Relato VII - Não foi falta de escolha (Parte 1)

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 2897 palavras
Data: 19/04/2026 20:53:31

A porta do quarto estava encostada, não totalmente fechada, como se ainda houvesse tempo de voltar atrás. Mas não havia. Eu ainda lembro do som lá fora — gente andando de um lado pro outro, vozes baixas, alguém rindo no corredor, o barulho distante de copos sendo organizados, o som sendo testado — tudo acontecendo como se fosse um dia comum, como se eu não estivesse ali dentro prestes a fazer uma coisa que não cabia naquele dia. Principalmente naquele dia.

Minha camisa estava aberta, a gravata jogada sobre a cadeira, minhas mãos apoiadas na beira da pia por um instante, e eu olhando meu próprio reflexo sem realmente enxergar nada. O terno já estava separado, passado, esperando. O relógio marcava o tempo com uma precisão irritante.

Faltava pouco. Muito pouco. Tempo suficiente pra sair dali, respirar fundo, vestir a roupa, descer, sorrir, cumprir o que estava marcado. Tempo suficiente pra ser o homem que todo mundo esperava que eu fosse. Mas eu não saí. Porque eu esperava quando ouvi o som da porta sendo empurrada devagar, sem pressa, sem anúncio. E eu não precisei me virar pra saber quem era.

— Tá bonito, hein — a voz do Glauber veio leve, quase como uma provocação tranquila, dessas que ele sempre fazia, como se nada ali fosse demais.

Ele estava encostado na porta, olhando pra mim com aquele mesmo jeito de sempre — seguro demais, confortável demais — como se aquele momento não tivesse peso nenhum, como se fosse só mais uma das muitas situações que a gente já tinha atravessado juntos. Mas não era.

— Você não devia estar aqui — eu disse, baixo, mais como um aviso do que como um pedido.

Ele deu um passo pra dentro. Depois outro. E fechou a porta atrás de si.

— E você devia estar lá fora — respondeu, simples, com um meio sorriso — mas nenhum dos dois tá fazendo o que devia.

Aquilo me acertou em cheio. Porque era verdade. E a verdade, naquele momento, não ajudava em nada.

Eu dei um passo pra trás, como se ainda houvesse alguma distância possível entre a gente, mas ele encurtou antes mesmo que aquilo se completasse, ficando perto o suficiente pra que eu sentisse o cheiro dele, a presença dele, aquela proximidade que, a essa altura, já não era novidade… mas ainda assim não era fácil de ignorar.

— Vai dar tempo — ele disse, mais baixo agora.

Eu devia ter parado ali. Devia ter dito não, aberto a porta, mandado ele sair, colocado as coisas de volta no lugar antes que fosse tarde demais. Mas eu não fiz nada disso. Porque, naquele ponto, não era mais sobre decisão, era sobre algo que já estava acontecendo há tempo demais pra ser interrompido com apenas uma palavra.

Quando ele encostou em mim, não teve surpresa. Só reconhecimento. Como todas as outras vezes. Só que dessa vez com mais peso, mais urgência... mais errado. O mundo lá fora continuava funcionando — eu conseguia ouvir — mas ali dentro o tempo parecia outro, mais curto, mais intenso, como se tudo tivesse que acontecer dentro de um intervalo que não permitia dúvida. E eu não pensei em Júlia naquele momento, nem na cerimônia, nem em nada do que vinha depois. Eu pensei só no agora, no prazer que estava sentindo ali com ele e todas as vezes que transamos.

Quando terminamos, não teve espaço pra silêncio longo. Ele passou a mão pelo meu ombro, ajeitou minha camisa, me ajudou com os botões da manga e deu nó na minha gravata, como se aquilo fosse só mais um detalhe, e deu um meio sorriso, satisfeito de um jeito que me incomodava… e ao mesmo tempo me puxava de volta.

— Dá tempo — repetiu.

Dessa vez, olhando direto pra mim. Eu sabia que dava. Sabia que ninguém ia desconfiar. Sabia que tudo podia continuar exatamente como estava planejado. E foi isso que mais pesou.

Ele me beijou novamente e saiu. Eu me virei pro espelho grande na parede do quarto próximo da janela, conferi a roupa, minhas mãos ainda levemente tensas, tentando colocar no lugar uma imagem que já não encaixava do mesmo jeito.

Então, alguém bateu na porta, avisando que estava na hora. Eu respondi que já estava indo. Quando saí do quarto, já vestido, já pronto, já com o papel certo no rosto, ninguém olhou pra mim e viu nada fora do lugar. E talvez não houvesse mesmo nada fora do lugar. Porque o que estava errado… não aparecia.

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Meu nome é Henrique, tenho 33 anos. Eu sempre fui um cara fácil de entender. Cresci no meio de roça, vendo homem trabalhar de verdade, acordar cedo, lidar com terra, com bicho, com calor, com cansaço — sem muito espaço pra ficar pensando demais nas coisas. Lá, ninguém para pra se analisar. A vida vai acontecendo, e você aprende a acompanhar no ritmo dela.

Eu aprendi cedo a confiar no corpo, no que eu conseguia fazer com ele, no esforço, na presença. Eu nunca fui de academia, dessas coisas de cidade, mas também nunca precisei. O serviço fez isso por mim. Meu corpo veio do trabalho — braço firme de carregar peso, perna grossa de andar em terreno ruim, força de quem sempre usou o corpo pra resolver as coisas. Não sou desses definidos de revista, mas também não passo despercebido. Tenho presença. Ombro largo, peito cheio, pele morena que pegou muito sol. O cabelo sempre foi curto, do jeito prático, escuro, meio bagunçado sem esforço, e a barba, quando deixo, cresce fechada, dessas que dá mais cara de homem ainda. Já ouvi isso mais de uma vez.

E eu sei o efeito que causo. Não é só aparência — é jeito também. O jeito de olhar, de chegar perto, de falar sem ficar medindo demais. Eu aprendi isso sem ninguém me ensinar, e nunca precisei fingir nada. Nunca fui travado, nunca fui de me esconder atrás de dúvida. Quando eu queria alguma coisa, eu ia. Sempre foi assim.

Com mulher, então… sempre foi fácil. Não é nem questão de ser bonito demais, mas eu sei me portar, sei olhar, sei chegar. Mulher percebe isso. Eu nunca tive dificuldade, nunca precisei forçar nada. As coisas iam acontecendo, e eu deixava acontecer. Vivi muito tempo assim, solto, beijando e passando a rola em quem eu queria, sem dar satisfação, sem complicar. Era simples e direto, do jeito que eu gosto.

Mas isso não quer dizer que eu não conhecia outras coisas. Teve uma época, quando tinha uns 13 anos, que fui morar um tempo na fazenda do meu avô. Na casa só tinha meu avô e meu tio. Era outro tipo de vida, mais isolada, menos regra, mais tempo solto… e eu andava muito com dois amigos: Filipe, filho de um peão da fazenda que morava lá perto, e o meu primo Bernardo, enteado do meu tio. Tínhamos todos a mesma idade.

A gente passava o dia junto. Depois que ajudava na fazenda, a gente pescava, nadava no rio, andava a cavalo, jogava bola... O tempo passou, três anos, e descobrimos uma caixa cheia de DVD pornô do meu tio no quarto dele. Com curiosidade típica da idade, a gente pegava alguns pra assistir escondido na casa do Filipe quando ele ficava sozinho em casa.

No começo era só assistir ao filme, todos visivelmente excitados e comentando putarias; depois começamos a bater punheta junto, cada um com sua rola. Teve o clássico de medirmos os paus com uma régua: Bernardo e eu tínhamos os paus maiores, eu 19 cm e ele 18 cm, e Felipe, 17 cm. Também fazíamos disputa de quem durava mais tempo batendo punheta ou às vezes quem gozava mais rápido. Depois, a gente começou a se provocar, pegar na bunda um do outro, e até no pau… até o dia em que aquilo passou um pouco do limite que a gente conhecia. Não teve conversa séria, não teve decisão — só aconteceu. Um masturbando o outro, meio na risada, meio na curiosidade, meio no impulso. E continuou acontecendo. Não foi uma vez só. Virou um hábito por um tempo, sempre escondido, sempre entre a gente, como se fosse uma extensão daquela liberdade que a gente tinha ali, longe de tudo.

Até que, em um momento, foi além disso. Não foi planejado, não teve preparação, não teve nem muita consciência do que aquilo significava. Foi mais intenso, mais direto… Bernardo e eu falamos pra Felipe chupar a rola da gente e ele simplesmente chupou. Apesar da falta de prática dele, foi muito bom. E o puto ainda pediu pra gente gozar no peito dele enquanto ele batia punheta. Foi pura adrenalina e tesão tudo junto!

Depois, a coisa só foi desenvolvendo naturalmente. A gente já não assistia mais pornô pra entrar no clima, já entrava na casa dele tirando a roupa e se pegando, esfregando pau com pau, pau na bunda... e Felipe sempre era o passivo. Bernardo deu algumas vezes pra mim também, e eu sempre fui ativo. A gente nunca usou camisinha e Felipe adorava quando a gente gozava dentro dele ou no peito dele. Ele era muito safado, mas tinha pinta de machinho...

A gente fez isso por um tempo, como se já fosse natural. A gente trepava onde dava vontade: à beira do rio, no celeiro, na casa do meu avô, no curral, na casa dos meninos, no meio do mato mesmo... Isso durou um ano e pouco.

Mas então, de repente, acabou quando Filipe se mudou pra cidade; Bernardo e eu não continuamos, e logo começamos a namorar umas garotas lá de perto da fazenda. A vida mudou, cada um foi pro seu lado, e aquilo ficou lá atrás, naquele lugar onde ficam as coisas que a gente não leva pra frente.

E eu nunca tratei isso como algo que precisava de explicação. Pra mim, foi fase, foi momento, coisa de moleque. Eu não carreguei aquilo como dúvida, nem como identidade, nem como nada que precisasse ser resolvido. Segui minha vida normalmente, do jeito que sempre fez sentido pra mim. E o que começou a fazer muito sentido pra mim foi mulher. Foi aí que eu peguei geral, não dava descanso pra minha rola!

Quando eu conheci a Júlia, não teve confusão nenhuma na minha cabeça. Eu quis ficar com ela desde o começo, do jeito mais direto possível, e aquilo foi ficando sério sem que eu precisasse parar pra pensar se devia ou não. Porque, no fundo, eu gosto da vida quando ela tá no lugar. Gosto de saber onde eu piso, com quem eu tô, o que eu tô construindo. E eu tava construindo uma coisa certa. Pelo menos era assim que eu via.

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Eu sempre gostei de cantar – e sempre tive voz boa pra isso. Meu tio me ensinou muito porque ele entendia de música. Ele me incentivou muito a tentar a vida com o sertanejo e, como eu já gostava disso, fui em frente. Comecei a cantar no bar de um amigo dele toda sexta só em troca de gorjetas. O barzinho era simples e pequeno, mas era legalzinho. Depois de dois meses, vendo que eu era bom e que o pessoal tava curtindo, o cara resolveu me pagar.

Uma noite, o bar tava cheio: tinha gente bebendo e conversando alto, sem prestar muita atenção de verdade no que tá acontecendo no palco improvisado. Pra mim, era trabalho — cantar bem, manter presença, segurar quem quisesse ouvir e deixar o resto seguir a vida. Mas naquela noite, tinha alguém me olhando.

Eu percebi ainda no meio da segunda música. Uma mesa mais perto do palco, quatro mulheres, todas muito bem arrumadas, rindo alto, mas só uma não desviava o olhar. Ela era ruiva, postura firme, dessas que não se encolhem no ambiente. E não era um olhar tímido, nem curioso. Era direto, sem desviar. Como se ela não tivesse o costume de recuar de nada. E era difícil não olhar pra ela.

O cabelo ruivo chamava atenção de longe, mas não era só isso — era o conjunto. Comprido, bem cuidado, caindo como uma cascata. O rosto bonito, traço limpo, boca bem desenhada… mas o que prendia mesmo era o olhar.

O corpo acompanhava. Tudo firme, no lugar, cintura marcada, postura reta de quem sabe exatamente o espaço que ocupa. Não era exagerado, não era chamativo de qualquer jeito — era seguro, e bem resolvido. E isso aparece mais do que qualquer outra coisa.

E o jeito então… aquilo pesava. Ela falava olhando, sem rir por educação, sem se diminuir. Roupa bem escolhida, perfume que ficava, presença que não passava batida. Júlia não tentava chamar atenção — ela já tinha. Eu já tinha ficado com mulher bonita antes. Mas ali tinha outra coisa: controle. E eu percebi isso rápido demais.

Quando eu terminei a apresentação, eu fui até a mesa dela sem pensar muito. Ela também não fez cena. Me olhou como se já soubesse que eu ia chegar, como se estivesse esperando aquilo desde o começo. A conversa fluiu fácil demais. Nome, risada, provocação leve… Quando eu vi, a gente já tava mais perto do que o normal, falando mais baixo, ignorando o resto da mesa.

A química veio rápida. Daquelas que você não analisa, só acompanha. A gente saiu dali junto, como se já estivesse combinado. Fomos pra uma boate: música mais alta, luz mais baixa, e ali já não tinha mais dúvida nenhuma do que ia acontecer. O beijo veio antes de qualquer decisão, e depois disso, demos uns amassos daqueles de deixar o pau babando na cueca. Júlia rebolava esfregando a bunda gostosa em mim, fingindo estar só dançando. Aproveitei e meti a mão dentro do shortinho dela, e dedilhei sua bucetinha deixando ela toda molhada.

Saímos de lá direto pra um motel. Tinha banheira de hidro, champagne, jogo de luzes, e um monte de coisa bacana, mas a gente já entrou no quarto tirando a roupa. Nem teve preliminar direito. Júlia já tava molhadinha, só esperando minha rola dar o show na xoxota apertadinha dela. Na verdade, ela é quem deu um show naquela noite: primeira vez que gozei duas vezes direto, sem tirar de dentro. Foi top demais!

Dali em diante, ela começou a aparecer onde eu cantava, às vezes com as amigas, às vezes sozinha, sempre com aquele mesmo jeito seguro, sabendo o que queria. E eu fui deixando ela entrar na minha rotina sem perceber quando aquilo deixou de ser só mais uma história e virou… outra coisa mais sólida.

A Júlia não é só bonita. Ela é firme, sabe falar, se posicionar e conduzir as coisas sem forçar. E, de algum jeito, eu fui gostando disso. Fui me acostumando com a presença dela, com o jeito dela organizar o que antes era solto demais na minha vida. E, pela primeira vez em muito tempo, não senti vontade de estar em outro lugar.

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Dois meses depois que a conheci no bar, Júlia e eu decidimos que queríamos um relacionamento sério e oficializamos o namoro. Então, na noite em que fizemos um mês de namoro sério, ela apareceu no bar diferente — mais animada, como se estivesse planejando alguma coisa.

— Trouxe alguém pra te conhecer — ela disse.

E foi aí que eu conheci o Glauber, o irmão dela. Ruivo também, mas de um jeito diferente. O dela chamava atenção pela elegância, o dele era mais direto, mais provocativo. Corpo bem cuidado, desses de academia mesmo, roupa ajustada, tudo no lugar certo pra ser visto. Ele tem presença — e sabe usar. Mas não foi isso que me pegou. Foi o jeito que ele me olhou. Não foi admiração simples, nem só interesse profissional. Foi mais demorado, mais atento… como se ele estivesse me lendo antes mesmo de falar qualquer coisa.

— Então é você — ele disse, estendendo a mão, com um meio sorriso que parecia já saber mais do que devia.

A conversa fluiu. Ele elogiou minha voz, meu jeito no palco. Ele sabe conversar, sabe conduzir; ele é dessas pessoas que vão puxando assunto sem deixar espaço pra silêncio desconfortável. Depois falou do bar dele, das noites cheias, do público certo, e então fez o convite.

— Aparece lá sábado. A gente testa. Se der certo, você fica fixo. Você continua aqui na sexta. Não vai atrapalhar.

Era uma oportunidade boa. Valor fechado, mais o movimento da casa, gente diferente, bar no centro da cidade, mais visibilidade. Eu não precisei pensar muito. Aceitei. E foi ali que ele entrou na minha vida.

No começo, era só trabalho. Depois virou rotina. E, sem eu perceber direito quando, virou proximidade. Glauber estava sempre por perto. Antes do show, depois do show, às vezes durante. Conversava, opinava, elogiava... Sempre do jeito certo, sem forçar, como se estivesse só ajudando. E eu deixei, porque ele realmente ajudava.

Os contatos começaram a aparecer, outros bares, outras noites, gente nova me chamando pra tocar. Meu nome começou a circular mais, e boa parte disso vinha dele. E isso cria uma coisa difícil de ignorar: gratidão e confiança, a sensação de que alguém está apostando em você.

A gente começou a se falar fora do bar também. Mensagem, ligação, conversa à toa. Quando percebi, a gente já estava confortável demais um com o outro pra ser só relação de trabalho. Nos tornamos amigos. Foi assim que eu passei a ver. E talvez tenha sido aí que eu parei de prestar atenção no resto. Porque o jeito dele… não mudou. Eu que parei de perceber.

Continua...

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