Resposta Nanda
Nanda do Mark, agradeço a resposta. É raro que autores ou personagens decidam descer ao campo dos comentários para dar satisfação direta a um leitor, e esse gesto, independentemente do tom, merece ser reconhecido. Não vou transformar isso em bajulação porque não é o caso e porque acredito que você, mais do que ninguém, valoriza a franqueza. Dito isso, vou direto ao ponto que parece ter sido o estopim de toda essa discussão, porque acredito que houve um desencontro significativo entre o que eu quis dizer como leitor de uma narrativa pública e o que você entendeu como uma ofensa pessoal ao seu marido e à sua família. Farei isso com calma, com a extensão que o tema merece, e usando uma imagem que talvez ajude a separar o que é crítica literária do que é ataque pessoal.
A imagem é a de um prédio. Imagine um edifício alto, visível de longe, imponente na paisagem, aquele tipo de construção que chama a atenção de quem passa e gera comentários, curiosidade e expectativa. Esse prédio, como qualquer outro, tem um alicerce. O alicerce fica enterrado. Ninguém vê o alicerce. Ninguém tira foto do alicerce para postar nas redes sociais. Ninguém comenta sobre ele no café da manhã nem especula sobre o que está acontecendo lá embaixo. No entanto, é exatamente esse alicerce que mantém o prédio de pé. Sem ele, a primeira ventania mais forte derruba tudo, as paredes racham, os andares desabam e o que era imponente vira entulho. O alicerce é essencial, é vital, é a condição sem a qual nada do resto existe ou se sustenta. Agora, o prédio em si é o que aparece. É onde estão as luzes acesas durante a noite, as festas barulhentas que todo mundo ouve, os incêndios espetaculares que mobilizam os bombeiros, as pessoas entrando e saindo com frequência, os dramas que os vizinhos acompanham da calçada com binóculos imaginários. O prédio é o que gera movimento, curiosidade, comentário e expectativa. O prédio é o espetáculo. O alicerce é a estrutura.
Trazendo essa imagem para a história que vocês vêm contando há dezenas de capítulos, o Mark sempre foi o alicerce. Sempre. Desde o primeiro parágrafo da primeira parte. Sem ele, a narrativa da Nanda simplesmente não se sustentaria emocional, logística ou estruturalmente. Isso é inegável e nunca foi questionado por mim em momento algum. A Nanda sempre foi o prédio. Sempre. É ela quem está com as luzes acesas, é ela quem vive as festas, é ela quem enfrenta os incêndios, é ela quem recebe e despacha visitas, é ela quem gera os dramas que todo mundo comenta. Isso também é inegável e também nunca foi questionado por mim. A questão que eu levantei, e que aparentemente foi interpretada como um ataque à relação de vocês, não diz respeito à importância do alicerce. Ninguém em sã consciência questiona a importância de um alicerce para um prédio. A questão é outra, e vou formulá-la de maneira clara e direta: por que um alicerce tão sólido, tão bem construído, tão elogiado por todas as personagens femininas que passaram por essa história ao longo dos capítulos, raramente sobe as escadas para o vigésimo andar e causa um curto-circuito que seja exclusivamente dele? Por que o alicerce não atrai para si, de vez em quando, uma invasão própria, uma ameaça que seja direcionada a ele e não uma mera consequência das escolhas da Nanda?
Você mesma, na sua resposta, ofereceu uma explicação técnica que merece ser analisada com cuidado. Você disse que o Mark narra o que vê e que, por isso, a Nanda aparece mais. Entendi perfeitamente o argumento. Faz sentido do ponto de vista da carpintaria narrativa. Um narrador que conta a história da própria vida tende a relatar mais aquilo que observa nos outros do que aquilo que acontece dentro de si mesmo, porque é mais fácil descrever o comportamento alheio do que fazer autoanálise pública. Até aí, nenhum problema. O problema começa quando essa mesma explicação, que deveria encerrar a questão, na verdade a aprofunda. Porque se o Mark narra o que vê, e se ele é um homem descrito por você e por outras personagens ao longo de toda a jornada como alguém foda, desejável, potente, intrigante, então ele também vê, inevitavelmente, mulheres desejando ele. Ele viu a Denise afirmar que gostaria de ter um homem como ele para ela. Ele viu a Iara dizer, com todas as letras, que se você vacilasse ela pegaria ele sem pensar duas vezes. Ele viu a Laura, e outras que passaram pela história, olhando para ele com um interesse que não era meramente cordial. Ele viu tudo isso. Ele narrou tudo isso, ainda que de passagem, porque estava narrando o que via. A pergunta que fica, e que nenhuma explicação técnica consegue afastar completamente, é: por que essas situações, essas sementes plantadas ao longo de toda a narrativa, nunca germinaram em uma tempestade de verdade? Por que esses interesses manifestados por outras mulheres nunca se transformaram em um capítulo do mesmo calibre que as confusões que você, Nanda, viveu com o Rick, com o Édison, com o Arthur? Por que a Denise, que verbalizou o desejo, nunca saiu do papel de amiga e confidente para se tornar, ainda que momentaneamente, uma ameaça real? Por que a Iara, que foi o lampejo mais brilhante de algo nessa direção, depois de poucos capítulos virou amiga, a poeira baixou e o alicerce voltou silenciosamente para debaixo da terra?
Você disse que houve percalços que a gente nem sabe ainda. Disse que existem coisas que talvez nunca venham a público se continuarmos com essa mania de medir a vida alheia com réguas próprias. Pois bem. É exatamente sobre isso que eu estou falando. Eu quero ler esses percalços. Eu quero que esses percalços sejam narrados. Porque, até agora, o que chegou ao leitor foi uma assimetria evidente: a Nanda se envolve em tempestades monumentais, e o Mark administra as consequências com a sensatez que todos reconhecem que ele tem. O padrão é Nanda age, Mark reage. Nanda provoca, Mark resolve. Nanda se perde, Mark encontra. Nanda incendeia, Mark apaga. Isso não é uma crítica ao Mark como marido ou como homem. É uma constatação sobre a economia da narrativa que está sendo entregue ao público.
E aqui é preciso fazer uma distinção importante, porque em nenhum momento eu disse ou sugeri que o Mark fosse um homem passivo, fraco ou desprovido de capacidade de ação. Muito pelo contrário. O próprio texto que vocês construíram está repleto de exemplos que provam exatamente o oposto. O Mark não tem sangue de barata, como você mesma já descreveu em algum momento. Ele já bateu no Rick. Ele já discutiu com você de forma acalorada. Ele quis matar o Bruno depois do estupro, e qualquer pessoa que leu aquela parte sabe que aquilo não era figura de retórica, era um instinto masculino primitivo de proteção e vingança que veio à tona com força total. Ele já tomou atitudes que demonstram que, por trás da racionalidade e da sensatez que todos admiram, existe um homem capaz de reagir com violência quando provocado, capaz de sentir raiva genuína, capaz de perder o controle se a situação apertar. Isso está na história. Está documentado. Está narrado. Portanto, quando eu digo que sinto falta de mais protagonismo do Mark, não estou dizendo que ele seja um personagem fraco ou mal construído. Estou dizendo que as ações dele, quando aparecem, são majoritariamente reativas. Ele reage ao Rick. Reage ao Bruno. Reage às suas decisões. Reage às suas confusões. O que eu gostaria de ver, e o que acredito que enriqueceria ainda mais a narrativa, é o Mark agindo por iniciativa própria e gerando, a partir dessa iniciativa, consequências que você, Nanda, tivesse que administrar. Consequências que não fossem culpa sua, que não fossem reação a algo que você fez, mas que fossem fruto exclusivo de algo que ele atraiu, provocou ou não conseguiu evitar.
Você mesma, na sua resposta, usou um argumento interessante. Disse que homens são predadores naturais, muito mais do que as mulheres. Disse que as mulheres são muito mais assediadas do que os homens. Disse que a maior parte dos problemas em que você se envolveu veio de cruzar com homens de pouco valor que acharam que poderiam ter você como se fosse um objeto. Tudo isso é verdade no mundo real. Não vou contestar um segundo sequer dessa análise. Mas vou usá-la para reforçar exatamente o meu ponto. Se homens são predadores naturais, e se o Mark é um homem, e se além de homem ele é descrito como alguém excepcionalmente atraente, competente, bem-sucedido e magneticamente desejável, então a lógica que você mesma estabeleceu diz que ele também é um predador. Não no sentido pejorativo da palavra, mas no sentido instintivo. Ele também tem desejos, impulsos, atração por outras pessoas. Ele também é capaz de desejar alguém além de você, assim como você desejou o Rick, o Tiago, o Arthur (capítulo especial). E se ele é capaz de desejar, ele é capaz de agir movido por esse desejo. E se ele age movido por esse desejo, ele é capaz de atrair problemas para o casal que não foram causados por você. A pergunta que fica, e que a narrativa até agora não respondeu, é: onde estão esses problemas? Onde estão as mulheres que desejaram o Mark a ponto de se tornarem uma ameaça real para você? Onde estão as situações em que o Mark, por mais sensato e racional que seja, não conseguiu controlar o que outras pessoas fizeram ou sentiram em relação a ele? Porque, por mais que ele mantenha distância, POR MAIS QUE ELE SEJA PRECAVIDO, POR MAIS QUE ELE NUNCA DE MOTIVOS, ELE NÃO CONTROLA, A MENTE, O CORAÇÃO OU OS INSTINTOS DAS PESSOAS QUE O CASAL CONHECE. O Rick não foi controlado por você, ele é homem. Porque a dinâmica entre vocês despertou algo nele que ele não soube administrar. O mesmo poderia acontecer com uma mulher em relação ao Mark já que mulheres são mais emocionais. Aliás, já aconteceu, pelo menos no nível da intenção declarada. A Iara declarou. A Denise insinuou. Outras olharam. Mas nenhuma delas passou da intenção para a ação que gerasse um conflito real, um capítulo de verdade, uma crise em que você tivesse que olhar para o Mark e pensar: "Dessa vez o problema não fui eu que causei. Dessa vez o incêndio começou no andar dele."
O Mark já pegou a Denise. Já pegou a Laura. Já pegou a Iara. Já pegou outras mulheres ao longo da jornada. Isso está na história. Está narrado. Não estou inventando nada. Mas, em todos esses casos, o envolvimento dele com essas mulheres foi descrito como algo tranquilo, controlado, sem maiores consequências emocionais ou práticas. Nenhuma dessas mulheres mexeu com ele a ponto de desestabilizar algo dentro do casamento. Nenhuma delas representou uma ameaça real para você. Nenhuma delas fez você sentir aquele frio na barriga de quem percebe que pode estar perdendo algo importante. E, no entanto, o Rick fez exatamente isso com o Mark. O Rick representou uma ameaça real. O Mark sentiu medo de perder você. O Mark sofreu. O Mark precisou da ajuda do Dr. Galeano para processar o que estava acontecendo. O Mark foi colocado à prova de uma forma profunda e dolorosa. A pergunta que fica, novamente, é: por que o inverso nunca aconteceu? Por que você, Nanda, nunca foi colocada na mesma posição? Por que nunca houve uma mulher que fizesse você sentir o que o Mark sentiu com o Rick?
Essa assimetria é o cerne da minha crítica. Não é sobre o valor do Mark como marido, como pai, como homem. É sobre o equilíbrio da narrativa que está sendo entregue ao leitor. Se a história é real, como você sempre faz questão de afirmar, então ela está sujeita a ser lida como tal, com todas as suas simetrias e assimetrias, com todos os seus buracos e perguntas não respondidas. E uma dessas perguntas continua de pé, firme como o alicerce que tanto admiro: quando é que o Mark vai ser o centro de uma tempestade que ele mesmo atraiu, sem que você tenha dado o primeiro passo? Quando é que o alicerce vai subir as escadas, acender um fósforo e causar um incêndio que você, Nanda, tenha que ajudar a apagar?
Sobre o termo "CORNO MANSO" que você mencionou na sua resposta e que claramente foi o que mais pesou para que você decidisse intervir. Você disse que se o perfil fosse seu eu já estaria bloqueado. Disse que o Mark não é esse tipo de homem, que ele não gosta de ser humilhado ou colocado à margem. Vou tratar exclusivamente desse ponto agora, porque acredito que aqui houve não apenas um desencontro, mas uma leitura francamente seletiva do que foi escrito. E vou explicar exatamente por quê.
A frase que eu escrevi, na íntegra, foi esta: "Por isso que falei sobre ponto de vista, essa história se vê ela como o casal protagonista o Mark é um excepcional companheiro, muitas mulheres no mundo liberal iam amar ter o Mark como marido e a Nanda é uma porcaria, ela só pensa nela em todo o momento, não faz nada pelo Mark e quando faz algo faz errado, já o Mark sozinho como protagonista infelizmente é corno manso, aceita tudo que Nanda faz, a Nanda somente como protagonista e a mulher mais foda de todas, ela faz o que quer, como quer, ela simplesmente não tem ninguém que a detém."
Agora vamos decompor essa frase com a atenção que ela merece, porque a estrutura dela é tudo. Eu não escrevi "o Mark é corno manso" e ponto final. Eu não cheguei nos comentários, digitei três palavras e saí correndo. O que eu fiz foi construir um raciocínio de três camadas, explicitamente anunciado como um exercício de ponto de vista. A primeira frase já entrega a chave de leitura: "Por isso que falei sobre ponto de vista". Ou seja, tudo o que vem depois é uma demonstração de como a mesma história muda completamente dependendo do ângulo pelo qual você decide olhar. É um exercício de perspectiva narrativa, algo que qualquer pessoa que já discutiu literatura, cinema ou qualquer forma de contar histórias reconhece imediatamente.
Primeira camada: o casal como protagonista. Nessa leitura, eu escrevi textualmente que o Mark é um excepcional companheiro. Não é um elogio tímido, é um elogio direto e sem ressalvas. Disse também que muitas mulheres no mundo liberal iam amar ter o Mark como marido. Isso é uma afirmação de valor, de qualidade, de virtude. Na mesma camada, critiquei a Nanda duramente, chamando-a de porcaria, dizendo que ela só pensa nela, que não faz nada pelo Mark e quando faz algo faz errado. Ou seja, na leitura do casal, quem sai mal é a Nanda, quem sai bem é o Mark. Isso está escrito. Não há ambiguidade.
Segunda camada: o Mark sozinho como protagonista. Aqui eu isolei o personagem e imaginei como a história seria se o foco narrativo estivesse exclusivamente sobre ele, ignorando a Nanda como co-protagonista e olhando apenas para as ações e reações dele. Nesse recorte específico e deliberadamente distorcido, eu disse que ele infelizmente parece um corno manso, porque aceita tudo que a Nanda faz. Note bem: a palavra "infelizmente" está ali. Ela indica que essa não é a leitura desejada, que essa não é a conclusão feliz, que isso é uma constatação negativa que emerge desse ângulo específico. Não é um elogio, é uma crítica. Mas é uma crítica que só existe dentro daquele recorte específico. Fora dele, na primeira camada, ele é um excepcional companheiro.
Terceira camada: a Nanda sozinha como protagonista. Nessa leitura, isolando a Nanda e ignorando o Mark como co-protagonista, eu disse que ela é a mulher mais foda de todas, que faz o que quer, como quer, que não tem ninguém que a detém. É um elogio rasgado, uma celebração da força dela como personagem individual.
O que eu fiz, portanto, foi mostrar que a história muda de figura dependendo de quem está no centro do palco. Se você assiste à peça prestando atenção nos dois atores principais, o Mark é um excelente marido e a Nanda é problemática. Se você presta atenção só no Mark, ele parece passivo e conformado. Se você presta atenção só na Nanda, ela parece uma força da natureza imparável. Três leituras. Três conclusões diferentes. Um único parágrafo. Isso é análise narrativa. Isso é discutir uma história como se discute um livro, um filme, uma série. Não é ofensa pessoal.
O que você fez, na sua resposta, foi pegar uma dessas três camadas — a segunda —, arrancá-la do contexto das outras duas que estavam literalmente coladas nela, e reagir como se aquela palavra tivesse sido cuspida de forma isolada e gratuita. Você ignorou a primeira camada, onde eu elogiei o Mark. Ignorou a terceira camada, onde eu elogiei você. Ignorou a frase de abertura que anunciava que aquilo era um exercício de ponto de vista. Focou apenas na palavra que doeu e construiu sua indignação inteira em cima desse recorte. Isso é um direito seu, evidentemente. Você pode ler o que quiser da forma que quiser. Mas não pode dizer que a culpa foi minha por uma leitura que ignorou metade do que estava escrito.
E aqui vai um ponto importante: eu não vou me desculpar pela palavra, porque a palavra estava cumprindo uma função específica dentro de um argumento que foi claramente anunciado. Eu posso reconhecer que a palavra é forte, que ela carrega um peso, que ela pode ter sido infeliz como escolha vocabular para um ambiente onde as pessoas estão emocionalmente envolvidas com os personagens. Mas não vou fingir que ela foi usada sem contexto. O contexto estava lá. Está lá até agora, nos comentários, para quem quiser ler o parágrafo inteiro em vez de recortar uma linha.
Você disse que o Mark não gosta de ser humilhado ou colocado à margem. Perfeito. Eu também não gosto de ter um parágrafo inteiro reduzido a uma palavra e ver meu argumento ser distorcido para caber em uma acusação de ofensa pessoal. Se formos falar de justiça na leitura, que ela valha para os dois lados.
Fica aqui, portanto, a explicação. Não como retratação, porque não acredito que tenha cometido um erro de conteúdo. Mas como esclarecimento, para que fique registrado que o que foi escrito foi uma análise de três perspectivas narrativas, e não um ataque ao homem que você ama. Se, mesmo depois dessa explicação, você ainda achar que merece ser bloqueado, é um direito seu. Mas saiba que a palavra não estava sozinha. Ela estava acompanhada de elogios que você escolheu não ler.
Só vou fazer uma observação que eu não tinha prestado atenção e que o Sensatez trouxe, talvez eu esteja esperando demais pra uma história que está apenas no capítulo 17, somente aqui eu assumo a minha culpa. Em mais nada tiro o que está escrito.
Não fujo de debate, então está aí a sua resposta Nanda e acredito que de certa forma, mostrar mais claramente pro Mark os meus argumentos, deixando claro ao Mark que não o ofendi, só queria vê-lo mais em ação, porque ele deve ter vivido seus perrengues durante essa jornada, poderia ser até em especiais, não necessariamente na jornada.