Amor do passado, dor do presente. Parte 12 - Penultima parte

Um conto erótico de Guilherrme
Categoria: Heterossexual
Contém 3062 palavras
Data: 26/04/2026 18:13:02

Me rendi a tudo, aos meus problemas, a minha mágoa e minha vida destruída, e só consegui encontrar prazer em uma única coisa.

Eu não sabia quantas doses já tinham descido, mas o balcão do barzinho no centro já parecia mais confortável que a minha própria cama. O lugar estava cheio de jovens, gente completamente alheia ao meus sofrimento, rindo e bebendo como se a vida fosse um feriado eterno. Eu estava num canto, embaçado, com o copo na mão e a alma do avesso. Quando vi o Doda cruzando a entrada, a silhueta dele se destacando entre as mesas, senti um estalo de reconhecimento. Levantei o copinho de uma vez, os olhos pesados, e chamei o cara com o que me restava de voz.

— Guilherme, meu amigo, o que está acontecendo com você? — ele perguntou, parando na minha frente com aquela cara de quem está vendo um desastre em câmera lenta.

Eu dei um riso torto, sem um pingo de alegria.

— Tentando ser feliz! Não tá vendo? Vem cá ser feliz comigo! — gritei, ou pelo menos achei que gritei, enquanto levantava o copo vazio pro barman.

Joguei uma nota amassada em cima do balcão, pra pagar tudo que eu já tinha bebido e adiantar qualquer próxima dose que eu viesse a me embriagar. O Doda puxou uma cadeira e sentou do meu lado, mas a expressão dele era de puro julgamento de amigo. Ele disse que não ia beber, que tinha que dirigir . Dei de ombros.

— Não tem problema — resmunguei, sentindo a língua meio enrolada. — Então pelo menos me faz companhia.

— Claro, amigo, eu tô aqui — ele respondeu, me encarando, enquanto me viu com aquela cara derrotada e bêbada.

O barman encheu meu copo de novo. Olhei para o líquido transparente por um segundo e, de repente, o dique estourou. Eu desabei. Não foi aquele choro bonito de cinema; foi um pranto feio, cheio de mágoa e desgaste. Depois, olhei pra meu amigo, completamente bêbado, enquanto um e outro olhou pra mim.

— Em um momento eu tive tudo, cara... — solucei, sentindo o rosto quente. — Eu tinha uma namorada que me amava, tinha um futuro planejado, o sonho de ter uma família de verdade. Tudo isso foi pro lixo por causa de uma armação. E aí, quando eu tento recomeçar, eu me apaixono de verdade por aquela mulher, cara... E agora eu descubro que tudo, tudo que ela fez pra se aproximar de mim, foi a base de mentira, e o pior, chegou a me trair pra que eu não descobrisse, e o mais pior de tudo isso, é que eu sei que é culpa minha.

O Doda, que naquelas horas deixava de ser o Dr. Rodrigo pra ser só o meu parceiro, um grande amigo que a vida me deu, colocou a mão em meu ombro, e me acalmou, ou tentou faze-lo.

— Agora não estou aqui como o Dr. Rodrigo, mas sim como um amigo. Eu sei de boa parte da história, cara. O que eu posso te dizer é que eu sei como você deve estar se sentindo, apesar de nunca ter passado por algo assim. Foi um golpe baixo, um golpe muito sujo. Mas não fica se culpando, Guilherme. Você não tinha como saber que ela estava mentindo, que tudo aquilo era um plano pra te separar da sua ex.

Virei a dose de uma vez só. O álcool desceu queimando, mas não queimava tanto quanto a verdade.

— Cara, não foi só isso — falei, olhando fixo pra ele. — Tudo isso aconteceu porque eu fui estúpido com ela lá atrás, no orfanato. Eu prometi que nunca iria esquecer dela, prometi que a gente ia casar... Eu era uma criança, mas ela... ela cresceu com essa promessa cravada na cabeça. Enquanto eu tava por aí, caçando mulher, caindo na gandaia e depois me sossegando com a Fernanda, ela tava me esperando. Ela era virgem, Doda... quando eu a toquei pela primeira vez, ela era virgem.

O peso daquela constatação me esmagava.

— Eu tô com um ódio mortal da Raquel, mas ao mesmo tempo eu sinto essa culpa maldita por ter brincado com o sentimento de uma garota que era tão inocente na época. Ela deve ter sido influenciada pelo pai, aquele velho sem vergonha, e eu sei que isso não justifica, mas, porra... Não sei mais o que pensar.

— E o que você pretende fazer agora, amigo? — o Rodrigo me perguntou, com a voz baixa.

Eu olhei direto nos olhos dele, o desespero vencendo a embriaguez por um instante.

— Você tem o endereço de onde a Fernanda mora. Eu preciso dele, Doda. Pelo amor de Deus, cara, me ajuda! Eu preciso que ela me ouça. Eu preciso explicar tudo.

— Eu não posso — ele respondeu, balançando a cabeça. — Você sabe que os dados dela são sigilosos, eu não posso sair passando o endereço dela pra qualquer um.

— Não é pra qualquer um, cara! — gritei, quase perdendo o equilíbrio na cadeira. — É pra mim, seu amigo. Eu preciso verdadeiramente me explicar com ela. É a minha vida que tá em jogo aqui.

O Doda ficou em silêncio por um tempo, olhando pro balcão. Ele suspirou fundo, como se estivesse jogando o código de ética no lixo.

— Talvez você não encontre lá o que você espera, mas dane-se o protocolo. Eu vou te passar o endereço. Mas pelo amor de Deus, para de beber agora.

— Por que, "Talvez"°? — perguntei.

— Nada, Guilherme. Melhor que você vá mesmo resolver tudo com ela.

Ele pegou um pedaço de papel, rabiscou alguma coisa e enfiou no bolso da minha camisa. Aquilo era o meu bilhete de loteria ou a minha sentença de morte, eu não sabia. Só sei que parei de beber na mesma hora. O Rodrigo me ajudou a levantar, me carregou até o carro enquanto eu tropeçava nas próprias pernas, e assim que encostei a cabeça no banco, o mundo apagou.

Acordei no dia seguinte com a sensação de que um caminhão tinha passado por cima da mim e me deixado todo quebrado. Eu estava na minha cama, sem camisa, com a boca seca e a cabeça latejando a cada batida do coração. Demorei uns minutos pra entender onde eu estava e quem eu era.

As lembranças da festa vieram em flashes dolorosos: os documentos na mesa, a cara da Raquel, o choque do pai dela, todas as revelações ali. Eu era um homem livre agora. Livre de todas as mentiras, livre daquele noivado de fachada, livre das amarras que me sufocavam.

Mas, em vez de me sentir leve, eu sentia um buraco no peito. Um vazio que parecia não ter fim. Parecia que, agora que a farsa tinha acabado, a minha vida também tinha perdido o trilho. O que eu iria fazer á seguir? Tinha conseguido uma bolada, mas fiz aquilo no impulso. Eu só esperei que meu ato tivesse dado certo e que eles esqueçam de mim.

Levantei me arrastando e fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro na água mais fria que consegui e deixei o jato cair direto na nuca. Fechei os olhos, sentindo o choque térmico, e foi aí que a realidade caiu com tudo.

Tudo o que eu fiz, tudo o que eu deixei de fazer... tudo estava ali, escorrendo junto com a água. Eu me coloquei a chorar de novo. Eu odiava fazer aquilo, odiava me sentir vulnerável, mas não tinha como segurar. Minha vida não era mais a mesma, e eu não sabia o que fazer.

Depois do banho, estava eu, sentado na cama, não esperando mais nada da vida, mas a vida ainda iria me dar algo. Olho para meu celular, e ele começa a vibrar, e aquela música de toque ecoava no meu ouvido, e fazia minha cabeça doer ainda mais.

— Mais essa agora... — Disse.

Eu não queria atender. Não queria falar com o mundo, muito menos com quem quer que estivesse do outro lado. Mas o nome no visor me fez congelar: Raquel.

Já tinha deixado claro, que não queria a presença dela mais em minha vida. Ela sabia que eu não queria que ela me procurasse. Mas pelo jeito isso não adiantou. Não queria atender! Mas uma parte de mim, talvez a parte que ainda estava quebrada e buscando algum sentido naquele caos, me fez deslizar o dedo pela tela e levar o celular ao ouvido.

— Alô... Guilherme? — A voz dela veio frágil, um fio quase imperceptível, carregada de uma hesitação que eu nunca tinha visto na Raquel sempre cativante e confiante que eu conhecia.

— Fale, Raquel. — Minha voz saiu rouca, seca, desprovida de qualquer afeto. — Eu achei que nós já tínhamos falado tudo o que precisávamos naquela sala.

Eu estava destruído. A traição dela, as mentiras cirúrgicas, a forma como ela manipulou cada momento da minha vida... tudo isso latejava mais que a minha ressaca. Mas, por mais que eu tentasse odiá-la com todas as minhas forças, ainda existia aquele resquício de culpa, aquela lembrança da menina do orfanato que eu prometi proteger.

Do outro lado, não veio uma resposta imediata. Só ouvi o som de um choro profundo, um soluçar que se estendeu por um minuto inteiro. Eu fiquei ali, imóvel, ouvindo a desintegração de quem sempre pareceu ter o controle total de tudo.

— Estou te ligando pra te dizer que eu sinto muito — ela começou, a voz embargada. — Por tudo o que eu fiz. Eu causei muito mal para você... e para a Fernanda.

— E você quer o que agora, Raquel? — perguntei, sentindo uma pontada de irritação misturada com cansaço. — Você quer o meu perdão?

— Não acho que eu mereça isso — ela respondeu rapidamente, quase num sussurro. — Eu só queria que alguém me escutasse agora. Que você me escutasse.

Eu não desliguei. Eu me encostei na parede, sentindo-a nas minhas costas, mas ao mesmo tempo, sentindo como se estivesse encostado no vácuo, e deixei que ela falasse. E o que veio a seguir foi uma história que eu não estava preparado para ouvir.

— Gui... — ela respirou fundo. — Eu descobri a verdade sobre a minha família. Aquele que eu acreditava ser só meu pai adotivo... ele é meu pai de verdade. E a senhora Ana? Ela é a minha mãe biológica.

Eu já sabia desse fato, mas não imaginava que contariam pra ela. A voz dela, ao contar isso, saiu com um choro abafado, como se ela não se conhecesse mais. Em silêncio, a deixei continuar.

— Agora eu sei como você se sente — ela continuou, voltando a chorar. — Vendo sua vida toda sendo movida por uma mentira. Talvez eu tenha aprendido a mentir assim com eles. Eles me contaram tudo. Meu pai, na época em que já era casado com a minha mãe adotiva, descobriu que ela não podia ter filhos. A senhora Ana trabalhava como faxineira na casa dele... e ele acabou tendo um caso com ela. Ela engravidou de mim.

Segui ouvindo a história, que era pausada com um choro e uma sinceridade que me deixaram a prestar atenção ainda mais no que ela fala. Ela continuou.

— Ele a expulsou de casa quando soube da gravidez. Ela, sozinha e desesperada, acabou me colocando para adoção naquele orfanato. Eu poderia lamentar por não ter nascido em berço de ouro, mas se não fosse por isso, Gui, eu nunca teria conhecido você. Você era o único que me protegia, que cuidava de mim e das outras crianças. Você sempre foi o mais forte de todos nós.

Ela parou para recuperar o fôlego, o choro ainda presente em cada palavra.

— A minha mãe verdadeira, a Ana, não aguentou ficar longe. Ela foi trabalhar naquele orfanato só para ficar próxima de mim, para me ver crescer, mesmo que eu não soubesse quem ela era. E então, anos depois, meu pai resolveu "consertar" as coisas. Quando a esposa dele decidiu adotar uma criança, eles aproveitaram que estavam fora do país. Ninguém suspeitaria de nada. Antes de voltarem para o Brasil e se apresentarem aos amigos, eles trataram de me adotar legalmente. Meu pai foi atrás de mim no orfanato... eu não sei se por culpa ou por puro orgulho de ter o sangue dele por perto.

Eu ouvia tudo em silêncio, sentindo o peso daquela revelação. A vida da Raquel tinha sido um teatro montado pelos pais antes mesmo de ela ter idade para entender o que era uma mentira.

— Eu mudei, Guilherme. Depois que fui adotada, eu passei a ser vaidosa, a exigir o melhor de tudo. Eu conseguia tudo o que queria. Se eu pedia, ele me dava. E uma vez... uma vez eu pedi algo que eu não podia comprar. Eu pedi você. Eu contei de você. Contei que me guardei a você e que eu não queria outro que não fosse você.

Senti um calafrio.

— Pedi para ele ir atrás de você no orfanato, descobrir onde você estava. Me disseram que você nunca tinha sido adotado, que tinha estudado muito, passado na Federal e estava na universidade. Que você estava bem. Naquele momento, eu vi, que você era um homem certo pra mim. Meu pai também, um homem que deu duro como ele.

Então eu me esforcei. Eu estudei o ano todo, mesmo enquanto eu ainda prestava faculdade em outra universidade, com bem mais recursos. Eu pedi para sair de onde eu estudava e me transferir para a Federal também, só porque eu queria te ver. Eu precisava te encontrar de novo.

Raquel interrompeu a fala com um choro amargo. Eu, do outro lado, apenas processava a extensão daquela obsessão que atravessou décadas.

— Eu sei que o que eu fiz foi errado — ela disse, tentando controlar a voz. — E não vou ficar aqui me justificando, dizendo que fiz por amor. Eu percebi que amor não é justificativa para jogar sujo, para destruir a felicidade de ninguém. Eu só fiz porque... porque eu realmente queria você. E você estava com outra. Você estava feliz com a Fernanda, e eu não suportava aquilo.

Houve um silêncio longo entre nós. A raiva que eu sentia ainda estava lá, mas ela tinha sido atropelada por uma exaustão emocional que eu não conseguia mais ignorar. Ver a Raquel desmoronar daquela forma me fez perceber que éramos todos, de alguma forma, vítimas das nossas próprias histórias mal resolvidas.

— Tudo bem, Raquel — eu finalmente disse, a voz mais suave do que eu pretendia. — Eu te perdoo. Pode ficar em paz.

Eu ouvi um soluço engasgado do outro lado. Ela voltou a chorar, mas desta vez parecia um choro de alívio, de quem finalmente solta um peso que carregava há anos.

— Obrigado... obrigado, Guilherme. Eu realmente precisava ouvir isso. Eu decidi que vou procurar ajuda. Acho que preciso de alguém profissional para conversar sobre todos esses problemas que eu carrego.

— Não é só você que precisa de ajuda, Raquel — eu respondi, pensando no meu próprio estado, no vazio que sentia.

— Oi? — ela perguntou, confusa.

— Eu também te peço desculpas — completei, sentindo o peso daquelas palavras. — Por não ter lembrado do que eu te falei lá atrás. Por ter seguido a minha vida e esquecido aquela promessa, enquanto você se prendia a ela.

— Gui! — ela exclamou, com uma urgência na voz. — Para com isso! Você não tem culpa de nada! Você seguiu sua vida, era o normal a se fazer. Eu que deveria ter imaginado isso. Quando eu vi que você tinha seguido em frente, eu deveria ter feito o mesmo. Mas eu estava tão vidrada, com tanta raiva pelo trabalhão que deu te encontrar... que eu acabei fazendo toda essa besteira.

— É, Raquel — eu suspirei. — Você fez muita besteira sim. Você acabou com o meu namoro, me manipulou, e ainda me traiu enquanto estávamos juntos só para garantir que eu não descobrisse a verdade quando você fosse processada. Você sabia que, como seu advogado, eu teria acesso às provas e terminaria tudo. E eu terminei. Talvez, se eu tivesse descoberto de outra forma, eu estaria com um ódio mortal de você agora. Mas eu vejo que não vale a pena alimentar esse tipo de sentimento. Você teve seus motivos, por mais deturpados que fossem. Fique em paz, Raquel. Espero que consiga encontrar o seu caminho.

— Obrigado — ela murmurou pela última vez.

A ligação caiu. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu me arrastei até o sofá e me joguei ali, ainda com a toalha úmida. Fiquei parado, olhando para o teto por duas horas. O tempo não passava, ele apenas se arrastava. Eu não sabia o que pensar, o que sentir ou o que fazer com os restos da minha vida. A verdade tinha sido libertadora, mas a liberdade tinha um gosto amargo de solidão e fracasso.

Naquela mesma tarde, o último pilar da minha antiga vida desmoronou. Recebi uma ligação do escritório. Não houve surpresas, nem discussões longas. Eles estavam alinhando a minha demissão.

A empresa tinha um protocolo e eu havia violado esse protocolo quando visualizei provas que eram sigilosas que estavam dentro dos autos de uma cliente. Eu sabia que isso iria acontecer, mas foi como uma segunda liberdade. Agora eu estava pronto para ir embora recomeçar a vida em outro lugar. A demissão seria sem brigas, sem nenhum empecilho para que eu continuasse em outro lugar.

A primeira coisa que fiz, foi ligar o computador de casa e consegui alguns contatos de orfanatos aos quais eu poderia ajudar de alguma forma. Praticamente todo o montante de dinheiro que eu acabei extorquindo do velho, foi para ajudar pessoas como eu, pessoas que não tinham nenhuma oportunidade e que viviam as custas de doações, quase sempre nulas. Eu acabei por não ficar com nada, eu tinha economias e a venda de alguns bens já me ajudaria a recomeçar a vida. Confiava em Deus, que ele iria me ajudar a reerguer.

A cada vez que eu fazia uma doação um pouco de mim começou a sentir paz, como se eu soubesse que eu estaria dando um pouco de esperança para cada criança que não tinha nenhuma dificuldade assim como eu tive.

Agora só me restava mais uma coisa. Eu estava ali, com o volante na mão seguindo até a casa de Fernanda onde eu poderia vê-la mais uma vez. O endereço estava ali gravado um pedaço de papel enquanto este estava suspenso no banco de passageiro. Assim que cheguei, sai do carro e fui direto até a porta dela ali eu acabei apertando a campainha até que saiu alguém para me atender. E não era a Fernanda.

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Comentários

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Essa conversa com a Raquel foi de chorar

No começo do conto queria xingar a Raquel e hoje iria perdoa la numa boa

Conto muito bom

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