A Metamorfose

Um conto erótico de Tito JC
Categoria: Heterossexual
Contém 2613 palavras
Data: 19/04/2026 04:08:55

Encolhida ali no canto escuro do quarto, sozinha e se sentindo abandonada, ela olha para o telefone ao lado e pensa que, talvez, esse seja o único elo entre ela e a civilização que se esconde lá fora. Precisa tomar uma atitude, mas não tem nenhum sentimento nobre que a impulsione.

Já não é mais um ser humano, é apenas uma sombra escura e disforme, que em nada lembra a menina linda e sorridente que foi há tão pouco tempo atrás.

Pensa em esticar a mão e pegar o telefone, gritar por socorro, tentar se salvar, mas não se sente mais capaz de reagir.

Suas mãos, antes tão macias e brilhantes, com unhas pintadas e bem-feitas, agora não passavam de garras longas, presas em hastes finas e peludas, que nada tinham de humano. Tinha virado um besouro, uma barata, um inseto repugnante e desprezível.

Tentava encontrar algum alento nas memórias que lhe vinham à mente, mas apenas encontrava vergonha, medo e arrependimento, de como tinha se permitido chegar a tal ponto. Todos se afastaram. Ninguém queria conviver com o inseto disforme em que tinha se transformado e afastado todos ao redor.

Lembrou-se do pai e seu sorriso acolhedor. Lembrou-se dos braços fortes que a abraçavam e dos lábios doces que a beijavam e prometiam que sempre a protegeria. Junto com essa lembrança vinha a dor de saber que ele não estava mais por perto. Tinha morrido de tristeza ao lhe ver partir, foi definhando dia após dia, sabendo que ela se transformaria no inseto que hoje enxerga, ao tentar se rastejar e olhar no espelho.

Olhou para a cama desfeita e, por um momento voltou ao passado. Deixou-se transportar, vendo o filme de sua jovem vida se desenrolar à sua frente, passando em quadros lentos por sua mente cada vez mais destruída pelo rancor e pela dor de ter chegado até aquele estágio de transformação.

Na sua viagem de volta ao passado, viu-se aos dezoito anos, linda, enfeitada, no portão, sorrindo disfarçadamente ao vê-lo passar em sua bicicleta.

Ele vinha da academia todas as tardes. Vestia aqueles shorts apertados que lhe desenhava as coxas fortes e viris. A camisa jogada nos ombros, deixavam à mostra aquele peito másculo e definido, que deixava todas as mulheres do bairro com água na boca.

Não trabalhava, já estava perto dos trinta anos, todos no bairro diziam que era vagabundo e vivia às custas da mulher, uma jovem bonita, que tinha fugido de casa para viver com ele e trabalhava duramente em um salão de beleza de segunda a segunda, para manter a casa em que viviam, herança dos pais dele que já tinham falecido.

Ela era mocinha, aos dezoito anos, mas desde muito cedo já se encantava com a beleza dele. Ouvia muito o seu pai dizer que ele era um vagabundo, um sem futuro, que nunca prestou desde moleque, mas a única coisa que ela conseguia ver era a sua beleza e sua virilidade.

Com o tempo ele passou a perceber a mocinha que estava encantada por ele e que esperava todo fim de tarde no portão, só para vê-lo passar de bicicleta.

A primeira vez que ele lhe sorriu e piscou o olho em sua direção ela sentiu as pernas tremeram e um calor imenso lhe subir pelas partes íntimas, deixando sua bocetinha, jovem e virgem, úmida e quente de desejo.

Os acenos se tornaram mais frequentes e logo ele começou a fazer-lhe sinais, a chamando para sair do portão e se encontrar com ele em algum lugar próximo à pracinha.

No primeiro encontro ele passou a mão por seus cabelos e lhe disse que ela era muito linda, a menina mais linda do bairro. Ela se encantou e só não cedeu à tentativa de beijo, porque estavam na frente do colégio, onde ela estudava e tinha medo de que alguém pudesse contar ao seu pai. Mas a partir daquele momento o desejo lhe invadiu o peito e o corpo, e sabia que faria o que ele quisesse.

— E aí menina bonita, vamos lá em casa conversar melhor? – Ele lhe convidou, depois de lhe beijar ferozmente, atrás do muro do colégio, e passar suas mãos grandes pelos seus peitinhos durinhos, sob a blusa do uniforme, lhe arrancando um suspiro de prazer.

— Não posso! É errado o que estamos fazendo. Você é um homem casado. Se meu pai souber disso ele me mata.

— Mata nada menina. Seu pai é gente boa, me conhece desde que eu era um molecão. Não há nada de errado no que estamos fazendo. Eu sou um homem infeliz no casamento. Sou casado com uma bruxa que me maltrata e ainda me trai com os machos lá daquele salão. Eu estou apaixonado por você. Quero ficar contigo. Vamos lá em casa pra gente se conhecer melhor.

— Se você não está feliz com o casamento, por que não se separa? Já pensou se ela nos pega em sua casa? – Ela argumentou, sentindo uma vontade imensa de aceitar o convite.

— Ela faz chantagem. Diz que se eu a largar ela se mata. Eu também tenho medo de viver sozinho, ficar abandonado no mundo. Meus pais morreram e eu não tenho ninguém. Por isso me apaixonei tão rápido por você. – Ele falou com aquela carinha de macho carente, que contrastava com aquele corpão viril e quente.

Naquela tarde ela conseguiu resistir, mas dias depois ela não conseguiu e aceitou o convite.

Achou estranho que, assim que entraram, ele a levou para o quarto do casal, mas sabia que não tinha como fugir da situação. Estava perdidamente apaixonada, e o fato dele levá-la para a cama da esposa, a ela pareceu uma prova de amor irrefutável. Se a outra não conseguia mais satisfazê-lo ela o faria.

Os braços daquele homem ao redor de seu corpo, lhe envolvendo, lhe apertando e ao mesmo tempo lhe beijando apaixonadamente, lhe passou uma confiança tão grande, um sentido de tanta proteção, que ela teve certeza de ter feito a escolha certa. Não importava o que o mundo falasse, aquele homem era o homem que tomaria conta dela para o resto da vida.

Sentiu seus lábios grossos ao redor do bico de seus peitinhos e achou que iria desmaiar de tanto prazer. Sua língua circulava as auréolas de seus mamilos e lhe causavam arrepios que lhe desciam pela cintura e encharcavam sua bocetinha, escondida numa pequena calcinha de renda, que usava.

O mundo realmente desmoronou em uma onda de prazer, quando sentiu sua língua quente e poderosa lambendo-lhe os grandes lábios e sugar-lhe o grelinho intocado. Ela se derreteu por inteira e se viu pronta para ser invadida, o que não demorou muito.

Ele se colocou entre suas coxas brancas e macias e foi forçando entrada. Ela pedia para ele ter cuidado, pois era sua primeira vez, ele atendeu. Beijou-lhe a boca calorosamente, falou palavras de carinho em seus ouvidos e pediu para ela relaxar e confiar nele.

Aos poucos seu pau foi forçando entrada e ela se sentiu invadida, tomada por uma dor intensa, mas suportável. O prazer de ser invadida por aquele mastro grande, quente, viril e pulsante, superava qualquer desconforto.

Ele se movimentou dentro dela, entrando e saindo com delicadeza e vigor ao mesmo tempo. Ela entrou em uma onda de prazer nunca imaginável. Teve orgasmos múltiplos, arranhou as costas dele com as unhas bem-cuidadas e se entregou ao prazer. Era, naquele momento, a mulher mais feliz do mundo.

Ele, como homem experiente que era, teve o cuidado de gozar fora de sua bocetinha desvirginada, disse-lhe que até ela começar a tomar anticoncepcionais, eles fariam sempre sexo protegido, não queria correr o risco de engravidá-la. Ela sentiu-se ainda mais protegida com esse cuidado dele.

Com o passar dos dias o sexo se tornou mais vigoroso, mais selvagem e ela gostava cada vez mais. Fodiam todas as tardes, quando ela saía do colégio e entrava cuidadosamente pelo portão dos fundos da casa dele. Ele até faltava na academia só para esperá-la em casa. Era um prazer imenso satisfazer aquele macho, na cama da outra. Sabia que seria por pouco tempo. Ele já prometera se separar.

Mas na vida nada fica em segredo, ainda mais em um bairro de periferia, onde todos se conhecem.

Um dia chegou em casa e uma confusão estava armada. Na sala encontrou a mulher dele, chorando, com o olho roxo, um dente quebrado, falando alto com seu pai que a defendia com palavras duras e firmes.

— Você deve estar louca, moça. Minha filha é uma moça direita. Vive do colégio para casa, jamais ia se envolver com um vagabundo, como o seu marido. – Ela ouviu isso, assim que entrou pela sala.

— Pergunte a ela mesma. Ele me bateu, me espancou, porque eu o confrontei sobre o caso dele com sua filha. Eles se encontram e se deitam em minha cama. – A mulher falava chorando.

— Fale alguma coisa, Isadora! Explique a essa moça o mal-entendido dessa história. – Ordenou o seu pai, se aproximando dela. Ela apenas abaixou a cabeça, sem coragem de responder ao pai.

— Eu não lhe falei. Olha aí a carinha de sonsa dela. Eu só vim aqui porque sei que o senhor é um homem de bem. Ela é uma jovem iludida. Aquele sujeito não vale nada. Vai acabar com a vida de sua filha. Eu estou indo embora. Cansei de sofrer. Abre os olhos Isadora! Você está fazendo uma grande besteira. – A mulher dele disse isso e saiu pela porta. Sem olhar para trás. Foi a última vez que ela a viu pelo bairro. Ficou sabendo depois que ela tinha voltado para a casa dos pais, no interior.

— Minha filha me diga que isso é mentira. Diga que tudo não passa de um pesadelo. Você não pode estar envolvida com aquele vagabundo que não vale nada.

— Não fala assim dele pai. O senhor nem o conhece direito e fica julgando. Ela é que não presta. Ele é um homem bom e vai cuidar de mim. Ele está apaixonado por mim.

— Você enlouqueceu minha filha! Só pode ser isso. Aquele rapaz tem menos de trinta anos e já é a terceira mulher que ele larga, tem até uma que tem um filho dele, que ele nunca cuidou, pois não gosta de criança. Batia até nas namoradas. Como esse homem pode ser um homem bom?

— Comigo vai ser diferente pai. Ele me ama. – Ela falou e viu a tristeza nos olhos do pai. Nunca tinha visto aquele homem triste, mas naquele momento viu uma lágrima escorrer pelo seu rosto.

— Não vai não minha filha. Ele vai destruir a sua vida. Se é isso que você quer, esqueça que você tem pai e mãe. Aliás não tem mesmo, porque hoje eu acabei de morrer nesse exato momento. Meu coração não vai suportar esse desgosto.

Dias depois ela já estava morando na mesma casa que ele morava com a outra. Meses depois ela foi ao enterro do pai e ele perguntou se ela tinha herdado alguma coisa com a morte paterna.

O primeiro susto veio com a explosão de ódio que ele teve ao vê-la conversando com um amigo de colégio. Não deu nem tempo de explicar que estavam falando sobre um trabalho escolar em grupo. Ele espancou o rapaz tão violentamente, que o deixou com uma cicatriz imensa no rosto.

Ele lhe explicou que ela era inexperiente e não via a maldade dos homens. Que mesmo tendo dezoito anos ainda não tinha a malícia do mundo. Ela se convenceu de que ele apenas a estava protegendo. Dias depois saiu do colégio e desistiu de tentar uma faculdade. Ia se dedicar apenas à vida com ele.

Os amigos e amigas se afastaram, mas ela não se incomodava, tinha ele ao lado dela e isso era o suficiente. O dinheiro que a mãe lhe entregara, depois que o pai morreu, acabou e ele logo falou que ela tinha que trabalhar, precisavam sobreviver.

Ela trabalhava em um supermercado e entregava todo o dinheiro na mão dele. Ele dizia que era mais experiente e sabia melhor administrar o salário dela.

A primeira surra veio, quando ela, feliz da vida, parou de tomar o anticoncepcional e avisou a ele que estava grávida e que eles iam ter um filhinho.

Foi espancada tão violentamente na região da barriga que sofreu um aborto. Não foi ao hospital, nem fez nenhuma denúncia, porque ele a convenceu que a culpa era dela, por ter quebrado um trato que fizeram, de ela nunca tomar decisões sem avisá-lo antes. Ele não queria ser pai. Odiava crianças.

A partir daquele fato as surras ficaram mais frequentes, e tudo era motivo para violência, até a cor do esmalte que ela usava. Não denunciava, pois ele ameaçava matá-la e também matar a sua mãe que vivia sozinha. Ela já se sentia culpada pela morte do pai. Não queria ser a causadora da morte da mãe.

Perdeu aos poucos toda a vaidade, o brilho no olhar, a vontade de se enfeitar. Estava transformada em algo que não reconhecia mais. Uma imagem disforme, um bicho escamoso, nojento, que via sempre que se olhava no espelho.

Chegou em casa mais cedo e o encontrou na sua cama com outra mais jovem, mais bonita, uma garotinha recém-chegada ao bairro. Lembrou-se da cena do passado. Quando se deitou na cama da outra. Reclamou e levou uma surra. Agora estava ali, jogada no canto do quarto, tinha chegado ao limite, não podia mais descer. Não era mais humana. Era apenas um bicho, um inseto, um ser disforme.

Estava machucada, dolorida. Tinha apanhado muito. Mais a dor maior era a da alma. A dor de não se enxergar mais como um ser humano.

Olhou novamente para o telefone ao lado e esticou a mão dolorida. Pensou muito. Chorou um pouco, mas discou o número.

Pouco tempo depois ouviu as sirenes, o burburinho na frente da casa. Foi recolhida, levada ao hospital, onde foi constatado que tinha tido muitas fraturas pelo corpo e perdido um olho. Ainda pensou em não registrar denúncia, mas se olhou no espelho e viu um raio de luz. Um inseto diferente se refletiu na imagem.

Ele foi preso, ela sabia que logo ele estaria solto, e em companhia da nova namoradinha que o visitava todos os dias na cadeia, e que colocava a culpa nela por tudo o que tinha acontecido. O filme se repetindo.

Conseguiu ir embora da cidade, com a ajuda da mãe que, num ato de humanidade, a perdoou e a ajudou a sumir no mundo, como dizem.

Já em outra cidade, sentindo-se segura e digna. Na primeira vez que se sentiu confiante, parou por muito tempo na frente do grande espelho e ficou assustada. Aquela não era sua imagem normal, tinha virado novamente um inseto, um bicho estranho e colorido.

Era agora uma borboleta!

*****

Nota do autor:

DIGA NÃO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER!!!!

Eu tinha que escrever esse texto. Se ao menos uma mulher ler esse relato eu vou me sentir realizado. Vemos esse filme a todo instante, e isso me incomoda demais.

Quando a Dani propôs o desafio eu pensei em A Metamorfose e concebi esse texto imediatamente.

A Metamorfose, livro de Franz Kafka, um livro que todo ser humano deveria ler pelo menos uma vez na vida. Se quiser pode ler muitas vezes, sempre será impactante.

Dani, como já falei anteriormente, eu tenho dois textos que prometi postar, mas não poderia me afastar do site sem prestigiar o desafio proposto por você, a quem eu admiro muito, juntamente com a turma dos desafios piratas.

*****

Abraços a todos!!!

titojn05@gmail.com

Conto Registrado no Escritório de Artes e protegido pela Lei 9.610 de Fevereiro de 1998. Não pode ser reproduzido sem autorização do autor.

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Foto de perfil de Tito JCTito JCContos: 188Seguidores: 567Seguindo: 76Mensagem Apenas um cara que gosta e respira artes em todas as suas formas. Um escritor de alma aberta, que quer ser lido e passar mensagens, mesmo em contos eróticos. Escrevo para o leitor, sem ele não existe escritor. Quer saber mais, me pergunte... titojn05@gmail.com... Abraços a todos!

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