Pele a Pele

Um conto erótico de Lore <3
Categoria: Lésbicas
Contém 4581 palavras
Data: 12/04/2026 00:32:34
Assuntos: Lésbicas

Eu ainda estava organizando algumas coisas no quarto quando bateram na porta. Na entrada, vi uma mulher de semblante tranquilo e olhar acolhedor que eu ainda não conhecia, acompanhada de Sabrine. Só pela forma como ela se aproximou, com calma, e se apresentou, soube que era Aline.

— Essa aqui é a melhor consultora de amamentação do mundo, que veio aqui só atender minha amiguinha. A gente vai começar a ordenha e o estímulo do leite, certo? — Sabrine quis confirmar, animada.

A mulher confirmou com um aceno suave e se aproximou da cama, falando diretamente com meu amô, mas sem me deixar de fora em nenhum momento.

— A ideia agora é começar a estimular a produção. Como o bebê não está mamando direto, o corpo precisa entender que ele está ali e que precisa produzir. Vamos fazer isso de três em três horas, combinado? — ela propôs.

Juh assentiu, ainda meio apreensiva.

— No começo pode sair pouquinho, mas isso é completamente normal. O mais importante agora é a frequência e o estímulo correto — Aline prosseguiu.

Ela começou a explicar como funcionaria: o uso da bomba elétrica, a importância de manter uma rotina, o cuidado com o armazenamento. Tudo de forma simples, prática e, principalmente, sem assustar a minha gatinha.

Sabrine então olhou para mim e para os meninos, que estavam quietinhos, mas claramente prestando atenção em tudo, curiosos com toda aquela movimentação.

— Vocês se importam se eu levá-los para fazer um lanche enquanto ela usa a bomba? — ela questionou.

Antes que eu respondesse, senti a mão de Juh apertar levemente a minha.

— Eles podem ver Dom? — Júlia perguntou baixinho.

— Dou meu jeito — Sabrine cochichou.

Olhei para ela, meio surpresa.

— Você não quer que eu converse com eles antes? — quis saber.

— Não precisa... Eu sei que meus sobrinhos vão se comportar — nossa amiga respondeu.

Pouco depois, eles saíram com Sabrine, e o quarto ficou mais silencioso. Foi nesse momento que a consultora começou, de fato, o trabalho prático.

Ela me chamou para perto, me incluindo completamente no processo. Me ensinou primeiro a fazer a massagem nos seios do meu amô, com movimentos firmes, mas cuidadosos. Disse onde posicionar as mãos, como estimular sem causar dor. Depois pediu para usarmos compressas mornas por alguns minutos antes da ordenha.

Enquanto eu fazia, com toda a atenção do mundo, ela orientava com calma, ajustando meus movimentos quando necessário. Falou também sobre a respiração. Disse para a Juh tentar relaxar, inspirar fundo, soltar devagar, porque o corpo precisava entender que estava tudo bem para liberar o leite. Explicou que a parte emocional era tão importante quanto a física e que a ocitocina, o hormônio responsável pela descida do leite, está diretamente ligada ao bem-estar, ao vínculo, à tranquilidade. Também falou que ansiedade, medo e tensão podiam dificultar tudo.

— Teve uma vez, lá pelo quinto mês, que vazou... Bastante... — Juh disse, bem tímida.

Eu levantei o olhar na mesma hora, já sentindo o riso querendo escapar. Aline olhou para nós duas, curiosa, e mesmo sem entender, entrou no clima com um sorrisinho discreto. Minha gatinha ficou vermelhinha, mas acabou rindo também.

O clima ficou mais leve depois disso, e eu percebi o corpo dela relaxando um pouco mais conforme continuávamos.

A consultora reforçou que todo estímulo era bem-vindo e que, quanto mais estímulo, mais o corpo entenderia que precisava produzir. Enfatizou que era muito importante que Júlia se sentisse amada e tranquila durante o processo.

Quando finalmente iniciamos a ordenha com a bomba, ficamos ali, acompanhando cada minutinho como se fosse algo gigantesco.

No final, conseguimos cerca de quinze mililitros.

Juh olhou para o recipiente e franziu levemente a testa.

— É muito pouco... Isso é suficiente? — perguntou, claramente insegura.

A consultora respondeu na mesma hora, com muita segurança e cuidado: — É mais do que suficiente para agora. No começo sai pouquinho mesmo, e cada gota importa. Principalmente para um bebê prematuro!

Juh assentiu devagar, ainda olhando para o leite como se estivesse tentando medir o valor daquilo.

— Por enquanto, a gente ainda não vai colocar ele direto no peito. Porém, quando chegar o momento, eu vou te ensinar a posição correta, a pega ideal. Você vai começar a perceber o seu ritmo, o ritmo do seu corpo. Vai ser sucesso, Júlia! — Aline exclamou, confiante.

— E quando o método canguru for liberado, deve ajudar muito na produção — falei, sentindo um calorzinho no peito só de imaginar.

— Com certeza! — a consultora confirmou.

Depois ela saiu e eu comecei a anotar o que eu precisaria comprar já na manhã seguinte.

— Você vai ficar com sua mamãe porque eu vou comprar tudo isso — falei e dei um, dois ou três beijinhos na minha gata.

— Não... Pede a alguém... É pra você ficar comigo, amor — Juh disse, toda coitadinha.

— É? — perguntei, deitando a cabeça no travesseiro e ficando de frente para ela.

— Hunrum... — Júlia confirmou, acenando com a cabeça.

— Posso fazer isso... Eu queria ir só para nada vir do tamanho errado — informei.

— Eu uso errado mesmo — ela respondeu naturalmente, chegando levemente o rosto para frente com os olhos fechados.

Isso me fez rir e eu dei um selinho nela.

— Amor... No seu coração você acha que ele vai ficar bem, não é? — Júlia me questionou.

— Acho, gatinha... O desafio vai ser ganhar peso, porque qualquer mínimo esforço às vezes pode fazer perder umas graminhas importantes, mas é algo que, na minha visão, para Dom, é totalmente superável — respondi, extremamente feliz.

— Quero sair daqui logo... E com ele... — Juh falou baixinho.

— Que dure o tempo necessário para que ele fique bem — disse, reflexiva.

Uns segundinhos ainda naquela posição e o corpo de Júlia começou a dar sinais antes mesmo dela perceber. A resposta mais lenta, o olhar perdendo foco por alguns segundos, a forma como ela tentou se ajeitar na cama e parou no meio do movimento, como se tivesse perdido a força de uma vez. Percebi que ela levou a mão à testa, fechou os olhos e puxou o ar de um jeito diferente.

— Está sentindo alguma coisa? — questionei, fazendo carinho no rosto dela.

— Tô meio estranha... — me respondeu baixo.

Não esperei muito. Chamei a enfermagem e logo estavam ali verificando pressão, frequência, fazendo perguntas. Nada grave, mas o suficiente para deixar claro que a gente tinha que ir com calma. Cirurgia recente, perda de sangue, madrugada intensa, muitas informações novas e uma carga emocional absurda. Tudo veio de uma vez.

A orientação foi simples: repouso.

E, com isso, a visita à UTIN naquele dia foi descartada.

Um silêncio triste invadiu o quarto. Juh não falou nada de imediato, mas virou o rosto para o lado, ficou alguns segundos bem quietinha. Quando voltou a me olhar, os olhos já estavam cheios de lágrimas.

— Vai lá — ela me disse.

— Quero ir com você... — expliquei.

— Ele precisa sentir o amor de mãe. Se uma não pode, vamos aproveitar a vantagem dele ter duas — Júlia concluiu.

Eu queria vê-lo, mas não dessa maneira. Na verdade, acredito que nada estava acontecendo do jeito que eu esperava, e isso mexeu com algo dentro de mim. Eu tentava entender que não tinha controle e que, se eu observasse o cenário geral, ele não era tão catastrófico quanto parecia ao vivenciá-lo. Porém, é difícil manter a racionalização ativa o tempo todo. Tem horas que cansa.

Eu não poderia negar que o argumento da minha esposa foi muito bom. Passei a mão no rosto, respirei fundo e me aproximei mais da cama.

— O que você quer que eu diga para ele? — perguntei.

— Diz que eu o amo e para ele aguentar firme, que logo vou poder pegá-lo no colo também — Júlia falou, emocionada.

— Logo, logo — confirmei.

Eu estava agoniada por um novo banho, mas ainda não queria sair do lado de Júlia. Quando achei que ela havia dormido, fiz menção de me levantar.

— Fica um pouquinho mais... — Juh pediu.

E eu fiquei. Dei um cheirinho no pescoço da minha gatinha e permaneci ali até que ela dormisse de verdade.

Saí do banho me sentindo um pouco mais renovada, apesar do peso no peito. Ao entrar no quarto, vi Sabrine e os meninos ali, conversando no volume mínimo para não acordar Júlia, que dormia profundamente. Eles estavam visivelmente animados com a visitinha ao irmãozinho, os olhinhos brilhando enquanto contavam detalhes em sussurros empolgados.

— Mãe, ele parece um ratinho. Pequenininho, desse tamanhozinho! — Kaká exclamou baixinho, abrindo as mãozinhas para mostrar o tamanho.

— Ratinho? — perguntei, sem resistir ao riso.

— Ele é tão lindinho e parecido com a mamãe. Não vejo a hora de poder ver de pertinho, sem vidro, carregar e apertar todinho — Mih falou, se abraçando e balançando para os lados, toda derretida.

— Não entendi... Então a mamãe parece um ratinho? — perguntei, me aproximando deles com um sorrisinho malicioso.

— Não!!! — os dois exclamaram ao mesmo tempo, rindo alto demais, os rostinhos corados de empolgação.

— Xiiiiu — Sabrine e eu pedimos juntas, levando os dedos aos lábios para que Juh não acordasse.

Reações lindas e, claro, espontâneas até demais, como é de costume com os meus dois palhaços cheios de amor.

— Lanche demorado... — comentei para Sabrine, indo em direção à janela.

Ela veio atrás, bem discreta para que Kaique e Milena não percebessem.

— Achei que vocês iam precisar. Fiz bem? — Sabrine perguntou, e eu confirmei com um aceno grato.

— Valeu por tudo, viu? Se não fosse você, ai ai... — falei, sentindo o peito apertar de gratidão.

— Vocês são minhas amigas. Tudo que estiver ao meu alcance será feito, e o que não estiver, também — ela disse, e eu a abracei forte, inalando aquele cheiro familiar de apoio incondicional.

— Vai ficar tudo bem... — falei para ela, mas na verdade tentando me animar também.

— Por que está correndo medicação mesmo? Esqueci de te perguntar — Sabrine me questionou, franzindo a testa.

— Ela teve um mal-estar... Vou sozinha... — respondi, triste.

— Ah, não... Sério? — ela perguntou, preocupada.

— Sim... — confirmei, acenando com a cabeça.

— Eu pretendia ir com vocês, mas fico com ela e com os meninos — disse ela.

— Novamente, muito obrigada! — agradeci, beijando sua bochecha antes de me preparar para sair.

Fui acompanhada até a UTIN por uma das enfermeiras. O caminho não era longo, mas pareceu maior do que realmente era. Quando finalmente entrei, meus olhos foram direto nele. Fui guiada até a incubadora e foi ali que o vi de verdade, com calma, sem pressa, de pertinho, pela primeira vez.

Pequeno. Bem pequenininho mesmo.

Ela foi me explicando rapidamente os cuidados, os fios, o suporte respiratório, mas eu só conseguia prestar atenção nele. Cada movimento mínimo, cada reação, cada detalhe.

Com cuidado, a enfermeira começou a organizar tudo para colocá-lo em meu colo. Desconectou o necessário, ajustou os fios, me orientou sobre como posicionar as mãos. Eu obedeci tudo sem questionar, com medo de errar qualquer coisa.

E então... eu senti.

Senti um peso tão leve, tão frágil, mas tão completo. Ele era minúsculo, quente contra o meu peito, com aqueles dedinhos fininhos se mexendo de leve. O cheirinho dele, misturado ao de hospital, parecia a fragrância que eu precisava naquele instante para acalentar o meu coração. Segurei firme, mas com muita delicadeza, balançando-o devagar enquanto as lágrimas começaram a cair sem que eu percebesse.

Eu não falei nada de imediato. Só fiquei ali. Olhando, tentando memorizar cada detalhe, sentindo aquela imensidão de emoções ao mesmo tempo.

O corpinho encaixado em mim como se sempre tivesse sido aquele o lugar, como se Dom fosse feito sob medida para morar ali. Passei o dedo bem de leve na mãozinha dele e senti quando ele reagiu, fechando os dedinhos com dificuldade, contudo, fechando.

— Oi, filho... — falei baixo, quase sem voz.

Eu encostei o rosto nele com cuidado, sentindo o calorzinho da pele, ainda tão sensível. Era diferente de tudo. Não tinha comparação com nada que eu já tinha vivido antes.

— Sua mãe mandou dizer que te ama... e que você precisa aguentar firme, porque logo ela vem te pegar no colo também — disse-lhe, com a voz falhando bastante.

Continuei ali, sem pensar em mais nada além daquele momento, porque pela primeira vez desde que tudo começou, pareceu que as coisas tinham encontrado um ponto de calma.

Ele era bem branquinho, tinha a pele fina, quase transparente em alguns pontos, deixando visíveis os vasinhos por baixo dela. O cabelinho já marcava presença, bem preto, rente à cabecinha, formando uma sombra suave que contrastava com o tom claro da pele.

O rostinho tinha traços delicados, ainda sem definição firme. A boquinha fazia movimentos sutis, abrindo e fechando de leve, em reflexos curtos. Os olhinhos permaneciam fechados a maior parte do tempo, com pequenas contrações involuntárias, como se estivesse reagindo a estímulos que eu não conseguia perceber. Contudo, algo era inegável: ele teria os mesmos olhos rasgadinhos de Júlia.

O corpo era miúdo, mas totalmente proporcional, com os bracinhos fininhos dobrados próximos ao peito. Em alguns momentos, ele se mexia devagar, com movimentos curtos, sem força, mas constantes. Os dedinhos, extremamente pequenos, se contraíam e relaxavam de forma irregular, como se ainda estivesse aprendendo a coordenar tudo, e para mim isso era uma coisinha tão fofa.

A respiração, felizmente ou infelizmente, chamava muito a minha atenção. Era ritmada, porém dependente. O suporte ajudava a manter o padrão, e dava para perceber o esforço do corpinho acompanhando o auxílio recebido. O peitinho subia e descia de forma rápida, mais acelerada do que o normal, com pequenas pausas logo compensadas pelo equipamento. Não era uma respiração livre, mas eu me esforçava para pensar que estava organizada dentro do que precisava ser naquele momento.

Mesmo com fios, sensores e todo o suporte ao redor, ele reagia. Ao toque, ao calor, à presença. Quando eu mantinha a mão próxima, ele se ajustava minimamente, como se reconhecesse algum tipo de estímulo. Nada brusco, nada exagerado, mas existia uma resposta.

Aquilo me bastava. Há alguns minutos eu não tinha quase nada do meu neneco e agora eu tinha o toque dele, eu o sentia e ele também sentia a mamãe dele. Dentro de todas aquelas limitações, ele estava lutando do jeitinho que conseguia para continuar vivo, e isso é tudo.

Percebi que, se eu registrasse aquele momento, além de Juh ficar muito feliz em ver nosso neném, poderia também ser um estímulo visual e contribuir com a produção de ocitocina na próxima ordenha. Perguntei se a enfermeira poderia fazer esse favor e ela riu, dizendo que estava se perguntando se eu não ia pedir, porque geralmente é a primeira coisa que ela ouve quando vai acompanhando alguém. Muito solícita, ela saiu para pegar o celular, tirou inúmeras fotos e fez um vídeo também. Agradeci e logo depois passei meu número para que ela enviasse.

Me despedi de Dom com um beijo bem leve no cabelinho, prometendo voltar logo, e a enfermeira o reconectou com todo o cuidado à incubadora. Saí da UTIN com o coração mais leve, apesar do peso das emoções. Ao retornar, o quarto estava mais escurinho, iluminado apenas pela luz suave do abajur ao lado da cama de Júlia, que ainda dormia profundamente, o rosto relaxado no travesseiro. Sabrine dormia sentada na poltrona, agarrada ao prontuário de Juh como se fosse um travesseiro. O sofá havia sido desdobrado e transformado em cama. Milena e Kaique estavam deitados, sonolentos mas ainda acordados, os olhinhos semicerrados piscando devagar enquanto cochichavam baixinho um com o outro e comiam algo que me pareceu ser jujuba.

— Como foi, mamãe? — Kaká perguntou.

— Eu só tenho filhos perfeitos... — respondi, sorrindo.

— Ele vai ficar bem, né, mamãe? — Mih quis saber.

Meu coração deu aquela apertada.

— Vai... Ele só precisa de um tempinho... — respondi com firmeza.

Achei melhor acordar Sabrine para que ela pudesse ir para casa logo e descansar. Já estava anoitecendo e ela tinha dado um dobrado em prol do nosso bem-estar, nos proporcionando alguns privilégios enquanto respeitava os limites saudáveis dos meus amores. Depois de conversarmos, ela se foi, prometendo voltar na tarde seguinte, caso não houvesse nenhuma emergência para ela antes.

— Ainda está cedo. Por que esse soninho todo? — perguntei, deitando com eles.

— Não sei... — Mih respondeu, coçando os olhos.

— Ainda nem deu dezoito horas e eu já não consigo controlar meus olhos — Kaká complementou, bocejando.

Estranhei, mas deixei passar.

Algum tempo depois, o despertador tocou para a segunda ordenha, e eles insistiram em me ajudar. Juh acordou bem manhosa, querendo saber do nosso pequenininho e buscando contato físico com nós três o tempo inteiro.

— Trouxe uma coisa para te ajudar — falei.

— O quê? — ela me perguntou, animada.

Nitidamente aquele soninho havia sido revigorante. Ela estava visivelmente melhor do que mais cedo.

— Nem seus filhotes viram ainda — disse, convencida, enquanto a massageava.

E quando eu olhei para eles, na intenção de aguçar a curiosidade, os dois estavam apagados.

— Estão cansadinhos — Juh falou, toda amorosa.

— De que mesmo? — Perguntei, ainda sem compreender.

Eu me aproximei de Kaique e Milena, conferindo o horário e então percebi o pacote em cima do sofá-cama. Eles não estavam comendo jujuba. Simplesmente devoraram um pacote de quinhentos gramas de goma de melatonina.

Olhei para Júlia, fiz uma carinha de paisagem, provavelmente nada convincente, e voltei para tirar a compressa quente que eu havia colocado.

— Fala, amor — ela pediu, desconfiada.

— Falar o quê, mulher? — me fiz de desentendida.

— Aconteceu alguma coisa — Júlia insistiu.

Suspirei fundo e dei um beijinho nela.

— Amor... Eles comeram um saquinho de goma com melatonina — falei, rindo.

Juh arregalou os olhos imediatamente.

— Onde eles arranjaram isso? — Júlia me perguntou.

— Não faço a mínima ideia... Mas não se preocupa, a chance de toxicidade é baixíssima e, bem, foi em goma... Digamos que eu não confie tanto na dose que há aqui. Vou monitorar e tudo vai ficar bem, te prometo — falei.

— Você não está dizendo isso só para me tranquilizar, né? — Juh quis saber.

— Você saberia, caso eu tivesse inventado tudo isso — disse-lhe e me aproximei do rostinho dela para ganhar um beijo.

— Tá bom... E como foi com o Dom? — Juh me perguntou.

Eu ergui o celular e mostrei a nossa fotinha.

Juh levou uns segundinhos para processar. Primeiro o brilho curioso no olhar, depois aquele silêncio carregado de emoção. O rostinho dela logo mudou completamente e os olhos encheram de lágrimas na mesma hora.

— Amor... — a voz saiu falhada.

Júlia levou a mão até a tela, como se pudesse tocar nele através do celular. O dedinho dela passou com cuidado sobre o rostinho de Dom, seguindo o contorno com uma delicadeza absurda.

— Ele é tão pequenininho... — disse, com um sorriso tremido, completamente desarmado.

Minha gatinha foi ressaltando cada detalhe. A boquinha, o cabelinho, o jeitinho dele encaixado em mim. E aí o choro veio de vez. Não era desesperador, não era de dor. Era aquele tipo de emoção que transborda porque não cabe dentro da gente.

— Ele parece comigo mesmo... — ela soltou, baixinho, quase desacreditada.

— Eu falei — respondi, sorrindo, sentindo meu peito aquecer só em vê-la daquele jeito.

Juh riu entre lágrimas, passando o polegar na tela mais uma vez.

— Eu queria tanto estar lá... — confessou.

Eu me inclinei um pouquinho, encostando minha testa na dela.

— E você vai estar... logo, logo — falei com todo o carinho do mundo.

Ela assentiu devagar, respirando fundo, tentando se recompor. Mas não soltou o celular. Ficou ali, olhando para a foto como se estivesse gravando cada detalhe na alma.

Mostrei as outras fotos e chegamos no vídeo.

— Mostra o vídeo... — pediu, quase como uma criancinha.

E eu dei play.

Assim que Júlia viu Dom se mexendo, ainda que de forma mínima, ela levou a mão à boca, segurando um soluço.

— Ele mexeu... amor, ele mexeu... — disse, com os olhos brilhando.

— Mexeu — confirmei, sorrindo, e roubei um selinho.

— Ele sentiu você, não foi, amor? — perguntou, me olhando nos olhos.

— Sentiu... — respondi, sem hesitar.

Aquilo pareceu acalmar alguma coisa dentro dela. O corpo relaxou um pouquinho mais contra o travesseiro e o sorriso voltou, ainda molhado, mas mais leve.

Fiquei ali alguns segundos só observando e absorvendo aquela cena. Era bonito demais ver o amor tomando forma daquele jeito, mesmo com toda a distância, com todas as limitações. Vê-la calma me tranquiliza demais.

— Vamos trabalhar, dona Júlia — falei, tentando trazer um tom mais leve, e ela soltou um risinho fraco.

— Agora vai sair um monte... — respondeu, olhando de novo para a foto.

Eu sorri, sabendo exatamente do que ela estava falando.

Me posicionei ao lado da minha muié e comecei todo o processo rapidamente, por desencargo de consciência, já que eu havia massageado e feito as compressas.

— Tá confortável? — perguntei, olhando para ela enquanto a massageava.

— Tô... — respondeu, fechando os olhos por um instante.

Coloquei a compressa morna, respeitei o tempinho, e aproveitei para observar o rostinho dela mais de perto. Juh estava transbordando calmaria, como se ver o Ninho tivesse encaixado alguma peça dentro dela.

Retirei a compressa com cuidado e posicionei a bomba.

— Preparada? — perguntei, já ajustando.

— Uhum... — ela confirmou, com um sorrisinho no canto da boca.

Eu fiquei ali do lado, observando, acompanhando cada reação dela. A mão dela veio procurar a minha automaticamente, e eu segurei firme, fazendo um carinho leve com o polegar.

— Pensa nele... — falei baixinho.

Ela não me respondeu, mas também não precisou. Vi no jeito que o rosto dela suavizou, na respiração que desacelerou, no leve arquear das sobrancelhas. Júlia estava mentalizando nosso neném.

— Deita aqui — Juh pediu, apontando para o lado dela.

E eu me ajeitei ali.

— Bem que você poderia dormir aqui comigo... — Júlia sugeriu.

— Vou ficar com medo de te machucar, gatinha, melhor não — falei.

— Então me abraça direito enquanto estiver aqui — ela propôs, toda convencida.

— Cê tá com saudade? Tá carente, meu amô? — perguntei, abraçando-a e beijando seu pescoço.

— Sim! — Júlia exclamou.

— Eu também estou... — afirmei, passando o braço por baixo do pescoço dela.

— Você está sendo incrível como sempre, tá? Eu te amo muito, obrigada por tudo — Juh falou segurando meu rosto e me beijando.

— Eu também te amo, gatinha — respondi, ainda recebendo os beijinhos dela.

Comecei um leve carinho em seu braço e ficamos ali naquele climinha calmo, depois de viver tantos picos de caos.

— Será que vão entrar muitas enfermeiras nessa noite? — Juh perguntou, depois de algum tempo.

— Você nem acordou todas as vezes — falei, rindo.

— Acordei, só não conseguia mais abrir os olhos — minha muié respondeu, rindo também.

Quando o recipiente encheu e desliguei a bomba, olhei para o volume e quase não acreditei: trinta mililitros, exatamente o dobro dos quinze da vez anterior. Meu coração deu um pulo de alegria pura. Era a prova concreta de que o estímulo tinha funcionado.

— Amor... Olha isso aqui! Trinta! Dobrou! — exclamei baixinho, erguendo o recipiente para ela ver, com um sorriso que não cabia no rosto.

Juh piscou devagar, processando, e então o rostinho dela se iluminou inteiro. Ela esticou a mão trêmula para tocar o coletor, como se quisesse confirmar que era real.

— Meu Deus... Dobrou mesmo! — Júlia disse, boquiaberta.

Guardei o recipiente com cuidado, etiquetando direitinho e seguindo tudo que Aline havia orientado. Em seguida, peguei o celular e finalizei a lista do que precisaríamos, acrescentando uma pomadinha para os seios. Ainda não havia nenhuma fissura ou dor, mas com a frequência das ordenhas aumentando, fazia sentido começar a prevenir antes que qualquer desconforto aparecesse. Enviei tudo para Sarah, explicando por cima em um áudio, e como ela nos conhece muito bem, entendeu rapidamente que a gente não queria se desgrudar.

Voltei para a cama e me ajeitei ao lado da minha gatinha. Eu ia colocar uma série qualquer para rodar, mas Juh escolheu Dickinson, mais pelo ritmo tranquilo do que por realmente prestar atenção. Ficamos ali assistindo e trocando carinhos, com uns beijinhos aqui e outros ali.

— Amor... Eu estou feliz com o hoje que tivemos... — Júlia sussurrou no meu ouvido.

— Eu também, meu amor... — disse-lhe e a beijei.

O cansaço foi chegando aos poucos, e antes que dormíssemos, ainda fizemos mais uma ordenha, seguindo o intervalo certinho. Dessa vez foi mais automático, menos tenso, como se o corpo dela já estivesse começando a entender o processo. Assim que terminamos e organizei tudo novamente, Juh não demorou muito para apagar. Dei um beijinho demorado nela, ajeitei o lençol com cuidado, desliguei a televisão e ajustei o alarme para três horas depois.

Atravessei o quarto em silêncio e me deitei no meio dos meninos, que despertaram e se ajeitaram mais perto de mim. Passei o braço por eles, puxando os dois para junto, e depositei beijinhos em cada um.

— O que era aquilo que vocês estavam comendo? — perguntei.

— Jujuba — Mih respondeu.

— Quem deu essa jujuba? — questionei.

— Foi o vô Zé. Eu pedi lá na farmácia — Kaká respondeu.

— Huuuuuum, era gominha de melatonina... Por isso vocês estão com soninho — expliquei.

— E o que é isso? — Kaique perguntou, bocejando.

Comecei a explicar, e quando percebi, os dois já haviam apagado novamente.

Naquela madrugada, nós duas ainda acordamos algumas vezes para as ordenhas de três em três horas e para as visitinhas, só para checar se estava tudo bem com a puérpera mais gata daquele hospital.

Pela tarde do dia seguinte, depois de muita manha dos meninos, que insistiam em ficar grudados em Juh, Kaique e Milena foram para casa com Sarah, que chegou trazendo os itens extras da lista.

Nesse meio tempo, Juh ainda não tinha sido liberada para ver Dom pessoalmente. Isso só aconteceu depois da alta, que não demorou a chegar e permitiu, enfim, o reencontro do nosso pequenininho com a mamãe.

Assim que entramos, minha muié parecia muito assustada por conta dos bips e depois com o barulhinho do suporte respiratório constante no fundo, mas assim que Júlia se sentou na poltrona, todo medo pareceu desaparecer. Eu coloquei nosso filho pele a pele no colinho dela, deixando-o todo aninhado contra o peito nu da minha esposa. Os fiozinhos e sensores foram ajustados com cuidado pela enfermeira para permitir o contato pleno.

Juh chorava baixinho. As lágrimas escorriam pelo rosto da minha gatinha enquanto ela olhava para ele. Os olhinhos de Dom estavam vivos e alertas, fixos nos dela com uma intensidade que parecia entender tudo o que acontecia. Ela repetia sem parar, em um sussurro trêmulo, que o amava e que tudo daria certo, embalando-o com movimentos suaves e Dom abria a boquinha a todo instante, buscando-a lentamente.

— Você quer pepê é, filho? — Juh perguntou.

— Se você não quiser, eu quero — Brinquei.

— Não fale essas coisas na frente dele, amor — Júlia fingiu me repreender, porém ria.

Me aproximei e roubei um beijinho daquela gatinha a minha frente.

— Ele é lindo... — Júlia disse.

— Perfeito, igual a ti — falei, me levantando para dar um beijinho nela.

— Não vejo a hora de estarmos todos juntos em casa — ela disse.

E então eu observei algo lindo, a respiração deles dois estava sincronizada.

— Coisa mais linda vocês respirando juntinho — Sussurrei.

— Ai, eu não aguento mais chorar — Juh disse ao perceber também e nós rimos.

Coloquei um gorrinho nele e depois me agachei na frente de Juh, com o coração explodindo de felicidade, completamente emocionada com tudo que finalmente acontecia. Ele progredia bem, ganhando graminhas preciosas a cada dia, superando as limitações da prematuridade com uma força que nos enchia de orgulho.

Ficamos horas ali, trocando colinho e carinho, medindo palmos de Ninho e completamente encantadas com nosso nenequinho que, mesmo sendo pequenininho, crescia em estatura e graça e, claro, multiplicava o amor da nossa família.

Como vocês devem imaginar, Júlia se recusou a ir embora sem Dom, então permanecemos ali. Precisei, ou melhor, fui obrigada a ativar o protocolo sogrinha. Não foi por cansaço ou qualquer outra demanda, mas porque Júlia, que havia ganhado oito quilos na gestação, simplesmente perdeu doze em uma semana de pós-parto.

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Foto de perfil de Lore Lore Contos: 174Seguidores: 52Seguindo: 5Mensagem Bem-vindos(as) ao meu cantinho especial, onde compartilho minha história de amor real e intensa! ❤️‍🔥

Comentários

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Sabrine foi, sem dúvida, uma das pessoas mais importantes desde o início desse sonho. É impossível não sentir gratidão por tudo que ela fez.

O capítulo foi realmente lindo e emocionante. Além da situação em si, que já é tocante, também me trouxe lembranças maravilhosas da minha própria história! Foi impossível não me emocionar lendo algumas partes. 🥹

É incrível como Mih e Kaka sempre aprontam algo. Mesmo sem intenção, eles conseguem surpreender com algo inesperado. Rsrs.

Lendo essa parte e sabendo o que sei, só posso dizer que Dom é uma criança de sorte. Ele será criado por uma família linda e cheia de amor! ❤️

Muito bom, como sempre, Lore! (Apesar de ser curto. Kkkkk)

Parabéns, minha amiga querida! 🤗❤️😘

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Curto igual a minha língua 👅, que não cabe dentro da boca 😂😂😂😂😂

Tem capítulos que eu escrevo com o coração completamente exposto, e esse foi um deles. Pensei, visitei e revivi cada sensação, cada detalhe de dias tão sensíveis e carregados de amor... Então saber que, além de te emocionar, ele também te teletransportou de volta para uma memória sua, deixa tudo ainda mais especial por aqui, Jú.

Sabrine é muito especial mesmo. Acho que ela vai até me perdoar por eu já ter escrito em algum lugar que ela é uma safada 🤷🏽‍♀️😂😂😂

Ela e Rafael são padrinhos de Dom 🥰

Até sem querer, eles conseguem fugir do óbvio... Quem ia imaginar que esses meninos iam macetar 500g de goma de melatonina?

E nós somos pessoas de sorte por termos Ninho como filho. Ele acrescentou demais a quem somos! 🥹

Obrigada pela gentileza e carinho com a gente, amô. Beijão!!! 😘😘😘😘😘❤️

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Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Não teve como não lembrar da primeira vez que peguei meus filhos nos braços, acho quem é mãe sabe o quanto isso é emocionante e significativo para nós.

Pelo que sei da Sabrine l, você só disse a verdade, e não acho que isso seja algo ruim, não nesse contexto. Kkkkkkk

Eles são bem fora da curva nesse sentido, não tinha como não ficar com sono. Kkkkkkk

Na verdade vocês todos são pessoas de sorte. ❤️

Por nada amore! 🤗❤️😘

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Muito!

Dom era tão pichiririco que eu tinha medo dele desmontar 🤏🏽❤️😂

Rapaz... Ela vai morrer de vergonha quando ler isso 😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂

😘😘😘😘😘😘😘😘😘❤️

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Eu imagino, dá aquele vontade de apertar, mas não pode. rsrs

Acho que ela pode até ficar com vergonha, mas vai entender que é um elogio. Kkkkkk

🤗❤️😘

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Um palmo e meio de gente 🥰❤️

Mentindo você não está 🤷🏽‍♀️ 😂😂😂😂

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Eu posso explicar ☝🏽😂

Achei que não tinha muito o que relatar e me joguei de cabeça nos detalhes do dia, que não foram poucos. Só que tinha muita coisa para falar, sim 🙈

Eu deixo vocês lerem à prestação, num tem problema 😂😂😂😂😂😂

Boa leitura, mores! 🥰❤️😘

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Ficou pequenininho, mô ❤️😘

😂😂😂😂😂❤️

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🗣️Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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Lore: Vai ter tal coisa no próximo capítulo ☝🏻😁

N tem 😂😂😂😂😂😂😂

Lore: Vai ser curtinho ☝🏻😁

Mais de 4.500 palavras 😂😂😂😂😂

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Se eu comprar um anão, ele cresce 😂😂😂

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Pior que é exatamente assim. Kkkkkkkkkkkk

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Ai, estou morrendo de rir com essa bobeirinha 😂😂😂😂

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Que bom, né, amor?! 😌

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Adoro sua precisão 😍 😂😂😂😂

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Safadinha 😏

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🙂‍↔️🙂‍↔️🙂‍↔️

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Kkkkkkkkk

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Ela consegue tirar tudo de contexto 🙃

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Já percevi, e ela não deixa passar nada. Kkkkkk

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