Cheguei ao campus da universidade, meu coração batendo forte, a ansiedade borbulhando dentro de mim. Depois de ter enfrentado o revés de ser reprovado no vestibular anterior, persisti, batalhei e finalmente alcancei o meu lugar no curso de Ciências Econômicas. Agora, eu era da federal, porra!
Durante os meses de preparação para o vestibular, meu primo Ian foi minha maior fonte de inspiração. Ele já estava no terceiro período de Ciências Contábeis e no meu primeiro dia na universidade, combinamos de irmos juntos para que ele pudesse me mostrar os cantos do campus.
Ambos vivíamos na mesma rua, na Baixada Fluminense. O bairro era razoavelmente bom. Nossa situação financeira era estável, mas houve um tempo em que eu vivia em maior conforto. Antes, quando residia no Centro do Rio e frequentei todo o ensino médio no Colégio EMA, um estabelecimento renomado, frequentado por jovens da elite. Naquela época, eu era um deles. Porém, nossas vidas mudaram drasticamente quando uma crise econômica atingiu o país e afetou os negócios do meu pai. Como resultado, ele teve que vender o apartamento onde vivíamos no centro do Rio e retornar à nossa antiga casa em Nova Iguaçu. Meu pai sempre foi um lutador incansável, e mesmo diante dos percalços, ele me ensinou que adversidades podem acontecer e que ele estava se esforçando para retomarmos a vida que tínhamos. Retornar ao meu antigo bairro até que foi bom por causa da relação próxima que tínhamos com as pessoas. Morar em apartamento me dava uma sensação de confinamento, mas estar a poucos minutos da praia e das agitadas atrações do centro do Rio de Janeiro compensava. A vida é repleta dessas reviravoltas mesmo. Contudo, ter sido aprovado na faculdade que tanto desejava tornou todo o processo de mudança mais leve e suportável. No dia inicial das aulas, Ian e eu nos enfiávamos em um ônibus completamente lotado para alcançarmos nosso campus. Após quase duas longas horas, finalmente chegamos à universidade. Eu não me cansava de admirar a beleza das instalações. Já tinha ido àquele local diversas vezes no início do ano para providenciar a matrícula e entregar alguns documentos pendentes. Mas, ainda não havia caído a ficha de que estava realmente naquela cidade universitária e que faria parte desse lugar pelos próximos anos. Tive sorte de ter um veterano ao meu lado, alguém com paciência para me guiar e mostrar todos os lugares importantes. No primeiro dia, rolou uma palestra de apresentação do curso e as boas-vindas do coordenador, o Dr. Marcelo Braz. Ian, como ainda não tinha muita coisa para fazer, permaneceu ao meu lado durante aquela palestra que se estendeu por um pouco mais de uma hora. O Dr. Marcelo Braz, coordenador do meu curso, compartilhou uma série de informações valiosas e detalhes sobre o que esperar nos próximos anos de estudo. Aquele foi um dia de apresentações formais, mas também de novas descobertas e uma mistura de ansiedade e empolgação por ingressar finalmente na minha jornada acadêmica. Naquela primeira semana, rolou de tudo um pouco: tivemos as apresentações dos professores, alguns já começaram a dar pinceladas em temas importantes das aulas. E claro, os trotes! Não pude escapar deles. Era exatamente o que eu mais queria: acabar pintado com tinta guache, peito nu, na rua pedindo dinheiro junto com meus colegas de curso, tudo isso para preparar a primeira confraternização organizada pela Atlética.
Mas foi na semana seguinte que as coisas se firmaram mais. Eu praticamente fazia da reitoria a minha segunda casa, sempre buscando informações sobre o andamento do meu pedido de residência estudantil. Encarar aquele vai e vem diário, apertado em ônibus lotados, rumo ao campus, estava me deixando exausto, especialmente nos horários de pico. Sorte a minha que o Ian já tinha conseguido um lugar para ficar. Ele, clandestinamente, me ofereceu um cantinho no chão do seu quarto. Levei meu colchonete e me instalei por ali nos primeiros dias. Só torcia para que eu conseguisse logo uma moradia, afinal, não era justo ficar ocupando o quarto do meu primo, que já era apertado e ele precisava do seu espaço, de sua privacidade. Em um daqueles dias movimentados da segunda semana, enquanto eu trocava ideia com meu primo a caminho da cantina para pegar algo para comer, um dos amigos dele apareceu trajando um calção de futebol. — Ei, André, você está indo jogar? — É isso aí, a galera tá toda reunida lá no campo me esperando. — Tem vaga para mais um no jogo? — perguntou Ian. — Se o seu amigo também quiser entrar, os dois times ficam completos — respondeu André. — Caso contrário, vai ter que esperar a próxima partida. — Vai encarar, Caio? — Ian estava animado, ao contrário de mim. Eu relutei um pouco: — Estou de calça jeans, cara! — Pior que eu só trouxe um short na mochila, só falta um para você. — Ô, bro, se precisar, tenho um no meu armário no vestiário. Posso te emprestar — André ofereceu, prontamente. Meu primo me olhou com olhos pidões e acabei aceitando a oferta do André. Fomos juntos para o vestiário para que eu pudesse pegar o short emprestado e trocar de roupa. Durante o caminho, Ian explicou que quem não fazia parte dos times da universidade não tinha direito ao armário. Ele mesmo não possuía um, mas sempre se prevenia mantendo um calção de futebol na mochila, já que o alojamento ficava bastante afastado do campo. Adentrando o vestiário, um local que sempre tive um certo apreço. Desde os tempos das aulas de Educação Física no ensino médio, eu observava de forma discreta os rapazes se trocando. Contudo, na universidade, os corpos eram mais desenvolvidos, em sua maioria atletas que se dedicavam aos treinos e representavam a universidade nos eventos esportivos. De relance, eu observava alguns de cueca e até alguns pelados, sempre tomando cuidado para não ser notado. O ambiente era um verdadeiro espetáculo antropológico. André prontamente abriu seu armário e retirou um short preto, me entregando. — Mano, guarda a mochila lá no meu armário, não deixa ela de bobeira por aí. Enquanto você se troca, eu vou ali dar uma aliviada e soltar um mijão. — Valeu! — respondi. — Também vou! — disse Ian, acompanhando-o. — Minha bexiga está quase explodindo aqui. Aliviei-me ao tirar minha calça jeans, finalmente deixando o corpo respirar naquele calor escaldante. Vesti a bermuda do André, ajeitei o cordão da cintura e me sentei para calçar meu tênis. Foi nesse momento que notei um garoto passando pelo corredor onde eu estava. Ele caminhava com sua mochila nas costas, trajando calça jeans e uma Mas foi na semana seguinte que as coisas se firmaram mais. Eu praticamente fazia da reitoria a minha segunda casa, sempre buscando informações sobre o andamento do meu pedido de residência estudantil. Encarar aquele vai e vem diário, apertado em ônibus lotados, rumo ao campus, estava me deixando exausto, especialmente nos horários de pico. Sorte a minha que o Ian já tinha conseguido um lugar para ficar. Ele, clandestinamente, me ofereceu um cantinho no chão do seu quarto. Levei meu colchonete e me instalei por ali nos primeiros dias. Só torcia para que eu conseguisse logo uma moradia, afinal, não era justo ficar ocupando o quarto do meu primo, que já era apertado e ele precisava do seu espaço, de sua privacidade. Em um daqueles dias movimentados da segunda semana, enquanto eu trocava ideia com meu primo a caminho da cantina para pegar algo para comer, um dos amigos dele apareceu trajando um calção de futebol. — Ei, André, você está indo jogar? — É isso aí, a galera tá toda reunida lá no campo me esperando. — Tem vaga para mais um no jogo? — perguntou Ian. — Se o seu amigo também quiser entrar, os dois times ficam completos — respondeu André. — Caso contrário, vai ter que esperar a próxima partida. — Vai encarar, Caio? — Ian estava animado, ao contrário de mim. Eu relutei um pouco: — Estou de calça jeans, cara! — Pior que eu só trouxe um short na mochila, só falta um para você. — Ô, bro, se precisar, tenho um no meu armário no vestiário. Posso te emprestar — André ofereceu, prontamente. Meu primo me olhou com olhos pidões e acabei aceitando a oferta do André. Fomos juntos para o vestiário para que eu pudesse pegar o short emprestado e trocar de roupa. Durante o caminho, Ian explicou que quem não fazia parte dos times da universidade não tinha direito ao armário. Ele mesmo não possuía um, mas sempre se prevenia mantendo um calção de futebol na mochila, já que o alojamento ficava bastante afastado do campo. Adentrando o vestiário, um local que sempre tive um certo apreço. Desde os tempos das aulas de Educação Física no ensino médio, eu observava de forma discreta os rapazes se trocando. Contudo, na universidade, os corpos eram mais desenvolvidos, em sua maioria atletas que se dedicavam aos treinos e representavam a universidade nos eventos esportivos. De relance, eu observava alguns de cueca e até alguns pelados, sempre tomando cuidado para não ser notado. O ambiente era um verdadeiro espetáculo antropológico. André prontamente abriu seu armário e retirou um short preto, me entregando. — Mano, guarda a mochila lá no meu armário, não deixa ela de bobeira por aí. Enquanto você se troca, eu vou ali dar uma aliviada e soltar um mijão. — Valeu! — respondi. — Também vou! — disse Ian, acompanhando-o. — Minha bexiga está quase explodindo aqui. Aliviei-me ao tirar minha calça jeans, finalmente deixando o corpo respirar naquele calor escaldante. Vesti a bermuda do André, ajeitei o cordão da cintura e me sentei para calçar meu tênis. Foi nesse momento que notei um garoto passando pelo corredor onde eu estava. Ele caminhava com sua mochila nas costas, trajando calça jeans e umaregata que destacava seus braços musculosos. Uma tatuagem com duas faixas, de diferentes espessuras, adornava seu braço esquerdo. Seus cabelos eram curtos, exibia um bigode aparado e um cavanhaque simples. Nossos olhares se cruzaram por alguns segundos enquanto ele passava. A expressão dele não era das mais amigáveis, mas por alguma razão eu não conseguia desviar meu olhar. Ele, por sua vez, desviou rapidamente o olhar, passando por mim com uma postura de astro de cinema no tapete vermelho. Tinha todas as características físicas de um galã, como se estivesse acostumado a atrair olhares por onde passava. Ele parou a cinco armários de distância após o meu e largou sua mochila no banco. Começou a trocar de roupa, despiu-se da regata, revelando um peitoral liso e definido que, meu Deus, era de dar inveja. O abdômen nem se fala! Eu tentava dar uma olhada disfarçada. Quando ele abaixou para tirar a calça, pude vislumbrar suas curvas delineadas pela cueca box cinza claro. Ele ostentava uma bunda redondinha e um volume na frente que era impossível de não notar. Aproveitei para apreciar a vista enquanto ele estava concentrado em tirar suas roupas. Nesse momento, o cara surpreendeu: deu um aperto firme no volume e, como se soubesse que eu estava observando, olhou diretamente para mim com um sorriso irônico no rosto. Fiquei sem reação, tentei disfarçar olhando para outro lado, mas já era tarde demais. Ele riu, e eu sabia que era por minha causa. Fiquei quente de vergonha e também de raiva pela sua atitude. Mantive-me sentado no banco, olhando para o outro lado, tentando desviar minha atenção para o celular para evitar qualquer contato visual com ele novamente. Minutos depois, André e Ian voltaram do banheiro. — Já está pronto, Caio? — perguntou Ian, curioso. — Sim. Deixamos o vestiário e nos dirigimos ao campo. No meio do trajeto, encontramos outro amigo de Ian e André, e paramos brevemente para bater um papo, o que nos atrasou um pouco até nos darmos conta de que a galera já nos aguardava no campo. Ao chegarmos lá, vislumbramos um grupo de rapazes no centro do gramado, já formando os times. Quando avistei aquele cara no meio deles, quase senti um arrepio. Parecia que não era apenas eu que não estava empolgado com a presença dele. — Ah, não! O Ricardo vai jogar? — Ian estava completamente inconformado. Então aquele era o nome do tal galã que dividia o corredor do armário com André. — Ele disse que vai jogar conosco — informou André. — Espero que ele se comporte e não arrume confusão com ninguém! — comentou Ian, otimista. Eu tive uma vontade imediata de sair dali. Imagine só se o tal Ricardo resolvesse espalhar para todo mundo que me flagrou dando aquela olhada na sua mala? Por essas e outras, talvez eu devesse abandonar esse mundo heteronormativo e assumir logo de vez minha sexualidade. Assim, não precisaria mais me esconder ou ficar na defensiva. Assim que percebeu minha presença, Ricardo lançou-me outro olhar, igualmente irônico. Acabamos em times opostos. O jogo mal começou e eu já podia sentir que ele iria me marcar de perto, intimidando-me com seu com seu olhar julgador. Eu estava no mesmo time que Ian e André, e nas primeiras vezes em que consegui pegar a bola, fiz passes para um deles. Às vezes, até dei uns dribles em alguns dos veteranos, e ouvia alguém soltar a frase: “Olha o calouro dando aula!”. Depois disso, Ricardo começou a me marcar de perto, invadindo o meu espaço para evitar que eu recuperasse a posse da bola. Seu olhar raivoso começou a me preocupar. Era uma situação desconfortável e estranha ter Ricardo tão colado em mim. Em outra oportunidade, quando consegui pegar a bola, senti o peso do corpo dele vindo de encontro ao meu. Caí imediatamente no chão. — Ei, qual é! Vai com calma aí, irmão! — disse, tentando manter a calma, mas por dentro a vontade era de enfiar-lhe a porrada pelo empurrão intencional. — Mal encostei em você, cara! — retrucou ele, com um riso debochado — Tá muito sensível! — Porra! Você me derrubou no chão de propósito! — Ah, para! Está nervosinha, princesa? — O que é que você disse? — indaguei ainda no chão. — Chega, Caio, vamos embora! — Ian interveio. Ele conhecia Ricardo e queria evitar mais discussão. — Não, eu vou ficar! — levantei-me, limpando as mãos — Se esse otário me encostar de novo, eu não vou mais responder por mim, pode apostar! Aquilo tudo mexeu comigo. Fiquei pensando que era absurdo ser provocado daquela forma durante uma simples partida de futebol. — Caio, não se mete com ele! Vamos logo para o alojamento. — Ian insistia, tentando evitar confusão. — E você vai fazer o quê? — Ricardo se aproximou de mim, desafiador. O murmúrio de alguns rapazes alertava para que a gente não se metesse em confusão e continuasse a jogar. Uma dessas vozes era do André. — Eu não fico falando o que vou fazer não, mano. Se você é marrento, eu também sou e não vou baixar a guarda por causa dessa sua carinha de criado com vó, não! Ricardo soltou uma risada debochada. — Se toca, novato! — ele falou, aproximando o peito do meu e me empurrando levemente. Na mesma hora, reagi e o empurrei, ambos caindo no chão. Antes que pudéssemos trocar qualquer golpe, o pessoal se apressou para nos separar. Ficamos imobilizados pela cintura, cada um tentando escapar para devorar um ao outro na porrada. Nos olhos, havia um fogo de ódio, mas a intervenção dos outros impediu que a situação escalasse. Assim, a briga e a partida de futebol se encerraram abruptamente. Ian me convenceu a irmos direto para o alojamento. No meio do caminho, André nos alcançou para devolver nossas mochilas. Fizeram isso para que eu não precisasse voltar ao vestiário e não cruzasse com Ricardo novamente. Depois do banho revigorante, troquei de roupa e conversava com meu primo no seu alojamento. Aproveitamos que os outros residentes estavam ausentes para ter mais privacidade. — Caio, você escolheu a pessoa errada para arrumar confusão. Aquele cara não presta, vive tentando ser o durão por aí. — Cara, você sabe que não tenho medo e não arrego para essas pragas, não é? — comentei, encarando meu primo com uma determinação evidente em meu olhar. — Eu sei, mas é que você não conhece o Ricardo direito. Ele anda com umas pessoas que não valem nada. A última coisa que você devia fazer aqui era arrumar confusão com ele. E ainda mais,você joga bola pra caralho. O Ricardo é do time de futebol e também é o presidente da Atlética. Se quiser entrar para o time, pode encontrar alguns problemas por conta disso. — E quem te disse que estou interessado em entrar para o time da faculdade? — Como não, mano? Você é brabo no futebol! Ian soltou um suspiro e parecia ter levado um susto com minha resposta. Ele me olhava, surpreso com a firmeza das minhas palavras. A conversa começava a tocar em um ponto importante para mim. — Primo, lembra daquela conversa que tivemos um tempo atrás? — Perguntei, me sentando à mesa da copa, onde Ian já estava acomodado. — Sobre o quê? — Sobre minha sexualidade. — Ah, sim, lembro. Às vezes até esqueço disso. Já te falei, né? Pra mim, é só uma fase sua. — Lá vem você de novo com essa, Ian. Não é fase, cara! E eu quero aproveitar que estou chegando num ambiente novo, com pessoas novas, e mostrar para todos quem eu sou, seja gay, bi, sei lá! Só sei que não quero mais me esconder. Passei todos aqueles anos no EMA fingindo ser quem não era. Agora, quero que tudo seja diferente. E sobre o futebol, continuo gostando, mas não quero fazer parte de uma equipe cujo esporte seja, hegemonicamente, “heterotop”. Eu já imagino os tipos de preconceitos que vou ter que encarar lá dentro depois de me assumir. Prefiro ficar de boa a me esconder só para fazer parte de um time. Neste momento, Ian me olhou com uma mistura de surpresa e compreensão. — Primo, estou contigo. Mesmo achando que você não precisaria se assumir, mesmo achando que isso é só uma fase. — disse meu primo, com um misto de apoio e incerteza em seu olhar. Revirei os olhos em resposta às suas palavras, mas correspondi ao aperto de mão de meu primo. Por mais que suas opiniões me incomodassem um pouco, sabia que ele estava tentando demonstrar apoio do seu jeito peculiar. Durante aquela semana, minha rotina incansável me levou mais uma vez à reitoria, em busca de informações sobre vagas nos alojamentos. Para minha surpresa, os funcionários sisudos que geralmente recebiam os estudantes com uma frieza desconcertante me deram a melhor notícia da semana. — Qual é o seu nome? — perguntou-me um homem de aparência marcante, bem bonito, com seus quase cinquenta anos, cujo físico musculoso lutava para escapar da camisa social. Seus braços pareciam prestes a explodir a qualquer momento. — Caio Martins Vasconcelos. — Respondi, sentindo um misto de ansiedade e curiosidade ao observar a reação dele. Ele me examinou dos pés à cabeça, seu semblante sugerindo uma certa tristeza misturada com algo mais indefinido. — Ah! Então você é o Caio que vai para o 34B! — disse ele, não muito empolgado, assinando rapidamente um documento e carimbando-o com firmeza. “O Caio que vai para o 34B?” Fiquei confuso com essa afirmação peculiar, mas preferi ignorar aquilo por um momento. O importante era saber que finalmente teria meu próprio quarto dentro de um dos alojamentos da universidade, o que significava devolver a privacidade ao meu primo. — 34B é o alojamento daquele Bruno loucão? — indagou o único funcionário presente na sala, ao lado do sujeito vestido como se a roupa estivesse a vácuo. Sua observação despertou ainda mais minha curiosidade. O funcionário, um cara de uns vinte e poucos anos, soltou um risinho enquanto lançava aquela pergunta. Essa risada dele já me deixou com a pulga atrás da orelha. — Sim. — Respondeu o sujeito mais velho de forma lacônica. — Vamos ver se este vai sobreviver lá por mais que uma semana. — Comentou o rapaz com um tom misterioso e um sorriso no rosto. Aquela conversa estava começando a me preocupar seriamente. Quem diabos era esse tal Bruno? Por que o funcionário se referiu a ele como “loucão”? Depois de me entregar o Guia da Residência Estudantil, o tal funcionário, o mais velho, começou a me explicar detalhadamente como chegar no Bloco B e folheou o guia, mostrando-me a página que continha o mapa detalhado da localização. Mal sabia ele que eu já estava por dentro do esquema, pois já tinha passado algumas noites no quarto do meu primo, que ficava no Bloco C. Depois, ele me fez assinar uma pilha de papéis, assumindo responsabilidades pelo quarto e pelo alojamento. Por fim, entregou-me o documento que ele havia assinado, com um carimbo que exibia seu nome: Prof. Rondinelli Cohen Prefeito Quando vi seu título, não pude evitar um risinho. Era o prefeito da universidade, não aquele político chato de uma cidade convencional, mas o “prefeito” do ambiente acadêmico. Tudo começou a fazer mais sentido. Era como se estivesse recebendo a autorização para ocupar minha residência na Cidade Universitária. À medida que o sol descia no horizonte e tingia o céu de laranja, eu saí do prédio da reitoria com minha carta nas mãos, que me dava o direito de assumir meu quarto no alojamento a qualquer momento. Enquanto eu caminhava até lá, me vi imerso em pensamentos, lembrando de toda a jornada que percorri até chegar à faculdade e àquele momento. Eu segurava a chave do meu quarto, um símbolo palpável de todas as batalhas vencidas até ali. Chegando ao Bloco B, vislumbrei o quarto do meu primo ainda iluminado, do outro lado, no Bloco C. Cruzei corredores longos que pareciam se estender infinitamente até alcançar o segundo andar do meu próprio alojamento. Cada passo ecoava pelos corredores vazios, criando uma estranha sensação de solidão e expectativa no ar. A placa do quarto 34, à direita, me encarava como se guardasse segredos desconhecidos. Respirei profundamente, nutrindo a esperança de encontrar bons companheiros de alojamento, e me preparei para bater à porta. Porém, antes que meus nós dos dedos alcançassem a madeira, ela se abriu, revelando um garoto com os cabelos úmidos, mochila pronta para a aula noturna. — Ei! Qual foi? — Ele falou, com um semblante fechado e desconfiado, como se estivesse perpetuamente cético. Parecia que ali, ninguém tinha o hábito de exibir um sorriso. Seria aquela a norma por ali? Será que eu iria ficar daquele jeito conforme o tempo passasse? — Consegui vaga neste alojamento. — Apresentei, erguendo a carta que o Professor Rondinelli havia providenciado. O rapaz parecia desconfiar até mesmo da própria sombra. Ele se aproximou, analisando minuciosamente os números do bloco e do alojamento constantes no documento. Em seguida, virou-se para dentro, buscando confirmar algo com alguém. — Bruno, tem um moleque na porta com uma carta para se alojar aqui. Você sabe de alguma coisa? Um murmúrio abafado escapou do interior do alojamento, indicando que alguém se aproximava. Quando a porta se abriu completamente, senti um arrepio percorrer minha espinha. Lá estava ele outra vez, aquele olhar irônico que me fizera estremecer dias antes. Sem camisa, era como se o amargor tomasse conta do ambiente, enchendo minha boca com um sabor agridoce de incerteza. — Ah, sim! — Ele disse com aquele olhar de desdém que eu já começava a detestar profundamente. — Espera aí! Seu nome é Ricardo ou Bruno? Ou, sei lá, tem um irmão gêmeo seu aqui que atende pelo nome de Ricardo? — Perguntei, surpreso e quase gaguejando pela confusão. Ele soltou uma risada estrondosa, mas seu amigo não parecia achar graça nenhuma na situação, apenas respirou fundo, demonstrando uma certa impaciência. — Não acredito, mano! — O rapaz, que havia me atendido, expressava uma clara decepção, direcionando seu olhar para o Bruno ou Ricardo, sei lá o nome daquela peste! — De novo essa história, não! Acho melhor correr pra aula, estou super atrasado. Ele saiu rapidamente, sem se despedir, nitidamente desapontado com alguma coisa. Enquanto isso, o sujeito continuava me encarando com o mesmo olhar irônico e petulante que já me era familiar desde o episódio no vestiário, por isso ficou claro como a luz do dia: aquele era o mesmo Ricardo com quem eu quase tinha entrado numa briga no meio do campo. Não era um irmão gêmeo, nem um clone dele. — Pois é, sou eu mesmo, Ricardo Bruno! Você vai entrar ou não? — Ele perguntou, olhando bem nos meus olhos, mantendo aquele olhar irônico e desafiador. Fiquei ali na dúvida se dava meia volta e ia embora, afinal, já estava começando a achar aquele sujeito insuportável, ou se entrava só para mostrar que eu não tinha medo das suas tentativas de intimidação.