Ricardo saiu do banheiro com o cabelo ainda húmido, colando ao pescoço e aos ombros largos. Uma toalha envolvia a sua cintura, mas o vapor do duche seguia-o como uma aura de poder. Ele parou à porta, os olhos a pousarem em Marco, ainda caído no chão, um amontoado de músculos e camisa social amarrotada. O silêncio do apartamento era pesado, quebrado apenas pelo som de gotas de pré-ejaculação a caírem do aço do cinto de castidade sobre a seda do tapete. O cheiro de sexo, suor e humilhação pairava no ar. Ricardo cruzou os braços, o anel de prata com o detalhe da serpente a brilhar sob a luz suave. "Levanta-te. Arruma-te e vai embora", a sua voz era calma, sem calor, como se estivesse a dar uma ordem a um subordinado para arquivar um relatório. Ele não se moveu, apenas observou enquanto Marco lutava contra o próprio corpo, os joelhos a doerem, a garganta crua. Marco pôs as mãos no chão, os braços a tremerem, e forçou-se a ficar de pé. A camisa estava manchada, o seu pênis ainda preso e dolorosamente rígido dentro da gaiola de metal. Ele sentiu o olhar de Ricardo a percorrê-lo, a despi-lo da sua dignidade restante.
Antes que Marco pudesse dar um passo em direção à saída, Ricardo levantou um dedo. "Espera." Ele virou-se e caminhou com uma passagem deliberada para uma sala adjacente, a porta a abrir-se e a fechar-se com um clique suave. Marco ficou paralisado no meio da sala, o coração a martelar no peito, um misto de medo e uma expectativa doentia a correr-lhe nas veias. Poucos segundos depois, Ricardo voltou, segurando uma pequena caixa preta e fosca. Ele entregou-a a Marco. "Isto é para caso tenhas alguma dificuldade em dormir. Ou se sentires... excitado." Um sorriso fino e cruel contorceu os cantos da sua boca. "O vídeo vai ajudar-te a entender o teu lugar. Assiste-o." Marco pegou na caixa, os seus dedos a sentirem o frio do metal e do plástico. Ele não ousou perguntar o que era. A resposta estava nos olhos de Ricardo, uma promessa e uma ameaça. Sem mais uma palavra, Marco virou as costas, a sua marcha incerta enquanto se dirigia para o elevador. A cada passo, sentia o peso do que acontecera, o gosto amargo e salgado de Ricardo ainda impregnado na sua língua, uma marca indelével da sua submissão. No trajeto para casa, a lágrima que ele lutou para conter finalmente escapou, traçando um caminho quente pela sua face fria.
Ao entrar no seu próprio apartamento, o silêncio pareceu gritar. Marco despiu a camisa rasgada e as calças, deixando-as cair no chão como uma pele morta. No espelho do banheiro, ele viu um estranho: um homem com o corpo de um atleta, o rosto de um gerente respeitado, mas com os olhos de um animal encurralado. Ele abriu o chuveiro, a água quente a castigar-lhe a pele. Quando o jato bateu na virilha, uma dor aguda percorreu-o. O cinto de castidade, uma prisão de aço frio, aqueceu com a água, mas a sua pressão era constante, um lembrete implacável do controlo de Ricardo. Ele limpou o corpo com fúria, como se pudesse lavar a humilhação, o cheiro, o sabor. Mas era inútil. A memória estava gravada nele.
Depois do banho, Marco deitou-se na cama, o colchão a parecer estranho e desconfortável. Ele fechou os olhos, forçando-se a respirar fundo, mas o sono não veio. A sua mente, uma torrente caótica, reproduzia os eventos em alta definição: os joelhos no chão, a voz de Ricardo a ecoar, a sensação do pênis de Ricardo a encher-lhe a boca, a ordem para engolir. O seu próprio corpo reagiu, o pênis a tentar endurecer dentro da sua gaiola, a dor a misturar-se com um desejo que ele não compreendia. A caixa preta sobre a mesinha de cabeceira parecia zumbir, a chamar por ele. Com um suspiro trémulo, ele sentou-se, pegou no telemóvel e introduziu a fita.
O vídeo começou. A imagem era nítida, filmada de um ângulo elevado, provavelmente de uma câmara oculta. E lá estava ele. Marco, de joelhos, a cabeça inclinada, a sua postura de arrogância completamente desmantelada. Ele viu-se a abrir a boca, a língua a sair hesitante para tocar na cabeça do pênis de Ricardo. Viu o seu próprio pescoço a arquear-se enquanto o engolia, as faces côncavas com o esforço. Ouviu os sons abafados de engasgamento, os gemidos suaves de Ricardo, as palavras de comando. A cena culminou com o seu próprio rosto a ser puxado para trás, o sêmen a esguichar-lhe na boca e no queixo, a sua língua a sair para apanhar as últimas gotas. Um nó de pânico e vergonha apertou-lhe o estômago. Era ele, mas parecia um outro, um ser estranho e patético. No entanto, enquanto assistia, ele sentiu uma resposta traiçoeira do seu próprio corpo. O pênis, que já estava semi-ereto, endureceu completamente, a ponta a pressionar dolorosamente contra as barras de aço. Novamente, começou a pingar, um fio brilhante de fluido a escorrer-lhe pela coxa. A mão de Marco desceu instintivamente, os dedos a envolverem o metal quente. Ele tentou acariciar-se, a encontrar algum alívio, mas só conseguiu tocar as bordas frias da gaiola. A sua mão fechou-se em punho, frustração e desejo a lutar dentro dele. Ele roçou os dedos contra a base do seu pênis, contra os testículos inchados, e um espasmo percorreu-o, involuntário. Mais fluido escapou, um prazer torturante que só aumentava a sua agonia. Ele desligou o vídeo, atirando o telemóvel para o outro lado da cama, ofegante no escuro.
A manhã chegou como uma sentença. Marco sentiu-se exausto, os olhos pesados de sono que nunca veio. O cinto de castidade era a primeira coisa que ele sentiu ao acordar, uma realidade fria e implacável. Ele teve de se vestir para o trabalho, a performance da sua vida normal. Escolheu um terno Armani de cor escura, esperando que disfarçasse o volume anormal na sua entreperna. A cada movimento, sentia o metal a roçar, um atrito constante que o mantinha num estado de alerta e desconforto. Olhou-se ao espelho mais uma vez, forçando um semblante neutro, a máscara do gerente de operações competente e no controle. Ninguém podia saber.
No escritório, a atmosfera parecia opressiva. Ele evitou o contato visual, caminhando diretamente para a sua mesa. O ar-condicionado frio pareva acentuar a sensação do metal contra a sua pele. Alguns colegas passaram, lançando-lhe olhares preocupados. "Tudo bem, Marco? Pareces cansado." Ele apenas assentiu, forçando um sorriso fraco. "Noite longa. Trabalho." A mentira saiu-lhe fácil, praticada. Passou o dia mergulhado em relatórios e e-mails, uma tentativa desesperada de se perder na lógica dos números e das operações, de silenciar a voz de Ricardo na sua cabeça. Mas a presença do homem era fantasmagórica. De vez em quando, ele sentia um olhar sobre si e, ao levantar a cabeça, via o perfil de Ricardo do outro lado do escritório, sempre calmo, sempre observador, uma serpente à espreita da sua presa.
No final da tarde, quando o escritório começava a esvaziar-se, o telemóvel de Marco vibrou na secretária. Um nó de apreensão apertou-lhe a garganta. Ele olhou para o ecrã. Era uma mensagem de Ricardo. Com o coração a martelar, ele abriu-a. As palavras eram simples, diretas, e cortaram-no como uma lâmina. "Hoje à noite, prepare-se. Sua nova vida de prazer irá começar." Marco ficou a olhar para o ecrã, a mensagem a queimar-se na sua retina. O prazer. A palavra era um paradoxo, uma promessa de êxtase e uma ameaça de aniquilação. Ele sabia que não tinha escolha. A sua nova vida, a vida que Ricardo tinha esculpido para ele, estava prestes a começar de verdade.
O silêncio no escritório era um peso físico, uma densa atmosfera de premonição que sufocava o ar. O zumbido constante do ar-condicionado central era o único som, interrompido esporadicamente pelo clique seco e nervoso das teclas sob os dedos de Marco. A luz azulada do monitor do computador refletia-se nos seus olhos, revelando as pupilas dilatadas pelo pânico. No canto da tela, uma notificação pulsava, insistente e cruel. Era uma mensagem de Ricardo, uma sentença digital que selava o seu destino com uma precisão cirúrgica: "Hoje à noite, prepare-se. Sua nova vida de prazer irá começar."
Cada palavra daquele texto era uma lasca de gelo na sua espinha, um lembrete gelado de que a sua autonomia tinha chegado ao fim. O metal frio do cinto de castidade apertava-se em volta da sua virilha, um lembrete constante e brutal da sua impotência. Aquele frio metálico contrastava violentamente com o suor quente que brotava na sua testa, escorrendo pelo templo e manchando a gola da sua camisa social. Ele tentou ajustar-se na cadeira, mas o movimento apenas fez o anel de aço roçar de forma dolorosa contra a base do seu pau preso, um lembrete físico de que ele já não era dono do seu próprio corpo.
A porta do gabinete abriu-se sem um som, deslizando suavemente nos trilhos como se tivesse sido lubrificada com óleo de silêncio. Ricardo entrou como se o espaço lhe pertencesse por direito divino, a sua presença imediata e avassaladora, preenchendo o escritório com uma tensão elétrica e palpável. Ele não bateu. Não precisava. A camisa social branca que vestia estava impecável, o algodão fino acentuando a largura dos ombros e a musculatura madura que mantinha com disciplina de ferro. Os fios prateados da barba bem feita captavam a luz fria das luminárias fluorescentes, conferindo-lhe uma aura de autoridade inquestionável. O anel de prata com o detalhe de serpente reluziu momentaneamente quando ele pousou a mão pesada e firme na mesa de Marco, invadindo o seu espaço pessoal com uma intimidade que se sentia como uma violação.
— Vamos embora — disse Ricardo, a sua voz um barítono calmo, profundo e autoritário, não deixando sequer um milímetro de espaço para discussão ou hesitação. — Hoje vamos começar uma nova fase. A sua transformação.
Marco levantou-se num reflexo condicionado, o corpo a mover-se por pura inércia, como um fantoche cujos fios tinham sido puxados com força. A sua mente estava a gritar, a lutar contra a ordem, mas o seu corpo, treinado durante semanas de humilhação progressiva e condicionamento psicológico, simplesmente obedeceu. Ele apanhou o casaco do terno Armani, o tecido pesado e estruturado a sentir-se como uma armadura inútil contra o que estava por vir. Enquanto seguiam Ricardo pelo corredor vazio do escritório, os seus passos ecoavam no silêncio, um som fúnebre e ritmado que marcava o fim de algo, embora ele não soubesse ao certo o quê. Sentia os olhos dos colegas imaginários nas suas costas, um peso de vergonha antecipada, embora o edifício estivesse praticamente deserto naquela hora.
A viagem no carro de Ricardo foi feita num silêncio sepulcral, apenas quebrado pelo suave rugido do motor de alta cilindrada. Marco olhava pela janela, as luzes da cidade a desfocarem-se em manchas coloridas e distorcidas através do vidro, uma paisagem urbana que já não lhe parecia pertencer. O interior do carro era um cápsula de cheiros intoxicantes: o couro nobre dos bancos, o perfume amadeirado e caro de Ricardo, e uma nota subtil, mas inconfundível, de tabaco loiro. Era o mesmo aroma que o enchera de pavor e de uma desejo confuso e repulsivo na noite anterior. Cada respiração era um ato de submissão involuntária. Ele podia sentir o peso do olhar de Ricardo sobre ele, fixo e calculista; não era um olhar de desejo carnal imediato, mas de avaliação fria, como um artesão a examinar a sua matéria-prima bruta antes de começar a trabalhar o bloco de mármore.
O elevador do apartamento de Ricardo era silencioso, uma caixa metálica polida que os subia para o seu destino com uma suavidade aterrorizante. As portas abriram-se para o hall familiar, vasto, minimalista e frio. Marco sentiu um arrepio percorrer o seu corpo, uma memória muscular visceral do que tinha acontecido ali, as sessões de dor e prazer que tinham reescrito a sua compreensão de sensação. Mas em vez de o levar para a sala de estar, como esperava, Ricardo guiou-o diretamente para o coração do seu domínio: o quarto.
O quarto era um santuário de controlo, tão minimalista e impessoal como o resto do apartamento de luxo. Uma cama king-size dominava o centro, coberta por uma colcha de cinzento escuro, com mesas de noite de metal preto e paredes brancas nuas que refletiam a luz suave. Não era um lugar de descanso; era um altar de disciplina. Ricardo parou no centro do quarto, virando-se lentamente para Marco, os seus olhos escuros a perfurarem a alma do outro homem.
— Aqui será o seu início — disse ele, o seu olhar a percorrer o corpo alto e largo de Marco, não com luxúria, mas com a frieza clínica de um cirurgião a planear uma amputação. — Como foi de vários outros antes de si.
Ele apontou para uma porta envidraçada ao lado da parede do fundo, uma abertura escura que parecia conduzir a outro universo.
— Naquele closet tem tudo para você se preparar. No banheiro anexo também tem cremes e produtos para a sua higiene.
Ricardo deu um passo em direção a Marco, fechando a distância entre eles até que Marco pudesse sentir o calor radiante do seu corpo mais velho e musculoso. Ele podia ver os detalhes prateados na barba de Ricardo, cheirar o poder que ele exalava. A voz de Ricardo baixou, tornando-se um sussurro venenoso que se colou à pele úmida de Marco.
— Inclusive um creme especial. Você deve passá-lo em toda a área do seu corpo que tiver pelos. — Ele fez uma pausa, deixando o peso das palavras assentar no ar pesado. — Somente o macho da relação deve ter pelos e ser másculo. Você não precisará mais disso.
O olhar de Ricardo desceu, lento e deliberado, fixando-se na virilha de Marco, onde o cinto de castidade escondia o que restava da sua masculinidade física. O olhar era escarninho, cheio de uma certeza aterrorizante.
— Assim como não precisará mais do seu pênis.
A frase atingiu Marco como um soco visceral no estômago, knocking the wind out of him. O ar fugiu dos seus pulmões num assobio curto. O seu mundo desmoronou-se naquele instante, as paredes da sua identidade a racharem. Aquele não era apenas um ato de domínio sexual; era uma tentativa sistemática de apagar a sua identidade, de o desmantelar peça por peça até que nada restasse do homem que ele fora. As lágrimas, que ele tinha lutado desesperadamente para conter durante todo o dia, finalmente romperam as barreiras da sua compostura. Primeiro uma, quente e salgada, depois outra, até que um soluço incontrolável sacudiu o seu corpo inteiro, fazendo os seus ombros largos tremerem.
— Não... por favor, Ricardo... não faça isso — implorou Marco, a sua voz um ruído quebrado e patético, quase irreconhecível. — Eu faço o que quiser, qualquer coisa, sou seu escravo, mas por favor... não isso. Deixa-me ficar assim.
Ele olhou para Ricardo, os seus olhos suplicantes, procurando qualquer sinal de piedade, qualquer fissura naquela máscara de controle implacável. Não encontrou nada. A expressão de Ricardo permaneceu firme, quase aborrecida, como se a resistência de Marco fosse um inconveniente menor, um inseto zumbidor que precisava de ser silenciado para que o trabalho pudesse continuar.
— As suas lágrimas não significam nada para mim, Marco — disse Ricardo com uma indiferença cortante, fria como o aço do cinto. — Elas são apenas o som do seu velho eu a morrer. Aceite. É mais fácil para todos.
Com um gesto final da cabeça em direção ao closet, uma ordem silenciosa, Ricardo virou as costas e saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. O clique da fechadura soou como o disparo de uma arma, selando Marco no seu túmulo de luxo.
Sozinho, Marco desmoronou-se. As pernas falharam-lhe e ele caiu de joelhos no chão frio de madeira, o corpo a ser sacudido por espasmos de choro convulsivo. Era um pranto de desespero absoluto, o lamento por um homem que ele estava prestes a perder. O seu orgulho, a sua masculinidade, a sua própria essência — tudo estava a ser arrancado dele com uma violência cirúrgica. Ele bateu com os punhos cerrados no chão, um gesto impotente de fúria e dor, o som abafado pelos tapetes persas que cercavam a cama. Ele sentiu-se pequeno, apesar dos seus 1,90m de altura, sentiu-se reduzido a nada.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, os soluços diminuíram, deixando para trás um vazio oco e exausto. Marco levantou-se, as pernas a tremer como as de um recém-nascido. Ele olhou para a porta do closet como se fosse a boca de um monstro pronto para o devorar. Com a respiração ofegante e irregular, ele a abriu.
O odor que o saudou foi um choque sensorial, doce e intoxicante, uma mistura oleosa de seda, renda e perfume floral barato e caro. Era o cheiro da feminilidade forçada, um mundo que lhe era completamente alienígena e repulsivo. As prateleiras estavam perfeitamente organizadas, não como as roupas de um homem, mas como um santuário de sedução perversa. Dezenas de conjuntos de lingerie, em todas as cores imagináveis — preto, vermelho, branco, rosa choque, azul bebé — estavam dobrados ou pendurados em cabides de veludo. Havia sutiãs de renda delicada, com copos que mal cobririam um seio, e corpetes com espartilhos que pareciam feitos para moldar e aprisionar o torso. Havia camisolas de dormir de seda, tão finas que seriam transparentes à luz, e combinações de cinta-liga que prometiam submeter e moldar o corpo em formas que o dele não tinha.
Cada peça era uma obra de arte erótica, desenhada para exibir e provocar. Eram roupas para uma mulher, ou para um homem a ser transformado num brinquedo sexual descartável. A visão foi um choque elétrico no sistema nervoso de Marco. Ele sentiu-se um intruso, um violador neste espaço sagrado da feminilidade artificial. A sua crise aprofundou-se. Ele era Marco, o gerente de operações, o homem de 1,90m, com ombros largos e peitoral definido. Este lugar, estas roupas, eram uma negação física de tudo o que ele era. Ele sentiu-se envergonhado, a pele a arder com a humilhação antecipada.
Com o coração a martelar no peito como um pássaro enjaulado, ele recuou e entrou no banheiro anexo, buscando refúgio. Era espaçoso e moderno, todo em mármore preto e aço cromado, frio ao toque. Um espelho enorme cobria uma parede inteira, refletindo a sua imagem desfeita: o rosto inchado e vermelho de tanto chorar, os olhos assustados de um animal acuado, o terno Armani agora amassado e suado. Ele parecia um estranho para si mesmo, uma caricatura de um homem.
Ele precisava de se limpar. Precisava de lavar a humilhação, o desespero, o cheiro da derrota. Despiu-se violentamente, atirando a sua armadura de empresário para o chão, desabotoando a camisa com dedos trémulos. O cinto de castidade brilhou sob a luz brilhante do banheiro, um símbolo frio e brutal da sua servidão. Ele olhou para o seu pau preso, encolhido, inútil. Ligou o chuveiro, ajustando a água para uma temperatura quase escaldante, como se o calor pudesse queimar a sua pele, purificá-lo daquela sujeira moral.
A água quente bateu-lhe nas costas, vapor subindo e envolvendo-o numa névoa branca. Ele encostou a testa às paredes frias dos azulejos, deixando o fluxo o cobrir, tentando afogar os seus pensamentos. Ele pegou no sabonete e começou a esfregar o corpo com uma força desesperada, como se tentasse arrancar a camada de si mesmo que Ricardo queria destruir. Lavou o seu rosto, o seu peito, os seus braços musculados, esfregando até a pele ficar vermelha e irritada. Mas o sentimento de impureza não saía. Estava enraizado na sua alma, na sua mente.
Foi então que ele se lembrou do creme. Com um suspiro trémulo que ecoou no boxe, ele virou-se e viu-o no banco do chuveiro. Um tubo de design elegante, branco e prateado, sem rótulos, apenas um símbolo estilizado de uma serpente a morder a própria cauda. A mão dele tremia violentamente enquanto o apanhava. Ele não queria fazer isto. Cada fibra do seu ser gritava em protesto, uma revolta celular contra a química da submissão. Mas a imagem do rosto impassível de Ricardo, a memória da sua ameaça profunda, era mais forte do que a sua vontade. O medo era um chicote constante.
Ele abriu a tampa. Um cheiro químico e floral saiu, não era desagradável, mas era artificial, esterilizado, cheirando a hospital e a bordel. Com os olhos fechados, como se isso pudesse de alguma forma diminuir o ato, ele espremeu uma quantidade generosa do creme na palma da mão. Era gelatinoso, frio ao toque, uma substância viscosa e estranha. Ele começou pelas pernas, espalhando o creme de forma metódica, mecanicamente, cobrindo a pele grossa e cabeluda. Pelo seu peitoral, onde os pelos eram mais finos. Pelas suas axilas. Pelo seu abdómen.
Ele hesitou quando chegou ao seu peito, onde os pelos mais escuros e densos marcavam a sua masculinidade, o seu orgulho. Com um soluço abafado que foi engolido pelo ruído da água, ele passou o creme ali também, cobrindo o símbolo da sua virilidade com a substância feminizante. Por fim, com uma repulsa que lhe revirava o estômago, fazendo-o sentir náuseas, ele aplicou o creme no seu rosto, na sua barba por fazer, sentindo-se a trair-se de uma forma que nunca imaginou possível. Ele estava a apagar a sua própria história.
Ele ficou sob o chuveiro, o creme a formicar na sua pele, uma sensação estranha, latejante e desconfortável. As instruções, que ele imaginava, diziam para esperar. Ele esperou, contando os segundos, o seu corpo tenso em antecipação, os músculos rígidos. E então, começou.
Primeiro, uma coceira suave, como milhares de formigas a marcharem. Depois, uma sensação de queimação ligeira, um calor químico. Ele olhou para baixo e viu, horrorizado. Os pelos no seu peito, os pelos que ele tinha orgulho, que o faziam sentir-se homem, começaram a encurvar-se e a soltar-se na base. Ele viu-os cair, um por um, levados pela água quente, deslizando pelas suas pernas e desaparecendo pelo ralo. Era como ver uma parte de si mesmo a ser arrastada para o esgoto, a sua identidade a ser dissolvida.
Um novo pranto tomou conta dele, silencioso desta vez, com lágrimas a misturarem-se com a água do chuveiro e com o creme branco que escorria. Ele assistiu, horrorizado e fascinado, enquanto a sua pelagem masculina desaparecia. Dos seus braços, das suas pernas, do seu abdómen. Em poucos minutos, a água que passava pelos seus pés estava escura com os restos da sua identidade. Quando ele finalmente se enxaguou por completo, esfregando a pele com força, a sua pele estava lisa. Macia. Estranha. Ele passou a mão pelo peito e sentiu apenas a pele, uma sensação tão alienígena que o fez estremecer violentamente. Ele olhou para o seu reflexo no vidro embaciado do chuveiro e viu um torso liso e indefinido, o corpo de um adolescente pré-púbere, não de um homem feito. Aquele não era ele.
Desligou a água e ficou ali, a tremer, não de frio, mas de choque térmico e psicológico. Ele apanhou uma toalha felpuda e branca e secou-se, o movimento a sentir-se estranho na sua nova pele lisa, sem atrito. Cada toque era um lembrete do que tinha perdido, do que lhe tinha sido roubado. Ele envolveu a toalha na cintura, um gesto habitual que agora se sentia absurdo e falso, como uma criança a vestir-se de pai. Ficou parado no meio do banheiro, incapaz de se mover, a sua mente em branco, um vazio aterrorizante.
Finalmente, ele forçou-se a sair. Ele estava nu, exceto pelo cinto de castidade e pela toalha. E ele estava de frente para o closet novamente. A porta ainda estava aberta, revelando o arsenal de lingerie. Era um precipício, e ele estava na beira, pronto para saltar no abismo. O tempo passou. Ele não sabe quanto. Podiam ter sido minutos ou horas. Ele estava paralisado, preso num pesadelo de renda e seda, incapaz de escolher o seu próprio extermínio.
A porta do quarto abriu-se com um rangido suave. Ricardo entrou, o seu olhar imediatamente encontrando Marco parado no meio do caminho entre o banheiro e o closet. A expressão de Ricardo era de leve impaciência, como se esperasse que a tarefa já tivesse sido concluída.
— O que é essa demora? — perguntou ele, a sua voz cortando o silêncio como uma lâmina afiada. — Está a ter dificuldade em escolher? Eu não lhe dei permissão para hesitar.
Ele não esperou por uma resposta. Ricardo caminhou até ao closet, o seu passo confiante, o seu olhar a percorrer as prateleiras com a familiaridade de um proprietário que conhece cada item do seu inventário. Ele ignorou os tons pastéis, os brancos inocentes, as rendas delicadas demais para o que ele tinha em mente. A sua mão passou por um conjunto de couro preto, pesado e ameaçador, antes de parar. Ele apanhou um conjunto de vermelho vivo, uma cor que gritava luxúria e pecado.
Era um conjunto audacioso e sem rodeios, desenhado para provocar e humilhar. Um sutiã de renda vermelha, com copos cortados a meio, projetados para empurrar o que quer que houvesse lá para cima e expor, não para cobrir. As tiras eram finas e delicadas, quase invisíveis contra a pele. Combinava com uma tanga minúscula do mesmo material, com um pequeno triângulo de renda na frente que mal esconderia o cinto de castidade e um fio que desapareceria entre as nádegas, realçando-as em vez de as esconder. E, para completar, um par de meias-altas da mesma cor, com uma banda de renda no topo e um padrão de sutileza na parte de trás que desenharia as pernas de Marco.
Ricardo segurou o conjunto por um momento, examinando-o com a atenção de um crítico de arte, avaliando o seu potencial de degradação. Depois, sem cerimónia, ele atirou-o para Marco. O tecido leve voou pelo ar e pousou aos pés de Marco, um borrão de escarlate no chão escuro, uma mancha de sangue na sua consciência.
— Vista-se — ordenou Ricardo, a sua voz baixa e perigosa, deixando claro que não haveria negociação. — E venha para a sala. A sua nova vida está à sua espera.