaria super ocupada hoje.
— Eu não estou mais — ela rebateu, com um tom de frustração. — Eu queria passar aí para te ver. Mas parece que você estava ocupado demais para mim.
Eu não consegui segurar a ironia. O deboche subiu como bile.
— Vai ficar com frescura agora, Raquel? — perguntei, soltando uma risada seca. — Até porque, quem parecia bastante ocupada hoje com assuntos bem importantes era você, não é?
Fez-se um breve silêncio do outro lado.
— Do que você está falando? — ela perguntou, e eu pude jurar que notei uma leve hesitação na voz dela.
— Nada, deixa pra lá. — Desconversei rapidamente. — Vem pra cá. Gostaria de te ver.
Não demorou muito e a campainha tocou. Quando abri a porta, lá estava ela. A mesma mulher que, horas antes, eu tinha visto sair de um motel. Ela entrou, me deu um selinho rápido e vazio, e cruzou os braços, com uma expressão emburrada.
— Vai me dizer onde você estava que não me atendeu? — cobrou, fazendo bico. — Você sempre atende na primeira vez que eu ligo.
— Ah, Raquel, você não pode falar absolutamente nada — retruquei, fechando a porta. — Nos últimos dias, o que você mais fez foi deixar de me atender.
Ela me olhou, estreitando os olhos, com uma expressão que misturava culpa e provocação.
— Você está me castigando, é isso?
Eu olhei no fundo dos olhos dela, vendo a mentira estampada ali. Dei uma leve risada, balançando a cabeça.
— Não, Raquel. Não estou.
Acabamos pedindo uma pizza. Sentamos no sofá, comemos em silêncio na maior parte do tempo e colocamos um filme qualquer na televisão. Parecia uma cena normal de casal, mas por dentro, eu estava em frangalhos. Dormimos juntos naquela noite, na mesma cama, mas eu nunca me senti tão distante de alguém.
No dia seguinte, levantei antes mesmo que ela acordasse direito. Fui me arrumar em silêncio. Quando estava prestes a sair, ela murmurou, ainda sonolenta:
— Nós vamos jantar juntos hoje?
— Vamos. Sim. — respondi, batendo a porta.
O caminho para o escritório foi uma tortura. Estar sozinho no carro me fez mergulhar num turbilhão escuro de emoções. A dor batia forte no meu peito. Era a segunda vez. A segunda vez que eu estava sendo traído por alguém que eu jurava amar, alguém em quem eu confiava. As lágrimas teimavam em arder nos meus olhos. Será que o problema era eu? Será que eu nunca, na minha vida inteira, conseguiria ser feliz de verdade?
Cheguei ao escritório tentando vestir minha máscara profissional. Meu primeiro cliente era um homem destruído, querendo dar entrada nos papéis de separação. Foi irônico e doloroso ouvi-lo falar sobre o fim do casamento dele, enquanto a minha própria vida amorosa era uma farsa. Fiz o atendimento, orientei o rapaz e me despedi.
Quando a porta se fechou, suspirei fundo. Saí da minha sala para beber água e parei em frente à porta do Rodrigo, ou Doda, como o chamávamos. A sala estava vazia.
Minha intuição gritou. Eu não devia fazer aquilo, mas o desespero por respostas me empurrou para dentro. Entrei rápido, o coração batendo na garganta. O notebook do Doda estava escancarado em cima da mesa, a tela brilhando, desbloqueada.
Era a minha chance. Fui direto nas pastas de clientes. Eu precisava saber o que a Fernanda, minha ex, tinha vindo fazer ali com ele. Meus dedos tremiam no mouse enquanto eu descia a lista de nomes. Achei: Fernanda.
Abri a pasta. Havia vários documentos, mas o que me chamou a atenção foi um arquivo de áudio. Sem pensar duas vezes, peguei os fones de ouvido largados na mesa, conectei no computador e dei "play".
A voz da Fernanda preencheu meus ouvidos, firme, calculista. E então, a voz do Roger. Meu sangue gelou. No áudio, Fernanda pressionava Roger, encurralando-o com palavras até que ele finalmente confessou. Ele admitia, com todas as letras, que aquela foto maldita, a foto em que os dois supostamente se beijavam e que tinha sido o início da destruição do meu relacionamento com ela, era mentira. Era uma montagem feita por programas de inteligência artificial. Falsa. Uma ilusão. Ele disse que recebeu um bom dinheiro da Raquel, pois estava devendo muito no jogo do bicho, e estavam indo atrás dele.
Tirei os fones, com a respiração ofegante. Comecei a abrir os arquivos em PDF que estavam na mesma pasta. Eram laudos médicos, segundas vias de exames. Abri um exame toxicológico. A data da coleta era praticamente o dia seguinte ao nosso término, o dia seguinte àquela noite fatídica. Corri os olhos pelas linhas até o resultado.
Positivo para substâncias dopantes.
Fernanda não tinha me traído. Ela não tinha se jogado nos braços do Roger. Ela tinha sido drogada. Apagada.
Um nó na garganta quase me sufocou. Havia mais arquivos ali, um inclusive sobre adoção, mas antes que eu pudesse clicar, ouvi passos no corredor. O Doda estava voltando.
No puro reflexo, arranquei os fones, joguei-os na mesa e me afastei do notebook, fingindo observar os quadros na parede da sala. Quando Doda passou pela porta, eu me virei para ele, tentando forçar uma expressão casual.
— Doda, que bom que você voltou — falei, torcendo para que minha voz não tremesse. — Cara, eu preciso que você me fale mais daquela moça. Ela é a minha ex.
Doda me olhou com uma expressão séria, balançando a cabeça.
— Sim, sua ex, que está processando sua namorada. Gui, espero que você saiba que irei representa-la e que tudo que tenho é sigiloso, e é antiético que eu revele isso a você, já que possivelmente vai representar sua namorada. Isso né, se ela continuar sendo.
— Como é? — Perguntei.
— Nada não. Mas um conselho de amigo? Fica de olho nela. Só isso. — Ele respondeu.
— Tudo bem, eu entendo. Deixa pra lá — falei, acenando com a mão e saindo da sala dele o mais rápido que pude, sem olhar para trás.
Peguei minhas coisas e saí da empresa. O ar lá fora parecia denso. Minha mente trabalhava numa velocidade alucinante. Aquele exame, o áudio do Roger confessando a farsa... tudo era real. Fernanda foi vítima de uma armação nojenta. E durante todo esse tempo, eu a tratei como um lixo. Eu acreditei que ela tinha destruído a nossa vida, quando a verdade estava esfregada na minha cara agora: alguém planejou tudo aquilo para me separar dela.
E pensando bem na Raquel, em como a nossa relação começou logo depois, e em todas as mentiras que eu descobri nas últimas vinte e quatro horas... Pensei em todas as vezes em que Raquel me perseguiu, desde que veio transferida. Nisso, as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar perfeitamente. Raquel não era só uma traidora. Ela era a arquiteta de tudo.
Eu estava preso numa verdadeira teia de aranha, cercado por mentiras por todos os lados. O gosto amargo do arrependimento misturava-se agora com uma fúria fria.
Eu só tinha uma missão na vida a partir de agora: eu ia desmascarar a Raquel. Ia arrancar todas as mentiras dela. Porém, o preço a ser pago com isso, iria ser caro demais, e eu não tinha noção das decepções que eu ainda iria ter.