MEU NOME É ANA CASH

Um conto erótico de Vicente Braga
Categoria: Heterossexual
Contém 3381 palavras
Data: 24/04/2026 21:00:50

Eu fiz tudo certo. Nunca cheguei atrasada, ficava até depois do horário, resolvia um problema atrás do outro, principalmente dos outros. E ainda sorria quando precisava. Odeio esse teatro de escritório.

Fomos pra um bar na Rua dos Andradas. Eu ali, com o pessoal, mas com a cabeça naquilo. Tentando me convencer de que Carla merecia a promoção. Ela é boa. Claro que era. Ia ser muita filha da putisse minha achar que o sorriso fácil e aquelas saias curtíssimas não contribuíram em nada.

O problema é que meu chefe não disfarçava muito bem.

E o que mais me irrita é saber que eu já caí na conversa daquele cafajeste. Ou seja, já fui uma Carla. Mas não. Na época, eu só queria um pouco de colo. Mesmo do jeito errado. E é inegável, o desgraçado sabe onde encostar, o que falar. Fareja carência de longe.

O bar estava cheio, gente falando alto, copos batendo. O garçom passou meio destrambelhado, esbarrou na mesa e derramou cerveja no meu braço.

— Merda.

Passei a mão. A pele fria, grudenta. Devia ter ido pra casa. Meu vibrador nunca falha.

Peguei o copo de Martini e virei.

Um cara subiu no palco, encaixou o violão no corpo. Cabelo comprido, meio bagunçado, barba cheia. Gostoso. E, pra melhorar, começou a tocar Folsom Prison Blues.

— Amo essa música. Johnnyzinho é foda.

Ninguém ligou. Fiquei ali.

— Será que ainda sei tocar violão?

— O quê?! — alguém gritou do meu lado, rindo de outra coisa.

— Nada.

No meio da música, uma corda estourou.

O cabeludo pediu desculpa, mas ninguém ligou. Ninguém nem olhava pro palco, tirando uma loirinha de cabelo encaracolado que tava hipnotizada nele. Mordiscava os lábios, esfregando uma perna na outra. Louca pra dar.

Desviei e lá estava meu chefe. Certeza, tinha soltado alguma sacanagem no ouvido dela. Carla sorria daquele jeito, deixando a mão dele correr pela coxa. Na frente de todo mundo. Cara de pau.

Levantei. O cara do violão me olhou.

É… desculpa, gostosão, mas por hoje deu. Tudo tem limite. Mas fica tranquilo. Em casa eu toco uma pra você. Em sua homenagem. Pensei nisso enquanto vestia a jaqueta.

Paguei a conta e saí.

O relógio da Rua dos Andradas marcava uma da manhã. O centro de Porto Alegre vazio. O salto batia torto nos paralelepípedos, ecoando. Entrei na Caldas Júnior e vi um cara no ponto de ônibus.

Cabelos louros, meio indomados. Barba por fazer. Um mochilão no chão. Na mão, uma câmera. Nos dentes, a ponta de uma caixinha da Fujifilm.

Ele levantou os olhos.

— Boa noite.

Inclinei a cabeça.

— Boa noite.

Voltou pra câmera, girou alguma coisa e, de repente, me enquadrou.

Click.

— O que foi isso?

— Desculpa. Eu fotografo encontros.

Normalmente eu ficaria puta. Mas tinha algo no jeito dele.

— Aqui passa ônibus pra rodoviária?

— Passa. O final é ali embaixo, mas ele passa aqui também.

— Boa.

Silêncio.

— Você tá viajando?

— Sempre.

Ri, curto.

— Como assim?

— Tô na estrada faz um tempo. Fiquei um mês aqui… agora vou seguir.

Um mês. Fica mais uma noite. Vamo lá pra casa.

— E você faz o quê?

— Você morreria de tédio se eu te contasse.

Ele riu baixo.

— Sempre quis conhecer Machu Picchu — falei, olhando pra rua. Saiu meio sem querer.

— Vai. É um lugar incrível.

— Mas você é homem. Pra você é fácil.

— Quando foi a última vez que se arriscou? — perguntou, guardando a câmera na mochila.

Travei.

— Não lembra?

— Acho que não. Minha vida anda uma mesmice há tempos.

— Zona de conforto… Você precisa sair disso.

— Querido, eu já saio da zona de conforto todo dia. Resolvo pepino atrás de pepino. Quando a bonitona da Carla não sabe nem usar a merda da planilha, quem aparece pra salvar? Eu. Todo dia eu…

Ele foi se aproximando, sorrindo, e eu falando. Sem parar.

Parei.

O rosto queimou. Não sei se por causa daquele volume profano marcando a calça de moletom ou por perceber o quanto eu tinha me exposto.

A gente se olhou e começou a rir. Rir de verdade. Fazia tempo que eu não fazia isso.

— Vai pra onde agora? — perguntei, enxugando os olhos.

— Uruguai. Quero fotografar um pássaro que grita igual gente.

Olhei pra ele, encantada.

— Que coisa estranha.

— Gosto disso. E amo fotografar.

— E dá pra sobreviver disso?

— Dá pra viver disso. Só preciso do suficiente, sem luxos.

— Queria ter esse desprendimento.

Fiquei quieta, o braço ainda frio sob a jaqueta.

— Joguei tudo pro alto depois que descobri que minha noiva tava dando pro chefe.

— Poxa… que vaca. Engraçado essa tara por chefe, né? Muito clichê.

Ele sorriu.

— Mas foi a melhor coisa que me aconteceu. Caí pro mundo. É libertador.

— Eu morro de medo de viajar sozinha.

— Evite vodka batizada e tequila barata. Já ajuda.

— Seu besta.

Sorri.

Ele olhou por cima dos meus ombros.

— Parece que meu ônibus vai sair.

Olhei pra trás. Vi o farol acendendo.

— Até o motorista sair… e aquele sinal demora — falei com um ar sapeca. — Ainda temos algum tempo.

Sorrimos. Fiquei olhando pra boca dele, beliscando o lábio devagar.

Ele entendeu. Me puxou pela cintura e colou a boca na minha. A barba roçando, pinicando, nossas línguas se enroscando. Não perdi tempo. Enfiei a mão dentro do moletom. Segurei ele, quente, duro, pulsando forte. Puxei pra fora.

Que delícia.

Comecei a bater, firme. Ele gemeu baixo.

— Caralho… — murmurou rouco, mordendo meu lábio.

De algum lugar. Do prédio à frente, talvez, veio uma voz debochada, lembrando a Dercy:

— Isso, minha filha… faz ele gozar bem gostoso.

Sorri, colada na boca dele. Apertei mais na base e acelerei, subindo rápido. Ele latejava na minha mão, ficando cada vez mais duro.

— Porra… vou gozar em você — avisou, quase um grunhido.

O ônibus subia a rua.

Não parei. Continuei ali, focada, presa no olhar dele. Mais um movimento… e pronto. Veio quente, grosso, jorrando forte. Primeiro na minha barriga, depois subindo pelo peito, manchando o decote da blusinha.

Ele se ajeitou rápido, esticou o braço dando sinal. Os faróis já iluminavam a calçada.

— Qual seu nome?

— Ana.

— Gabriel.

Olhou o relógio.

— Águas Calientes. Dia onze de junho. Você tem dois meses.

— Você é louco? Eu não vou.

— Procura a Pousada El Mirador. Diz que veio pelo Gabriel, cabelinho de anjo. Juan vai fazer um precinho bom pra você.

— Eu não vou! Seu doido. Não posso.

— Vai continuar salvando a Carla?

Filho da mãe. Sabia exatamente onde apertar.

— Te encontro lá. Não me deixa esperando. As coisas são caras por lá.

Subiu no ônibus e foi.

O que foi isso?

Fiquei ali, rindo sozinha. Toda melecada de porra.

— Piranha! — gritou a mesma voz.

Na manhã seguinte, acordei com o despertador no mesmo horário de sempre. Desliguei e fiquei ali, olhando pro teto.

O dia começou a se desenhar na cabeça. Reunião chata, pilha de e-mails, relatórios… e ainda ter que salvar a bonitona.

— Não é possível — murmurei.

Levantei, abri o armário e encontrei a mochila quase nova lá no fundo. Tinha comprado pra uma viagem que nunca saiu do papel. O namoro acabou antes da estrada começar. Passei a mão no tecido, puxei pra fora. Um cheiro leve de mofo.

Fiquei com ela nas mãos.

— Quer saber? Que se dane. Ele tem razão.

Joguei a mochila na cama… e travei.

— Não… espera aí.

Respirei.

— Ah, para com isso. Deixa de ser bundona. Eu vou.

Mesmo assim passei na empresa. Não sei fazer nada pela metade. Valeu só pela cara do meu chefe quando entrei de shortinho jeans rasgado, blusinha velha e sandália Havaiana. Pedi demissão na hora. Sem aviso. Sem despedida.

Só virei as costas e saí.

Antes de voltar pra casa, passei na rodoviária. Fiquei um tempo olhando os painéis de destinos, o vai e vem de gente, o cheiro de café requentado misturado com diesel.

São Paulo.

Fiquei ali mais um pouco.

Acabei comprando a passagem pras oito da noite.

Embarquei num ônibus quase vazio. Sentei no fundo. Coloquei o walkman e deixei o Johnny Cash ocupar tudo. A voz rouca, a guitarra seca… trilha perfeita pra fuga.

Apaguei em algum momento.

Acordei com uma luz forte no rosto. Li a placa meio zonza. Rodoviária de Curitiba. Foi aí que ouvi um gemido abafado.

O ônibus seguia quase vazio. Algumas poltronas à frente, uma mulher sentada de costas no colo de um cara, o vestido preso na cintura. Subia e descia, sem pressa. O movimento quase silencioso. Quase.

— Enche meu cuzinho… — ela sussurrou.

Que loucura!

Soltei um riso baixo e me joguei de volta no banco.

Enquanto o ônibus encostava, não resisti. Abri o botão do jeans, desci o zíper e enfiei a mão dentro da calcinha. Os dedos escorregaram fácil. Comecei devagar, circulando o grelinho, já bem sensível. O corpo respondeu na hora.

Mordi o lábio pra segurar o som. Olhei de novo. Ela seguia no mesmo ritmo. O motorista abriu a porta, vozes lá na frente.

Não segurei.

Gozei ali mesmo, encolhida na poltrona, as pernas fechando, a respiração descompassada. Fiquei quieta depois, ainda sentindo o corpo pulsar, um sorriso escapando no escuro.

Ele tinha razão. Era libertador pra caralho.

Meus dias em São Paulo foram ótimos.

Num bar perto do prédio do Banespa, conheci uma maluquinha. Quero eu chegar na idade dela com aquela energia. Doidinha… dessas que não param quietas. Tanto que me arrastou pra uma aula de step na academia que frequentava. Dizia que, quando era casada, não era assim. Se sentia morta. Difícil acreditar.

Antes de eu ir embora, me deu uma fita, 7 Melhores da Jovem Pan. Disse que era pra eu não esquecer dela. Como se fosse possível.

No dia seguinte entrei no ônibus pra Campo Grande. Em Santa Rita do Pardo, o motor esquentou e tivemos que esperar outro. Ficamos largados num posto mequetrefe. Foi lá que conheci seu Adir.

Ele riu da minha cara quando fiz careta ao tomar o café e ainda cutucou o rapaz do balcão:

— Como é que você tem coragem de servir isso pra moça?

Depois me chamou pra tomar um café de verdade. Fiquei meio assim no começo, mas ele apontou pro caminhão logo à frente. Um Mercedes vermelho, bem cuidado.

Fui.

E olha… ficamos conversando um bom tempo. O café era mesmo bom. Ele ia pra Corumbá, exatamente pra onde eu pretendia seguir depois. Meu plano era atravessar pra Bolívia e pegar o tal Trem da Morte.

Me ofereceu carona até Corumbá. Pensei um segundo… e aceitei.

Duas horas depois, eu já dominava o toca-fitas do caminhão com a minha fita. Ele entrou na onda, cantamos juntos naquele inglês embromeixon. Foi muito bom.

Numa hora, passando por uma balança da polícia rodoviária, ele soltou:

— Foi na estrada que conheci a mulher da minha vida.

Pegou os documentos de volta, agradeceu o policial, e completou:

— Você vai ver… a estrada muda a gente.

Quando arrancou com o caminhão, os olhos estavam marejados.

Me deixou na frente de uma pousada que conhecia. Na despedida, ao lado do caminhão, a mão dele, grossa, pousou na minha cintura e apertou de um jeito que eu não esperava. Deixei. O volume roçou nas minhas coxas por cima do jeans.

Passei a mão no rosto dele, sorri. Depois fui me afastando.

— Obrigada, seu Adir. Quando for a Porto Alegre, me liga.

Ele assentiu, entrou no caminhão e partiu.

A pousada era de um casal, Aline e Ricardo. Gente boa, trabalhadora. Além dos quartos pros viajantes, moravam ali mesmo. As coisas não eram fáceis. Com poucos hóspedes, Aline fazia unha numa salinha improvisada. Nas noites de terça e quarta, Ricardo pegava bico de segurança num posto de gasolina.

Acabei ficando mais do que planejei. Peguei amizade com os dois e comecei a ajudar na recepção. Nunca pedi nada em troca. Era mais por gosto mesmo.

Ricardo era uma tentação, admito. Um cinquentão bem cuidado, cabelo grisalho assumido, aquele ar de homem vivido. Mas nunca vi um olhar fora do lugar. E eu também não queria nada. Aline era incrível. A gente acabou ficando bem próxima.

Mas um dia…

Aline me colocou na poltrona pra fazer minhas unhas. Corumbá derretia. Eu estava com um vestidinho azul de alcinha, leve, colando no corpo. Foi ela quem me deu, dizendo que eu precisava me adaptar ao calor.

A gente conversava à toa, eu de pernas cruzadas, ela cuidando do meu pé.

Foi quando ele apareceu.

Parou na porta. O olhar cravado nos meus pés.

Minha calcinha molhou na hora.

Ricardo soltou alguma piada, nem lembro qual, e se jogou num sofazinho próximo. O volume no short já chamava atenção. Ainda bem que ela não viu. Fiquei espiando de canto.

E aí veio o pior.

O sem vergonha tirou pra fora e ficou me encarando, subindo e descendo a mão ali, lento. Provocando.

Naquela hora entendi por que a Aline era tão apaixonada.

Pouco depois, ele levantou e saiu, deve ter ido terminar o serviço. Me deixou naquele estado. E eu ali, olhando pra ela, meio perdida, excitada e, ao mesmo tempo, sem conseguir ignorar que aquilo era um erro.

Até ali, eu estava me segurando. Eu juro.

No dia seguinte, no fim da tarde, Aline foi tomar banho. Eu estava sentada, distraída, esperando o arroz ficar pronto.

O safado apareceu do nada, já pelado, exibindo aquela coisa imoral. Nossa, nunca vi um negócio daquele tamanho.

Peguei. Encostei a boca, passei a língua devagar e comecei a chupar, apertando de leve, só pra sentir a reação. Não vou negar, eu sabia exatamente o que estava fazendo. E não queria parar.

Depois ele me pôs sentada na mesa de jantar. Ainda bem que era de uma madeira bruta, bem rústica, artesanal. Enrolei os braços no pescoço dele e ele colou a boca na minha. Aquela barba… arrepiava tudo.

Se abaixou, ergueu minha perna pela panturrilha e levou meu pé até a boca. Chupou com calma. Gostava de pés. Ficou claro.

— Ela vai sair do banho — sussurrei.

Ele não deu a mínima.

Veio pra cima, subiu meu vestido e jogou de lado. Rasgou minha calcinha e afundou o rosto entre minhas coxas.

Puta que pariu. Nem lembro a última vez que alguém me chupou daquele jeito.

Depois me encarou com aquela cara de tarado. A mão fechou no meu pescoço, me puxou e me beijou fundo antes de entrar de uma vez.

O gemido escapou alto.

Começou a meter forte. A mão no meu pescoço me mantinha presa enquanto me empurrava até me deitar na mesa. A outra descia pelo meu corpo, fechava nos meus seios, marcando, explorando… e às vezes estalava no meu rosto, junto com um “vagabunda… putinha, safada” baixo.

Eu já estava no limite quando ouvimos o chuveiro desligar.

Ele não parou. Pelo contrário, apertou mais, acelerou.

Não deu pra segurar. O corpo inteiro tremeu. Mordi o ombro dele pra abafar. Ele ainda deu mais algumas estocadas, firmes… e gozou dentro.

Sem camisinha.

Sem juízo nenhum.

Ficamos alguns segundos colados, respirando pesado. Um beijo rápido quando a porta do banheiro abriu. Ele saiu com aquele riso que me desmontava.

Foram dois dias assim. Amassos escondidos, no fundo da casa, pelos corredores.

Não aguentei continuar.

Falei pra Aline que precisava ir embora.

E o pior… ela ainda me levou até a Aduana. Antes de se despedir, tirou a correntinha do pescoço, um pingente delicado, e colocou na minha mão.

Atravessei a fronteira olhando pra trás, ainda acenando pra ela.

Que desgraçada eu sou.

Peguei o trem pra Santa Cruz de La Sierra meio introspectiva. Peito pesado. Quatorze horas de viagem.

— Caramba… ela confiava em mim. E eu fiz isso. Quem sou eu?

Não fiquei em Santa Cruz. Não gostei. Cidade feia, caótica. No mesmo dia segui de ônibus pra Sucre. A estrada impressionava, beirando precipícios.

Acabei me encantando pela cidade, pelos costumes. Vi uma apresentação teatral na Plaza de Armas e fiquei ali, absorvendo tudo.

Uma semana depois segui pra Uyuni. Entrei num grupo de uma agência que cruzaria o deserto de sal. Olha a mistura. Uma gaúcha, um alemão, um casal italiano e um cearense de Juazeiro do Norte. Nada convencional.

Foram dias bons. Sem sexo, sem putaria. Eu não conseguia. O baiano até tentou, o guia arriscou umas investidas, mas eu estava fechada pra balanço.

O grupo se desfez no Chile. Fiquei quatro dias em San Pedro do Atacama. E, nossa… os cachorros daquela cidade. Enormes, bonitos. Vontade de levar todos comigo.

Cheguei a tomar um vinho com um chileno. Professor de geografia, divorciado. O vinho soltou um pouco. Dentro do carro, a gente se beijou. Estava molhada. Deixei a mão dele entrar por baixo da blusa, tocar meu seio. Mas parei ali. Disse não e fui embora.

Coitado. Deve ter me achado uma louca. Era um cara bom.

Segui pra Arequipa, no Peru. A viagem foi linda, apesar das curvas que me deixaram meio enjoada.

Arequipa… que cidade. Até hoje lembro dos guris de alguma escola, todos iguais nos uniformes, atravessando a Plaza de Armas. Corriam atrás dos pombos, rindo. Era bom de ver. Aliás, por essas bandas, quase toda cidade tem uma Plaza de Armas.

A comida era rica, cheia de sabor. Fui ficando.

Acabei fazendo amizade com seu Domingos Salazar, dono da pousada. Um viúvo de sessenta e poucos anos, que tocava violão como ninguém.

E, pra minha sorte, sabia ensinar. Como eu já arranhava um pouco, em poucas aulas voltei a pegar o jeito. Ele dizia que eu tinha nascido praquilo. Fofo. Claro que falava olhando pras minhas pernas. Mas tudo bem.

Não sei explicar por que me apeguei tanto a ele. Era diferente. Eu ficava horas ouvindo as histórias.

Até hoje lembro daquele conselho.

Depois de me escutar por um bom tempo, acabei chorando. Ele ficou quieto, só me olhando.

— Sabe… às vezes eu me pergunto se não me tornei aquilo que nunca quis ser.

Ele pegou o charuto, acendeu, tragou com calma. Depois soltou a fumaça e disse:

— Ana, a gente se perde e se acha no caminho. O importante é não esquecer quem a gente quer ser, mesmo quando erra.

Com quase dois meses de estrada, cheguei a Cusco. Me ofereceram marijuana assim que desci do ônibus. Meu Deus. Que absurdo.

Fiz todos os passeios que minhas míseras economias permitiam. Me encantei por Ollantaytambo e pelo Vale Sagrado. Comi cuy al horno, um ratão. Não tem muita carne, mas vale pela experiência.

Depois segui com um grupo numa trilha até Águas Calientes.

Que região… não tenho palavras. O vilarejo pequeno, cercado por natureza, o silêncio das montanhas. Dá vontade de chorar só de lembrar.

Fui atrás da tal pousada indicada pelo Gabriel, aquele anjo safado. Cheguei dois dias antes do combinado. Ele não estava.

Esperei.

Os dias passaram… e nada.

Queria subir pra Machu Picchu com ele. Não deu. Fui sozinha.

Nem tento descrever aquele lugar. Não tenho esse talento.

Subi o Huayna Picchu e, lá no topo, chorei feito criança.

— Ele tinha razão. É libertador.

Muito.

Ali pedi perdão pelos meus pecados, agradeci pela minha vida… e desci a montanha.

Até hoje, foi a melhor viagem da minha vida. E nem foi só por tudo que aconteceu… embora também.

Voltei grávida.

Pois é. Sem camisinha.

Inclusive o pequeno Gabriel está ali, brincando com o filho da vizinha, enquanto eu escrevo isso.

Sim… dei o nome daquele anjo safado pro meu filho.

Quando cheguei em Porto Alegre, aquele lugar já não me cabia. Não era mais meu. Duas semanas depois, me mudei para São Paulo. Assim, de supetão.

Aquela doidinha do bar me ajudou muito. Fiquei uns dias na casa dela, consegui um emprego num escritório de contabilidade… e comprei um violão.

Um dia, no mesmo bar onde nos conhecemos, ela me fez cantar. O namorado dela tocava lá.

E foi assim que as noites de terça começaram a ser minhas.

Pra minha surpresa, o pessoal gostou. Meu repertório misturava Janis Joplin, Bob Dylan… e claro Johnny Cash. Aquele básico que nunca falha.

Até que um dia o dono me chamou pra tocar numa sexta. A casa cheia, o melhor dia da semana.

— Mas precisamos de um nome artístico pra você — ele recomendou.

Na sexta, o bar lotado.

E como as coisas são engraçadas…

Sabe quem estava lá, juntinhos?

Aquele casal do ônibus.

Sorri.

— Boa noite, senhores… meu nome é Ana Cash.

P.S.: Ana Cash, esse é pra você.

Vicente Braga

VicenteBragaCortez@Gmail.Com

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Comentários

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Que bacana! Uma descrição primorosa e - assim acredito - realista. Conto muito show

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