Paredes Finas PT9

Da série Paredes Finas
Categoria: Heterossexual
Contém 4021 palavras
Data: 04/04/2026 09:56:35

Fiquei parada na calçada olhando pra casa.

Três anos morando aqui. Cinco anos acordando nessa cozinha, passando por essa porta, subindo essas escadas. Cinco anos tentando fazer disso um lar — e agora estava de fora, olhando como se fosse a primeira vez, tentando entender o que exatamente tinha dado errado.

A fachada era bonita. Bernardo sempre foi vaidoso com a aparência das coisas. A casa tinha que ser grande, tinha que ser bem localizada, tinha que impressionar quem passava na rua. Por dentro era fria. Por dentro sempre foi fria, e eu demorei demais pra admitir isso pra mim mesma.

Entrei com a chave.

O cheiro era familiar e estranho ao mesmo tempo. Aquele cheiro de casa que você absorve sem perceber até ficar longe dela por alguns dias. Olhei pras fotos na parede do corredor — eu e ele numa viagem a Florianópolis dois anos atrás, sorrindo pro fotógrafo. Eu lembrava daquele dia. Lembrava que a foto tinha ficado bonita e que por dentro eu estava tentando não brigar com ele por alguma coisa que eu nem lembrava mais.

Quantas fotos assim eu tinha? Bonitas por fora, ocas por dentro.

Ouvi passos na escada.

Bernardo desceu de camisa aberta, cabelo bagunçado, e parou quando me viu. Passou uma expressão estranha no rosto dele — nervosismo, relance rápido pra cima da escada, e então aquela máscara de sempre.

Bernardo: — Paula. O que você está fazendo aqui? Não avisou que ia vir.

Paula: — É minha casa.

Bernardo: — Claro, eu só...— Ele ajeitou a camisa. — Olha, eu queria me desculpar por ter te ligado assim. Estava bêbado, falei besteira, você sabe como é.

Paula: — Sei.

Bernardo: — Essas coisas que eu disse... foi a decepção falando, Paula. Você sabe o quanto essa situação de não engravidar tem pesado pra mim. Não justifica o que eu disse, mas—

Paula: — Bernardo.

Ele parou.

Paula: — Você não precisa explicar.

Ele pareceu aliviar. Erro dele.

Bernardo: — Que tal a gente sair pra tomar um café? Tem um lugar ali na esquina, a gente conversa direito, sem estresse em casa—

Paula: — Não.

Bernardo: — Paula, vai fazer bem pra nós dois, vamos lá, dez minutinhos—

Ele pegou o meu braço gentilmente, olhando pra escada de novo. Aquele olhar. Aquele nervosismo que não estava conseguindo esconder direito.

Ele estava tentando me tirar de casa.

Me desvencilhei da mão dele e fui pras escadas.

Bernardo: — Paula, espera—

Não esperei. Subi rápido, ele atrás de mim mas sem conseguir me alcançar. Fui direto pro quarto dele.

A porta estava entreaberta.

Empurrei.

Uma mulher de uns trinta anos estava de costas pra mim, procurando alguma coisa no chão — vestido, pelo jeito. Cabelos longos, corpo bonito, completamente nua. O quarto tinha roupas espalhadas, a cama desfeita, uma garrafa de vinho na mesa de cabeceira.

A mulher se virou, me viu e ficou parada.

Bernardo chegou ofegante atrás de mim.

Bernardo: — Paula, isso não é o que parece—

Paula: — É exatamente o que parece.

Falei sem calor. Sem raiva. Só constatação.

Bernardo: — Eu posso explicar, você sabe que eu estava num momento difícil, você foi embora sem avisar, eu—

Paula: — Não precisa explicar, Bernardo. — Me virei pra ele. — Eu vim pegar minhas coisas e te avisar que vou entrar com o pedido de divórcio.

O rosto dele mudou.

Bernardo: — Divórcio? — Ele riu, mas era aquela risada de quando estava irritado. — Quem está pedindo o divórcio aqui sou eu, Paula. Você não tem esse direito.

Paula: — Tudo bem. Pode ser você.

Bernardo: — Você está louca? Vai pegar metade de tudo que eu construí—

Paula: — Não quero nada. Pode ficar com tudo.

Ele ficou me olhando como se eu tivesse falado em outro idioma.

Bernardo: — Você está me fazendo de idiota. Deve ter alguém, é isso? Foi embora assim do nada, some dias sem dar satisfação, vem aqui cheinha de certeza—

Paula: — Não tem ninguém, Bernardo.

Bernardo: — Mentira. Você nunca teve essa coluna assim. Você sempre foi mole, sempre cedeu, sempre voltou atrás — e agora aparece aqui assim? Tem alguém. — A voz dele subiu. — Você é igualzinha sua mãe, hipócrita, fica me enchendo o saco por uma ligação bêbado enquanto—

Paula: — Chega.

Bernardo: — Sabe o que você é, Paula? Inútil. Seca. Uma mulher que não consegue fazer a coisa mais básica que existe, que é dar um filho pro marido. Você deveria se sentir envergonhada. Deveria agradecer que eu aguentei você esse tempo todo. Fraca na cama, fria, sem graça—

Aquilo doeu.

Seria mentira dizer que não doeu. Cada palavra dele ia encontrando o lugar certo, aquele lugar que já estava machucado. Eu senti minha garganta apertar, os olhos queimarem.

Mas então me lembrei.

Lembrei do corredor escuro, da luz do espelho, da voz dele baixinha quebrando o silêncio do quarto.

*Você tomou a decisão certa sobre o Bernardo. Só queria falar isso.*

Lembrei da mão dele no meu cabelo — leve, sem peso, como se tivesse todo o tempo do mundo. Do polegar no meu maxilar. De acordar no ombro dele e sentir que o mundo tinha parado de girar rápido demais por um tempo.

*Precisava, sim.*

Tinha subido aquelas escadas com dores nas costelas só pra ficar comigo.

Bernardo continuava falando. Eu já não estava ouvindo.

Fui até o armário, peguei minha mala que estava guardada no alto, e comecei a dobrar minhas roupas com calma. Blusas, calças, vestidos — o que eu precisaria nos próximos dias. O resto podia buscar depois com advogado.

Bernardo: — Você está me ignorando? Eu estou falando com você—

Paula: — Eu ouço. — Continuei dobrando. — Mas não tem nada que você diga agora que mude o que vim fazer aqui.

Fechei a mala. Me virei pra ele.

Paula: — Fica com a casa, fica com o carro, fica com tudo. Não quero processo longo, não quero briga, não quero saber de você depois disso. — Peguei a alça da mala. — Boa sorte, Bernardo.

Ele avançou e pegou meu braço com força dessa vez. Não do jeito de antes — esse era outro.

Bernardo: — Você não vai sair daqui assim—

A garrafa de vinho bateu na cabeça dele com um estalo seco.

Ele desabou.

Dei um passo pra trás sem entender o que tinha acontecido. A mulher estava de pé com a garrafa na mão, olhando pro Bernardo no chão com uma expressão de quem fez o que precisava ser feito.

Mulher: — Só tá desmaiado. — Ela largou a garrafa na cama e começou a pegar as roupas dela do chão com aquela calma toda. — Me chama de Duda.

Paula: — O que—

Duda: — Ele me contratou pelo aplicativo. Duas noites. — Ela colocou o vestido, pegou a bolsa. — Não ligo se é casado, a maioria dos meus clientes é. Mas bêbado e agressivo é onde eu traço minha linha. — Ela olhou pra mim. — Você devia ir embora agora. Homem desse jeito, quando acorda, acorda pior.

Olhei pro Bernardo no chão. Cinco anos. Cinco anos achando que o problema era eu.

Paula: — Tá.

---

Ela entrou no banco do passageiro do meu carro sem cerimônia, jogou a bolsa no colo e colocou o cinto.

Duda: — Você pode me deixar no metrô?

Paula: — Posso te levar onde precisar.

Ela me olhou de lado.

Duda: — Você está bem?

Paula: — Estou. — Saí da garagem. — É mais leve do que eu esperava. Achei que ia ser mais difícil.

Duda: — Quando você já sabe que acabou faz tempo, a parte prática vira só burocracia. — Ela olhou pela janela. — Quanto tempo você sabia?

Paula: — Tempo demais.

Ela assentiu como se isso fizesse todo sentido.

Paula: — Como você foi parar nisso?

Duda: — No quê, no aplicativo?

Paula: — Sim.

Ela ficou um tempo quieta, não do jeito de quem não quer responder — do jeito de quem está escolhendo por onde começar.

Duda: — Não terminei o ensino médio. Trabalhei em loja, em restaurante, fiz curso de manicure. — Ela encolheu um ombro. — Um dia um cara na loja me disse que eu era bonita demais pra ganhar o que eu ganhava. Fiquei com raiva na hora. Mas fui pensar depois. — Ela riu. — Não foi uma decisão dramática, foi mais tipo... pragmática. Sou gostosa, sei me cuidar, sei tratar bem. Por que não usar isso?

Paula: — E você é feliz?

Duda: — Depende do dia. Igual a qualquer trabalho. — Ela me olhou de frente. — Você achava que ia me julgar?

Paula: — Não.

Duda: — A maioria das mulheres julgaria.

Paula: — Não sou a maioria das mulheres.

Ela sorriu. Era um sorriso aberto, sem defesa.

Duda: — Sabia que você era diferente quando entrou naquele quarto e não gritou. — Ela bateu leve no meu braço. — Aqui tá bom, pode parar.

Parei no sinal. Ela pegou a bolsa e abriu a porta, mas parou antes de sair.

Duda: — Ei. Aquele cara não merecia você. Isso é perceptível.

Paula: — Obrigada pelo vinho.

Ela riu gostoso e saiu.

---

Minha mãe estava na cozinha quando cheguei. Levantou os olhos, me viu, e já estava de pé antes de eu dizer qualquer coisa. Ela tinha esse dom — de saber sem precisar perguntar.

Sentei na cadeira e desabei.

Não foi um choro de pânico ou de dor aguda. Foi aquele choro que vem quando você finalmente pode — quando o peso que você estava carregando em pé encontra um lugar pra pousar. Minha mãe ficou de pé atrás de mim, as mãos nos meus ombros, sem falar nada por um tempo.

Deixou eu chorar.

Depois contei tudo. A mulher no quarto, o Bernardo, O caminho de volta. Minha mãe ouviu sem me interromper uma vez, e quando terminei ficou quieta por um momento.

Carla: — Você está bem? Fisicamente?

Paula: — Estou.

Carla: — Ele te machucou?

Paula: — Só pegou meu braço. Não deu tempo de mais.

Ela assentiu devagar.

Carla: — Paula. — Ela se sentou na cadeira do lado, pegou minha mão. — Você foi muito corajosa hoje. Sabe disso?

Paula: — Fui idiota por ter demorado tanto.

Carla: — Não. Você foi humana. Tem diferença.

Fiquei olhando pras mãos dela segurando as minhas. Minha mãe sempre tinha mãos quentes. Desde criança eu lembro disso.

Carla: — Agora você descansa. Acabou — essa parte acabou.

Paula: — E o divórcio?

Carla: — O divórcio é burocracia. Resolve com calma, sem pressa. Hoje você vai e descansa. — Ela me apertou a mão. — Vou levar o Felipe ao médico agora, a verificação que a doutora pediu. A Ana saiu com seu pai pra padaria, uma funcionária faltou.

Paula: — A Ana não vai?

Carla: — Não. Você fica aqui, descansa, come alguma coisa—

Paula: — Eu levo ele.

Carla: — Paula—

Paula: — Mãe. Eu levo! Acabou o assunto! Você não sabe dirigir, ia pedir carro por aplicativo. Eu levo e volto, não é nada, e eu vou fazer isso!

Minha mãe me olhou com aquele olhar de quando ela estava avaliando se podia confiar em mim.

Carla: — Você passou por muita coisa hoje—

Paula: — Exatamente por isso prefiro sair um pouco. Fica em casa, descansa você também.

Ela não respondeu imediatamente. Eu sabia que ela ia ceder — só precisava do tempo dela.

Carla: — Tudo bem. Mas Paula...

Ela esperou até eu olhar pra ela.

Carla: — Eu entendo seu jeito. Sempre entendi. Mas você falou comigo há pouco com uma autoridade que não era necessária — e o Felipe é marido da sua irmã, não seu. Faz bem lembrar isso.

Aquilo ficou no ar.

Ela estava certa. Eu tinha chegado e simplesmente declarado que ia levar o Felipe como se fosse uma decisão minha de tomar.

Paula: — Desculpa, mãe. Sério.

Ela me deu um beijo na testa e foi.

---

Subi e encontrei o Felipe de pé no quarto, tentando colocar a camisa com os braços levantados o mínimo possível por causa das costelas. Travado, camiseta no meio, cara de quem estava xingando mentalmente.

Paula: — Você parece um gato preso num saco.

Felipe: — Obrigado. Muito útil.

Paula: — Deixa eu ajudar.

Peguei a camisa pelas laterais e fui puxando com cuidado, ajeitando pelos ombros, abaixando devagar pra não puxar nada que doesse.

Felipe: — E a Carla?

Paula: — Eu vou te levar.

Felipe: — A Carla disse que—

Paula: — A Carla concordou. — Terminei de ajeitar o colarinho. — Pronto.

Felipe ficou me olhando de perto. Estava próximo — próximo do jeito que eu não estava acostumada com pessoas. Bernardo nunca ficava assim, nesse nível de atenção no meu rosto.

Felipe: — Você foi a algum lugar essa manhã.

Não era pergunta.

Paula: — Resolvi umas coisas.

Felipe: — Que coisas?

Paula: — Coisas minhas. — Dei um passo atrás. — Você tem cabelo de quem dormiu mal.

Ele bagunçou o meu cabelo com a mão livre imediatamente, e eu ri sem querer — aquela risada que sai antes de você decidir se vai rir.

Paula: — Ai, Felipe!

Felipe: — Agora estamos quites. Kkkkk

Tentei ajeitar, ele afastou minha mão, eu afastei a dele, e ficamos assim por um momento ridículo — dois adultos disputando cabelo — até ele parar com aquela risada baixa que ele tem.

Era bom. Era levemente idiota e completamente bom.

Paula: — Vou tomar banho antes de sair. Você não apronta nada enquanto isso.

Felipe: — Eu? Sempre me comporto.

Paula: — Você entrou no banheiro e deu um tapa na minha bunda pensando que era minha irmã.

Felipe: — Isso foi um—

Paula: — Acidente, eu sei. — Fui pra porta. — Mesmo assim.

Ouvi ele rindo enquanto ia pro banheiro.

---

A água quente ajudou. Fiquei mais tempo do que precisava, deixando o chuveiro correr, a cabeça vazia por alguns minutos.

Mas a cabeça nunca fica vazia de verdade.

Pensei no Felipe bagunçando meu cabelo e na risada que eu não planejei. Pensei no Bernardo desmaiado no chão do quarto e em como eu deveria sentir mais coisa do que estava sentindo. Pensei na Duda e na garrafa de vinho e naquele sorriso aberto dela, ela era tão livre apesar de tudo.

E pensei na conversa com a Ana no sofá da madrugada.

*É um jogo, sim. Mas quem tem que tomar cuidado com os próprios sentimentos nesse jogo é você.*

Ela tinha me avisado. Com aquela clareza dela que parecia carinhosa mas era cirúrgica.

O que eu queria com isso? Me aproximar, sentir aquele carinho, deixar ele me cuidar — e depois o quê? A Ana tinha dito que podia ir além. Mas além de onde? Até onde? Ela não tinha sido clara, e eu tinha a impressão que essa falta de clareza era intencional.

Eu não queria me apaixonar. Esse era o medo real, o que eu não falaria em voz alta nem pra mim mesma se conseguisse evitar. Mas já estava falando agora, aqui dentro do chuveiro onde ninguém ouvia.

Ela nunca permitiria sexo. Isso era claro. Por mais que a Ana jogasse com as palavras, por mais que ela abrisse espaço, havia um limite que ela não cruzaria. Eu conhecia minha irmã.

Mas então por que eu ficava me perguntando como seria?

Desliguei o chuveiro antes que eu conseguisse responder.

Me arrumei com cuidado. Não sei exatamente por quê — só sei que fui mais devagar do que o normal, escolhi o vestido que sabia que ficava bem, passei no cabelo ruivo que ainda era novidade até pra mim. Quando me olhei no espelho, fiquei satisfeita de um jeito que não estava acostumada a ficar.

Desci.

Minha mãe e o Felipe estavam na sala — ela com o celular na mão, ele de pé esperando. Os dois levantaram os olhos quando eu apareci.

O silêncio durou um segundo a mais do que o normal.

Carla: — Paula. Que linda você ficou, filha.

Felipe não disse nada. Só ficou me olhando com aquela expressão que eu não sabia bem nomear.

Carla: — Você se arrumou toda assim pra ir ao médico?

Paula: — Me arrumei pra sair. Tem diferença.

Minha mãe olhou pra mim, depois pro Felipe, depois pra mim de novo.

Carla: — Vocês vão direto e voltam. Sem parada.

Paula: — Mãe.

Carla: — Paula.

Era o tom dela. O tom de encerramento de assunto.

Paula: — Tudo bem.

---

No carro ficamos em silêncio por um tempo. Um silêncio diferente do da noite anterior — esse tinha algo suspenso nele.

Felipe: — Onde você foi essa manhã?

Paula: — Já falei que resolvi umas coisas.

Felipe: — Paula.

Paula: — Felipe.

Ele virou o rosto pra me olhar por um segundo — eu estava dirigindo, não podia devolver o olhar.

Felipe: — Você chegou em casa diferente. Sua mãe percebeu também, eu vi no rosto dela.

Paula: — Fui na minha casa. — Pausei. — Na casa do Bernardo.

Ele ficou quieto.

Paula: — Tinha uma mulher lá. Ele a contratou. — Disse aquilo sem drama, do jeito que era. — Peguei minhas coisas e fui embora.

Felipe: — E ele?

Paula: — Está bem. Provavelmente com uma ressaca e uma cabeça doendo, mas bem.

Ele não perguntou mais. Mas eu sentia ele pensando do lado.

Felipe: — Você está bem?

Paula: — Estou mais leve do que estava ontem. Isso é alguma coisa.

---

Na recepção do hospital expliquei o que precisávamos. O recepcionista disse que a doutora Elisa estava ocupada mas já terminaria.

Paula: — Tem outro médico disponível? É só uma verificação de rotina.

Recepcionista: — A doutora prefere acompanhar os próprios pacientes, mas posso verificar—

Paula: — Estamos com pressa. Se houver outro médico disponível seria melhor.

Ele verificou. Havia. Mandou a gente esperar.

Voltei pro Felipe.

Felipe: — Que pressa é essa?

Paula: — Que pressa o quê?

Felipe: — Você disse que estávamos com pressa.

Paula: — Estamos.

Felipe: — Não estamos.

Ele me olhava com aquela atenção toda. Eu desviei.

Paula: — A outra médica vai nos atender.

Ele não disse mais nada, mas eu senti o sorriso que ele segurou.

A médica substituta estava no meio da verificação quando a porta se abriu. A doutora Elisa entrou com aquela presença dela — cabelos cacheados, jaleco branco, aquele andar....

Elisa: — Esse paciente é meu. Quem solicitou a transferência?

Médica substituta: — Foi um pedido—

Elisa: — Pode deixar, eu assumo daqui.

A médica saiu. A Elisa foi até o Felipe com aquele sorriso "profissional" .

Elisa: — Felipe. Como está se sentindo?

Felipe: — Bem melhor.

Elisa: — Ótimo. Vamos verificar as costelas e os ferimentos nas costas. — Ela olhou pra mim brevemente. — A acompanhante pode esperar do lado de fora se preferir.

Paula: — Prefiro ficar.

Elisa: — Claro.

O atendimento aconteceu com nos duas se olhando de um jeito que o Felipe fingia não estar vendo. A Elisa profissional, correta — mas com aquele jeito de tocar um segundo a mais do que precisava. Eu ficava de pé no canto, de braços cruzados, respondendo às olhadas dela com o mesmo nível de calor.

No final, quando a Elisa deu as recomendações finais e saiu, o Felipe ficou me olhando com aquela expressão.

Felipe: — Você disse que estávamos com pressa.

Paula: — Disse.

Felipe: — A gente não estava com pressa.

Paula: — Não estava.

Felipe: — Por que você disse isso então?

Paula: — Porque a outra médica seria mais rápida.

Felipe: — A Elisa foi rápida.

Paula: — A Elisa não é de confiança.

Felipe: — Por quê?

Paula: — Porque ela não respeita limites profissionais e você sabe disso.

Ele ficou quieto. Depois:

Felipe: — Paula.

Paula: — Felipe.

Felipe: — Você estava com ciúmes.

Paula: — Estava preocupada com o atendimento.

Felipe: — Estava com ciúmes.

Paula: — Vamos embora.

---

Ele pediu pra parar na praça. Sentamos num banco de madeira perto de um carrinho de pipoca, o sol da tarde ainda quente. Comprei dois copos e fiquei segurando o meu sem comer.

Felipe: — Me conta o que está acontecendo com você hoje.

Paula: — Já contei sobre a casa do Bernardo.

Felipe: — Não é só isso.

Fiquei olhando pro copo de pipoca.

Felipe: — Você chegou em casa diferente. Foi agressiva com sua mãe — coisa que você não é. Mentiu no hospital. Ficou de olho na Elisa o tempo todo. — Ele pausou. — O que está acontecendo, Paula?

Olhei pra ele. Aquele jeito dele de ouvir — atento, sem pressa, sem julgamento antecipado.

Paula: — Quando minha mãe falou que ia te levar ao médico... — Parei. — Eu não queria ficar em casa sozinha. Não hoje. Depois de tudo que aconteceu de manhã, eu precisava... — As palavras saíram mais difíceis do que esperava. — Na casa do Bernardo eu fiquei forte porque estava pensando em você. Em como você me tratou ontem à noite. E quando cheguei em casa achei que você estaria lá, e você ia sair, e eu fiquei nervosa.

Felipe não disse nada. Só ouviu.

Paula: — Eu sei que é idiota.

Felipe: — Não é idiota.

Paula: — É. Você é casado com a minha irmã e eu fiquei nervosa porque você ia sair por duas horas.

Felipe: — Paula. — Ele esperou até eu olhar pra ele. — Não é idiota. Você passou por muita coisa hoje. Querer ter alguém por perto não é fraqueza.

Fiquei olhando pro rosto dele.

Paula: — Por que você subiu aquelas escadas com dores nas costelas ontem? De verdade — por quê?

Felipe: — Porque você estava mal e eu podia ajudar.

Paula: — Isso é tudo?

Ele ficou quieto por um momento.

Felipe: — Isso é o que eu consigo responder agora.

Fiz uma pausa.

Paula: — O que a Ana quer com tudo isso? Com ela me dizendo que posso me aproximar de você, que você pode me cuidar, que ela não se importa?

Felipe: — Ela disse que está entendendo ainda.

Paula: — E você acredita nisso?

Felipe: — Conheço a Ana. Ela não faz nada sem razão.

Paula: — E você? O que você quer?

Ele me olhou de um jeito que eu não soube decifrar imediatamente.

Felipe: — Eu quero entender o que está acontecendo antes de querer qualquer coisa. — Ele se virou mais pro meu lado. — Se você está sentindo algo, Paula, e se a Ana está deixando espaço pra isso — então as três pessoas envolvidas precisam sentar e conversar. Com clareza. Eu tenho um casamento. O que está acontecendo entre a gente é bonito — mas também é perigoso. Não quero que ninguém saia machucado disso.

Paula: — E se eu não quiser conversar com a Ana sobre isso?

Felipe: — Então a gente não avança nisso. Simples assim.

Olhei pra ele. Aquele controle todo. Aquela atenção a cada detalhe, aos sentimentos da Ana, às regras que a própria Ana não tinha colocado com clareza — e ele ainda se preocupando com isso.

Fiz a coisa antes de decidir fazer.

Me inclinei e o beijei.

Foi um beijo que eu não planejei e que aconteceu exatamente como deveria acontecer — boca encontrando boca, aquele primeiro contato que ou encaixa ou não encaixa. Esse encaixou.

Por um segundo fiquei me perguntando se ele ia se afastar. Se eu tinha errado o limite que a Ana tinha sugerido sem nomear. Se ele ia recuar e eu ia ter que fingir que não tinha acontecido nada.

Ele me trouxe mais perto.

O braço dele no meu ombro, os dedos no meu cabelo, o beijo ficando mais intenso — e eu deixei, eu me entreguei a isso, as duas mãos nos braços fortes dele, sentindo o calor dele através da camisa que eu mesma tinha ajudado a colocar.

Quando ele recuou foi devagar. Fiquei parada olhando pra ele.

Felipe: — Paula.

Paula: — Hm?

Felipe: — Preciso confirmar com a Ana. — Ele estava com a respiração um pouco diferente, eu notei. — Se você quer entrar nesse jogo — e pelo que eu vi essa semana, você quer — então os três precisam ter essa conversa. Com as regras claras. Do jeito que eu e a Ana fazemos as coisas.

Eu devia estar irritada. Devia querer que ele simplesmente continuasse em vez de parar pra fazer uma reunião de família.

Mas fiquei maravilhada.

Com o autocontrole dele. Com o fato de que mesmo com a Ana sendo a que empurrava pra isso, mesmo com ela não tendo colocado limites explícitos, o Felipe ainda queria confirmar. Ainda se preocupava com ela.

Paula: — Você gostou de me beijar?

Ele não respondeu imediatamente. Olhou pro lado, olhou de volta pra mim, e eu vi — aquele embaraço genuíno que eu não esperava dele.

Felipe: — Você não precisava perguntar isso.

Paula: — Precisava sim.

Felipe: — Paula...

Paula: — Felipe.

Ele ficou quieto por um tempo longo. Depois me olhou com uma expressão que eu não sabia se era felicidade ou culpa ou as duas coisas.

Felipe: — Foi o melhor beijo da minha vida.

Aquilo pousou no centro do meu peito.

Felipe: — E eu não sei se deveria ter sentido isso Paula...

Fiquei olhando pra ele. Pro sol na praça, pro carrinho de pipoca, pras pessoas passando que não sabiam de nada.

Não disse nada.

Só guardei aquilo — *o melhor beijo da minha vida* — e sorri pra frente, pro movimento da rua, deixando ele ver só o perfil do meu rosto.

Isso era suficiente por agora.

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Comentários

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Que bom que voltou, estava ansioso por mais capítulos.

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Essa história me surpreendeu, de um jeito positivo.

Enredo tranquilo, nada mirabolante e perfeitamente real de acontecer.

Ansioso pela continuidade.

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