Primo, eu ainda te amo! | Capítulo 17: Primo, eu ainda te amo!

Um conto erótico de Th1ago-
Categoria: Gay
Contém 3123 palavras
Data: 23/05/2026 14:13:11

A porta mal terminou de abrir e eu dei de cara com Felipe parado no corredor.

Por um segundo, nenhum dos dois falou nada, mas a expressão dele mudou na mesma hora em que me viu.

Primeiro surpresa, depois confusão e para finalizar um susto quase genuíno. Provavelmente porque eu devia estar parecendo um desastre.

Meu cabelo estava completamente bagunçado, grudando um pouco na testa por causa do suor. A camisa social aberta tinha manchas escuras espalhadas pelo tecido, vinho misturado com sangue, amassada como se eu tivesse brigado com alguém.

E talvez tivesse mesmo.

Minha mão direita pingava sangue devagar, os cortes ainda abertos por causa do espelho quebrado. Algumas gotas já tinham escorrido pelo braço e secado perto do pulso.

— Alec… que porra aconteceu com você? — disse Felipe com os olhos arregalados.

A voz dele saiu mais alta do que o normal, assustada de verdade. Ele deu um passo à frente automaticamente, tentando segurar meu braço, mas eu puxei de volta na mesma hora.

— Me solta. — Minha voz saiu rouca, pesada.

Ele franziu a testa.

— Tá maluco? Olha tua mão, cara.

Eu tentei passar por ele no corredor, mas Felipe entrou na frente outra vez.

— Você tá bêbado.

— E daí? — gritei

— E daí que você tá sangrando! — ele disse subindo um pouco mais o tom.

A luz fria do corredor do prédio deixava tudo ainda pior. O branco das paredes, o silêncio absurdo daquele andar, o elevador fechado no fim do corredor. Tudo parecia limpo demais perto do estado em que eu estava.

Eu tentei andar de novo.

Felipe segurou meu ombro.

— Alec, olha pra mim. O que aconteceu?

Eu levantei os olhos devagar e vi o jeito que ele me encarava. Preocupado. Perdido. Tentando entender.

E aquilo me irritou mais ainda, me irritou porque eu não queria ser entendido.

Eu queria tempo, eu queria resposta, eu queria voltar dez anos.

— Eu tenho que resolver uma coisa — falei rápido, tentando me soltar de novo.

— Resolver o quê nesse estado? — ele rebateu, aumentando o tom. — Você nem consegue ficar em pé direito!

— Eu consigo perfeitamente.

— Não consegue, não!

Ele segurou meu braço com mais força dessa vez, e aquilo foi suficiente, porque alguma coisa dentro de mim explodiu de novo.

— EU MANDEI VOCÊ ME SOLTAR!

O grito ecoou pelo corredor inteiro.

Felipe travou, acho que ele não esperava mesmo essa reação minha. Sem pensar duas vezes, puxei o braço com força me soltando de vez.

— Alec…

— Me deixa em paz! — gritei outra vez, a voz falhando no meio. — Pelo amor de Deus, me deixa em paz!

Ele ficou me olhando sem reação por um segundo, claramente tentando decidir se insistia ou não.

— Você tá fora de si.

— E a culpa é sua também! — disparei sem pensar.

Felipe piscou forte como se aquilo tivesse atingido em cheio. Mas eu nem parei pra explicar, nem queria. A minha cabeça estava rápida demais, pesada demais, bagunçada demais.

Eu só conseguia pensar em uma coisa: Caíque.

— Eu tenho uma coisa pra resolver — falei de novo, agora mais baixo, mas muito pior. Porque minha voz saiu quebrada.

Felipe respirou fundo, tentando manter a calma.

— Então deixa eu ir com você.

Eu ri.

Mas não tinha humor nenhum naquela risada.

— Você não entendeu ainda?

Ele franziu a testa.

— Entender o quê?

Eu dei um passo pra perto dele.

— Sai da minha casa.

O rosto dele mudou devagar.

— Alec…

— Você ouviu.

Ele continuou parado e eu senti a raiva subir outra vez.

— Você nem foi convidado pra estar aqui! — explodi. — Então faz o favor de sumir da minha frente!

Felipe me encarou em silêncio por alguns segundos e aquilo foi estranho, porque normalmente ele responderia. Brigaria. Retrucaria.

Mas não dessa vez, eessa vez ele só parecia… cansado, triste e talvez até culpado.

Mas eu estava cego demais pra perceber qualquer nuance naquele momento, até orque tudo dentro de mim gritava o mesmo nome: Caíque.

Felipe abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, mas desistiu no meio, ele simplismente baixou os olhos por um instante e depois assentiu devagar.

— Tá bom — disse baixo.

Aquilo deveria ter me acalmado, mas não acalmou.

Eu virei as costas na mesma hora, passei por Felipe sem olhar direito pra ele e bati a porta atrás de mim com força.

O som ecoou pelo andar inteiro e eu ouvi o som que a fechadura eletrônica fazia ao se fechar.

E então silêncio, Felipe ficou do lado de fora e eu já estava entrando no elevador sem nem pensar duas vezes.

Por alguns segundos, encostei a testa no espelho do elevador, respirando pesado, tentando juntar forças pra continuar em pé. Minha mão machucada latejava sem parar, o sangue ainda escorrendo devagar pelos dedos, mas a dor física parecia pequena perto do resto.

Fechei os olhos e minha cabeça só pensava em palavras soltas:

Hotel, endereço, Caíque.

Abri os olhos outra vez e fui.

Quando o elevador abriu no estacionamento, o ar frio bateu no meu rosto como um choque. O silêncio subterrâneo do lugar deixava tudo mais estranho ainda. Só o som dos meus passos ecoando entre os carros parados e o pingar leve do sangue da minha mão no chão de cimento.

Eu procurei meu carro com os olhos até encontrar.

Apertei o botão para destravar as portas, as luzes piscaram, e meu coração também.

Entrei rápido demais, bati a porta e joguei a chave na ignição com mãos trêmulas. O painel acendeu, iluminando meu rosto cansado no vidro escuro da frente.

Eu respirei fundo e então peguei o celular, abrindo o endereço do hotel outra vez.

O mapa carregou e para minha felicidade não era longe.

Meu peito apertou tão forte que chegou a doer, porque, pela primeira vez em dez anos…

eu estava indo atrás dele.

Saí da garagem rápido demais, o pneu cantando no concreto. O Rio de Janeiro passava borrado pelas janelas enquanto eu dirigia praticamente no automático.

Minha cabeça era um caos e a música baixa do rádio deixava tudo pior.

Em algum momento começou a tocar uma música da Marília Mendonça, e aquilo me destruiu de um jeito absurdo.

Porque parecia que tudo naquela noite tinha sido feito pra me machucar.

"O que falta em você sou eu, teu sorriso precisa do meu" dizia Marília.

As luzes da cidade passavam refletindo no vidro molhado dos meus olhos.

Eu mal enxergava a rua direito, quase bati o carro duas vezes. Uma delas num sinal que fechou completamente sem eu perceber e outra em um poste.

Mas eu não conseguia pensar em mais nada.

Só nele, no vídeo, na música.

Foram dez anos.

Dez anos esperando respostas, dez anos acreditando que ele tinha simplesmente me abandonado.

E agora? E agora eu descobria que talvez não tivesse sido isso.

Talvez ele tivesse esperado, talvez ele tivesse tentado, talvez nós dois tivéssemos destruído a própria vida por orgulho, medo ou tempo errado.

Quando finalmente parei em frente ao hotel, minhas mãos estavam dormentes no volante.

O letreiro iluminado refletia no vidro do carro e eu apenas desliguei o motor.

Desliguei o motor mas eu não consegui sair, então, fiquei ali parado, respirando pesado.

Pensando.

O que eu faria agora? Subiria até o quarto? Falaria com a recepção? Faria um escândalo naquele hotel inteiro?

“Oi, desculpa interromper sua lua de mel, mas eu ainda amo você.”

A ideia era tão ridícula que comecei a rir sozinho dentro do carro.

Um riso fraco, desesperado. Era quase um choro.

E então aconteceu, como se o destino finalmente tivesse decidido parar de brincar comigo por alguns minutos.

A porta principal do hotel se abriu e ele saiu por ela, ainda de terno, todo lindo.

Meu coração parou.

Caique desceu os degraus lentamente, sozinho. Ele ainda vestia parte da roupa do casamento, mas sem o blazer agora.

A camisa social branca tinha as mangas dobradas até os antebraços. A gravata frouxa no pescoço. O cabelo levemente bagunçado.

Ele parecia cansado.

Bonito pra caralho.

Do mesmo jeito que eu lembrava e diferente de tudo que eu lembrava ao mesmo tempo.

Ele caminhou até um carro estacionado perto da entrada, abriu a porta traseira e começou a pegar algumas coisas lá dentro e depois apoiou tudo em cima do teto do carro e levou a mão ao bolso.

Ele puxou um maço de cigarros e eu quase ri de nervoso.

Ele odiava cigarro quando eramos adolescentes, ele dizia que o cheiro dava dor de cabeça.

Agora, lá estava ele, ele acendia um como alguém que fazia aquilo há anos.

A chama do isqueiro iluminou o rosto dele por um segundo e ele tragou devagar.

Encostado no carro.

O mundo inteiro pareceu desacelerar e meu corpo começou a agir antes da minha cabeça.

Eu simplismente abri a porta do carro e sai.

As minhas pernas tremiam e cada passo em direção a ele parecia atravessar dez anos de distância.

O barulho da cidade ficou longe.

O hotel desapareceu.

As luzes desapareceram.

Era só ele.

Só nós dois.

Como se o universo inteiro tivesse encolhido até aquele estacionamento.

Caíque ergueu os olhos no momento em que ouviu meus passos, como se ele soubesse o som do meu andar.

Ele me olhou, de verdade e por um segundo eu juro que voltei no tempo.

Eu não estava mais ali, aos vinte e seis anos, bêbado, destruído e sangrando.

Eu estava na fazenda de novo.

Na piscina.

Na casa da árvore.

No banco de trás do carro.

No quarto escuro onde ele segurava minha mão escondido.

Eu conseguia ver o menino que ele tinha sido e pela forma como ele me olhou…

acho que ele viu o meu também.

O cigarro parou no meio do caminho até a boca dele e os olhos arregalaram levemente.

E o mundo congelou.

Meu coração batia tão forte que doía.

Nenhum dos dois falava.

Nenhum dos dois conseguia desviar o olhar.

Até que a realidade finalmente rasgou aquela fantasia.

Os olhos dele desceram lentamente pelo meu corpo.

A mão sangrando.

A camisa manchada.

O estado deplorável em que eu estava.

A expressão dele mudou na mesma hora e o susto tomou conta do rosto dele.

— Alec…? — A voz saiu baixa, quase sem ar.

Ele deu um passo na minha direção.

— Que porra aconteceu com você?

E foi só naquele momento… que eu me dei conta de como eu realmente devia estar parecendo.

Caíque ficou alguns segundos sem conseguir reagir.

O cigarro queimava lentamente entre os dedos dele enquanto os olhos percorriam meu rosto, minha camisa manchada, minha mão ensanguentada, o jeito completamente destruído que eu devia estar parado ali na frente dele. Eu vi o momento exato em que a preocupação atravessou qualquer outra emoção dentro dele. O susto. O medo. Quase desespero.

— Alec… — ele repetiu mais baixo, jogando o cigarro no chão sem nem perceber. — O que aconteceu?

E foi naquele instante que toda a coragem que me trouxe até ali simplesmente desabou.

Porque eu finalmente estava vendo ele de perto de novo. Sentindo a voz dele. O cheiro dele misturado com cigarro e perfume caro. E tudo aquilo pareceu errado de repente. Tarde demais. Ridículo demais.

Ele estava casado.

Casado.

A palavra bateu dentro da minha cabeça como um soco.

Eu comecei a recuar devagar.

Os olhos queimando.

A garganta fechando.

— Eu… — tentei falar, mas a voz falhou completamente. — Eu não devia ter vindo.

Ele franziu a testa na hora.

— Alec — disse ele com um tom de preocupação

— Eu vou embora.

Eu desviei dele, tentando voltar pro carro antes que desmoronasse de vez ali na frente do hotel. Mas meu corpo já não obedecia direito. As pernas tremiam. A visão embaçava. Quando tentei pegar a chave do carro no bolso, minhas mãos falharam completamente.

E então eu comecei a chorar, sem conseguir segurar, sem dignidade nenhuma.

Aquele tipo de choro silencioso e quebrado de quem segurou dor por tempo demais.

Caíque me segurou pelos braços imediatamente.

— Ei, ei… olha pra mim.

Balancei a cabeça negativamente.

— Não… não faz isso comigo… por favor…

Nem eu sabia exatamente o que estava pedindo.

Talvez que ele não me olhasse daquele jeito.

Talvez que ele não demonstrasse preocupação.

Talvez que ele não fosse gentil comigo depois de destruir minha vida sem nem me dar explicações.

Ou talvez eu só estivesse implorando pra que aquilo não doesse mais.

— Você tá bêbado — ele disse baixo, firme. — Não tem condição nenhuma de você dirigir assim.

— Eu consigo.

— Não consegue.

Tentei puxar meu braço de volta, mas ele segurou firme.

Do mesmo jeito que fazia quando a gente era adolescente.

Como se ainda soubesse exatamente como me impedir de cair.

— Me dá a chave.

— Caique…

— Alec. A chave.

Eu fiquei olhando pra ele por alguns segundos e foi humilhante perceber que, mesmo depois de dez anos… meu corpo ainda obedecia aquele tom de voz.

Entreguei a chave.

Ele soltou o ar devagar, como se estivesse aliviado por eu não ter discutido mais. Depois abriu a porta do passageiro pra mim.

— Entra.

Eu quase disse não, mas estava cansado demais pra continuar lutando.

Entrei.

O silêncio dentro do carro durante o caminho inteiro foi sufocante.

Caíque dirigia com as duas mãos firmes no volante, os olhos atentos na rua, mas eu percebia ele olhando pra mim de vez em quando pelo reflexo do vidro. Como se estivesse tentando entender o tamanho do estrago.

A rádio estava desligada agora.

Só existia o barulho baixo do trânsito lá fora e minha respiração falhando de tempos em tempos enquanto eu tentava parar de chorar.

Eu encostei a cabeça na janela.

As luzes da cidade passavam borradas.

E, por Deus… aquilo parecia cruel demais.

Porque ele ainda se preocupava comigo.

Mesmo depois de tudo.

Mesmo casado.

Mesmo depois de dez anos.

Quando finalmente chegamos no meu prédio, eu nem tive coragem de olhar pra ele. Só saí do carro devagar e caminhei em direção ao elevador sentindo ele vindo logo atrás.

Nenhum dos dois falou nada.

O silêncio só ficou pior quando abri a porta do apartamento. Caique entrou atrás de mim… e parou.

Eu ouvi o momento exato em que ele prendeu a respiração.

A sala estava destruída.

Garrafas quebradas espalhadas pelo chão. Cacos de vidro refletindo a luz baixa do apartamento. O espelho do corredor rachado no meio com manchas de sangue escorridas na moldura. Almofadas jogadas. Quadros tortos. O cheiro forte de vinho ainda impregnado no ar.

Parecia cenário de guerra.

Meu primo ficou imóvel por alguns segundos olhando tudo.

Assustado de verdade.

— Meu Deus… — ele murmurou.

Eu abaixei a cabeça imediatamente.

A vergonha veio como uma onda.

— Alec… o que você fez?

Tentei responder.

Juro que tentei.

Mas minha garganta fechou de novo.

E eu comecei a chorar outra vez.

Mais forte agora.

Mais feio.

Levei as mãos ao rosto, completamente destruído emocionalmente, sentindo meu peito doer de um jeito quase físico.

— Eu não consigo… — minha voz saiu falhando. — Eu não consigo mais…

Caíque não perguntou mais nada.

Não brigou.

Não me julgou.

Ele simplesmente veio até mim.

E me abraçou.

Forte.

Os braços envolvendo meu corpo como se tentassem impedir que eu desmontasse inteiro.

E talvez fosse exatamente isso.

Eu enterrei o rosto no peito dele imediatamente, chorando sem conseguir parar, sentindo o cheiro dele tão perto de novo que aquilo quase doía mais do que ajudava.

Ele fazia carinho devagar na minha nuca.

No meu cabelo.

Do mesmo jeito de antes.

— Shhh… — ele sussurrou baixo. — Calma… calma…

Mas eu não conseguia.

Dez anos caíram em cima de mim de uma vez só.

Dez anos de silêncio.

De abandono.

De perguntas sem resposta.

E agora ele estava ali me segurando como se nunca tivesse ido embora.

Aquilo me destruía.

Depois de alguns minutos, Caíque segurou meu rosto entre as mãos e me olhou com cuidado.

Os olhos dele estavam vermelhos também.

— Você precisa tomar um banho.

Balancei a cabeça negativamente igual uma criança.

— Não…

— Alec.

— Não vai embora…

A frase escapou antes que eu percebesse.

E eu vi alguma coisa quebrar dentro dele naquele instante.

Caíque fechou os olhos por um segundo.

Depois encostou a testa na minha.

— Eu não vou.

Aquilo foi suficiente.

Ele me levou devagar até o banheiro, como quem tenta cuidar de alguém machucado demais pra conseguir andar sozinho. Abriu o chuveiro quente, pegou uma toalha e deixou tudo preparado enquanto eu permanecia parado, sem conseguir pensar direito.

— Vou te esperar lá fora — ele disse baixo. — não vou embora.

Assenti sem realmente ouvir.

Ele ficou parado do lado de fora do banheiro enquanto eu entrava.

Fechou parcialmente a porta, respeitando espaço, mas ficando perto.

Eu sentei no chão do box ainda vestido.

A água quente começou a cair sobre mim imediatamente, encharcando minha camisa, meu cabelo, o sangue seco na minha mão.

E eu simplesmente fiquei ali.

Parado.

Sem forças pra levantar.

Sem forças pra existir.

A água escorria pelo meu rosto misturada às lágrimas enquanto minha cabeça repetia a mesma pergunta sem parar:

Por quê?

Por que ele foi embora?

Por que me deixou?

Por que voltou agora?

Eu nem percebi quanto tempo passou.

Só ouvi a voz dele do lado de fora.

— Alec?

Não respondi.

— Alec?

O tom veio mais preocupado dessa vez.

Segundos depois, a porta abriu.

Meu primo entrou no banheiro rapidamente.

E então parou ao me ver sentado no chão do box, completamente encharcado, abraçado às próprias pernas como alguém tentando sobreviver a alguma coisa dentro da própria cabeça.

A expressão dele desmontou.

Ele não falou nada.

Só entrou no chuveiro junto comigo.

A água molhou a roupa dele na mesma hora, mas ele nem pareceu ligar.

Caíque se ajoelhou na minha frente e segurou meu rosto com as duas mãos.

Os dedos quentes contrastando com minha pele gelada.

— Ei… olha pra mim.

Demorei alguns segundos.

Mas olhei.

E aquilo acabou comigo.

Porque os olhos dele ainda tinham o mesmo amor.

Mesmo depois de tudo.

Mesmo depois de dez anos.

Mesmo usando uma aliança dourada na mão esquerda.

Minha boca tremeu.

— Você casou…

A dor na minha voz fez o rosto dele desabar completamente.

Por um segundo achei que ele fosse responder alguma coisa.

Explicar.

Mas ele não explicou.

Só me puxou pra perto e disse:

— Primo, eu ainda te amo!

E me beijou.

Devagar primeiro.

Como se tivesse medo.

Como se estivesse reaprendendo meu gosto depois de uma vida inteira longe.

E eu senti meu corpo inteiro quebrar naquele beijo.

Porque não era um beijo de saudade comum.

Era desespero.

Era amor acumulado por dez anos.

Era raiva.

Mágoa.

Culpa.

Necessidade.

Eu segurei a camisa molhada dele com força enquanto ele me abraçava dentro do chuveiro, a água escorrendo pelos dois, misturando lágrima, vinho, sangue e tudo aquilo que a gente nunca conseguiu esquecer.

E naquele momento…

mesmo sem entender mais nada…

eu soube que ainda amava ele exatamente do mesmo jeito.

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