O Menino Que Eu Não Devia Desejar - Conclusão

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 1750 palavras
Data: 21/05/2026 22:13:49
Última revisão: 21/05/2026 22:24:21

Aquela foi a última vez. Não houve anúncio, nem despedida cinematográfica, nenhuma frase definitiva enquanto amanhecia, nem uma última conversa definitiva capaz de organizar retrospectivamente tudo o que fomos um para o outro. A vida raramente oferece esse tipo de fechamento elegante. Na maior parte do tempo, as coisas simplesmente acabam… e só depois a gente percebe. Como certas coisas acabam quando já deram tudo o que tinham para dar.

Rodrigo me deixou na frente da casa dos meus pais pouco antes do sol nascer. O céu estava naquele azul esbranquiçado de madrugada cansada, os postes ainda acesos, os cachorros começando a latir nos quintais.

— Então é isso — ele disse.

Não havia tristeza na voz, nem alívio, só cansaço. Olhei para ele por alguns segundos, mais velho, mais pesado. Mais distante do garoto que atravessava quadras de futebol como se o corpo fosse uma promessa infinita de juventude e, ainda assim, absurdamente reconhecível para mim.

— É — respondi.

Rodrigo assentiu de leve, tamborilando os dedos no volante. Depois sorriu, aquele sorriso torto, moleque. O mesmo de dez anos antes. E foi isso que quase me destruiu. Não o sexo, não a despedida, mas perceber que, apesar de tudo, ainda existia nele aquele fragmento intacto que meu corpo aprendera a desejar antes mesmo que eu soubesse nomear desejo.

— Se cuida — ele falou.

— Você também.

Saí do carro. Não olhei para trás. E ele também não voltou.

Depois daquela noite no motel, qualquer reencontro perdeu o sentido, qualquer repetição pareceria artificial. O desejo ainda existia, eu sabia disso, mas já não apontava para lugar nenhum. Era como revisitar o jardim da infância depois de adulto: você reconhece as cores, os cheiros, os detalhes… mas entende, com uma melancolia quase física, que já não pertence mais ali.

Rodrigo me mandou algumas mensagens espaçadas nos meses seguintes, memes idiotas, fotos aleatórias, comentários sobre futebol, um “parabéns” protocolar em nossos aniversários. Eu respondia, às vezes, até que os intervalos cresceram e a vida aconteceu no espaço entre eles.

Porque o que existia entre nós pertencia a outro tempo. Um tempo específico de descoberta, de juventude, de irresponsabilidade hormonal e emocional. Não sobreviveria à vida adulta e, talvez, nunca devesse sobreviver. Porque algumas relações não são feitas para durar, são feitas para atravessar, e atravessar profundamente.

Eu segui. Talvez não exatamente em linha reta, ninguém segue, mas segui. A cidade grande me engoliu primeiro, depois me moldou. Trabalho, novos afetos, novos fracassos, novos corpos, novas versões de mim mesmo. Mas, com o tempo, fui percebendo algo estranho: eu já não precisava revisitar certas memórias para continuar existindo.

Vieram novos amores, alguns melhores, outros mais honestos, alguns dolorosamente profundos. Aprendi que desejo e amor raramente caminham juntos na mesma velocidade. Aprendi que admiração sustenta mais do que química. Aprendi que o corpo também mente. Ou melhor: o corpo fala verdades que a vida prática não consegue sustentar.

Rodrigo deixou de ser presença, virou camada, uma espécie de geografia interna. Daquelas que moldam o terreno mesmo quando não aparecem mais na superfície. Eu cresci, amadureci, aprendi a diferenciar desejo de amor, carência de conexão, intensidade de profundidade. E talvez essa tenha sido a grande história por trás de todas as outras.

Porque Rodrigo nunca foi o homem da minha vida, mas foi o homem do meu corpo. E existe uma diferença brutal entre essas duas experiências.

Rodrigo, de certa forma, ficou para trás, mas só de certa forma, porque o mundo tem ironias sofisticadas. Soube algum tempo demais que ele finalmente se formou, vi as fotos da formatura, finalmente conquistada depois de anos de atraso, reprovações e promessas adiadas.

Depois o casamento com a mesma garota da adolescência, como se algumas pessoas passassem a vida inteira tentando preservar uma narrativa que começou cedo demais. Depois veio a filha e, por fim, a surpresa maior: Rodrigo foi embora do Brasil.

Um trabalho. Outro país. Outra vida.

Às vezes vejo suas fotos. Ele sorrindo numa arquibancada qualquer com camisa de time. A filha pequena nos ombros. A esposa segurando sua mão diante de alguma paisagem turística excessivamente bonita. Churrascos. Natal em família. Praia no verão. Legendas motivacionais sobre recomeços. De fora, uma vida impecável, a felicidade perfeitamente enquadrada, socialmente perfeita, o roteiro completo. E talvez seja real, talvez seja mesmo verdadeiro, talvez ele seja genuinamente feliz. Espero sinceramente que seja.

Mas nós sabemos, eu e você que lê isso agora, quantos homens existem assim. A gente conhece quantos Rodrigos por aí? Homens que aprenderam cedo demais quais desejos podiam mostrar e quais precisavam esconder. Homens que constroem famílias honestas, amam seus filhos, cumprem seus papéis sociais… e ainda assim carregam, em silêncio, uma parte de si trancada num quarto interno que ninguém visita.

Quantos homens casados, pais de família, apaixonados sinceros por suas esposas até certo ponto, mas vivendo no subterrâneo dos próprios desejos? Quantos homens que aprenderam cedo demais que certas vontades não podiam existir à luz do dia? Quantos vivem em fuga silenciosa de si mesmos? Aplicativos secretos. Conversas apagadas. Viagens convenientes. Escapes rápidos em estacionamentos, academias, motéis na saída da cidade. O sigilo como linguagem.

Às vezes me pergunto se Rodrigo é um deles. E talvez eu nunca saiba (talvez nem ele saiba completamente). Se ainda existem noites em que ele bebe um pouco mais do que devia e deixa o pensamento escapar para algum lugar proibido. Se às vezes vê um homem atravessando uma rua estrangeira e sente aquele deslocamento breve no estômago. Se lembra da fazenda. Da piscina do clube. Do motel. Ou se enterrou tudo tão fundo que já não alcança mais.

Porque o desejo reprimido tem uma capacidade assustadora de se transformar em rotina. Depois de muitos anos, a pessoa já não distingue mais o que escolheu do que apenas aprendeu a sobreviver performando.

Mas existe outra possibilidade também. Talvez ele tenha encontrado paz, talvez o amor que construiu tenha sido suficiente, talvez o adolescente que existia comigo tenha pertencido exclusivamente àquele tempo e tenha morrido lá. Eu gosto de pensar nisso às vezes, não por ingenuidade, mas por carinho.

Mas, enfim, nunca vou saber e, talvez, essa seja a forma mais adulta de amor que consegui desenvolver por ele: aceitar que não preciso saber. Porque, no fim, Rodrigo foi isso: meu exercício mais longo de ambiguidade.

Hoje, olhando para trás, percebo que Rodrigo nunca foi o grande amor da minha vida. E isso é importante dizer, porque durante muito tempo confundi intensidade com profundidade. Mas Rodrigo não foi profundidade. Foi vertigem, foi descoberta, foi corpo. Foi o espanto absoluto de desejar alguém de maneira tão física, tão involuntária, tão ilógica, que o pensamento se tornava irrelevante.

Ele foi meu primeiro entendimento concreto de que o desejo nem sempre cabe dentro das categorias morais, emocionais ou sociais que a gente tenta impor a ele. E talvez tenha sido isso que tornou tudo tão inesquecível. Nós não nos amávamos, mas nos atravessávamos. E existem pessoas que passam pela nossa vida exatamente assim: como um incêndio curto que altera para sempre a temperatura da memória.

Ele foi a pessoa que me ensinou, antes de qualquer teoria, que desejo não resolve solidão. Que química não cria intimidade automaticamente. Que algumas relações existem apenas num território específico, físico, secreto, limitado, e, ainda assim, conseguem nos transformar profundamente.

Ele nunca me pertenceu. Eu nunca pertenci a ele. Mas houve momentos em que nossos corpos se reconheceram com uma precisão tão absurda que parecia linguagem e, talvez, tenha sido amor, sim. Só não daquele tipo que sobrevive ao cotidiano.

Às vezes ainda penso nele, menos do que antes, de um jeito menos dolorido. Mais parecido com quando a gente escuta uma música antiga que já significou muito. Você não quer voltar para aquele tempo. Não trocaria quem se tornou para revivê-lo, mas reconhece a beleza que existiu ali. Mesmo imperfeita, mesmo insuficiente, mesmo condenada ao fim.

Hoje, quando penso nele, já não sinto urgência, nem saudade daquilo que fomos. O que existe agora é outra coisa, uma ternura distante, quase grata. Como quem olha para uma fotografia antiga e entende que, apesar da confusão, apesar dos erros, apesar da dor silenciosa que existia embaixo de tudo… aquilo também foi vida. Vida real. Daquela que deixa marca.

E talvez seja esse o sentido final de toda memória: não manter pessoas vivas dentro da gente, mas compreender quem nos tornamos depois delas. Rodrigo ficou no interior, na juventude, nas madrugadas quentes, nos motéis baratos, nas piscinas vazias, nas estradas de terra, nas coisas que nunca tivemos coragem de nomear.

Eu segui adiante, mas levei comigo a prova definitiva de que o desejo pode ser tão formador quanto o amor. Às vezes até mais.

E acho que é isso. No final, essa história nunca foi apenas sobre sexo, juventude ou repressão. Foi sobre descoberta, sobre os limites entre desejo e identidade, sobre o que fazemos, ou deixamos de fazer, com aquilo que sentimos.

Sobre os corpos que nos formam antes mesmo que a maturidade chegue. Sobre homens tentando existir dentro de mundos pequenos demais para certas verdades. E, sobretudo, sobre memória. Porque talvez seja exatamente isso que reste no fim de tudo: não as pessoas em si, mas a marca que deixaram na forma como aprendemos a sentir.

A você que me acompanhou até aqui, entre lembranças, tesão, silêncio, confusão, afeto, culpa, descoberta e ausência, meu sincero obrigado, por acompanhar essa narrativa de desejo, silêncio, juventude, contradição, descoberta e ausência. Espero que, em algum momento, alguma frase tenha encontrado algo escondido dentro de você: uma lembrança, um medo, uma saudade, um arrepio, uma pergunta.

Escrever essa história foi, acima de tudo, revisitar versões de mim mesmo que ainda respiravam escondidas em algum canto da memória. Gostaria de saber que você também tenha se reconhecido em algo. Num desejo, numa ausência, num amor impossível. Numa pessoa que nunca foi sua, mas deixou marcas como se tivesse sido. Ou simplesmente naquela sensação estranha de perceber que crescer também é aprender a conviver com aquilo que nunca se resolveu completamente.

Porque, no fundo, histórias assim sobrevivem não pelo escândalo do que aconteceu, mas pela intimidade do que elas revelam sobre quem somos.

Onde quer que Rodrigo esteja agora, desejo sinceramente alegria, paz e sorte.

E a vocês também. Obrigado por caminhar comigo até o fim.

Um beijo grande.

E um abraço apertado.

_________

Fomos felizes e felizes fomos

E se já não somos, meu amor

Não se preocupe não

Aperte a minha mão

Até a luz sumir em meio à escuridão

Você vai confiar em mim.

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