Boa Tarde pessoal, segue mais uma parte. Próxima postagem amanhã, por volta das 19:00h. Comentem, deixem suas opiniões (positivas ou negativas), curtam. Não sei ao certo quem está acompanhando. Devo escrever mais ou encerrar? Aos que sempre estão mandando mensagem obrigado, ouço suas dicas atentamente!
Acho que no fundo muita gente precisa de um Renan na sua vida…
A semana começou comigo cansado, ainda desanimado pela briga no final de semana. O cinto incomodava menos que nos primeiros dias, mas ainda incomodava. A verdade era que logo me acostumaria com esse incômodo. Mas minha chateação continuaria, pois na terça-feira fui até o cursinho buscar o resultado do simulado que havia feito na semana passada. E posso dizer para vocês, foi péssima a minha nota e isso me deixou ainda mais para baixo. E Renan, como era de se esperar, pegou pesado comigo.
Estávamos na praça de alimentação. Não queria comer nada, mas ele disse que teria que comer algo antes de ir embora. Com nítido desagrado no olhar ele via o celular com o resultado do simulado. Ele estava vestindo uma camisa polo azul clara, calça jeans e sapato social. Pelos botões abertos era possível alguns pelos. Seus antebraços estavam em cima da mesa.
- Esse celular seu está horrível! - disse irritado segurando meu Celular. - Como alguém que trabalha vendendo celular tem uma porcaria dessa?
Não respondi ele. Na verdade estava bem envergonhado. Fiz a porra do cursinho por quatro meses e fui muito mal no simulado. Renan, todo bem-sucedido, ganhando bem, e eu…
- Não adianta ficar com essa cara – disse ele olhando meu resultado pela tela do celular. Logo voltou um olhar repreensivo para mim que me fez baixar a cabeça. - Era de se esperar uma nota horrível como essa, você mal estuda. Fica o tempo inteiro no celular, vendo vídeos inúteis nas redes sociais. Até os livros que tanto gosta de ler tem lido menos. Ia ser um milagre tira uma nota boa. Tem que levar a vida com mais seriedade pô!
Não disse nada. Renan não gritava comigo nem nada, mas estava um pouco envergonhado pelo esculacho que ele tava dando. Nem reparei se quem estava próximo conseguia ouvir.
Renan era concursado, vivia bem e tinha um bom salário. Eu por outro lado mal ganhava o suficiente para pagar minhas contas. Existia uma abismo entre mim e ele nesse quesito. Confesso que sentia um pouco de vergonha quando pensava nisso.
Nós comemos um sanduíche natural enquanto ele ainda olhava as notas.
- Se fosse hoje o concurso você não acertado apenas trinta e cinco das sessenta questões – disse Renan comendo, o olhar dele pousou em mim.
- Eu sei. Vou estudar mais - disse sem muita expectativa.
- Mas e claro que vai - disse Renan. - Disso não tenho nenhuma dúvida.
Ficamos um tempo em silêncio enquanto comíamos. O olhar azul-claro dele era frio e penetrante, nessas horas não conseguia sustentar o olhar. Ainda mais sentindo vergonha igual estava.
- Porque o senhor está tão preocupado com a minha nota? - disse para ele depois de um tempo.
- Porque você está desperdiçando sua energia nesse trabalho seu - disse Renan olhando o celular novamente. - Trabalha para um caralho e ganha um salário pífio no final do mês.
- É o meu trabalho - disse chateado com o que ele disse, logo sustentei o olhar. Os olhos deles, azuis bem claros, me olhava sem vacilar. - Não gosto que fale assim do meu trabalho. Ele que paga as minhas contas e é um trabalho honesto.
- Não foi isso que quis dizer - disse mantendo o olhar em mim, sem vacilar. - Tenho muito orgulho pelo fato se você ser trabalhador, esforçado. Já vi você ficar dez horas de pé vendendo celular e plano de celular e sabe-se lá mais o quê. Chegar em casa com as pernas bambas e sem voz de tanto falar. Mas essa energia gasta está apenas enriquecendo os outros e não você. Deve gastar a sua energia com você mesmo, com o seu crescimento.
Não respondi de imediato, apenas suspirei cansado. Eu trabalhava bastante, era verdade, mas ganhava comissão. E quando mais trabalhava, maior a comissão. Então as vezes dava para tirar um dinheiro bom. O que ele queria que eu fizesse? Vivia com as contas quase não fechando, ainda ajudava minha mãe com as contas dela.
- Porque se preocupa tanto com meu trabalho com vendedor? - perguntei para ele. - Parece ver ele com desagrado.
- Já disse outras vezes, precisa pensar mais no seu futuro, não vai ter essa energia para sempre – disse Renan. - E também você é minha responsabilidade.
- Eu sei - disse para ele e sentia mesmo que esse pique de vendedor com os anos reduziria. De fato eu trabalhava muito. - Mas não me respondeu exatamente, por qual motivo o senhor se preocupa com isso, com a minha vida? Não acha que caso não passe em um concurso eu não consiga me sair bem em outras áreas?
- Eu me preocupo porque você é minha responsabilidade, estou dizendo isso pela segunda vez hoje - disse Renan me entregando o celular e me olhando nos olhos. - Você e gay, Estressadinho. As vezes você se esquece disso. Você é gay, as coisas são naturalmente mais difíceis para a gente. Precisa construir uma estabilidade para o futuro. Nosso país tem uma politica com uma tendência forte ao conservadorismo e a intolerância, nossos direitos adquiridos foram todos via decisão do supremo e podem ser facilmente retirados. O que nos resta é a estabilidade financeira. Ganhar bem, ter uma previdência privada, um trabalho que sobrevive as oscilações do mercado. A possibilidade de acessória jurídica, se necessário. Vamos envelhecer um dia, o mercado é cruel com pessoas velhas. Isso sem falar na homofobia. Deve ter condições para morar em um bairro bom e seguro. Um concurso e sem sombra de dúvidas a melhor saída.
Eu não falei nada.
- O estudo, de forma geral, é a maneira mais acessível para uma vida mais estável – finalizou Renan.
Tudo que ele disse fazia sentido. E a homofobia era mais pesada em mim do que nele, uma vez que ninguém se quer imaginava que ele gay. Eu por outro lado aparentava ser gay e vivia situações relacionadas a isso. Esses dias mesmo uma cliente foi extremamente preconceituosa comigo. Me chamou de viado escroto porque o desconto que ela queria não estava habilitado no sistema e ela achou que eu estava recusando. Viviane, a supervisora, ficou irritada, mas nada de chama polícia ou fazer qualquer queixa.
Se eu te disser que nunca pensei na velhice estaria mentido também. Acho que todo gay já pensou como é envelhecer.
Suspirei cansado olhando a mesa. Estava bem desanimado.
- Vai começar a estudar – disse Renan de maneira impositiva. - Chega de perder tempo com futilidades.
- Eu não consigo estudar Renan – disse para ele, e ele me voltou o olhar na mesma hora, arqueando uma sobrancelha. - Digo… senhor. Eu não consigo me concentrar. Perco a atenção muito fácil. Eu acho que tenho TDAH ou qualquer coisa relacionada. No momento que sento eu perco a atenção muito fácil. Isso sem falar que trabalho muito e fico muito cansado. É começar a ler e fico com sono.
- Tem TDAH porra nenhuma - disse ele irritado, falando mais alto do que gostaria. - Te observo desde o dia que nos reencontramos. O que você tem é uma mente indisciplinada, viciada em redes sociais. Esses dias estavam la em casa, ficou mais de uma hora rolando a tela vendo vídeos. Está acostumado a ficar o dia inteiro em redes sociais.
- Isso…
- A partir a amanhã não tem aula a noite - disse Renan por cima de mim, o que me fez calar. - Vai chegar em casa e vai estudar, pelo menos, duas a três horas por dia. Aos sábados vai estudar ao menos seis horas nos dias que não trabalhar, se trabalhar, três horas.
- O quê?! - eu simplesmente não estava acreditamos no que estava ouvindo.
- Isso mesmo, todos os dias. Começando amanhã. Vai começar a ocupar seu tempo livre com seu crescimento profissional. Acabou essa de ficar vendo vídeos inúteis por horas - disse Renan. - Inclusive vai inativar todas as suas redes sociais. E vai fazer isso agora!
- Mas... eu - eu fiquei até sem argumentos para continuar o que estava acontecendo, pois não estava acreditando.
- Vamos disciplinar esse mente preguiçosa sua, e isso começa amanhã. Vai ter hora para estudar todos os dias, salvo no domingo ou na sua folga – disse Renan.
- Eu não sei se consigo, já te disse, eu fico…
- Não está usando o senhor quando fala comigo – disse Renan em tom repreensivo. - Já te disse isso e está me irritando.
- Desculpe, senhor – disse para ele respirando fundo, senti o pau querer ficar duro. - Como eu disse para o senhor antes, eu perco a concentração, fico com sono. Eu não dou conta de estudar desse jeito.
- Não consegue porque a mente tá acostumada a ceder diante da pressão – disse Renan me comendo com o olhar. - Por isso precisa disciplinar sua mente. Precisa ter uma mente resiliente, que não cede fácil. Como você consegue ficar dez horas em pé e não consegue estudar três horas? Isso não faz o menor sentido.
- Eu…
- Eu não estou entendendo, onde você está achando que isso é uma negociação? – perguntando Renan ficando verdadeiramente irritado. - Eu disse que a partir de amanhã vai começar a estudar. Vai chegar do trabalho, tomar banho, comer algo e ir estudar. Ponto final.
Baixei a cabeça.
- E as redes sociais, pode inativar todas elas – disse Renan com seu típico autoritarismo quase grosseiro. - AGORA!
- Eu tenho pessoas que converso que não posso perder o contato - disse para Renan.
- To falando de redes sociais somente – disse Renan. - Principalmente a de vídeos curtos. Esse dai por mim você apagava até sua conta. O aplicativo de mensagens não, mas nada de postar status e vai sair de grupos que não agregam nada. Grupo de jogo, de fofoca...
- Mas tem pessoas…
- Se a pessoa não tem seu número de telefone e o diálogo com ela se resume a mandar rells, então não te fará falta – disse Renan me interrompendo.
Acessei uma por uma, fui nas configurações e inativei. Renan tentou me encontrar em cada uma delas e não encontrou.
- Os próximos meses serão de trabalho e estudo, nada além disso, até o concurso abrir – disse Renan olhando o celular. - Domingo vai ser seu dia de descanso, ai pode relaxar e descansar. Caso trabalhe aos domingos e folgue no sábado ou durante a semana, a gente inverte os dias de estudo para adequar, mas vai estudar seis dias na semana.
- Pode ser que não abra o concurso tão cedo - disse para ele reclamando. E isso era fato. A minha ideia era o cursinho antes para me preparar melhor.
- Direito Administrativo, Direito Constitucional, Português e Raciocínio lógico são matérias que caem em quase todos os concursos que pagam bem: INSS, TRT, Câmara, TCU, Assembleia, Polícia Civil, Polícia Federal e por ai vai. Caso algum desses concursos surjam no horizonte você estará com vantagem.
Meus sentimentos eram pura confusão. Sentia triste pelo ocorrido final de semana com ele a briga toda, irritado com cinto apertando meu pau que mesmo naquela situação queria ficar duro, puto por não poder mais acessar minhas redes sociais. Indignado com o Renan por conta do sermão de quase uma hora… e vou ser honesto, por mais contraditório e abusivo que isso pareça, no fundo, fazia sentido cada palavra que ele disse. Talvez era isso que precisava para de fato mudar minha vida...
- Meu projeto de fazer musculação a noite foi pro saco - pestanejei me dando por vencido. - Queria começar semana que vem. Agora vou ter que estudar somente.
- Você está novo, vai ter tempo ainda Estressadinho – disse ele ficando menos rígido, vendo que concordei come ele sem ele precisar ir além do xingo. - Nesse momento o foco é outro. Mas nada impede de fazer uma caminha pela manhã, antes de trabalhar.
Olhei para ele incrédulo. De tudo que aconteceu, inclusive o cinto, aquela era a coisa mais absurda que Renan havia dito para mim.
- Estava pensando nisso esses dias – disse Renan com a mão no queixo, pensativo. - Você pega serviço as nove horas e sai as dezoito. É claramente possível levantar as seis e meia e fazer uma caminha de uma hora antes de ir trabalhar, ao menos duas vezes. E isso ao menos tira esse seu sentimento de total sedentarismo. Perfeito! Vamos amadurecer essa ideia. Pode ir naquela avenida perto da sua casa. Não precisa correr pois pode lesionar o joelho, mas caminhar é possível.
- O senhor só pode estar de brincadeira - disse irritado, meu semblante estava frechado.
Renan não disse nada, apenas ficou me olhando sério com os braços cruzados.
Ah meu Deus… era sério isso.
[…]
Na quarta feira cheguei em casa do trabalho, tomei um banho, comi algo e deitei no sofá. Peguei o celular por hábito para olhar minhas redes sociais, mas todas estavam inativadas. A casa estava silenciosa e um tanto tediosa. Estava sem tirar o cinto desde domingo. O cheiro já me incomodava um pouco, apesar de ter conseguido lavar um pouco sem tirar.
O celular vibrou.
“Já está estudando?” - a mensagem de Renan chegou as dezenove horas em ponto.
“Eu já estou indo”.
“ENTÃO VAI AGORA!”
“Sim senhor, eu vou ir agora” – respondi desanimado levantando do sofá. Sem redes sociais, sem bater punheta, raramente podendo sair a noite com meus amigos… o que restava para mim? Estudar para um futuro melhor. Não era de todo ruim.
Sentei na mesinha que tinha na sala e abri a apostila. Direito Administrativo… você é meu calcanhar de aquiles, pensei. Eita troço difícil.
O celular vibrou.
“Vai estudar até as dez hoje, quando terminar me manda mensagem para conversar um pouquinho com você. Bons estudos”.
Sorri e não respondi nada. Ele gostava de mim do jeito bruto e ogro dele. E eu amava isso nele também. Já estava com saudades dele, mas preferi não dizer nada. Peguei a apostila e olhei para ela sem ânimo, mas estranhamente determinado.
- Bem, Direito Administrativo, vamos lá!