Quando ele foi embora, eu continuei fazendo o jantar por três dias. Sempre a mesma quantidade. Sempre sobrando. Saiu daqui falando que precisava de outra vida. A outra vida… tinha quase a mesma idade da nossa filha.
A casa ficou grande demais. Eu ainda andava por ela esperando encontrar alguém.
Um dia minha filha ligou. Falou pouco. Me ouviu mais do que qualquer coisa. No final, disse:
— Mãe… você precisa voltar pra você.
Aquilo ficou martelando na minha cabeça.
Depois do banho, parei diante do espelho, nua. Os cabelos brancos já apareciam, mas não me incomodavam. Meu corpo ainda estava ali. Ainda tinha curvas. Só fazia tempo que eu não olhava pra ele.
Aliás… qual foi a última vez que gozei?
Podia dizer que ele não me dava prazer. Seria fácil. Mas também não lembrava de procurar um beijo, nem da última vez que usei aquela camisola vermelha. Acho que eu já tinha ido embora antes dele.
Sexta-feira, enfim aceitei sair com as meninas do trabalho. Todas com seus vinte e tantos anos e eu com meus cinquenta e poucos. Quase não ia, mas fui.
O bar ficava ao lado do Banespa. E pelas mesas, assim como em quase toda esquina da cidade, o assunto parecia ser o mesmo, a tal mulher que andava degolando gargantas.
Um homem tocava samba no violão. Negro, careca, barba bem desenhada. Regata branca, braços fortes, o peito marcado. A voz vinha baixa, com um grave que dava vontade de ficar ouvindo a noite toda. Dei uma olhada mais demorada, e ele percebeu. O olhar veio em mim e ficou. Me arrepiei.
Ajeitei a bolsa, baixei o rosto, sem saber o que fazer com aquilo. Pra piorar, sentamos de frente pra ele. Eu encarava, disfarçava, voltava. Ele também. Fui relaxando, a cerveja ajudou, a caipirinha também. Fazia anos que eu não bebia.
Numa hora reparei, ele não tocava mais. Estava encostado no balcão, violão de lado, parado, atento em mim.
Continuei fingindo ouvir a conversa, mas já não estava mais ali. Foi quando entendi. Eu tinha tirado o salto, como sempre faço. As pernas cruzadas, o pé solto, balançando sem pressa, inocente, distraído. Mas a atenção dele estava toda ali, fixa.
Em um breve momento a gente se encontrou. Desviei com um leve sorriso. E foi assim que aquilo deixou de ser inocente, distraído.
A noite avançou e, quando fomos pagar a conta, fiquei nervosa. Estava guardando o violão. Achei que fosse chegar, não tive coragem de continuar olhando. Era aquele queria, mas não queria. E ficou nisso… porque eu quis. Gosto de pensar assim.
Já no metrô, num vagão da linha azul sentido Jabaquara, eu ria. Um homem, sentado um pouco à frente, me viu rindo e começou a rir também. E a gente riu, um com o outro, e riu de verdade. Engatamos numa conversa muito boa até a Conceição.
Naquele dia cheguei em casa me sentindo tão bem. Onde eu estava esse tempo todo?
No dia seguinte, me matriculei numa academia.
O plano era começar devagar, estava enferrujada. No terceiro dia já estava na aula de step, descoordenada, me divertindo com a minha própria falta de ritmo. Gostava tanto das aulas que comprei o CD 7 Melhores da Pan volume 3 e, em casa, fazia a faxina dançando aquelas músicas pelos cômodos, meio ridícula, mas leve.
No sábado, fui lá na Rua Silvia Teles no Brás. Comprei uma blusinha, um shortinho e um vestido leve. Por impulso, peguei também uma calcinha minúscula que nem sabia se teria coragem de usar. Em casa, fiquei olhando pra ela, rindo feito uma besta.
À noite, até tinha um convite das meninas pra ir ao Pegada Atrevida, um clube de samba rock na Peixoto Gomide, mas escolhi ficar em casa. Tinha alugado Instinto Selvagem. Michael Douglas parecia boa companhia pra aquela noite. Pedi pizza e me joguei no sofá.
Quando o motoqueiro buzinou, pausei o filme e me levantei. Mas parei no meio do caminho.
Olhei pra mim. Shortinho curto, blusa solta, sem sutiã. Roupa de ficar em casa. Um calor gostoso subiu entre as pernas. Sorri.
— Um minuto! — gritei.
Fui atender do jeito que estava.
Antes mesmo de abrir o portão, reconheci. Era o moço de sempre. Ele me viu, tirou o capacete devagar, demorando um pouco mais do que o normal. Abriu um sorriso.
— O que eu fiz pra me deixar esperando tanto, hein? — provoquei.
Abri o portão.
Sorrindo, me entregou a pizza sem disfarçar. Paguei, mordi o lábio já pensando besteira. Ele se aproximou. Eu deixei.
— E seu marido? Faz tempo que não vejo ele.
— Tá no chuveiro.
Encostei as mãos no peito dele. O cheiro de moto, suor e gasolina me pegou. Ele me puxou. A boca veio pesada, me fazendo esquecer onde eu estava. Me apoiei no corpo dele enquanto equilibrava a pizza na outra mão.
A mão desceu por dentro do meu shortinho, segura, quase deixei a pizza cair. O safado me encontrou sem calcinha… molhada. Soltei um gemido baixo no ouvido dele, arranhei a nuca de leve e, com a mão no peito dele, me afastei devagar.
— Obrigada, moço… bom trabalho.
Fechei o portão com calma. No corredor, ouvi a moto arrancando. Entrei em casa, larguei a pizza na mesa e no sofá me toquei como há muito tempo não fazia.
Na semana seguinte, era eu. Eu mesma. Nem acreditei. Entrando num sex shop pela primeira vez na vida. Fiquei encantada com as fantasias, com aquele monte de coisa de amarrar, castigar. Admito que deu uma vontade de experimentar. Fui mais básica, comprei óleos, um gel que esquenta e um consolo de um tamanho que, meu Deus… Saí de lá diferente. Em casa, gozei sei lá quantas vezes, ainda com o entregador na cabeça.
Duas semanas depois, recebi um convite especial e fui ao Pegada Atrevida. Era noite de show do Bebeto. Eu não sabia dançar direito, mas me deixei levar. Em poucos minutos parecia que nasci pra aquilo. Fui afastando aquelas mãos confiantes demais do meu corpo, sempre com um sorriso, e dancei mais e mais. Quando percebi, já estava toda suada, descalça e com o cabelo perdido. Foi assim que ele me encontrou. A mão fechou na minha cintura e me trouxe pra perto.
— Não sabia que você dançava — falei, irônica, quando vi quem era.
— Parece que a gente não sabe muita coisa um do outro.
Não respondi. Ele tentou me beijar, virei o rosto.
— Cadê a outra vida? Os pais dela ainda não deixam ela dormir fora?
Quando vi, já tinha falado. Um veneninho pronto.
Ele sorriu.
— Não deu certo. A verdade é que eu não paro de pensar em você.
A mão dele apertou minha cintura. O volume duro encostado entre minhas coxas, no tecido fino do vestido. A boca encostou no meu pescoço.
Passei as unhas na nuca dele.
— Vamos pra casa… — murmurou.
Meu corpo respondeu antes da cabeça. Respondeu mesmo. E isso me irritou.
— Não. Eu tô bem sem você.
— Já tá dando pra outro? Nem esperou a cama esfriar?
Sorri, dei de ombros.
— A cama já estava fria há muito tempo. Agora, se me der licença.
Tirei o corpo e fui até o Arnaldo. Sessenta e dois, viúvo. A gente tinha trocado telefone no metrô. Ficou me vendo dançar a noite toda.
Levei a mão ao rosto dele, num carinho. Me encaixei ali, puxei pela camisa e beijei. A mão dele subiu pelo meu corpo, levando junto o vestido, como se entendesse a situação, mesmo sem eu dizer nada. Amei.
Pensei em olhar pro lado, ver a reação do meu ex. Mas quando virei, ainda colada ali, ele já não estava.
No meio da noite, eu estava sentada no sofá do mezanino, rindo demais, meio solta de bebida e tesão. Conversava e trocava carícias com Arnaldo quando um amigo dele apareceu. Um cara que eu nunca tinha visto. Alto, preto, ombros largos. Não passava despercebido.
César, esse era o nome dele. Nem sei direito como começou. Só sei que, em poucos minutos, eu já estava beijando o danado. Língua quente, safada, a mão firme na minha nuca. Enquanto isso, a mão do Arnaldo subia devagar pelas minhas coxas, por baixo do vestido. Os dedos roçaram a borda da calcinha, subiram pela renda.
César me puxou mais e eu gemi contra a boca dele. Foi quando Arnaldo enfiou a mão por dentro da calcinha e começou a me tocar devagar, explorando. Me contorci no sofá, abrindo mais as pernas, deixando acontecer. César desceu pro meu pescoço, sugando forte, enquanto Arnaldo puxava a calcinha pro lado e me invadia com dois dedos.
Arqueei o corpo. O gemido escapou mais alto.
— Vamos sair daqui — Arnaldo murmurou.
Saímos os três.
Na porta do Atrevida, um simpático garçom apareceu segurando os saltos que a Cinderela havia perdido. Agradeci e entrei no táxi com eles na mão.
Pra minha surpresa, Arnaldo pediu pro taxista nos levar justamente pro motel onde dei pro meu ex-marido pela primeira vez. Nunca falei daquele lugar pra ninguém. Agora me fala, nossas vidas são ou não escritas por algum autor engraçadinho?
Mal fechamos a porta e já estávamos nus.
César era um armário de homem. E o pau… impossível não reparar. Tentei disfarçar, mas Arnaldo percebeu. Pelo sorriso dele, parecia exatamente o que queria.
Fomos para a cama. Arnaldo deitou, e eu me encaixei devagar, fazendo-o entrar inteiro. Ele gemeu baixo, segurando minha cintura. Comecei a me mover, rebolando, com ele bem fundo dentro de mim.
Abrindo minha bunda, César veio por trás. Cuspiu direto no meu cuzinho, passou o pau na entrada e me tomou sem muita delicadeza. Doeu um pouco no começo, mas o prazer veio logo depois, forte. Arnaldo me segurava pelo pescoço, apertando o suficiente para me deixar tonta. De vez em quando, um tapa seco no rosto, depois na bunda. Eu gemia alto, quase gritando, entre os dois.
Me viraram algumas vezes. Em certo momento, subi em César, cavalgando. Arnaldo ficou de lado, fumando perto da janela, assistindo. Com aquele olhar escuro e satisfeito. Gozei assim, olhando pra ele, tremendo inteira.
Depois disso, já não sabia mais quantas tinham sido.
De manhã, acordamos famintos. Tomamos café numa padaria atrás da Praça da Sé, eu ainda com as marcas deles no pescoço, escondidas pelo cabelo solto. Depois, cada um foi pro seu lado. Fui embora de metrô.
É… que loucura. Aquela não era eu… Ou Era?
Nunca mais vi Arnaldo ou César, ficou apenas naquela noite. E, mesmo assim, foi muito. Não me arrependo nem um pouco. Só não sei se teria tido a mesma coragem sem o empurrãozinho do álcool.
Continuei indo pra academia, cuidando de mim. Um tempo depois, voltei sozinha àquele bar ao lado do Banespa, e lá estava ele. Camisa justa, marcando o peito. O violão.
Sentei sozinha.
O vestido era vermelho, de seda. Sem calcinha. Cruzei as pernas, de olho nele. Deixei o salto escapar devagar, pender na ponta do pé… até cair. Com o cotovelo apoiado na mesa, a mão sustentando o queixo, abri um sorriso quando ele começou a cantar aquela música linda do Cartola.
Vicente Braga
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