"Novo conto. Nunca escrevi nada sobre o tema sobrenatural, mas vou fazer essa experiência. Espero que comentem o que acham da ideia."
Meu nome é Samuel, mas todo mundo me chama de Samu. Tenho 18 anos, sou loiro, alto (1,88m), olhos azuis claros e corpo definido graças à academia que frequentava em São Paulo. Dizem que puxei a aparência da minha mãe.
Angela era uma loira fenomenal. Nascida em São Paulo, mas com ascendência sueca forte — pele claríssima, cabelo quase platinado, olhos azuis intensos e um corpo que fazia qualquer homem virar a cabeça. Meu pai, Roberto, era o oposto em alguns aspectos: branco, 1,92m de altura, forte como um touro, mãos calejadas de mecânico. Ele tinha 41 anos agora. na época os dois formavam um casal que chamava atenção por onde passavam.
Tudo mudou há três anos.
Minha mãe morreu num acidente terrível na Dutra. Um caminhão perdeu o freio e acertou em cheio o carro dela. Foi instantâneo. Meu pai nunca mais foi o mesmo. Ele afundou numa depressão profunda, bebia escondido, mal dormia. O patrão/sócio dele, um cara decente, segurou ele na oficina por três anos, mas no mês passado não teve mais como. Demitiu meu pai com uma boa indenização da parte dele e um aperto de mão.
Ficamos só eu e ele.
Eu sempre estudei em colégio particular, era bom em matemática e exatas, mas depois da morte da minha mãe as coisas apertaram. Tentei arrumar emprego de meio período para ajudar em casa, mas não conseguia conciliar com os estudos. Meu pai ainda tinha alguma economia da indenização e da venda do nosso apartamento em São Paulo.
Foi aí que ele reencontrou Sofia no Facebook.
Sofia era uma ex-namorada dele lá do interior do Pará, de quando ele era jovem. Uma loira bonita, um pouco mais baixa que minha mãe, corpo troncudinho mas malhado, 36 anos, pele bronzeada de quem vive no interior. Ela tinha uma pequena lojinha de especiarias e ervas na cidadezinha. E tinha uma filha da minha idade, Amanda, de 18 anos. Pelo jeito, Sofia engravidou bem jovem.
As conversas no Facebook foram ficando mais frequentes. Meu pai começou a sorrir novamente, a dormir melhor. Sofia parecia fazer bem pra ele. Ela era parecida o suficiente com minha mãe para acalmar o coração dele, mas diferente o bastante para não ser só uma sombra.
Dois meses depois, tomamos a decisão: íamos nos mudar para lá.
Meu pai vendeu o que restava em SP, usou parte das economias e comprou a maior casa da cidade — uma construção antiga, enorme, com quintal grande e varanda ao redor. Também comprou um galpão no centro para montar uma oficina mecânica. Eu me matriculei no último ano do ensino médio na escola estadual local.
Chegamos há pouco mais de uma semana.
A cidade era pequena, quente, cheia de poeira e gente simples. Nossa casa era disparada a mais bonita e imponente do lugar. Meu pai e Sofia já estavam se entendendo muito bem — tanto que toda noite eu ouvia os gritos e gemidos dela vindo do quarto deles. Eles transavam como dois adolescentes. Sofia era barulhenta pra caralho.
Amanda, minha nova “meia-irmã”, era o oposto da mãe. Bonita, loira como Sofia, corpo bem feito, mas com uma cara de enjoada e arrogante que me irritava. Ela me tratava com distância, quase com desprezo. Sentava o mais longe possível de mim quando estávamos em casa e trocávamos no máximo duas ou três palavras por dia.
E então chegou o primeiro dia de aula.
A escola estadual era simples, paredes descascadas, ventiladores velhos no teto. Eu era novidade na turma — loiro, alto, olhos azuis, corpo definido. As meninas me olhavam de canto, cochichavam. Os meninos me olhavam com uma mistura de inveja e desconfiança. Eu era o “paulista”, o “filho do mecânico rico”.
Sentei no fundo da sala. Quase ninguém queria sentar perto de mim.
Do meu lado esquerdo, umas cadeiras vazia. Nela, uma menina que também parecia excluída. Cabelos pretos curtos, quase um corte masculino, pele morena escura (não chegava a ser negra, mas bem morena), olhos cor de mel claros que contrastavam com a pele. Corpo em forma — pernas grossas marcadas na calça jeans apertada, mas usava uma camisa larga de mangas longas, típica de quem não quer chamar atenção. Parecia uma lésbica não declarada. Ninguém sentava perto dela também.
A professora de Matemática resolveu fazer um trabalho em grupo.
— Formem duplas ou trios — disse ela.
Na mesma hora o caos começou. As meninas se juntaram entre si, os meninos também. Ninguém veio na minha direção. As garotas pareciam envergonhadas de se aproximar de mim, os garotos me olhavam com cara de poucos amigos.
Eu já ia levantar para fazer o trabalho sozinho quando a menina de cabelo curto se levantou, puxou a cadeira sem dizer uma palavra e sentou ao meu lado.
Ela não falou nada. Apenas abriu o caderno e ficou esperando.
Eu olhei para ela e sorri de leve.
— Posso fazer o trabalho com você?
Ela me olhou por alguns segundos com aqueles olhos cor de mel. Depois apenas puxou mais a cadeira para perto e fez um gesto curto com a cabeça, como se dissesse “pode”.
Não trocamos nomes. Não trocamos mais nenhuma palavra desnecessária.
Mas ali, no fundo da sala, enquanto o resto da turma cochichava e nos olhava de canto, eu senti que algo tinha começado. O trabalho em grupo foi rápido.
Fernanda era inteligente pra caralho. Enquanto a maioria da turma ainda discutia quem ia fazer o quê, nós dois já tínhamos resolvido quase tudo. Eu abri meu MacBook Pro M5 (o único da sala, provavelmente o único de toda a escola) e comecei a montar o PDF. Ela ditava as respostas com uma clareza impressionante, voz baixa e direta. Em menos de quinze minutos já tínhamos terminado.
Entregamos o trabalho enquanto os outros ainda rabiscavam nas folhas de caderno. A professora olhou surpresa, mas não disse nada.
Com o tempo livre, finalmente pude conversar com ela.
Fernanda era quieta. Não do tipo tímida, mas do tipo que escolhia bem as palavras. Cabelo preto curto, pele morena escura, olhos cor de mel que pareciam brilhar mais quando ela se concentrava. Usava uma camisa larga que escondia o corpo, mas dava pra notar que tinha pernas grossas e um corpo bem feito por baixo da roupa folgada.
— Obrigado por fazer o trabalho comigo — falei baixo.
Ela deu de ombros, sem olhar diretamente para mim.
— Ninguém mais ia querer sentar com você. Nem comigo.
Eu ri baixinho.
— Então somos os dois excluídos da turma.
Ela não respondeu, mas o canto da boca dela subiu um pouco.
Quando a aula acabou, eu juntei coragem e falei:
— Fernanda, você quer sair pra tomar um sorvete mais tarde? Ou qualquer coisa que tenha pra fazer nessa cidade? Eu ainda não conheço quase nada por aqui.
Ela parou de guardar as coisas e me olhou direto nos olhos pela primeira vez.
— Não tenho a menor intenção de ter qualquer tipo de intercurso com você.
Eu não consegui segurar o riso.
— Intercurso? Caralho, quem usa essa palavra hoje em dia?
Fernanda me encarou por dois segundos… e então riu. Foi a primeira vez que vi ela rir de verdade. Um riso curto, mas genuíno, que transformou o rosto dela.
— Tá bom — disse ela, ainda com um sorriso pequeno. — Não é isso. Eu só… não tenho amigos aqui. E você também não. Então pode ser.
Combinamos de nos encontrar às 15h na praça principal, em frente à sorveteria que todo mundo dizia ser a melhor da cidade.
Antes de sairmos da sala, ela parou na porta, virou-se para mim e falou baixo, quase num sussurro:
— Você parece legal, Samu. Só toma cuidado com a família da sua nova madrasta.
Franzi a testa.
— Como assim? Por quê?
Fernanda não respondeu. Apenas deu um meio sorriso misterioso e saiu andando pelo corredor sem olhar para trás.
Fiquei ali parado, pensando no que ela quis dizer.
O almoço em casa foi… diferente.
Sofia tinha convidado a mãe dela para conhecer melhor a gente. Dona Iracema era uma mulher de uns 58 anos, ainda em ótima forma — corpo firme, cabelo grisalho preso num coque, pele bronzeada pelo sol do interior. Diziam que ela era “erveira”, curandeira, benzedeira… sei lá como chamavam isso por aqui. As pessoas falavam dela com respeito misturado com medo. Eu nunca acreditei nessas coisas de rezar, ervas e mandinga, mas pelo jeito muita gente levava a sério.
Ela me olhou durante quase todo o almoço. Um olhar demorado, penetrante. Como se estivesse me avaliando.
— Você tem os olhos da sua mãe — disse ela de repente, com uma voz rouca e calma.
Eu só assenti, sem saber muito o que responder.
Meu pai e Sofia estavam sorridentes, trocando olhares cúmplices. Amanda, como sempre, estava com cara de quem tinha chupado limão, mal falou comigo.
Às 15h eu estava na praça.
Fernanda chegou pontualmente, ainda com a mesma camisa larga e calça jeans. Sentamos numa mesinha de plástico na sorveteria e pedimos dois sorvetes de cupuaçu.
A conversa começou devagar. Ela era reservada, mas inteligente. Falava pouco, mas quando falava, era direto e interessante. Descobri que ela morava com a avó, que tirava notas excelentes e que quase ninguém falava com ela na escola.
Em determinado momento, eu perguntei novamente:
— Por que você me avisou pra tomar cuidado com a família da Sofia?
Fernanda lambeu o sorvete devagar, olhando para o vazio da praça. O sol da tarde batia no rosto dela, fazendo seus olhos cor de mel ficarem ainda mais claros.
— As pessoas aqui falam muitas coisas… — disse ela, voz baixa. — Algumas são bobagem. Outras… não são.
— Tipo o quê?
Ela hesitou. Depois continuou, quase sussurrando:
— A família da Sofia tem uma história antiga nessa região. Coisas que ninguém explica direito. Dona Iracema… a mãe dela… dizem que ela não é só uma curandeira. Que ela mexe com coisas que não se deve mexer. Que tem poder de verdade.
Eu ri, achando graça.
— Você tá falando de macumba? De feitiço? Eu não acredito nisso, Fernanda.
Ela me olhou séria. Não havia sorriso agora.
— Aqui não é São Paulo, Samu. As coisas são diferentes. As noites são mais longas. Os rumores são mais antigos. Eu não tô te dizendo pra acreditar. Só tô te dando um aviso.
Ela terminou o sorvete e limpou a boca com o guardanapo.
— E tem mais uma coisa… Amanda não é só chata. Ela é filha única da Sofia. E Sofia não gosta de dividir nada. Nem atenção. Nem homem.
Levantei uma sobrancelha sem entender nada.
— O que você quer dizer com isso?
Fernanda se levantou, jogou o copinho vazio no lixo e me olhou uma última vez antes de ir embora.
— Só toma cuidado. Algumas coisas nessa cidade… elas fixa na gente. E depois não saem mais.
Ela deu meia-volta e foi embora, me deixando sozinho na praça com um gosto estranho na boca.
O sol ainda estava alto, mas de repente o ar pareceu mais pesado.
Eu não acreditava em superstição.
Mas as palavras de Fernanda ficaram ecoando na minha cabeça o resto da tarde.