Capítulo 2
Lá estava ele: um anel de metal opaco, provavelmente prata de baixa qualidade, sustentando uma pedra amarelada e pequena no centro. Não era uma joia, era um erro. O design era grosseiro, mal definido, como se o artesão estivesse com pressa ou com a visão tão cansada quanto a do meu avô. O metal estava desgastado, sem brilho, e a pedra parecia turva, sem aquela lapidação que faz a luz dançar.
Era feio. Era pobre. Era a cara do meu avô.
Fiquei encarando aquela coisa ridícula, sentindo o metal frio contra a ponta dos meus dedos, enquanto o pensamento de que eu realmente tinha feito um juramento solene por isso começava a me dar vontade de rir.
Ou de chorar.
Deslizei o anel pelo dedo e a primeira sensação foi o peso. Não era o peso elegante de uma joia maciça, mas uma carga desajeitada que parecia puxar minha mão para baixo. O metal era largo demais para o meu anelar, ficando frouxo, sambando de um lado para o outro a cada movimento. Era frio e tinha uma textura áspera, quase irritante, que espetava a pele entre os dedos.
Abri uma aba nova no navegador e comecei a digitar: “compra de joias e metais preciosos centro”. Se aquela herança rendesse o valor de um fardo de cerveja gelada e um rodízio de carne, eu já estaria no lucro. Olhei para a minha mão estendida sobre o teclado. O anel brilhava sob a luz fluorescente do café com um tom baço, esquisito.
— Parece anel de bicheiro — murmurei para mim mesmo, soltando um riso abafado.
Tinha algo de cafona e intimidador naquela peça. Era o tipo de coisa que um contraventor usaria enquanto fuma um charuto e decide o destino de uma aposta. Mas, enquanto eu encarava o metal fosco, uma ideia começou a ganhar corpo. Fechei a aba da pesquisa de preços.
"Vai que...", pensei. Talvez o estilo "excêntrico" funcionasse. Na pior das hipóteses, eu teria uma história para contar. "É uma herança de família, uma peça rústica que pertenceu ao meu avô", eu poderia dizer, com um olhar misterioso. Mulheres costumam gostar de histórias, e aquela tralha, por mais feia que fosse, tinha um ar de antiguidade que eu poderia explorar. Se eu não conseguia ser o neto rico, pelo menos seria o herdeiro com um segredo pendurado no dedo.
Ajeitei o anel, tentando encontrar uma posição em que ele não incomodasse tanto, e voltei a digitar meus e-mails. O clique das teclas agora vinha acompanhado de um clac metálico rítmico, toda vez que o anel batia no notebook.
De repente, senti um calor estranho subindo pelo meu braço. Coisa leve, como se o sol tivesse batido na pele por um segundo, embora eu estivesse na sombra. Ignorei. Foquei no trabalho, mas, de soslaio, percebi que a atendente — a do "não vai rolar, bebê" — estava passando com uma bandeja por perto.
Exagerei no movimento da mão e o anel pesou, batendo com um estalo seco no tampo da mesa. O som pareceu um sinal. Ela veio vindo, cruzando o salão com aquela leveza que me irritava e me encantava ao mesmo tempo.
Ela não era uma modelo de revista, mas tinha um brilho que parecia não pertencer àquele uniforme sem graça e à redinha no cabelo. Era uma luz que vinha do sorriso, algo que fazia o café parecer menos amargo e o dia menos cinza. Tinha curvas suaves, pernas que o avental não conseguia esconder totalmente e um jeito de andar que transbordava vida.
— Oi, tudo bem? — O tom dela era musical, o mesmo de sempre. — Vai querer seu cafezinho preto e um pão de queijo, como sempre?
Eu a encarei por um segundo a mais do que o socialmente aceitável. Sentia um nó de amargura no estômago. Que ideia de jerico foi aquela, chamar uma mulher dessas para sair? Ela devia colecionar nãos para clientes como eu na mesma velocidade com que servia expressos. Minha mente gritava por trás do meu silêncio:
"Eu queria, sua filha da puta, que você não tivesse me descartado com aquele 'não vai rolar, bebê'!"
— Pode ser — respondi, forçando um sorriso amarelo que deve ter parecido uma careta de dor.
Mas, em vez de girar nos calcanhares e ir buscar o pedido, algo mudou. O ar entre nós pareceu vibrar, como se a eletricidade estática tivesse tomado conta da mesa. Ela se empertigou, os ombros subindo, o olhar vacilando por um instante. Vi suas mãos tremerem levemente sobre a bandeja. Ela olhou para os lados, como se verificasse se o gerente estava por perto, e se inclinou na minha direção. Achei, por um segundo, que ela fosse sentar na cadeira vazia à minha frente.
— Olha... eu queria te pedir desculpas — ela começou, e o tom de voz tinha uma reverência, um respeito que eu nunca tinha ouvido ali.
Fiquei estático. O cursor do notebook piscava na tela, ignorado.
— Eu não fui muito legal te dispensando daquele jeito — continuou ela, baixando o tom, quase um sussurro. — Agora me bateu uma culpa... eu queria resolver isso logo. Você é um cara legal, de verdade. Mas é que eu sou noiva.
Ela estendeu a mão, mostrando um anel de ouro branco — ou algo que um dia pretendeu ser isso. Era uma peça maltratada, cheia de riscos, sem brilho algum. O noivo dela ou era o sujeito mais quebrado da face da terra, ou ela não tinha cuidado nenhum com aquela joia.
Olhei daquele aro sem vida para o anel no meu dedo. A pedra amarela do meu anel pareceu, por um microssegundo, captar a luz do ambiente e devolvê-la com uma intensidade que me fez piscar.
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