*Capítulo: "Primeiro Socorro"*
Pela ótica de Marina, 19 anos, caloura de ADM*Universidade Federal - Março, 2015*
Eu odiava calouros. Odiava trote, odiava festa de integração, odiava gente feliz. Entrei em Administração porque meu pai, Seu Agenor, disse que "mulher tem que ter futuro".
Eu tinha 19 anos e já era cínica.
O motivo? Seis meses antes eu cheguei da escola mais cedo. Abri a porta de casa e ouvi gemidos. Não eram do meu pai. Entrei no quarto e vi minha mãe. Com o vizinho. Na cama dela e do meu pai.
Ela me viu. Não parou. Só colocou o dedo na boca: "Shhh".
Naquela noite meu pai descobriu. Não gritou. Só pegou a aliança, colocou na mesa e saiu. Voltou três dias depois, com um vinco novo no rosto. De homem traído. De homem quebrado.
Minha mãe saiu de casa e fugiu com esse vizinho ,nos falamos poucas vezes depois disso.
Desde então eu tinha nojo. De homem. De amor. De promessa. Aversão a Traição virou meu sobrenome.
*Faculdade - Semana de Integração, Março de 2015*
Me obrigaram a ir na gincana dos cursos. ADM x Medicina. Prova ridícula: carregar um "ferido" na maca improvisada até a enfermaria.
Caí de boba. Torci o tornozelo de verdade no meio do pátio, na frente de 200 pessoas. Caí sentada no chão, de vestido, pagando mico.
Aí ele apareceu.
20 anos, jaleco já amarrado na cintura, cara de quem dormiu 3h. Crachá: Lucas, Med - 4º Período_.
"Afastem, sou da medicina." Ajoelhou na minha frente sem cerimônia. Mãos firmes. "Quebrou?"
"Meu orgulho, só." Respondi, com dor e raiva.
Ele riu. Primeiro homem que eu via rir sem me dar nojo.
"Deixa eu ver seu tornozelo, caloura."
Pegou meu pé. Mão quente, calosa de tanto estudar. Examinou rápido, profissional.
"Entorse leve. Nada quebrado. Mas vai inchar. E você tá quase chorando, não de dor. De ódio de estar no chão."
Ele me leu em 10 segundos. Eu odiava estar vulnerável. Odiava depender.
"Não preciso de ajuda." Tentei levantar. Doeu. Quase caí de novo.
Ele não pediu licença. Passou meu braço pelo ombro dele e me levantou. Cheiro de café e sabonete barato.
"Todo mundo precisa de ajuda, Marina." Ele leu meu nome no crachá. "Até as bravas. Principalmente as bravas."
Me carregou no colo até a enfermaria. Na frente de todo mundo. Eu, que jurei nunca mais confiar em homem, estava com a cara enfiada no peito de um estranho de jaleco.
*Enfermaria - 30 minutos depois*
Ele fez a bandagem. Conversava enquanto apertava a atadura.
E Perguntou:
"Por que ADM?"
"Porque meu pai mandou."
Kkkkk seu pai mandou :
"Resposta errada. Tenta de novo ano que vem."
Eu dei um sorriso sem querer. Primeiro em meses.
"E você? Por que medicina? Quer salvar o mundo?"
Ele parou. Olhou pra mim, sério pela primeira vez.
"Não. Quero consertar gente. Gente quebra fácil. Igual tornozelo. Igual coração. Minha mãe morreu porque um médico errou. Eu não erro."
Aquilo me quebrou. Um menino de 20 anos falando de morte com a boca, mas de vida com as mãos.
"Você tem ódio nos olhos, Marina." Ele terminou a bandagem e segurou meu queixo, me obrigando a olhar pra ele. "Quem te quebrou?"
Ninguém nunca tinha perguntado. Eu contei. Não sei por quê. Contei da minha mãe. Do vizinho. Do "shhh". Do meu pai em silêncio. Do meu nojo de amor.
Ele ouviu tudo. Não me julgou. Não disse "eu sinto muito". Só disse:
"Traição é uma merda. Meu pai traiu minha mãe antes dela morrer. Eu sei o gosto que fica na boca. É de sangue."
Aí ele fez uma promessa idiota. Coisa de menino.
"Deixa eu te prometer uma coisa, caloura de ADM? Eu, Lucas, futuro cirurgião, nunca vou te trair. E nunca vou deixar ninguém te quebrar de novo. Nem eu."
Eu ri. De deboche. De medo.
"Promessa de homem não vale nada. Aprendi com a minha mãe."
Ele deu de ombros. "Então não acredita na promessa. Acredita em mim. Todo dia. Eu te provo todo dia."
E ele provou levando marmita na época da faculdade quando eu virava noite em trabalho de ADM.
Provou me buscando na biblioteca 23h porque eu tinha medo de voltar sozinha.
Provou estudando contabilidade comigo mesmo odiando, só pra eu não surtar na prova.
Provou me apresentando pro pai dele: "Essa aqui é blindada, pai. Mas eu vou furar a armadura".
E furou.
Meu primeiro beijo de verdade foi dele. No DCE, numa festa que eu não queria ir. Ele me puxou pra dançar.
"Você dança que nem anda: com raiva."
Aí ele me beijou. Sem pedir. Sem traição. Sem sujeira. Só vontade.
E eu correspondi. Porque pela primeira vez, desde o "shhh" (a traição da minha mãe), eu não senti nojo. Senti paz.
Naquela semana eu perdi a virgindade ,nunca senti tanto prazer na minha vida ,eu tive certeza que nem todos os homens são iguais e queria ele pra mim
*Outubro deanos depois de se conhecerem*
Eu, 21 anos, formada em ADM. Ele, 22 anos, no 8º período, já cortando cadáver.
A gente dividia um apê minúsculo. Plantão dele, estágio meu. Conta atrasada, miojo e amor.
Casamos ema linda festa ,me senti a mulher mais feliz do mundo ,e disse pra mim mesma nunca serei como minha mãe .
Uma noite ele chegou do hospital às 4h da manhã, com a cara acabada. Tinha perdido o primeiro paciente na mesa.
Chorou no meu colo. Futuro cirurgião, chorando.
"Eu prometi que não ia errar, Marina. Eu errei."
Eu segurei o rosto dele igual ele segurou o meu no primeiro dia.
"Você não quebrou ele, Lucas. A doença quebrou. Você tentou consertar. Igual você fez comigo."
Aí eu entendi. Superação não era esquecer minha mãe, nem o que ela fez com meu pai, Seu Agenor, calado até hoje.
Superação era olhar pro Lucas dormindo no meu peito e pensar: "Nem todo homem é igual. Esse aqui é meu. E eu vou proteger ele como ele me protegeu no dia que eu caí."
O ódio da traição ainda vivia em mim. Vivia no meu pai.
Mas o amor pelo Lucas era maior. Era cirurgia. Cortava o ódio, tirava o tumor, costurava de novo.
Eu jurei pra mim mesma em 2017: "Eu nunca vou fazer ele sentir o que meu pai sentiu. Nunca. Eu tenho nojo de traição. Eu vou ser diferente da minha mãe."
Ironia, né? 11 anos depois de fazer essa promessa, a menina que jurou nunca trair, traiu. A que tinha nojo, virou a causa do nojo. Quebrou o homem que consertou ela.
Essa sou eu Marina que de odiar o lixo ,me tornei parte dele.
Continua...
Pessoal está curto mais era necessário essa prévia para os dois últimos capítulos.