O Bilhete
O bilhete ficou na gaveta três semanas. Embaixo dos batons. Ao lado da chave reserva. Luna não jogou fora, só não pegou. Até que pegou.
Chovia. Curitiba sempre chovia.
— Gabriel? Sou Luna.
— Achei que não fosse ligar.
— Demorou, mas liguei.
— Onde você está?
— Rua XV. Chove.
— Em Santa Felicidade também.
— Me espera.
Ele passou o endereço. Ela desligou.
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Foi para o quarto. Abriu o armário. Escolheu com calma.
Vestido de seda preta. Decote nas costas até a cintura. Aberturas laterais até o quadril. O tecido deslizava entre os dedos. Macio. Frio.
Meia-calça fina. Scarpin preto de bico fino, salto agulha.
Cabelo solto, escovado até brilhar. Batom vermelho escuro, passado com cuidado, o lábio superior levemente mais grosso que o inferior. Sombra nos olhos, preta esfumada. Delineado gatinho.
Por baixo, apenas a calcinha de renda preta. Fio dental. O fio sumia entre as nádegas.
Nada de sutiã. Nada de enchimento. Nada de silicone.
Ela gostava de ser tocada. Todo lugar. Peito, barriga, coxas, pescoço, costas, nádegas. Queria ser beijada, mordida, apertada, arranhada, puxada, puxada pelo cabelo, puxada pelos braços, puxada pelos quadris.
Queria ser dominada.
Queria ser usada.
Só não queria que tocassem no pau.
Ele ficava ali. Pequeno. Mole. Escondido. Inútil. E era assim que ela gostava.
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Santa Felicidade. As ruas de paralelepípedo brilhavam com a chuva fina. Casas antigas, jardins frontais, parreiras de uva. O número que Gabriel deu era uma casa amarela, com portão de ferro preto e uma jabuticabeira no quintal.
Ela estacionou na rua. Desligou o motor. Respirou fundo.
Desceu. O salto afundou na terra molhada. O vento levantou o cabelo dela.
O portão estava aberto. Ela entrou. A grama molhada. O cheiro de terra e chuva. Jabuticabas maduras no chão, algumas pisadas, outras inteiras.
Gabriel estava na porta. Camiseta preta, calça jeans, descalço. Cabelo comprido molhado, barba grande.
— Entra.
Ela entrou.
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A sala era simples. Sofá de couro marrom escuro, estante cheia de livros, violão no canto. Tapete persa, velho, desbotado. Cheiro de café passado e madeira úmida.
Ele foi até a cozinha. Voltou com uma taça de vinho e uma garrafa de Merlot. Serviu. Entregou.
O vinho era seco. Escuro. Ela bebeu. Ele não.
— Senta.
Ela sentou no sofá. Ele ficou de pé.
— Tira o vestido.
— Por quê?
— Porque eu quero ver.
Ela levantou. Desamarrou o laço nas costas. O vestido escorregou. Caiu no chão. Ela ficou de scarpin, meia-calça fina, calcinha fio dental.
Os seios pequenos. Os mamilos já duros.
— Gosta?
— Gosto.
Ele não tocou. Apenas olhou.
— Ajoelha.
Ela ajoelhou no tapete. Os joelhos afundaram no pelo velho.
— Anda.
Ela andou de joelhos até ele. O scarpin arrastava no tapete. O salto agulha espetava o couro.
— Para.
Parou.
— Fica de quatro.
Ela se posicionou de quatro. O fio dental sumiu entre as nádegas. Os seios balançaram. A cabeça baixa.
— Olha pra mim.
Ela levantou a cabeça.
Ele estava ajoelhado na frente dela. A barba, os olhos escuros, a camiseta preta colada no corpo.
— Abre a boca.
Abriu.
Ele cuspiu na boca dela. Devagar. A saliva escorreu pelo queixo dela. Ela não limpou.
— Engole.
Engoliu.
— Fala.
— Obrigada.
Ele levantou. Foi até a cozinha. Voltou com uma garrafa de água. Bebeu. Ela ficou de quatro, esperando.
— Levanta.
Levantou.
— Tira a meia-calça.
Ela tirou. O scarpin. Os pés descalços no tapete.
— Anda.
Andou até o quarto.
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O quarto era escuro. As cortinas fechadas. A cama de casal desfeita. Lençóis azuis amassados. O cheiro de sono e sexo.
— Deita.
Deitou de costas. O cabelo espalhou no travesseiro. Os braços abertos. As pernas fechadas.
— Abre.
Abriu as pernas. A calcinha fio dental apareceu. O pau pequeno escondido.
— Tira.
Ela tirou a calcinha. Ficou nua. Os pés descalços. O cabelo solto. O batom borrado.
Ele não olhou para o pau. Olhou para os olhos dela.
— Coloca a mão no pescoço.
Ela colocou.
— Aperta.
Apertou. Não para machucar. Para sentir.
— Você é minha.
— Sou.
Ele se ajoelhou na cama. Abriu o zíper da calça. O pau dele estava duro. Longo. Grosso.
— Quer?
— Quero.
— O que você quer?
— Quero que você me coma.
— De lado?
— De lado.
Ele a virou de lado. Ela ficou de concha. As costas no peito dele. O braço dele por cima da cintura dela.
— Abre a perna.
Ela abriu. Ele passou a mão por dentro da coxa. A entrada estava molhada.
— Você já estava assim?
— Desde que entrei na sua casa.
— Boa menina.
Ele entrou. Não foi devagar. Foi de uma vez. Ela arqueou as costas. Mordeu o lábio. O batom borrou.
— Gosta?
— Gosta.
Ele começou a se mover. Rápido. Forte. A mão dele apertava a cintura dela. A outra mão no pescoço dela. Aperta. Solta. Aperta. Solta.
— Puxa o cabelo.
Ele puxou o cabelo dela. Ela gemeu alto.
— Gosta?
— Gosta.
— Do que você gosta?
— Gosto de quando você puxa meu cabelo. Gosto de quando você aperta meu pescoço. Gosto de quando você me come forte.
— Você é minha puta?
— Sou.
— Puta de quê?
— Puta de pau pequeno.
— Isso.
Ele acelerou. A cama rangeu. O quarto escuro. O cheiro de suor e sexo.
— Vou gozar.
— Ainda não.
Ele parou. Ficou parado dentro dela. Ela quase gritou.
— Por quê?
— Porque eu não deixei.
Ele começou de novo. Devagar. Fundo.
— Agora pode.
Ela gozou. O corpo tremeu. O pau pequeno pulsou, mas não jorrou. O orgasmo veio de dentro. Da próstata. Do cu. Dele dentro dela.
Ele gozou junto. Empurrou até o fundo. Ficou ali. Os corpos colados.
— Pronto?
— Pronto.
Ele saiu. Ela sentiu o gozo escorrer pela coxa.
— Limpa.
Ele passou o dedo no gozo que escorria. Levou à boca dela.
— Limpa.
Ela lambeu o dedo dele. O gosto salgado. Ela gostava.
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Deitaram. O braço dele debaixo do pescoço dela. A mão dele no peito dela. A perna dele entre as pernas dela.
— Gabriel?
— Hum?
— Você não tocou no meu pau.
— Você pediu.
— Eu sei.
— E você gostou?
— Gostei. Muito.
Ele beijou o ombro dela.
— Fica.
— Fico.
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De manhã, o sol entrava pelas frestas da cortina. O quarto cheirava a sexo e café.
Ela acordou sozinha na cama. Os lençóis frios. O lado dele vazio.
Foi até a cozinha. Ele estava de costas, mexendo a panela. Camiseta preta, calça jeans, descalço.
— Bom dia.
— Bom dia.
— Café?
— Café.
Ele serviu. Tomaram em silêncio. O barulho da rua. O canto dos pássaros.
— Vou indo.
— Volta quando quiser.
— Vou voltar.
— Promete?
— Prometo.
Ela foi até o quarto. Vestiu a calcinha fio dental. O vestido de seda preta. Os scarpins.
Passou a mão no cabelo. O batom tinha sumido.
Gabriel estava na porta.
— Gabriel?
— Hum?
— Eu sou sua puta.
— Sei.
— E você é meu dono?
— Sou.
— Então manda eu voltar.
— Volta.
— Quando?
— Hoje.
— Hoje não posso.
— Amanhã.
— Amanhã pode.
— Então volta amanhã.
Ela beijou a bochecha dele. A barba roçou os lábios.
Desceu os degraus. O jardim. O portão. O carro.
Entrou. Ligou o motor.
Gabriel ficou na porta. Descalço. Camiseta preta. Cabelo comprido.
Ela foi embora. Passou pela Manoel Ribas, pela Affonso Camargo, pela Paraná.
A cidade acordando. O trânsito aumentando.
Em casa, tirou o vestido. A calcinha. Os brincos. Olhou no espelho.
O homem estava ali.
Mas os olhos eram dela.
E o corpo, marcado.
Pelos toques que ele deu.
Pelos que ele não deu.
E pela promessa de voltar.
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