Boa tarde Pessoal, segue a ultima parte cheia de drama. Próxima parte narrando outro acontecmiento será iniciado dia 08 de abril. Posto por volta das 19:00h.
Pode-se dizer que esse foi um dos piores dia da minha vida. Renan jogou um decisão terrível sobre os meus ombros. Numa noite ele diz que me ama, dois dias depois joga essa bomba sobre mim.
O dia foi custoso e parecia que as horas não passavam. Fiquei o dia todo olhando o celular esperando uma mensagem dele. Um meme, algo engraçado, ele falando que tava com tesão ou mandando coisas sobre os animes que ele gosta e eu não entendendo muito. Nada. Ele não mandou nada para mim. E eu também não mandei. Foi um dia angustiante.
Muitas relações entre dom e sub acabam nesse ponto. Porque nesse momento o estresse falava mais alto e as linhas entre dominação e fantasia se misturam. As coisas ficavam dúbias: até onde é consensual? Se o submisso faz o que quer e define quando parar que tipo de dominação é essa? Muitas relações mais íntimas entre dominadores e submissos não passavam dessa crise.
Um dos pilares do BDSM é uma relação consensual, e isso deve ser bem definido no começo da relação. Faltou maturidade entre mim e o Renan nessa época. Eu com meu lado as vezes impulsivo, ele com o orgulho dele. E sem regras definidas a relação ficou confusa, como nesse caso que ocorreu. Eu estressei, não quis mais ser sub naquele momento e ele, da forma que entendia, segurou as pontas.
Conversei com muitos dominadores e submissos ao longo da minha vida, relatos assim foram frequentes. Uma vez um dom que conheci disse que teve muita dificuldade nos momentos de estresse com seu sub, pois na hora das brigas as coisas ficavam confusas, e a linha entre o abusivo e a fantasia se misturavam por completo. Uma vez chegou a ficar com medo quando, numa discussão deu um tapa na cara do submisso e mandou ele se calar. Ele era advogado e falou que aquilo se enquadrava no crime de agressão. A raiva passou, o sub voltou chorando pedindo desculpas, mas ele perdeu a confiança. A relação acabou.
Um outro caso de estresse foi um rapaz que trabalhava em um supermercado. Ele era um submisso muito bonito que conheci há uns anos. Durante uma fase ele estava muito estressado, estava trabalhando bastante e tinha poucas folgas. Nesse período, principalmente quando estava irritado e cansado, não aceitava bem ser submisso as vezes. As vezes queria só descansar, passar um tempo com o dom dele curtindo o momento. Isso era algo ocasional. O dom se irritou com isso, disse que nunca sabia quando tinha que ser dominador ou não, que estava sentindo que estava ali para satisfazer os fetiches dele. Os dois brigaram e mantiveram por anos uma relação de vai e volta que terminou com os dois se detestando.
São apenas dois exemplos de tantos outros que ouvi por ai. E o engraçado é que esse tipo de relato é mais comum do que se imagina, ao menos nesse contexto relacional. Mas raramente vamos ouvir algo a respeito porque as pessoas são bem receosas para falar sobre o assunto.
Um contrato de dominação x submissão muitas vezes aliviava esse monte de problema. O que é combinado não sai caro. E ter regras bem definidas, palavras de segurança e limites estabelecidos ajudava muito. Comigo e com Renan faltou isso a princípio. Não sabíamos até onde ir e quais limites nunca poderiam ser passados.
Eu não queria usar o cinto de castidade e nas horas que ele começava com aquele ciúmes eu ficava irritado. Nessas horas não queria ser sub dele. Mas sabia que era coisa de momento, pois depois da raiva voltava a querer ele como meu dono novamente. Ele deveria se sentir assim também, de saco cheio as vezes.
Naquele dia eu queria muito ter alguém para conversar. Um amigo para me dar conselhos. Mas não tinha. Como falar para uma pessoa e explicar que o tipo de relação que eu tinha com o Renan era algo bom para mim. A primeira coisa que falariam seria: isso é abusivo, chama a polícia. Mas a verdade era que esse tipo de relação me deixava realizado. Como dizer que o Renan era o tipo de pessoa que eu procurei a vida toda. Até vocês lendo devem estar questionando minha sanidade.
Eu peguei a chave do cinto, fui até o quarto dele e enfiei a chave, olhando para o espelho. Eu não cheguei a girar a chave e tirar o cinto.
Tirar o cinto era deixar ele para trás. Não receber mais mensagens dele. Era não beijar mais aquela boca que eu tanto gostava. Era não acordar todo dia com o bom dia dele e a mensagem não lida: “tô com tesão”. Eu colocaria um fim em tudo se tirasse o cinto. Mas usar o cinto era uma devoção a ele que não sabia se estava disposto a ter.
Vocês não tem ideia do quanto o cinto incomoda e da mistura de impotência e submissão que ele gera. O tesão reprimido, a lembrança constante da submissão, mijar sentado, não poder se masturbar quando der vontade, não ter intimidade com você mesmo. Isso sem falar nas neuras malucas como “meu Deus, se eu passar mal e desmaiar vou acordar em um hospital e vão ter visto o cinto”, ou até mesmo “se alguém me abraçar e sentir ele”… a ansiedade sempre explora o cenário mais improvável e o faz parecer totalmente factível. Usá-lo me dava um frio na barriga, uma espécie de ansiedade, mas, ao mesmo tempo, me fazia gostar mais do Renan. Era uma loucura o que sentia naquele momento.
Repito, vocês não entenderiam… ao menos a maioria eu acho.
Foi muito injusto o que ele fez. Ele foi um babaca por fazer isso na verdade. Jogou tudo sobre mim. Não tentou resolver, somente colocou a responsabilidade nas minhas costas para que eu tomasse a decisão difícil. Faltou diálogo, faltou conversa. Foi somente um “aceita ou vai embora”. Ele estava certo? Não, ele foi escroto com isso.
Deitei na cama com a chave inserida na tranca.
- O que eu faço?
Olhei a aliança no meu dedo, eu amava ele. Ele me amava também. Ficar com ele era aceitar o lado cuidadoso dele, o lado romântico, a pessoa que quer me ver crescer, mas também era lidar com esse lado babaca dele, cheio de ciumes e autoritário.
No fundo eu sentia que merecia um macho me tratando assim, merecia viver esse tipo de relação. Quando ele me humilhava, castigava, sentia no fundo que merecia isso. Era um maldito ciclo interminável, primeiro sentia tesão, depois sentia vergonha, depois me sentia triste e ai sentia tensão de novo. Nesse meio maluco sentia-me feliz por estar com ele.
Largar o Renan agora seria voltar para aquela procura exaustiva por outro dominador. E ainda com o peso de esquecer e deixá-lo. Mas usar o cinto de castidade era algo muito drástico, algo que mudava totalmente a minha vida. Ele mudava a intimidade que eu tinha comigo mesmo. Daria ao Renan o poder total sobre o meu prazer. Sendo honesto com vocês, batia uma todo dia, as vezes gozava até mais de uma vez. Raramente dormia sem gozar. Agora, com o cinto, isso seria impossível.
- O que eu faço?
Vai se tratar! Imagino que seja a primeira coisa que se passou na cabeça de quem lê isso, ao menos da maioria, porque tem muito sub como eu por ai. Acho que essa vergonha de falar o que realmente sentimos é o que faz não nos abrirmos e ouvir outras perceptivas. A vida de um submisso é bem solitária nesse ponto e as vezes, quem realmente quer viver algo assim, não tem coragem de se abrir com quase ninguém.
Vou te falar, conheci muito subs ficando com muita gente esquisita por aí. Uns dominadores sem qualquer responsabilidade, muitos que expõe o sub em situações vexatórias e perigosas. Isso quando não tentam arrancar cada centavo que o sub tem. Na carência o pobre do sub acaba cedendo. Triste realidade, mas o mundo não é para os fracos não é mesmo? Sempre falo isso quando conheço um sub emocionado por aí. Se você não cuidar da sua saúde e da sua integridade física, ninguém vai fazer por você, e, quando o pior acontecer, vai ouvir de pessoas que você conhece a seguinte palavra: coitado.
Essa são palavras duras, mas são reais.
Mas dessa vez era eu quem estava nessa sina, pagando língua, pois é sempre fácil resolver problemas dos outros não é mesmo?
Passei o dia com aquela dúvida mortal, mas não tirei o cinto. A angustia me consumiu durante todo o dia.
[…]
Renan chegou em casa as sete e meia da noite. Eu estava sentado no sofá. A janela estava aberta mas eu estava oculto pela penumbra. A casa estava bem silenciosa. Ele entrou e ficou na porta da sala, ele não ascendeu nenhuma luz ao entrar – uma mania estranha dele.
- Está ai? - perguntou ele me procurando no escuro.
- Sim, estou – respondi vendo o vulto dele na porta da sala.
- Ainda está aqui... – disse ele, sua voz parecia tensa e aliviada ao mesmo tempo, por mais que essas palavras sejam contraditórias.
- Sim, ainda estou… - disse cansado.
Ele sentou-se do meu lado. Eu suspirei cansado, ele apoiou os antebraços na coxa e entrelaçou os dedos da mão. Ficou calado por um tempo olhando para frente. Eu não disse nada, apenas senti cheiro dele me inundando. Um silêncio desconfortável tomou conta de nós.
- Senti tanto a sua falta hoje – disse Renan com voz desanimada quando percebeu que eu não falaria nada.
- Eu também, muito – disse para ele, sério.
Ele não encostou em mim e nem eu nele. Mas era algo que nós dois queríamos fazer.
- Um dia sem ver suas mensagens me deixou desanimado, e olha que é raro eu ficar assim durante o dia – disse Renan olhando para frente. - Toda hora olhava e não via nada.
- Foi horrível – disse para ele. - Fiquei angustiado o dia todo também.
Ficamos em silêncio novamente, não sei o motivo dele não ter falado nada.
O vento soprou mais forte, eu estava suado e aquela brisa refrescou. Eu tampei o rosto esperando ele falar algo mas ele não falava nada, então eu não consegui mais segurar comecei a chorar. Eu passei o dia angustiado, segurei o máximo que pude o dia todo. Então dei vazão para toda angustia e ansiedade que carregava dentro de mim.
Renan voltou o olhar para mim e não soube o que fazer na hora. Ele ficou estático. Não tocou em mim, não me abraçou. Ficou totalmente sem reação. As lágrimas explodiram dentro de mim. Meus olhos arderam, as lágrimas quentes desceram pelo meu rosto frio. Eu não era uma pessoa que chorava com frequência. Para ser muito honesto não chorava há tempos. Mas tudo que aconteceu com ele, eu quase coloquei um fim em tudo, eu estive a ponto de ir embora. Eu teria me arrependido muito se tivesse feito isso.
- Por favor não chore... – foi a única coisa que ele disse, a mão no ar como se ele tivesse em dúvida se tocava em mim.
- Nunca mais faça isso! – disse para ele entre as lágrimas. Meus olhos ardiam, as lágrimas quentes caiam pelo rosto, minha visão estava embaçada. Até respirar parecia difícil. - Nunca mais coloque a nossa relação nessa situação. De tudo ou nada. Se temos um problema, a gente tem que resolver. Não jogar a decisão nas minhas costas.
Ele não disse nada.
Eu ainda chorava.
- Me desculpe… eu não sabia o que fazer – disse Renan ainda distante de mim.
Eu tampei o rosto com as mãos.
- Eu fiquei sozinho o dia todo. Nessa casa, andando de um lado para o outro. Eu quase fui embora. Você não mandou uma mensagem pra mim. Deixou toda a decisão nas minhas costas, não pensou em mim, me deixou sozinho e angustiado o dia todo. Eu não sabia o que fazer – disse para ele. - Eu fiquei com medo de te perder – disse chorando. - Você é o dominador, é você quem tem que resolver as coisas, não jogar elas nas minhas costas.
- Eu não sabia como agir – disse Renan em resposta. - Isso que aconteceu com você já aconteceu com outros subs e sempre era o começo do fim. Eu fiquei irritado, estava com ciúmes de você e acabei colocando a nossa relação em cheque. Eu assumo que isso que fiz foi vergonhoso. Deveria ter tido uma postura diferente para lidar com isso. Fiquei com medo de você fazer comigo o que o outro sub fez.
Eu não disse nada. Ele me puxou e me abraçou. Senti os braços dele me envolvendo, meu rosto sendo pressionado contra o peito dele. Ficar em seus braços me trazia uma segurança que não sei explicar. Ele afagava meus cabelos, o queixo dele estava pousado no topo da minha cabeça. Os braços em envolvendo.
- A gente não deve colocar a nossa relação em cheque quando tivermos um problema – disse para ele. - “Ou é isso ou a gente termina.” Isso é errado!
- Eu sei – disse ele me apertando nele. - Sou homem o suficiente para assumir que não agi certo. Eu não sabia o que fazer na verdade. Com outros subs aconteceu assim. Na primeira crise o sub surtava e não aceitava mais ser submisso e eu ficava parecendo um idiota, como se somente eu estivesse levando a sério.
- Eu não sou assim! - disse para ele.
- Eu não sei como você é! Eu estava com raiva e agi de um jeito irresponsável – disse Renan com pesar na voz. - Agi com muita imaturidade nessa situação. Isso eu assumo. Mas você simplesmente decidiu que não queria ser submisso por estar com raiva… Você quando fica com raiva sai falando, sendo grosso, esquece que sua posição nessa relação. Eu me segurei muito para não te bater de verdade. Ia me arrepender se te machucasse.
- Eu tive um dia horrível – disse para ele respirando fundo. Nessa hora ignorava tudo que ele falava.
- Eu também tive, esse dia parecia não ter fim. Estava com medo de chegar aqui e não te encontrar – disse Renan compreensivo, até um pouco aliviado. - Fiquei com medo de exercer minha autoridade com você nesse momento de crise e passar do limite.
Eu respirava fundo, os olhos ainda ardendo por conta das lágrimas.
- Sempre que um dominador mostra seu lado sensível, sempre que a gente tem um deslize, os submissos não querem mais a gente. Temos que ter essa postura dominadora o tempo inteiro.
- Mas o fato é – continuou Renan - muitos não me quiseram como dominador por conta de qualquer coisa que não fosse vista como de “homem”. Um momento triste, as vezes um jeito diferente de falar, algum deslize mais sensível. Uma vez, para você ter ideia, me senti muito sozinho, foi próximo ao natal. Sabe que vivo sozinho aqui e sinto falta da minha família. Me abri com o sub que estava ficando, falei como me sentia sozinho. Achei que tinha um parceiro comigo. Ele foi compreensivo, fiquei bem emotivo nesse dia, algo que evito ao máximo perto de qualquer pessoa. Depois desse dia ele foi sumindo, se afastando. Depois de muito insistir em saber o que aconteceu ele disse que eu quase chorei por uma bobeira, que a vida é dura e que aquilo mostrou que eu era sensível de mais, ele disse broxou comigo por conta disso. Falou que procurava um homem não um adulto carente – disse Renan me apertando em seus braços. A voz parecia reflexiva. Ele não falava isso para se justificar, ele adicionava isso a conversa.
- Para você ter ideia eu fiquei preocupado de você mudar a visão de mim quando o João disse que chorei porque você não estava me atendendo durante aquele mal-entendido. O que sinto é como se eu tivesse que ser forte o tempo todo – disse Renan ele se abrindo. E era a primeira vez de fato que ele fazia isso, nesses breves três meses. - Já sou assim no trabalho, sou assim quando lido com bandido, sou assim quando lido com a equipe, quando tenho de apartar uma briga ou botar ordem em algum lugar. Tenho que ser assim com você o tempo todo.
Aquilo me deixou muito surpreso.
- Confesso que não sabia o que fazer ontem. Você se negou a ser submisso, me deu ordem. Mandou eu tirar o cinto. Eu agi como achei que deveria. Eu não aceito na vida ninguém me dar ordens. E não é a primeira vez que você faz isso, que fala que não devo ser dominador – disse Renan se recordando de ontem e de outra vez, após a briga por conta do João, onde disse que deveríamos esperar um pouco para retornar com a minha submissão. - Ontem eu não quis te ouvir porque fiquei com medo da gente brigar e acabar tudo ontem mesmo – disse Renan sem vacilar, mas a voz indicava que a situação também mexeu com ele, mas ele mantinha o controle. - Por isso mandei ficar calado. Segurei as pontas como eu achei que deveria. Queria conversar pela manhã, pois estaríamos mais calmos. Mas ai eu não sei o que deu em mim, fiquei puto por causa de ontem novamente.
- Uma vez um outro Sub ficou puto comigo porque eu dei um tapa mais forte na cara dele – disse ele, ainda estávamos na mesma posição. - Foi um tapa mais forte que eu dei e deixou um marca bem sutil no rosto dele, perto do olho. Ele simplesmente ligou para o 190 – disse Renan e aquilo me deixou incrédulo. - Ele chamou a polícia para mim. Tem noção de um subordinado meu aparecer aqui por conta de uma denúncia de agressão. Na hora eu não sabia se batia mais nele ou se implorava para ele não me denunciar.
- Eu nunca faria isso… - disse chocado com a situação. E de fato, seria uma coisa terrível para ele.
Eu sai dos braços dele tentado me recompor. Respirei fundo.
Eu não disse nada sobre o que ele disse. Nunca tinha parado para olhar o lado dele. Será que aquela máscara do Renan era ele se forçando a ser dominador o tempo todo e se impedindo de sentir as coisas na minha frente? Respirei fundo novamente. Aquele homem musculoso, duro, militar… tinha sim seus sentimentos e não era essa fortaleza o tempo todo.
Tudo estava muito silencioso, uma brisa gostosa entrou pela janela, atenuando a tensão que ambos sentíamos. Senti o cheiro do Renan novamente, ouvi a respiração baixa dele...
- Não vai me perguntar se estou com o cinto? – perguntei com a voz ainda embriagada pelo choro que já acabou.
- Eu sei que está – respondeu Renan firme, ainda tentando manter o controle da situação, mas visivelmente desconcertado.
- Não sinto que estou pronto para ser submisso Renan, não nesse nível – disse para ele, sendo o mais sincero possível. - O cinto é uma coisa pesada de mais. Não me sinto pronto para isso.
Ele não respondeu um tempo. A brisa soprou novamente, minha ansiedade explodiu aguardando ele falar algo.
- Já se sentiu pronto alguma vez? - perguntou Renan depois de um tempo.
- Sendo bem honesto… não – disse para ele. E era verdade. Eu amava ser submisso, sentia muito tesão nisso. E tudo que vivia com o Renan parecia ser aquilo que busquei para a minha vida. Mas de fato eu nunca sentia que estava pronto para viver essa vida de submisso.
- Sabe por que nunca se sentiu pronto? - questionou Renan.
- Não… nunca soube para ser bem honesto – disse para ele.
- Nunca se sentiu pronto porque “pronto” não é um sentimento, é uma decisão – disse Renan. - E isso vale para tudo na vida.
Aquelas palavras bateram forte em mim.
- Eu poderia te pegar a força, bater em você, te obrigar a fazer o que eu quero. Você não tem força física e nem força de vontade para me impedir de fazer isso – disse Renan olhando o chão, as palavras saindo duras. - Mas essa relação tem de ser consensual, tem que ser uma decisão sua querer viver assim.
As palavras Renan tiveram um impacto profundo em mim naquele dia. Quantas vezes na vida esperei me sentir pronto para as coisas e nunca me senti realmente pronto. As coisas mudaram somente quando decidi fazê-las acontecer. Renan não era o primeiro dominador que aparecia. E com todos eles eu não me senti pronto, sempre dava para trás quando as coisas ficavam difíceis. Nunca me entreguei de verdade porque sempre esperava me sentir pronto para isso.
- É essa a vida que você quer? - perguntou ele depois de um tempo, olhando para mim.
Meu olhos ainda lacrimejados voltaram-se para os dele. O olhar dele tinha muita intensidade sobre o meu. Era um olhar firme, que não vacilava. Ele não disse nada, mas se impunha sobre mim naturalmente.
- Sim… é o que eu quero para mim – disse para ele um misto de sentimento que não soube descrever. Estava na hora de viver isso. Esperei a vida toda estar pronto e nunca estive, talvez ele estivesse certo, e sentir-se pronto é uma coisa impossível. Decidi que estava pronto, naquele momento. - É o que eu sempre quis para a minha vida, mas sempre tive medo. Hoje eu estou pronto para viver como seu submisso e me entregar de verdade.
Ele sorriu ainda me olhando nos olhos, o olhar duro não vacilou, mas seu sorriso dizia o quanto ele tava contente, até feliz.
- Então estamos de acordo – disse Renan baixo.
Fiz que sim com a cabeça.
- O cinto de castidade antes seria introduzido aos poucos, agora será de uma vez, vai tirar somente quando estivermos juntos. E vai ser somente para a higienização – disse Renan firme. - As primeiras noites são difíceis de dormir com ele, mas você vai se acostumar. E também não tem nenhuma previsão de te deixar gozar e isso vai ser cada vez menos comum. Agora o seu prazer está condicionado a mim.
- Sim, senhor.
- Vai ser incômodo, vai ser ruim no começo, mas você vai gostar – disse Renan em olhando. - Você nasceu para isso.
Eu não disse nada, apenas suspirei cansado. Ele me puxou para os peito dele. Senti cheiro dele me inundar novamente, os braços me apertando contra o corpo dele. Ficamos calados um tempo enquanto ouvia a respiração dele. Estar no braço dele sempre era bom, ainda mais agora que estava meio emotivo. Ser acolhido por ele era umas melhores sensações que existia e eu não queria perder isso nunca.
- Eu não acredito que te fiz chorar – disse ele visivelmente irritado consigo mesmo, depois de ficamos um longo período em silêncio. - Meu papel é cuidar de você, não fazer você se sentir assim. Deveria ser seu porto seguro, sempre – disse com o tom de voz arrependido. - Perdi a toda a postura. Que vergonha! Isso não vai acontecer nunca mais.
- Já passou – disse me recompondo. Limpei o rosto molhado com as costas das mãos. - Eu estou aqui não estou? Já até esqueci isso.
- Sim, você está – disse ele limpando a região úmida do meus olhos com o polegar. Consegui sentir a textura grossa na pele fina do meu rosto. - Eu vou cuidar de você, vou te proteger, vou resolver o que precisar ser resolvido. Sou seu dono, você vai contar comigo para o que precisar. Mas vou pegar firme com você, mais que antes. Te manter na linha, te deixei solto de mais.
- Sim, senhor – disse para ele. - É o que espero.
- Essa vai ser a dualidade da nossa relação – disse Renan baixo. - Algo que somente eu e você sabemos. Aos olhos de todos posso ser o bonitão apaixonado e ciumento talvez, mas entre a gente, você meu submisso, me trata como seu senhor e me serve.
Mesmo naquele momento emotivo senti meu pau querer ficar duro.
- Nossa relação é intensa desde o dia que te vi naquela livraria – disse Renan. - Naquele dia olhei para você e pensei: “não deixo ele escapar de novo, vou tacar um anel no dedo dele e trancar aquela rolinha pequena. Ele vai ser meu”.
Não pude deixar de sorrir.
- Tem três meses só – disse para ele. - Três meses que do nada resolvi passar naquela livraria e te reencontrei. Parece que foi há muito tempo.
- Sim – disse Renan suspirando. - parece que foi mesmo.
Fechei os olhos enquanto ainda abraçava ele.
- Está com fome? - perguntou ele depois de um tempo.
- Estou – respondi. - Ultima vez que comi foi ontem no bar. Não comi nada hoje. Estava me sentindo enjoado.
- Está há mais de vinte e quatro horas sem comer – disse ele preocupado. - Vamos sair para comer e depois vamos dormir. Amanhã eu estou de folga, mas você trabalha.
- Estou com muita fome, quero comer algo forte, que mata a fome.
- Beleza – disse ele se levantando animado. - Vou te levar em um lugar bem legal, vamos!