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O Pós-Festa: Entre Confissões e Novos Planos
O caminho de volta para casa, cruzando as ruas ainda despertas de Porto Alegre, tinha um sabor diferente. O silêncio no carro não era de desconforto, mas de absorção. Eu olhava pelo retrovisor e via a Flávia retocando o batom, com aquele brilho no olhar de quem havia orquestrado uma sinfonia perfeita e saído ilesa.
— Sabe, Flávia — comecei, quebrando o gelo enquanto entrava na Protásio Alves — essa história do Douglas te chamar de "Anna"... Você não acha coincidência demais?
Ela deu uma risada curta, jogando a cabeça para trás.
— Ora, Roger, o álcool faz a gente ouvir coisas. Ou talvez eu tenha um rosto de "Anna". Por que o interrogatório agora? O dinheiro na sua carteira não é de mentira, é?
Pesei o bolo de notas no bolso. Não era. Mas a sensação de ter sido um peão em um tabuleiro montado por ela era inebriante. Em casa, o clima não esfriou. Pelo contrário, a adrenalina daquela "armação" — fosse ela real ou fruto da minha paranoia — serviu como combustível.
Naquela tarde de sábado, enquanto descansávamos, o celular de Flávia vibrou sobre a mesa de cabeceira. Ela não viu, mas eu sim. Uma notificação de mensagem de um número sem nome: "O Jairo perguntou se o 'irmão' dele gostou do café. Ele quer saber se o combinado de amanhã está de pé."
Meu coração disparou. Jairo? O amigo que apareceu para o café da manhã? Então não era apenas o Douglas. Havia uma rede, um círculo que ela conhecia e eu estava apenas descobrindo.
Esperei ela voltar do banho. Joguei a real, mas com o sorriso de quem estava adorando o perigo:
— O Jairo mandou lembranças, "Anna". Ele quer saber do combinado de amanhã.
Ela parou, congelada por um segundo, antes de abrir um sorriso largo, rendendo-se.
— Tudo bem, você me pegou. Não foi um acaso, Roger. Eu planejei cada detalhe desde que você mencionou aquela fantasia. O Douglas, o Jairo... são amigos de longa data que sabiam exatamente o que eu queria te proporcionar. Eu queria te ver no centro das atenções, queria ver você sendo desejado por quem entende de desejo masculino.
— E o prêmio do palco? — perguntei, incrédulo.
— Tudo parte do show, meu amor. Eles sabiam que você ganharia no momento em que pisasse ali. Mas me diga... você odiou ser o rei da noite?
Aproximei-me dela, sentindo que a nossa união de 15 anos acabara de subir de nível. A confiança era tão absoluta que o segredo, uma vez revelado, não nos separou; ele nos acorrentou ainda mais.
— Eu não odiei — confessei, segurando-a pela cintura. — Mas se vamos continuar com esse jogo, agora eu quero dar as cartas. Amanhã, no tal "repeteco", o Jairo vai descobrir que o homem do campo não é tão fácil de domar quanto ele pensa.
Flávia mordeu o lábio inferior, os olhos faiscando.
— Então está combinado. Mas lembre-se da nossa regra: nada de segredos depois que a luz apaga.
A aventura estava apenas começando. Porto Alegre nunca pareceu tão pequena para o tamanho das nossas vontades. O "Discretus Bar" fora apenas o palco de ensaio; o espetáculo principal ainda estava por vir, e dessa vez, sem roteiros escondidos — apenas o prazer bruto de dois parceiros que decidiram que o mundo era o seu playground.
